• Nenhum resultado encontrado

O utilizador do catálogo e o ambiente WWW

EVOLUÇÃO DOS CATÁLOGOS BIBLIOGRÁFICOS DO REGISTO MANUAL À WWW

4.5 O utilizador do catálogo e o ambiente WWW

A primeira geração de catálogos em linha possuía uma organização baseada no pressuposto de que o utilizador chegava ao catálogo conhecendo pelo menos um de três pontos de acesso – autor, título ou assunto – o que é uma herança dos catálogos manuais. No entanto, os estudos realizados sobre os procedimentos de pesquisa de informação mostraram que, com frequência, os utilizadores chegavam ao catálogo

Parte II – Contexto e evolução dos catálogos e normas subjacentes 154

com informação incompleta para qualquer um dos pontos de acesso (Tagliacozzo, Kochen e Rosenberg, 1970; Taylor, 1984; Chen e Dhar, 1988).

À luz dos objetivos do catálogo estabelecidos por Cutter, seria necessário o utilizador recorrer a informação externa ao catálogo (por ex., bibliografias, listas de cabeçalhos de assuntos) para obter dados suficientes para poder lançar uma pesquisa. Ao adicionarem um conjunto de funcionalidades que não existiam no catálogo manual, os OPAC aumentaram os mecanismos para pesquisa dos mesmos dados, incluindo a possibilidade de utilização de chaves de pesquisa incompletas (truncadas); mas, por outro lado, não deixaram de acrescentar uma camada de complexidade ao processo (Borgman, 1996).

A ação inerente a pesquisar uma entrada num catálogo manual é a de percorrer as fichas em sequência (após determinar o conjunto de gavetas nas quais as fichas que contêm o ponto de acesso estão arrumadas). A ação inerente a pesquisar uma entrada num catálogo em linha corresponde apenas a um primeiro parâmetro, que o utilizador precisa de determinar, porque se decompõe em duas ações: a pesquisa para “encontrar” ocorrências de palavra(s)-chave, em combinações simples ou em campos específicos, para recuperar um conjunto de registos onde ela(s) ocorre(m); ou a pesquisa por navegação (“percorrer”) através de listas de autores ou de assuntos, baseadas no ficheiro de autoridades, para recuperar conjuntos de registos bibliográficos ligados por pontos de acesso comuns.

Estas duas funções nem sempre são bem compreendidas pelos utilizadores, especialmente por aqueles que têm pouca prática de pesquisa, poucos conhecimentos da organização bibliográfica ou pouco tempo de atenção para aprendê-la, contribuindo para a já referida “opacidade” dos OPAC.

“What's information *really* about? It seems to me there's something direly wrong with the "Information Economy." It's not about data, it's about attention. In a few years you may be able to carry the Library of Congress around in your hip pocket. So? You're never gonna read the Library of Congress. You'll die long before you access one tenth of one percent of it. What's important -- *increasingly important* -- is the process by which you figure out what to look at. This is the beginning of the real

Parte II – Contexto e evolução dos catálogos e normas subjacentes 155

and true economics of information. *Not* who owns the books, who prints the books, who has the holdings. The crux here is *access,* not holdings. And not even *access* itself, but the signposts that tell you *what* to access -- what to pay attention to. In the Information Economy *everything* is plentiful -- except attention” (Sterling, 1992, paragr. 14). Toda a estrutura e modos de apresentação da informação bibliográfica que, ao longo dos tempos, foram respondendo satisfatoriamente às necessidades de organização e de acesso, deixa de ser suficiente face às necessidades quer de quem cria essa informação, quer de quem a procura – os utilizadores finais.

“To understand more fully the way the catalogue functions in a networked environment, and how its functionality can be optimized, it is important to view the catalogue not simply as a data store, but more broadly as the interaction between that data store and a growing range of networked applications that interface with the catalogue.”(Delsey, 2000, p. 1.)

Os investimentos avultados que muitas bibliotecas colocaram na infraestrutura de produção dos seus catálogos para fazer face às expetativas dos utilizadores, não obviaram a que os catálogos deixassem de ser o único ou principal meio de obtenção de conteúdos, nem a que a pesquisa na WWW ganhasse uma posição dominante.

O utilizador deseja descobrir e vai para além da coleção da biblioteca, sendo usual que inicie as pesquisas utilizando os motores de busca da WWW. Na rede estão disponíveis várias ferramentas de pesquisa e têm aparecido vastos conjuntos de recursos na forma de motores de busca, o que tem transferido o foco da atenção dos recursos per se para a rede, onde o universo de recursos disponível é muito maior do que a coleção catalogada localmente pela biblioteca.

Mesmo no seio da biblioteca existem agora várias ferramentas de pesquisa disponíveis na rede (por ex., acesso a repositórios locais), e o utilizador é impelido para as oportunidades de descoberta que lhe são oferecidas. Apesar da aparente facilidade e do manancial de informação que é possível obter, o utilizador tem que trabalhar arduamente para estabelecer ligações e conexões entre os recursos que encontra.

