1.2 DIREITO: A QUEM SERÁ QUE SE DESTINA?
1.2.4 Os Direitos Humanos na perspectiva da totalidade
Data, sobretudo, do século XVIII, uma mudança radical na estruturação da sociedade que, dentre muitos outros aspectos, operou, do ponto de vista político, uma inversão significativa, em duas dimensões. A primeira refere-se ao reconhecimento do indivíduo como centro do universo político e, portanto, na condição de sujeito de direitos e a segunda relaciona-se à concepção de que todos os indivíduos são, do ponto de vista jurídico-político, iguais entre si. Com efeito, esta nova estruturação do formato societário levou muito tempo em gestação e teve, no processo revolucionário francês, em 1789, seu apogeu. A burguesia colocava-se à frente, desse projeto político, na perspectiva de consolidar-se como classe revolucionária, na luta contra o absolutismo feudal. Em torno dos seus ideais, conseguiu aglutinar, amplos segmentos populares, que aderiram às suas promessas quanto à garantia da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em oposição aos privilégios da aristocracia. De acordo com Tonet (1997, p. 12): “a revolução burguesa, em especial o seu momento francês, representa o rompimento definitivo – o que não quer dizer total – das barreiras econômicas, políticas, sociais e ideológicas que impediam a caminhada universalizante do capital”.
É, portanto, sob a atmosfera da sociedade capitalista que é possível pensar, do ponto de vista jurídico e político, na existência dos “direitos do Homem”. Para Mandel (2001, p. 14):
com o advento do capitalismo industrial, na segunda metade do século XVIII, a esperança do progresso e o otimismo social se generalizam rapidamente. Sob a direção da burguesia e de seus ideólogos revolucionários, tudo o que subsiste da ordem semifeudal é facilmente contestado, atacado, ridicularizado. O ataque contra a monarquia absoluta se transforma em ataque geral contra a ordem social que ela subentende, e em um triunfo cada vez mais amplo da nova sociedade burguesa em todas as áreas da vida social. Esses triunfos na transformação dos costumes, ideias e “valores” reconhecidos desembocam nas grandes revoluções burguesas do século XVIII: a Revolução Americana de 1776 e a Revolução Francesa de 1789. Esse movimento continua na Europa e na América Latina no início do século XIX. Com sucesso desigual nos diferentes países. Essas revoluções são também resultado de uma vasta tomada de consciência de camadas burguesas, pequeno-burguesas e pré-proletárias, a saber: que a humanidade pode decidir seu próprio destino, que ele não é predeterminado pela providência divina nem por qualquer fatalidade. Fé na razão
humana como motor da emancipação humana, eis como podemos resumir o `espírito do tempo´ do Século das Luzes.
Nas palavras de Bobbio (1992), um pensador identificado com o pensamento liberal, a Modernidade inaugurou um novo tempo, trata-se da “Era dos direitos”. É no contexto de enfraquecimento das monarquias e de consolidação da sociedade, sob bases econômicas e político- ideológicas, radicalmente diferentes e, ainda, num intenso clima de efervescência político-cultural, que vários movimentos de massa, protagonizados por segmentos sociais oprimidos, reivindicaram igualdade e liberdade. É aí que se pôs, concretamente, a questão dos direitos humanos. Afinal, como sintetiza Mandel (2001, p. 15):
uma realidade econômica e uma prática sócio-política novas engendram assim uma nova interrogação científica, acompanhada de novas ideologias. A emancipação deve parar no `cidadão´, nos direitos jurídicos e políticos do `Homem´? Ela não deveria se estender ao produtor, ao explorado, ao `homem (e a mulher) econômico´?
No debate teórico sobre os DH essa problemática, colocada por Mandel, é uma das questões centrais, especialmente, se pensarmos, do ponto de vista da crítica marxiana. Nesta perspectiva, é relevante problematizar a ideia, amplamente disseminada como verdade, inclusive em algumas vertentes no próprio campo marxista, de que o pensamento marxiano estaria fundado em bases economicistas, sendo, por isto, contrário aos DH. Há neste modo de raciocinar uma negação quanto ao papel ativo das formas ideológicas na dinâmica da vida social75.
Diferentemente disso, é fundamental considerar que, sob a égide capitalista, o indivíduo social é destituído de suas determinações fundamentais em nome da decomposição da totalidade em esferas particulares e cindidas: a arena da política, da ética; da economia; do direito, dentre outras. No espaço da política, os indivíduos são vistos enquanto possuidores dos DH e, nessa perspectiva, são tratados como iguais perante a lei.
