CAPÍTULO I – Introdução 1 Razões justificativas do âmbito da investigação
1.2. Objecto e objectivo da presente Tese 1.O objecto
O Objecto da presente Tese de Doutoramento em Direito, na área de Direito Público, é o estudo e análise sistemática das normas jurídicas aplicáveis à água, como bem jurídico autónomo e sujeito à tutela, tendo em consideração o regime jurídico relativo ao acesso, uso, gestão e protecção de recursos hídricos. Fazemos este estudo primeiro num contexto internacional e regional, na perspectiva da região da SADC, na qual analisamos a situação dos diversos países membros.
Tendo em conta que esta análise enquadra-se no Direito Internacional de Águas, numa perspectiva internacional e regional, procuraremos explicar o facto de o Direito de Águas ser um Direito que apesar de criado, muitas vezes, internamente, devido à natureza transfronteiriça de grande parte dos recursos de água do mundo, e especificamente na região da SADC, ter de se moldar `as regras existentes à escala universal ou regional, normas essas que encontram-se padronizadas ou se quisermos, codificadas internacionalmente, com uma recomendação clara aos Estados de a elas aderirem.
Todavia, sendo de todo certo que existem tratados internacionais sobre águas que moldam a criação de normas à escala global, obviamente que, devido às especificidades das características das bacias hidrográficas a nível regional, tendo em conta factores como o clima, o relevo, o desenvolvimento económico e social dos povos de cada região, necessário torna-se fazer uma adaptação das regras existentes nessas mesmas regiões de modo a que possam acomodar não só as normas sobre águas que entretanto ganharam o estatuto de Direito costumeiro internacional, mas também e ao mesmo tempo, é necessário acomodar tais normas tendo em conta outras normas de cariz regional existentes.
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Ou ainda fazer uma adaptação em relação às necessidades locais de água dos Estados, de que dependem questões sociais, demográficas, económicas etc., e que são os factores cruciais que despoletam a necessidade de criação de normas e condicionam as filosofias subjacentes na elaboração das mesmas. Neste diapasão, a análise da origem e cristalização do regime jurídico aplicável aos cursos de água internacionais, é uma das pedras angulares do nosso trabalho.
Pelo que estudaremos como é que o Direito Internacional de Águas teve a sua génese como Ciência Jurídica, quais os seus sujeitos e respectivo objecto. Num segundo momento, a análise centrar-se-á no estudo do regime jurídico aplicável à região da SADC, na qual os Estados membros da organização estabeleceram, por via de um protocolo, um regime jurídico específico aplicável à questão da água.
E, porque o destinatário final das normas do Direito Internacional de Águas são os Estados, que as aplicam internamente, os mesmos, no âmbito do poder soberano de criação legislativa, que os permite produzir as suas próprias normas, que são criadas, num cenário ideal, no respeito do Direito costumeiro internacional e regional, há uma interacção necessária entre estes três espectros de normas, numa interacção mútua feita no respeito uma das outras que carece necessariamente de uma hábil interpretação e aplicação sistémica e integrada das mesmas.
Assim, independentemente da fonte criadora das normas de Direito Internacional de Águas quer seja a nível global ou regional, ao serem aplicadas a nível local as normas devem ter uma interacção e funcionalidade que as permita entronizar pacificamente com os interesses locais, tendo em conta que os impactos da criação normativa internacional, no que às águas internacionais diz respeito, são na verdade locais, na medida em que os usuários dos recursos hídricos transfronteiriços são em última instância os Estados e as pessoas colectivas e singulares desses mesmos Estados.
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As análises que aqui fazemos são necessárias, uma vez que a região da SADC alberga 19 bacias hidrográficas internacionais (que totalizam 20, se considerarmos que a Tanzânia partilha o rio Nilo). Destas 19 bacias hidrográficas internacionais, 11 são objecto de pelo menos um acordo internacional e nove são governados por instituições como Comissões internacionais de gestão de águas ou ainda Organizações de Bacias Hidrográficas173. E, de entre as 19 bacias hidrográficas da região da SADC,
nove são partilhadas por Moçambique, o que faz com que o país tenha um interesse especial na análise da questão relativa ao direito dos cursos de águas internacionais aplicável ao país.
Por essa razão, faz todo sentido analisar, do ponto de vista de Moçambique, até que ponto o Direito Internacional de Águas e todo o quadro normativo aplicável aos cursos de água partilhados nos países da SADC, é efectivo e ou eficaz.
No caso concreto dos países da região, tendo em conta os factos, números, características e outros elementos que nos permitam melhor conhecer e perceber a dinâmica do uso, gestão e protecção dos recursos hídricos nacionais, é por isso necessário analisar, discutir e concluir se o quadro normativo existente é o mais indicado para o cenário actual de águas na região da SADC. Para tal, analisamos o caso de Moçambique, no sentido de verificar até que ponto a autonomia dogmática do Direito de Águas permite responder às muitas e graves preocupações trazidas pelo sector de águas no país.
Pelo que, de forma objectiva, analisamos primeiro até que ponto tal Direito se adequa às necessidades mais prementes dos países da região, se o
173 ANTHONY TURTON, ANTHONY, DAVID MALZBENDER, PETER J. ASHTON, Hydropolitical vulnerability and resilience along Africa’s international waters, In AARON T. WOLF (Ed.), Hydropolitical Resilience and Vulnerability along International Waters, United Nations Environmental Program, Nairobi, 2006, p. 98.
