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2.3 Aprendizagem Organizacional na Universidade

2.3.3 Os protagonistas da aprendizagem

2.3.3.2 Os alunos

O reconhecimento da função primordial dos docentes para o processo de aprendizagem não dispensa a importância de uma análise das características dos estudantes e da influência que essas características exercem sobre a prática docente.

O processo de massificação da educação superior, concentrado principalmente na última década, reflete para o trabalho docente algumas variáveis que dão um contorno ainda mais complexo. Zabalza (2004) exemplifica as que se mostram mais relevantes:

- necessidade de trabalhar com grupos muito grandes; - necessidade de trabalhar com grupos heterogêneos; - pouca motivação pessoal para o estudo;

- contratação precipitada de novos professores sem as condições ideais;

- retorno a métodos clássicos de aula para atender a uma quantidade grande de alunos;

- redução da possibilidade de responder às necessidades individuais de cada aluno; e

- redução da possibilidade de organizar em condições favoráveis as aulas práticas em contextos profissionais.

A massificação de alunos constitui um dificultador para a introdução de inovações, bem como um paradoxo da busca por uma educação superior de qualidade. De um lado há os cursos com grande prestígio social, que concentram uma expressiva procura e têm por desafio lidar com as variáveis acima apresentadas. De outro, os que têm pouco prestígio social e que por isso precisam realizar grandes esforços para preencher as vagas disponíveis (ZABALZA, 2004).

Outro fenômeno que demonstra ser marcante para esse quadro é o aumento da participação feminina entre a população universitária. Sobre esse fenômeno ainda é difícil determinar os impactos na organização e na docência, mas a maior presença feminina nas salas de aula alterará as relações entre professores e alunos, pois levará mais sensibilidade a essas trocas (ZABALZA, 2004).

Considerar os alunos como aprendizes na “nova universidade” não é novo ao que já se considera básico da identidade dos estudantes, entretanto, essa condição significa muito mais que proporcionar uma formação profissional centrada nos conteúdos científicos. Mas, além disso, a preocupação com a dimensão pessoal de como os alunos aprendem, como os conteúdos transitam por suas mentes e “seus corações”. Essa colocação pode causar reação defensiva por parte dos professores, pois para muitos o modelo mental que prevalece é o de que a aprendizagem é um processo que depende do aluno e não do professor. Todavia, essa abordagem é uma das transformações necessárias para a aprendizagem na nova universidade. A idéia que a inteligência, a motivação, o esforço e outros atributos do aluno para a sua formação são elementos intrínsecos e que dependem do somente aluno, distancia-se da abordagem de aprendizagem que se quer defender. Esses elementos considerados são fundamentais para o processo de aprendizagem e, se acompanhados de uma intervenção precisa e bem-orientada por parte dos professores constituem um processo de aprendizagem voltado para o aluno de

forma integral. Sem contar que essa aprendizagem gera uma confluência entre professor e aluno.

A idéia de entender as instituições de ensino como “instituição de aprendizagem” centra-se no marco de uma nova prática docente, que transforme, de acordo com as palavras de Zabalza (2004, p. 189), “algumas instituições de ensino superior concebidas como “centros de ensino” (teaching institutions) em organizações ou comunidades de aprendizagem (learning organizations).

Parte-se da premissa de que a universidade é o local onde se desenvolve um trabalho formativo que deve ter como preocupação precípua a constante reconsideração dos processos e das estratégias por meio dos quais o aluno chega a aprendizagem. O conhecimento claro dessa dinâmica é que pode alcançar melhores condições para aprimorar os métodos de ensino. Porém, sobre esse tema nota-se um avanço lento e pequeno em termos práticos, ao mesmo tempo em que um contexto mais heterogêneo de alunos, com expectativas, interesses, motivações e capacidades diversas vai sendo construído.

Então, uma profunda tomada de consciência e revisão das práticas docentes à luz das novas condições de exercício profissional intima as universidades e professores a protagonizar um processo de aprendizagem ainda não percebido nesta fase da história. Uma das transformações institucionais que sofrerá grande impacto é o planejamento e o desenvolvimento da docência, pois serão necessários esforços didáticos para adequar a organização dos cursos e dos métodos de ensino usados nos diferentes estilos de aprendizagem dos alunos.

Um exemplo de busca contínua e reflexão ininterrupta da sua essência enquanto instituição de aprendizagem a ser apresentado é o Instituto Tecnológico e Estudos Superiores de Monterrey5 – ITESM – Instituição de ensino superior do

México, criado em 1943, declara que para alcançar a sua missão até 2015 é necessário uma mudança substancial no papel do aluno e do docente. Essa alteração de papéis deu-se também em razão da transição do modelo educacional tradicional para o novo modelo educativo desenvolvido pelo ITESM para dar conta das novas demandas.

A mudança necessária para o enfrentamento desse panorama requer, em outras palavras, uma alteração dos modelos mentais profundamente arraigados na

forma de pensar e fazer das instituições e também dos docentes. Argyris (1978) e Senge (2003) reconhecem que o processo não ocorre facilmente, pois a reflexão e indagação do raciocínio que subjaz às ações, assim como as rotinas defensivas, aprisionam os modelos mentais impedindo o questionamento, o que contribui para o desenvolvimento da incompetência hábil e a um efeito improdutivo para o processo de aprendizagem.

Contudo, as instituições que formam e ao mesmo tempo capacitam os professores demonstram ter dificuldades em acompanhar as mudanças e agir frente às novas necessidades. Seus modelos de gestão demonstram não estar preparados para esta missão. Essa incapacidade traz conseqüências diretas para o convívio dentro e fora da sala de aula, ou seja, todos os ambientes de aprendizagem são impactados. A busca incessante por novas maneiras de compreender o mundo globalizado desafia professores a mudar seus modelos e a transformação das instituições que ensinam em instituições que ensinam e aprendem, tanto para se atualizarem como para auxiliarem na capacitação dos professores.

O aprimoramento dos mecanismos da aprendizagem parece ser algo importante para as IES. Muitas abordagens estão sendo disponibilizadas para aprimorar os mecanismos da aprendizagem, algumas visam a melhorar os sistemas não humanos de processamento de informações, outras enfocam o acúmulo de conhecimento como vantagem competitiva visando à conquista de mercado. Outras ainda centram-se nas estruturas e ações básicas para o aprimoramento da aprendizagem. Entretanto, não se deve perder o foco do processo: o ser humano.