Trata-se de uma igualdade formal que subtrai as diferenças classistas, não levando, pois, em consideração as reais condições de existência dos indivíduos sociais. Assim, o trabalhador e o capitalista são identificados e igualados sob o rótulo de cidadão (DIAS, 1996). Sob o ponto de
75 Segundo Mèszáros (1993, p. 210), “a condição necessária para uma intervenção ativa das ideias nos processos
materiais é sua mediação através da ação de Indivíduos e Instituições, que ocupam necessária posição intermediária entre os dois, na medida em que são simultaneamente materiais e ideais”.
vista de Mèszáros (1993), a crítica de Marx não se destina, pois, aos DH enquanto tais, mas ao fato desses direitos terem sido usados pela burguesia como instrumento de racionalização ideológica da desigualdade e da dominação capitalista.
Na melhor das hipóteses, esquecem os liberais que liberdade e igualdade, postulados sempre presentes em seu ideário, necessitam de condições reais para o seu desenvolvimento. O enfrentamento das condições desumanas, vivenciadas pelos segmentos majoritários da população, em nível mundial76, não pode ser tratado, prioritariamente, como uma questão de princípios, ainda
que estes sejam extremamente edificantes, tais como os que estão na declaração universal de 1948. O enfrentamento dessa situação agudizada de desigualdade passa, obrigatoriamente, pela mudança radical das condições materiais, subjetivas e institucionais dominantes.
Sob a égide da sociabilidade do capital, os DH são proclamados mediante uma concepção abstrata de universalidade. Vigora uma desigualdade estrutural no processo de produção e reprodução da sociedade. Isso porque é próprio, do metabolismo de reprodução do capital a contradição entre os interesses particulares e os interesses da humanidade. O reconhecimento dessa contradição não significa admitir nenhum tipo de desvalorização dos DH. Ao contrário, trata-se de desmistificar a ideologia dominante quanto à possibilidade de acontecer, nesta sociedade, a realização do interesse de todos. Conforme Mèszáros (1993, p. 214):
nessa sociedade, ´o interesse de todos` é definido como o funcionamento tranquilo de uma ordem social que deixa intactos os interesses dos setores dominantes, e circunscreve as possibilidades de uma admissível mudança social a essa perspectiva. Observando como as coisas funcionam nessa sociedade, é tentador concluir que ´o interesse de todos` é um conceito ideológico vazio, cuja função é a legitimação e a perpetuação do sistema de dominação dado. Entretanto, concordar com esse ponto de vista significa ser aprisionado pela contradição que estabelece, permanentemente, um interesse particular contra outro e nega a possibilidade de escapar do círculo vicioso das determinações particulares.
É, pois, nesse contexto que Marx critica os “direitos do Homem” proclamados nas declarações de 1776 e 1789, por sua pretensão de funcionar como uma espécie de paradigma
76 Exemplo das condições desumanas vivenciadas pela maioria da população está registrado no relatório do Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNDU de 1996 que teve como tema: “Crescimento econômico e desenvolvimento humano. Diz o relatório que “mais de 800 milhões de seres humanos passam fome e em torno de 500 milhões de indivíduos sofrem de subnutrição crônica. Todo ano, em torno de 17 milhões de pessoas morrem de moléstias infecciosas ou parasitárias curáveis, tais como a diarreia, o paludismo ou a tuberculose. Milhões de crianças ainda não têm acesso à escola – 130 milhões para o primário e mais de 275 milhões para o secundário” (PNUD, 1996, p. 23).
universal da resolução das formas de opressão e de desigualdade social. O ponto de referência da crítica de Marx era a realidade objetiva. Assim, em 184477, procurou demonstrar que a burguesia ao defender seus interesses, fazia, de tal forma, como se estivesse representando os interesses de toda humanidade, o que não passava de uma ilusão, pois de fato, suas promessas de liberdade e igualdade figuravam como “máscaras jurídicas de que os indivíduos devem se revestir para poder, eles próprios, carregar as relações mercantis”78.
A crítica de Marx explicitava o caráter meramente formal dos princípios contidos na declaração de 1789. A igualdade ali expressa representava, na verdade, o esforço da burguesia para se diferenciar da sociedade feudal e sua estrutura de privilégios. A nova ordem jurídica, sustentáculo ideológico da economia capitalista, demandava, para o seu amplo desenvolvimento, a participação livre, sem exceção, de todos os indivíduos sociais: homens, mulheres, velhos, jovens e crianças como “sujeitos de direitos”. Lembremos aqui que o direito burguês instituiu tratamento igual aos desiguais, na famosa equalização de `todos´ perante a lei.
