2.2. Grupos para aplicação de computadores, agentes e expertises
2.2.2. Características dos agentes do GTAC/GEACE
2.2.2.2. Os especialistas estrangeiros: Helmuth Schreyer e Theodoro Oniga
Além de Geraldo Nunes da Silva Maia, os dois representantes com maiores expertises em Eletrônica eram o romeno Theodoro Oniga e o alemão Helmuth Theodor Schreyer, ambos naturalizados respectivamente em 1958 e 1959.
Helmuth Schreyer era seguramente a maior autoridade em computadores que integrava o grupo de trabalho. Companheiro de trabalho de outro pioneiro da computação, Konrad Zuse, seu principal mérito foi ter idealizado o uso de válvulas em um computador
64 Diário Carioca, 01.09.1955.
91 eletrônico: Schreyer projetou e construiu o primeiro protótipo de computador digital utilizando este dispositivo eletrônico no mundo, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, antecipando o padrão da indústria dos computadores de primeira geração até o início dos anos 1960. No entanto, ao contrário de outros desbravadores, como William Phillips e John Atanasoff na Inglaterra ou John Mauchly e Presper Eckert nos Estados Unidos, sua façanha manteve-se por duas décadas relativamente desconhecida. Nos anos 1960, quando Konrad Zuse começou a obter um maior reconhecimento pelo seu pioneirismo ao ter criado o primeiro computador digital do mundo, em 1943, o Z3, houve repercussão suficiente para redescobrir a experiência de seu companheiro Schreyer. Wilhelm de Beauclair trouxe seu nome ao grande público em 1968, e o próprio Zuse deu os devidos créditos ao colega no seu livro de memórias de 1970 (SCHREYER, 2010).
Ainda assim, como apontou Raúl Rojo (2010), a partir daí muito se discutiu sobre a co- participação Helmuth Schreyer nos projetos de Konrad Zuse, mas pouco quanto aos fragmentos de sua trajetória. Enquanto Zuse, após a Segunda Guerra Mundial, conseguiu fundar sua companhia de computadores na Alemanha, alcançou prestígio da comunidade científica e prosseguiu o desenvolvimento de suas máquinas até a aquisição pela Siemens em 1967, Helmuth Schreyer não desfrutou de um protagonismo que mobilizasse, por exemplo, uma biografia, embora homenagens tenham sido rendidas a ele nos anos 1970 e 1980.
Nascido na cidade de Selben, Alemanha, em 04.07.1912, Helmuth Schreyer ingressou na Universidade Técnica de Berlim em 1934. Integrando uma fraternidade acadêmica, o he euàKo adà Ku o à)use,à ueàaoàe t a à aàfa uldadeà oài í ioàdeà àj àpe sa aàe à um equipamento capaz de substituir os arcaicos e repetitivos instrumentos de cálculo. A ideia foi reforçada quando Zuse atuou na fábrica de aviões Henschel em 1935. Como analista de estresse, era obrigado a executar cálculos repetitivos, o que o levou a criar uma máquina que substituísse a tarefa. Alheio ao pioneirismo de Charles Babbage e sua máquina de cálculo, assim como sem conhecimento dos avanços na área na Inglaterra e EUA, Zuse passou a construir seu artefato na sala dos pais em 1936, chamando de Versuchsmodell-1 (posteriormente seria rebatizado como Z166). O próximo modelo, Z2, substituiu o uso de
66 A fim de evitar confusão com os foguetes V1 e V2 desenvolvidos por Wernher von Braun (CERUZZI, 1981,
92 placas e pinos mecânicos por interruptores eletromagnéticos (relés) telefônicos para funcionar como memória, o que permitiu simplificar o modelo.
Imagem 14 – Helmuth Schreyer (esquerda) e Konrad Zuse durante a construção do computador Z1 (c.1935). Fonte: CERUZZI, 1981. p.244.
Antes mesmo de formar-se em Engenharia de Telecomunicações em 1938, Schreyer participou dos esforços de Zuse na construção destas máquinas, acompanhando-o na obtenção de peças e na montagem das máquinas. Ele propôs várias soluções, algumas nascidas das experiências práticas tanto como técnico da AEG quanto em seus estudos de Engenharia: uma foi o uso de películas de filmes usados em 35mm como fita alimentadora de programas para o Z1, ideia concebida a partir do seu trabalho de projetista amador de cinema. Mas a ideia consagradora de Helmuth Schreyer foi propor a utilização de válvulas e tubos de neon no lugar dos relés, por apresentarem maior eficiência. Inicialmente Konrad Zuse inicialmente achou absurda67 – mas Schreyer demonstrou que as válvulas68 trariam maior velocidade aos cálculos.
