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ANEXOS ANEXO A KEY WORDS LÍNGUA INGLESA

3 ENFOQUE TEÓRICO

3.4 OBRAS TERMINOGRÁFICAS E SUAS PARTICULARIDADES

A prática terminológica (terminografia) constitui-se como um meio de estudo sistemático dos termos. Boulanger (2001:13), citado por Krieger e Finatto (2004:50), caracteriza a terminografia como “trabalho e técnica que consiste em recensear e em estudar termos de um domínio especializado do saber, em uma ou mais línguas determinadas, consideradas em suas formas, significações e relações com o meio socioprofissional”.

Para a prática dessa atividade, ao terminógrafo cabe, dentro de um determinado domínio especializado, a tarefa de recolher e selecionar os termos com suas noções, contextos e definições que serão organizadas e apresentadas na forma de glossários e dicionários.

Nesse complexo processo de recolher e selecionar os termos, supõe-se que o terminógrafo necessita ser capaz de identificar aqueles termos que, de fato, fazem parte da própria área estudada, desconsiderando as unidades léxicas que não se constituem termo naquela área específica, ou seja, os termos pertencentes exclusivamente à língua geral, tarefa nada simples, haja vista que:

[...] os termos técnicos e/ou científicos deixaram de se configurar como uma “língua à parte”; já não são mais facilmente identificados, como ocorria quando, ao modo das nomenclaturas, correspondiam a palavras muito distintas da comunicação ordinária e permaneciam praticamente restritos aos diferentes universos comunicacionais especializados. Hoje, os termos circulam intensamente, porque ciência e tecnologia tornaram-se objeto de interesse das sociedades, sofrendo, consequentemente, processos de vulgarização favorecidos pelas novas tecnologias da informação (KRIEGER, et.all., 2000:145).

Em suas particularidades, as obras de cunho terminográfico, possuem um modo de apresentação das informações que as distinguem de outras obras. Sendo a descrição do léxico geral atividade concernente ao campo da lexicografia e o tratamento de léxico específico de uma área especializada preocupação da Terminografia, o modo como os verbetes são registrados, em cada uma das situações, apontam algumas especificidades, uma vez que realizam concepções teóricas distintas. O modo como os itens são lematizados é um fator de distinção considerável. No quadro a seguir são apresentadas as informações passíveis de constar na composição de um verbete em um dicionário de língua geral e em dicionário terminológico, adaptado de Krieger e Finatto, (2004).

QUADRO 1 Componentes de um verbete em um dicionário de língua geral e em dicionário terminológico

Dicionário geral de língua Dicionário terminológico

palavra-entrada: registro da forma canônica

informação de categoria gramatical informação etimológica informação morfológica informações semânticas informações sociolinguísticas informações sintagmáticas e paradigmáticas (exemplos, abonações, sinonímia, antonímia) comentários (linguísticos ou enciclopédicos

locuções/informação terminológica remissivas

palavra-entrada: registro na forma utilizada

equivalente em língua estrangeira informação de categoria gramatical informação conceitual

fontes contextuais fontes bibliográficas gradação sinonímica remissivas

notas explicativas (linguísticas, técnicas, enciclopédicas)

Fonte: do Autor, adaptado de Krieger e Finatto, (2004:132).

Bugueño Miranda e Farias (2006:117) salientam que “o verbete deve possuir uma série de segmentos canônicos, e que ditos segmentos devem ter uma organização”. Como se pode depreender da observação do quadro acima, que destaca as características mais prototípicas nos dicionários gerais de língua e nos dicionários terminológicos, o volume e os tipos de informações que podem estar dispostos nos verbetes nos dois tipos de obras diferem uma da outra. No dicionário geral da língua, cujo princípio é abranger todo o tipo de palavras que fazem parte de uma determinada língua, considera-se que seja nele incluído a maior gama possível de itens lexicais de uso corrente, possibilitando que esses itens possam ser descritos em suas propriedades: formais, no caso da ortografia e pronúncia; sintáticas; morfológicas; semânticas; pragmáticas e sintagmáticas. De modo distinto, nas obras de cunho terminográfico, o volume de informações disponibilizadas ao consulente é menor do que aquele apresentado em um dicionário geral de língua.