A lei representa a igualdade e, por seu intermédio, são abolidos os privilégios que haviam sido instituídos pela sociedade feudal. Sob o império do capital, todos são iguais perante a lei e somente neste sentido, pois a desigualdade morava ao lado, na realidade vivida, cotidianamente, pela maioria da população, que se encontrava submetida a uma extensa jornada de trabalho, sem proteção e condições materiais para a sobrevivência79. Afinal,
à medida que o modo de produção capitalista se amplia, o aspecto contraditório da sociedade burguesa, o caráter ambíguo e não menos contraditório do progresso econômico e político encarnado pela extensão da sociedade burguesa e pelas revoluções burguesas começa a aparecer claramente. O capitalismo não é apenas uma ampliação colossal dos conhecimentos, riquezas e direitos humanos. Ele é também uma acumulação de misérias, de injustiças, de opressões, de negação dos direitos humanos elementares. A polarização da sociedade entre ricos e pobres aparece claramente aos olhos dos observadores, inclusive de escritores de opiniões reacionárias, como Balzac e de ideólogos conservadores (MANDEL, 2001, pp. 14-15).
77 MARX, Karl. A Questão Judaica São Paulo: Ed. Moraes s/d. 78 Apud BALIBAR (1995, p. 90).
79 Em – A situação da classe operária na Inglaterra - Engels descreve matéria de um jornal de Manchester que em 1872,
após uma enchente faz a seguinte afirmação sobre as condições de moradia: “o conjunto fica como que escondido da pessoa que passa e só é acessível aqueles que, forçados pela miséria, procuram abrigo no que mais parece um túmulo [...] Esse buraco horrendo era habitado por uma família de sete pessoas, que dormiam ali na noite da inundação. Não, não dormiam retificou a mulher: em função do mau cheiro, passaram a noite a vomitar. Também a mulher não julgava que aquilo era uma habitação humana [...]. Cf. Netto, J. Paulo (Org.) Friedrich Engels: Política. São Paulo: Ática, 1981, pp. 136-137.
De igual maneira, a liberdade defendida nas declarações se revelava uma conquista frente ao passado feudal, visto que os indivíduos estavam livres da fidelidade e de toda ordem de obediência servil que os prendia aos senhores feudais. Começavam, entretanto, a viver uma longa trajetória, sob um tipo de liberdade visceralmente ligada ao direito de propriedade, visto que estavam livres para a exploração mercantil. Naquele momento histórico, havia uma correspondência bem menos complexa e, portanto, mais imediata entre as relações econômicas e o ordenamento jurídico-político. Assim, a liberdade se manifestava no direito de autorizar a própria exploração em nome da necessidade de sobrevivência. Com o desenvolvimento das forças produtivas e a crescente socialização da política, a relação entre os complexos sociais torna-se permeada por mediações e níveis variados de necessidades e interesses. Este processo de complexificação tem levado boa parte das forças políticas organizadas do trabalho a não identificar a função social que cumpre a ideologia dos DH. Segundo Mèszáros (1993, p. 207),
os direitos humanos de ´liberdade`, ´fraternidade` e ´igualdade` são, portanto, problemáticos, de acordo com Marx, não por si próprios, mas em função do contexto em que se originam, enquanto postulados ideais abstratos e irrealizáveis, contrapostos à realidade desconcertante da sociedade de indivíduos egoístas. Ou seja, uma sociedade regida pelas forças desumanas da competição antagônica e do ganho implacável, aliados à concentração de riqueza e poder em um número cada vez menor de mãos. Não há, portanto, uma oposição apriorística entre o marxismo e os direitos humanos: pelo contrário, Marx na verdade nunca deixou de defender o desenvolvimento livre das individualidades, em uma sociedade de indivíduos associados e não antagonicamente opostos [...].