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mesmo está a alcançar os objectivos desejáveis e que méritos e deméritos podem ser apontados. Porque o que se pretende não é a todo o custo levantar a bandeira por um optimismo que não se justifique, nem tão pouco concluir pelo insucesso total do regime existente, mas sim demonstrar que existe um regime jurídico vigente e quais são as virtudes e defeitos existentes e como melhora-lo. Por isso, nalgum momento, centramo-nos em análises específicas e concretas, que neste caso privilegiam Moçambique, por razões óbvias.
Há na verdade um certo optimismo na região da SADC, justificado pela quantidade de acordos internacionais existentes, que prenunciam uma história prolongada de cooperação sobre recursos hídricos transfronteiriços. Mas, só isso não é suficiente! Porque o contexto em que tais acordos foram celebrados, a natureza dos mesmos, o conteúdo normativo dos acordos e respectivos regulamentos, o nível de adequação do quadro normativo previsto nos acordos e acima de tudo a utilidade dos mesmos e respectivo grau de cumprimento, são questões que não se analisam com base em estatísticas, mas sim pelo estudo casuístico da implementação dos acordos.
Deste modo, sem querer tirar o mérito ao importante progresso alcançado pela negociação e celebração dos acordos regionais, de bacia hidrográfica, bilaterais e multilaterais alcançados na região, queremos mostrar que tais acordos não são só por si, o objectivo a alcançar, mas somente um meio para lá chegar, pelo que é necessário analisar os níveis de implementação dos mesmos e como pode a mesma ser melhorada.
Tal análise justifica-se porque, de entre outros motivos, a partilha de cursos de água entre os Estados levanta a discussão sobre o potencial de cooperação ou de conflito, dentro do amplo conceito de hidropolítica. Assim, uma análise da natureza heterogénea do Direito Internacional de Águas; dos níveis de implementação do mesmo; o tipo de acordos existentes e a dinâmica dos mesmos (tratados internacionais, protocolos regionais, tratados bilaterais e multilaterais entre os Estados, e redes formais e informais internacionais),
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que influenciam os resultados dos diversos tipos de cooperação, torna-se necessário, pois só dessa forma se pode avaliar o grau de sucesso ou de insucesso e de eficácia do regime jurídico aplicável aos cursos de água internacionais na região da SADC.
Por isso, como é óbvio, a presente Tese não é relativa à água como recurso natural individualmente considerado, mas sim ao Direito aplicável às águas. Todavia, um entendimento básico das características da água e da sua importância para a Humanidade no presente e no futuro é a base fundamental para a correcta apreciação do quadro jurídico aplicável aos cursos de água internacionais. Por isso, muitas vezes teremos que fazer uma análise de factos e situações relacionadas com a água, para que melhor possamos discutir os aspectos jurídicos a ela ligados.
1.2.2. O objectivo
O Objectivo principal da presente Tese é defender a autonomia dogmática do Direito de Águas, como conjunto de normas aplicável aos Cursos de água nacionais e internacionais, que tem uma manifestação clara na região da SADC e que é também aplicado a nível interno dos países, e analisar a sua origem e respectivos fundamentos. Por outro lado, queremos com esta análise estudar até que ponto o Direito de Águas vigente adequa-se às necessidades da região da SADC, e igualmente estudar até que ponto ele é implementado e qual o grau de sucesso e ou insucesso neste processo. Para atingirmos tais objectivos iremos comparar o quadro jurídico-legal vigente na região com as normas em vigor a nível interno dos Estados, por um lado, e de bacia hidrográfica, por outro, e em concreto, neste particular, a situação específica de Moçambique.
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De igual modo, teremos que responder a uma pergunta de partida, que neste caso se encerra na hipótese ‘qual o Direito regulador dos cursos de água internacionais na região da SADC’?
Pela natureza da Tese, e pelas exigências de um trabalho científico desta envergadura, a resposta a esta pergunta deverá ser dada tendo em consideração várias questões e factores, pelo que várias sub-hipóteses terão que ser abertas, e muitas outras questões serão colocadas e respondidas, como por exemplo:
1. Qual é o nível ou grau de aplicação do Direito dos cursos de água internacionais na região da SADC?
2. Sendo a água um recurso natural, e estando em causa direitos subjectivos dos cidadãos por um lado, de que decorre um direito à água, e havendo um Direito objectivo criado pelos Estados, de que decorre o Direito de Águas, que interpretações e ilações podemos retirar do regime vigente na região da SADC?
3. Quais as limitações e ou constrangimentos na aplicação de tal Direito e quais os mecanismos existentes para garantia da efectivação do mesmo?
4. Sendo o Direito de Águas criado para garantir, em último lugar, um grau de normatividade que visa garantir a sã convivência entre os Estados, as pessoas e ou instituições, que mecanismos institucionais garantem tal efectividade, e que meios concretos podem ser usados?
Ao responder estas questões, necessitaremos, muitas vezes, de abrir várias sub-hipóteses. Por isso, algum esforço foi feito para não dispersar as análises e com isto garantir que não se perca o raciocínio lógico do estudo, que é feito com base na delimitação indicada. Pelo que, apesar de o estudo estar circunscrito a uma área geográfica que identificámos como sendo a da SADC, é preciso que se perceba que nalgum momento, mormente no início da Tese, fazemos uma análise do Direito Internacional geral aplicável aos cursos de água. Esta é uma premissa necessária, porquanto o Direito de Águas na
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região da SADC inspirou-se totalmente naquele, e a perfeita interpretação e entendimento do mesmo passa por um estudo e análise do Direito internacional.