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Parentes Estranhos: perspectivas de parentesco.

2.1 “Fazer Minino”

2.4 Relações familiares e de Parentesco 1 Grupo doméstico

2.4.2 Parentes Estranhos: perspectivas de parentesco.

Não se deve nunca esgotar de tal modo um assunto que não se deixe ao leitor nada a fazer. Não se trata de fazer ler, mas de fazer pensar.

Montesquieu, Do Espírito das Leis

Era um dia de treino de dança popular nordestina na praça do Arruda. Algumas das meninas ensaiavam passos do maracatu aprendidos na semana anterior, outras corriam umas atrás das outras numa brincadeira frenética; alguns meninos e meninas desafiavam-se no

breakdance, como de costume, e outros ainda gingavam capoeira, acompanhados de um amigo

e agora também instrutor deles. As crianças do Grupo de Arte-Filmagem CineFavela, formado há pouco mais de um mês, estavam aprendendo a fazer entrevistas com os colegas. Havíamos entrevistado algumas das dançarinas, quando alguém anunciou que poderíamos entrevistar Tercílio, um adolescente dançarino de break. Foi quando Caixa, um garoto muito magro, de aproximadamente onze anos, testa bem saliente (motivo de seu apelido), disse que Tercílio era seu irmão. Prestei certa atenção nele, pensando que ele mesmo gostaria de ser entrevistado. Como estava preparando o grupo para a entrevista, apenas assinalei com a cabeça que entendera, e que ele poderia ser o próximo. A próxima frase de Caixa, no entanto, fez-me virar imediatamente para ele. Ao perguntar quem entre eles era o Tercílio, Caixa apontou para um dos rapazes que estava entre um grupo afastado e disse: é aquele lá. Ele é meu tio. Repentinamente achei que havia ali um erro. Perguntei – Ele é teu tio ou teu irmão? E sua resposta foi reveladora: é os dois; irmão e tio. Ao perceber minha confusão com os termos e a curiosidade dela decorrente, explicou-se:

É que ele é filho da minha mãe, que é também minha avó. É que foi ela quem me criô. Assim, a mãe dele é minha mãe porque ela me criô, e minha avó porque a filha dela que me teve.

Os termos usados por Caixa, revelando a duplicidade de vínculo de parentesco com as mesmas pessoas, foram percebidos por ele como confusos para uma pessoa que não conhece a dinâmica local; explica com detalhes por que chamava sua avó de mãe, a mãe pelo nome próprio e o irmão da mãe como tio e seu irmão ao mesmo tempo. Ele é filho de minha mãe,

que também é minha avó, revela essa duplicidade, mas o que dá o significado maior é a frase: é que foi ela quem me criô. Então, a mãe do tio (nesse caso, o irmão da mãe) é também a sua

minha avó) quem me “teve”. Esse “parentesco duplo”, como vou chamar aqui, pareceu interessante para pensar o modo como o parentesco se engendra na cotidianidade, e quais as subjetividades envolvidas nesse processo. Os termos relacionais expressos por Caixa, apesar de revelar, como propõem Strathern (1998) e Carsten, (2000, 2004107), o estar relacionado, não revelam o processo de subjetivação que isso implica, ou seja, as relações expressas somente com termos parecem dizer pouco da dinâmica que os mesmos implicam na sua experiência cotidiana. Era preciso mais que os termos. Era necessário ir ao contexto e narrar o passado, já que os termos em si certamente são reveladores, mas também podem esconder os processos de significação do grupo, e os entremeios da construção das relações nas dinâmicas de parentesco, que quase sempre revelam, em conseqüência, as relações de alteridade, pois, como sugere Gow (1997:01), parentesco é “acima de tudo uma sistema de subjetividade”, uma vez que as estruturas básicas da consciência humana envolvem necessariamente “a consciência de um eu (self) em meio aos outros”, estando, portanto, relacionado ao “modo vivido” das relações.