A revolução francesa80 significou a realização da emancipação política, cujo princípio definidor é a divisão dos indivíduos em citoyen na vida pública e bourgeois na vida privada. A diferença fundamental consiste no fato de que o primeiro é possuidor dos direitos humanos universais e o segundo vive mediante interesses econômicos desiguais e privados. Nas palavras de Marx81:
80 Em sua análise, Marx argumenta que foi mediante o advento da Revolução Francesa que se cristalizou a separação
radical entre Estado e sociedade civil. Se antes, no feudalismo, a sociedade civil tinha um caráter político, agora o Estado assumia esta condição de defensor dos interesses gerais, enquanto a sociedade civil passa a representar os indivíduos entregues a sua vida privada: “Com base nisso, desaparece o antigo caráter político da sociedade civil: a emancipação política foi justamente a emancipação da sociedade civil burguesa frente à política” (FREDERICO, 1995, p. 96).
onde o Estado político atingiu seu verdadeiro desenvolvimento, o “homem” leva, não só no plano do pensamento, mas também no plano da realidade, da vida, uma dupla vida: uma celestial e outra terrena, a vida na comunidade política, na qual ele se considera um ser coletivo, e a vida na sociedade civil, em que atua como particular.
Se pensarmos do ponto de vista da totalidade é fundamental apreender o indivíduo social enquanto ser singular, com suas necessidades imediatas e, simultaneamente, ser genérico, cuja teleologia transcende as necessidades do Eu. Afinal, a condição humano-genérica não é nenhum tipo de leviatã com poder para suprimir singularidades, diferenças e subjetividades. Trata- se de uma condição histórica que, no entanto, necessita, para a sua objetivação, de certas condições materiais de existência.
Do nosso ponto de vista, os DH devem ser entendidos numa perspectiva sócio histórica e submetidos às tensões sócio-político-culturais na disputa entre projetos societários distintos. Trata-se de apanhar as determinações que permitam entender e “desconstruir as alienações que imobilizam a condição humana e liberar suas energias emancipatórias” (TERTULIAN, 2004, p. 14). Admite-se, pois, o processo contraditório que envolve as reivindicações no terreno do direito. Assim, “a legalidade, apesar do ocultamento do seu caráter classista, pode e deve, na sua contraditoriedade, ser um espaço de luta, na qual podem ser construídas as identidades de classes, os projetos de hegemonia” (DIAS, 1996, p. 138).
Esta é a natureza da crítica marxiana que foi, e ainda é, reduzida às mais profundas simplificações. Se observada em sua profundidade e dimensão ontológica e histórica, esta crítica possui grande potencial para a superação dos reducionismos, tanto de tipo economicista bem como politicista, especialmente, nos dias atuais, em que a defesa dos DH tende a configurar uma espécie de alternativa da esquerda no enfrentamento de várias formas de opressão.
Nesse sentido, para que as lutas sociais em torno dos DH possam integrar uma cultura política emancipatória, as reivindicações particulares dos sujeitos e segmentos específicos não devem ser equacionadas como um fim em si mesmo ou na condição de valores universais, mas inseridos na dinâmica da luta de classe, possam contribuir para revelar movimentos permanentes de tensão e contradição com a ordem vigente. Isso porque só faz sentido pensar nos DH se for para explicitar o estado de degeneração do tecido social, situação em que as condições materiais
(objetivas e subjetivas) de vida de amplos segmentos tende a mais perversa degradação. Nessas condições,
a luta pelos chamados direitos humanos só adquire seu pleno e mais progressista sentido se tiver como fim último a extinção dos próprios direitos humanos. Portanto, não se estiver voltada para o aperfeiçoamento da cidadania e da democracia, mas para a superação radical da ordem social capitalista, da qual as dimensões jurídica e política – onde se encontram a cidadania e a democracia – são parte intimamente integrante (TONET, 2000, p. 01).
A gramática dos DH se ergue com enorme força com o término da II Guerra Mundial, sobretudo, após as nefastas experiências do nazi-fascismo, do stalinismo e mais adiante, a partir da década de 1960, com as ditaduras militares na América Latina, período em que a esquerda tende a defender e consolidar, em sua agenda política, a cultura dos DH, contribuindo, sobremaneira, para inclusão de novas questões (gênero; raça; orientação sexual, dentre outras). Questões essas fundamentais para a efetivação da liberdade, para o desenvolvimento do gênero humano e para um projeto de emancipação humana. O problemático é que isto se faça no espaço-tempo de ruptura com os referenciais críticos à ordem burguesa.
A conjuntura, das décadas 1990 aos dias atuais, tem evidenciado, com nitidez, processos de guerra, desencadeados de modo artificial para garantir a expansão do capital. Mais uma vez, atualiza-se a gramática dos DH, num processo, cuja tendência, não está definida a-priori. Ao contrário, a história tem revelado expressões progressivas ou regressivas se alternando, a depender da incidência de inúmeras determinações, entre as quais, a direção dada pela esquerda, às situações concretas, não é a menor.