A respeito das informações contidas nessas obras, Bevilacqua e Finatto (2006) assim ponderam:

Na obra terminográfica, verificamos um modo de apresentação da informação que lhe é típico, muito mais recortado ou delimitado, normalmente vinculado a um conjunto textual de referência reconhecido pelo consulente da obra, tal como se tivesse sido elaborado especialmente para um determinado segmento de usuários. Assim, muitas informações não precisam ser explicitadas no verbete, pois há a pressuposição, empiricamente fundamentada, do terminógrafo, de que não são necessárias (BEVILACQUA e FINATTO, 2006:49).

Tais recortes são estabelecidos face aos objetivos da obra, que se atrela ao perfil de seu público-alvo, e também aos próprios limites da área de conhecimento em questão, ou seja, de seu universo léxico, o que refletirá na nomenclatura, sobretudo, em sua microestrutura quanto à organização interna dos verbetes da obra. Delimita-se, assim, o tipo das unidades terminológicas que serão nela arroladas, tais como sua classe lexical e categoria gramatical, suas particularidades semânticas e morfossintáticas e as relações de significação que os termos mantém com outros daquele domínio. Essas são informações importantes que devem ser levadas em conta na elaboração de modelos de definição, operação por sinal bastante complexa quando se busca expressar os saberes de um determinado domínio. A definição nas obras terminográficas consiste em um enunciado que descreve um conceito, sendo este entendido como uma unidade de pensamento composto de predicações atribuídas a um objeto, que pode ser expresso por um termo (BOUTIN-QUESNEL, 1985). No enunciado definitório busca-se contemplar os conteúdos dos termos de uma ciência ou técnica no âmbito de uma situação comunicativa profissional. Nessa direção, sem a intenção de uma análise exaustiva quanto a organização conceitual e linguística das definições nas obras terminográficas, podemos considerar, aqui, a título de ilustração, duas formas de modelos de definição e os traços específicos de cada uma, parâmetros estes que podem ser utilizáveis tanto para explicitar mecanismos subjacentes às definições existentes, quanto para produzir novas definições, tomando-se alguns termos da área de agropecuária como exemplo.

Diante das diversas possibilidades para a tarefa de distribuição da carga sêmica dos enunciados que compõem as definições, terminógrafos têm se valido das categorias clássicas gênero próximo e diferença específica, em que ao gênero próximo corresponde a parte da definição que expressa a categoria ou classe gramatical a qual o ente definido pertence e à diferença específica as características que diferenciam aquele ente de

outros de uma mesma classe. Com a aplicação de tais categorias visa-se uma delimitação para que a definição corresponda a apenas um conjunto específico de entes, primando-se por uma objetividade textual. A título de exemplificação desse modelo, podemos mostrar a disposição da carga sêmica no enunciado definicional de brucelose, termo utilizado no campo específico da agropecuária.

Brucelose: doença infecciosa causada por bactéria do gênero Brucella, que afeta bovinos, caprinos, suínos e ovinos. Os principais sintomas são febre, anemia, nevralgia, dores articulares e suores. Pode ser transmitida ao homem e também é conhecida como febre de malta, febre ondulante e febre do Mediterrâneo (ORMOND, 2006:54).

Podemos constatar, a partir do exemplo de definição apresentado acima, que a mesma se estabelece de acordo com o seguinte modelo:

O modelo expresso no enunciado definicional apontado como exemplo procura delimitar os termos que designam doenças infecciosas, sendo o termo doença, o hiperônimo de brucelose no sistema conceptual.

Ainda que se reconheça seu valor para a delimitação dos conceitos definicionais, tais parâmetros são também questionados por Krieger e Finatto (2004). Nas palavras das autoras:

[...] é coerente ultrapassar, tanto na situação dicionarística quanto em outras, a apreciação da DT (Definição Terminológica) apenas em função dos limites e medidas fixos da indicação de um gênero próximo e diferença específica. Isso porque, em primeiro lugar, nem sempre fica muito claro onde começaria uma e terminaria a outra num enunciado, de modo que não há margens seguras para uma descrição da definição apenas por tais parâmetros (KRIEGER e FINATTO, 2004: 96). Conforme o exposto, as autoras questionam as fronteiras dessas qualificações, ou seja, onde terminaria o gênero e começaria a diferença na definição? Essa indeterminação contribuiria para a imprecisão nos recortes conceptuais dado ao termo e, consequentemente, para uma definição mal

Entrada: hiperônimo + causa/origem + características/manifestações gên.próx. diferenças específicas

formulada ou incompleta.