Explicando os termos, Caixa traz à tona as tensões existentes na prática comum no grupo pesquisado de avós criarem filhos de seus filhos, não raras vezes de “papel passado”108. Antes da conversa com Caixa, ouvira algumas referências ao tema, sem ter tido oportunidade de aprofundar. Também notara, antes dessa entrevista, um certo investimento de algumas pessoas, especialmente mulheres acima de 35 anos, em conquistar/cativar as crianças, insistindo que estas lhes chamassem de mães. A partir desse dia, comecei a perguntar sobre o tema com mais freqüência. Passei a observar as dinâmicas e as falas, as brincadeiras que envolviam filhos pequenos, bem como a prestar atenção às narrativas de alguns dos agentes centrais envolvidos nessa dinâmica, sejam elas as crianças, os avós, os genitores, buscando entender suas razões, as tramas envolvidas, revelações de afeto e de desafetos.

Estudando entre crianças em classes populares de Florianópolis (Silva, 1998), encontrei o que Cláudia Fonseca (2007:13) encontrou em seu próprio campo em classes populares de Porto Alegre: a prática da “circulação de crianças”. Esse termo é usado por Fonseca para designar a transferência de uma criança entre uma família e outra, seja sob a forma de guarda

107 Segundo Fonseca (2007) “Para afastar a discussão da oposição entre o biológico e o social, na qual boa parte dos estudos antropológicos se atolou, Carsten (2004) sugere uma mudança de vocabulário: propõe empregar o termo "conectividade" (relatedness) "em oposição ou ao lado de parentesco para assinalar uma abertura para idiomas indígenas de conexão"(Carsten, 2000:4).(Fonseca, 2007:10)

108 O termo “papel passado” foi utilizado por alguns dos pais, e um informante me explicou que a maioria dos avós preferem registrar no cartório local a criança no seu nome, para obter assim todos os direitos e deveres legais sobre a mesma. “Já que vai criar mesmo, preferem fazer assim, tudo direitinho, de papel passado”, explicou-me o

temporária ou de adoção propriamente dita. Fonseca (1993, 1995, 2007) salienta a prática de

circulação de crianças enquanto uma dinâmica estratégia de sobrevivência das crianças em

classes populares, considerando como uma estrutura básica de organização de parentesco. Assim,

Observando a prática de circulação de crianças como uma estrutura básica da organização de parentesco, em grupos de baixa renda brasileiros, nossas atenções se voltam de um ‘problema social’ para um processo social, e nosso enfoque analítico muda de o ‘colapso dos valores tradicionais’ para formas alternativas de organização vinculadas a uma cultura popular urbana. (Fonseca, 1993:116).

A adoção de crianças por parentes próximos, vizinhos e padrinhos, considerado na literatura (Fonseca, 1993,1995, 2005; Sarti, 1996; Camarano, 2003; Silva, 1998) como um mecanismo de parentesco e de sobrevivência de grupos de classes populares, traz, sob o ponto de vista das crianças de Recife, questões importantes sobre a complexidade das relações de parentesco entre os mesmos. Por um lado, falam dos avós como os que merecem ser chamados de pais, criando com esses um duplo parentesco. Por outro lado, falam dos genitores "como um estranho", "como um inimigo", alguém que está ali, que não admiram, um contra-exemplo nas suas vidas. Como nos alerta Pina Cabral e Lima (2003: 364), a “aparente universalidade dos termos de parentesco pode esconder sutis diferenças (por exemplo, no tom do relacionamento dos generos, na natureza dos laços de adoção, etc, etc.)”.

Em observação participante e por meio de narrativas de progenitoras/mães, avós e das próprias crianças, pode-se perceber, especialmente entre mulheres adultas, o esforço num investimento de conquista de crianças de poucos meses de vida como filhos. Pode-se dizer que “cativam” os filhos dos filhos ou de filhos de parentes próximos, em alguns casos distanciando-os dos genitores. Esta prática abre para a criança perspectivas de pensar sobre quem merece seu "amor de filho" e o seu respeito e, em alguns casos, escolher quem chamará de pai/mãe. Neste capítulo, reservo especial atenção ao modo como crianças pensam e falam das relações com os "considerados parentes" e com os "considerados como estranhos", relações essas mediadas por sentimentos como a raiva e o amor. Tomando a criança como “ego”, o presente capítulo analisa a prática como um mecanismo no qual a criança passa a ser o eixo central na relação de transformação de parentesco, dentro dos termos referidos anteriormente. Em suma, as crianças levantam questões importantes sobre a complexidade das relações de parentesco, que contrastada com a visão do grupo familiar, permite entender o parentesco informante.

como um campo repleto de tensões e negociações constantes. Buscando explicitar estas questões, farei um recorrido das experiências encontradas em campo.