Passa a ser necessário pensar em catálogos, ou serviços de dados a partir de catálogos, que façam a ligação entre utilizadores e recursos relevantes, começando

Parte II – Contexto e evolução dos catálogos e normas subjacentes 156

por identificar onde é que essas conexões devem acontecer. Ou seja, repensar as estruturas de construção de recursos de acesso á informação que melhor se adaptem aos atuais modelos conceptuais dos utilizadores. Tal significa repensar os catálogos das bibliotecas numa nova direção, como explicam e preconizam Breeding (2007) e Vaughan (2011).

O ambiente WWW contém uma grande variedade de instrumentos de informação, quer bibliográficos, tais como os catálogos das bibliotecas e os catálogos em linha de editoras e livreiros, quer não bibliográficos, tais como bases de dados numéricas, diretórios, texto integral. Neste contexto, os catálogos das bibliotecas passaram a ser apenas um instrumento entre muitos outros (Smiraglia, 2005; Dempsey, 2012), numa rede de instrumentos onde o princípio básico, ou princípio necessário, é o da interoperabilidade128

.

Do ponto de vista do utilizador, cada uma dessas ferramentas deve ser compatível com as outras, sendo desejável que a rede de ferramentas seja coerente – isto é, que cada ferramenta seja portável, flexível, ágil, passível de ser mapeada, extensível, adaptável (Smiraglia, 2005, p. 3). Segundo este autor, o catálogo da biblioteca só pode fazer parte deste ambiente coerente apenas se for concebido, mantido e usado como uma ferramenta numa rede de ferramentas.

A tecnologia tem vindo a alterar a organização e o controlo bibliográfico, isto é, o modo como as bibliotecas operam. O registo bibliográfico deixou de ser o único ou principal meio de registo de inventário. A função de inventário, assim como a função de aquisição e licenciamento, passaram a ter módulos funcionais próprios nos sistemas integrados de gestão de biblioteca que, com frequência, passaram a dispor de sistemas de contabilidade e de controlo de acesso sofisticados. Com a assinatura de recursos eletrónicos que não pertencem nem são possuídos fisicamente pela biblioteca, mas

128

Através de serviços da WWW, tais como Google Scholar, Google Book Search, Wikipédia e Wikimédia, LibraryThing, Open library, tem-se verificado o incremento do uso de dados bibliográficos. Muitos destes serviços importam os metadados diretamente de bibliotecas, outros criam os seus próprios metadados. O conteúdo destes serviços não está limitado aos dados bibliográficos, sendo estes usados como parte dos conteúdos tratados.

Parte II – Contexto e evolução dos catálogos e normas subjacentes 157

que devem ser contabilizados em termos de recursos que a biblioteca disponibiliza aos seus utilizadores, parte do inventário de uma biblioteca também passou a ser virtual.

A descoberta não foi a única função de catálogo a sofrer alteração com a informatização e disponibilização na WWW. O conceito de localização também sofreu mudanças significativas. A rede, e em particular a Internet, permitiu que o catálogo bibliográfico deixasse de ser um sistema fechado que se referia apenas ao acervo local, respondendo à função de localização de um item na prateleira da biblioteca, para apontar para um local em rede num qualquer lugar. A localização começou, assim, a transformar-se num conceito dinâmico, referindo-se cada vez menos a uma posição fixa no espaço, para se referir a funções em rede – como, por ex., os serviços baseados nos sistemas OpenURL129

e DOI130

– que permitem estabelecer um meio, ou um serviço relacionado, para obter, de forma controlada, acesso a um recurso de informação.

Assim, a principal questão que na fase atual se coloca não é tanto a de aperfeiçoar o catálogo per se, atualizando a tecnologia dos sistemas integrados de gestão de biblioteca ou adicionando-lhe novas funcionalidades locais, mas sim a de providenciar novas formas de descoberta e distribuição (a obtenção) dos recursos da biblioteca num ambiente em rede onde a atenção é escassa, onde os recursos de informação são cada vez mais abundantes e distribuídos, e onde as oportunidades de descoberta são cada vez mais centralizadas em motores de pesquisa de ampla abrangência (Dempsey, 2006b, 2008; Fitch, 2007).

129

OpenURL – OpenURL Framework for Context-Sensitive Services (norma ANSI/NISO Z39.88, desde 2004). Consiste na geração de um URL que transporta metadados de uma fonte de informação (ex., um catálogo) para um serviço de resolução de links que fornece o link exato para um dado utilizador aceder (autenticado), a um conteúdo no fornecedor adequado. É usado para gestão e controlo centralizados do acesso a conteúdos digitais dispersos por diversos fornecedores (ver:

http://www.niso.org/apps/group_public/download.php/6640/The%20OpenURL%20Framework%20for %20Context-Sensitive%20Services.pdf).

130 DOI – Digital Object Identifier, é um sistema de identificadores digitais únicos e persistentes usado sobretudo pela indústria da edição, que faz uso de um serviço de resolução de URL para garantir a persistência independentemente da localização do recurso. A sintaxe DOI é definida pelas normas ANSI/NISO Z39.84 e ISO 26324:2012. Mais informação disponível em:http://www.doi.org/.

Parte II – Contexto e evolução dos catálogos e normas subjacentes 158