Outro parâmetro se trata de um modelo de representação proposicional predicativa que abrange elementos descritivos inseridos em uma proposição do tipo Sujeito (= Entrada) + Predicações (= sequências da definição), uma vez que as predicações congregam verbalizações das propriedades do objeto designado pelo termo-entrada, a seleção das proposições interpretantes contribuem para a elaboração do enunciado definitório.

A título de exemplificação, baseado nos termos adubo e silo, termos correntes na agropecuária, teríamos – partindo das análises de suas predicações – elementos para comporem uma definição delimitada a partir de seus interpretantes:

Adubo

SER inc (inclusivo) = resíduo

SER qual (qualificativo) = animal ou vegetal SER incl =. substância

SER qual = química SERVIR = fertilizar

Assim, adubo poderia ser definido como resíduo animal, vegetal, ou substância química, que se mistura à terra para fertilizá-la.

Silo

SER incl= instalação

SER qual= construção impermeável

POSSUIR = aparelhamento para carga e descarga SERVIR = armazenar

SERVIR = conservar cereais

Silo pode ser definido como instalação agrícola de construção impermeável dotada de aparelhamento para carga e descarga utilizada para armazenamento e conservação de cereais.

Como observado, com tais modelos busca-se uma sistematização para o estabelecimento dos traços mínimos que identificam o termo- entrada, conferindo-lhe a objetividade almejada pela terminografia e que possam atender as necessidades de um determinado público de consulentes. Diante da exposição de tais modelos, concordamos com Finatto (2001) quando menciona que o encaixe dos enunciados definitórios às categorias verbais, como às aqui expressas, pode não ser plenamente possível e que a redução de determinado conjunto verbal a uma categoria gera um procedimento por vezes falho, por não se poder sistematizá-lo suficientemente. Ainda assim, vemos, a partir dos exemplos criados a partir

da análise dos dois termos retirados do domínio da agropecuária, que a análise predicativa pode contribuir para a organização da informação que consta nas definições de uma obra terminográfica monolíngue. Nesse sentido, acreditamos que a análise proposicional permite uma compreensão maior do mecanismo semântico e pragmático expresso pela definição, contribuindo para a produção de textos definitórios articulados, objetivos e homogêneos, ainda que, no caso de nossa pesquisa que trabalha com uma proposta em que os termos são apresentados na forma de vocabulário bilíngue inglês/português, nosso foco recaia sobre a busca de termos e seus correspondentes tradutórios a partir de suas evidências no corpus criado para a presente pesquisa.

Cabré (1998) destaca que a Terminologia é imprescindível às dimensões teórica e prática da tradução de textos de especialidade por considerá-la ponto-chave nesse tipo de texto, uma vez que os elementos que concentram maior densidade de conhecimento especializado são os termos e pela qualidade da tradução estar estritamente ligada ao uso autêntico e adequado da terminologia. Neste sentido, Gouadec (2010) credita à terminologia papel crucial no processo de tradução quando pondera que se a terminologia não está disponível, a tradução não pode ser realizada e, se não é adequada, a tradução será igualmente deficitária.

Dias (2000 ) referindo-se aos estudos terminológicos como agentes de instrução para o tradutor assim se expressa:

“A terminologia representa o conhecimento técnico- científico especializado de forma organizada, por meio de manuais e glossários, e unifica esse conhecimento sob a forma de normas e padrões. Sem a terminologia, os especialistas não conseguiriam se comunicar, repassar seus conhecimentos, nem tampouco representar esse conhecimento de forma organizada” (DIAS, 2000:91).

Nesse aspecto, em nossa proposta procuramos por meio de pesquisa extensiva nos corpora criados, representativos da área, privilegiar os termos que, selecionados em conjunto com um especialista da área em foco, são considerados como efetivamente em uso e a partir do instrumental fornecido pela Terminologia e pela Linguística de Corpus, organizar verbetes que contenham informações úteis para os consulentes de vocabulário especializado do domínio específico da agropecuária em língua inglesa.