Schreyer conseguiu convencer a Telefunken a produzir o modelo de tubo adequado para seu protótipo, mas não logrou obter recursos para a produção, que exigiria de 1500 a 2000 válvulas. Isto porque, quando Helmuth Schreyer e Konrad Zuse apresentaram ao Alto Co a doàále oàoàp ojetoàeàseuàte poàdeàdese ol i e to,àou i a àaosàg itosà oà ueàelesà
67 K. Zuse über Helmut Schreyer. Auszüge aus einem Interview mit K. Zuse, Siemens-Zeitschrift 3/89. Disponível
em <http://www.nue.tu-berlin.de/?id=65423> Acessado em 23.03.2014.
68 A ideia era relativamente simples – conforme a tensão elétrica aplicada, cada válvula poderia ascender ou não,
93 estavam pensa do,à ua toàte poàelesàa ha a à ueàaàgue aài iaà o ti ua ? à “CH‘EYE‘,à 1990, p.191). Sem sucesso, apelaram ao Instituto Alemão de Aeronáutica Experimental (DVL), que acenou com recursos suficientes apenas para um protótipo. Zuse e Schreyer então passaram a priorizar projetos distintos: o primeiro dedicou-se a produção do computador Z3, com memórias de relés, enquanto Schreyer continuou seus esforços na produção de um protótipo com 150 válvulas, que ficaria pronto entre o final de 1942 e início de 1943. Seu trabalho com tubos de neon e válvulas lhe renderia ainda o título de doutor em Engenharia em 1941.
O ponto obscuro da trajetória de Helmuth Schreyer estava em ser membro do Partido Nazista. Embora possa argumentar-se que ele seguiu o Zeitgeist de sua geração, dada a forte doutrinação nazista nos meios acadêmicos, a adesão em 1933 foi um dos elementos que permitiu sua ascensão no Institut für Schwingungsforschung, em detrimento a de professores judeus e outros indesejáveis do Regime. Outro aspecto da ascensão estava na boa relação com o professor Wilhelm Stäblein, de quem foi assistente na empresa AEG. Na universidade, Stäblein o guindou a professor assistente da sua cadeira de Telefonia e Telegrafia em 1939. Essa combinação de expertise, adesão política e capital de relações contribuiu para deixa-lo isento do serviço militar e assegurar um posto de trabalho na universidade. Por outro lado, o obrigou a priorizar projetos sensíveis ao esforço de guerra alemão, como um mecanismo para detectar bombas que falharam em explodir, um aparelho que convertia sinais analógicos de radar para sinais acústicos aos pilotos de caças e um acelerômetro para o foguete V2.
Os esforços foram fazendo com deixasse de lado seu computador e à medida que o conflito se encaminhava para a derrota alemã, as coisas pioraram. Um bombardeio ceifou a vida do professor Stäblein, seu protetor (ROJO, 2010); outro bombardeio, em novembro de 1943, atingiu o instituto de pesquisa e danificou o protótipo de computador eletrônico. A deterioração das condições de sobrevivência levou a abandonar o projeto e acompanhar a transferência do instituto para Erlangen. Com a tomada da cidade pelos norte-americanos, o instituto foi fechado. Ainda houve, por parte de Zuse e Schreyer, esforços em localizar a máquina em 1947, mas nada foi encontrado; da mesma forma, as válvulas fabricadas pela Telefunken foram perdidas.
94 A desnazificação que se seguiu a partir da ocupação dos Países Aliados eliminou contatos acadêmicos que detinham o mesmo passado nazista. Segundo Raúl Rojas, seu trabalho não parece ter atraído atenção norte-americana na captura e cooptação de intelectuais alemães (Operação Paperclip)69 – especula-se que se seu orientador tivesse sobrevivido, poderia ter havido uma chance de recomeçar nos EUA suas pesquisas (ROJO, 2010).
A trajetória de Helmuth Schreyer a partir do final da Segunda Guerra Mundial é bem menos conhecida e, por vezes, divergente nas fontes.70 Dificuldades materiais do pós-guerra, falta de perspectivas dado a seu adesismo nazista e mesmo uma tentativa de apagar este passado (ROJAS, 2010), fizeram-no emigrar com esposa e filha para o Brasil em 1949. Trabalhando como diretor em uma fábrica de rádios transmissores, Schreyer foi convencido por um brasileiro a emprestar seus conhecimentos em seu país, obtendo documentação necessária na embaixada em Zurique, Suíça. Ao chegar ao Brasil, Schreyer colocou um anúncio pedindo emprego em um jornal relatando sua expertise em telecomunicações, o que resultou no trabalho para Comissão Executiva do Plano Postal e Telegráfico.
Ali projetou o laboratório do Departamento de Correios e Telégrafos, acabou sendo considerado avançado demais para os propósitos de modernização pensados pelo governo (ROCHA, 2010). Posteriormente, o engenheiro alemão foi convidado pelo Dr. Sauer, professor de máquinas elétricas da Escola Técnica do Exército (ETE) (CARDI, 2012), para ingressar oficialmente na instituição, então carente de especialistas em Eletrônica, em 24.05.1952. Helmuth Schreyer permaneceria ligado à Empresa de Correios e Telégrafos e ao ETE (posteriormente IME) até o final de sua vida: no primeiro, alcançou o cargo de Engenheiro- Chefe do Laboratório de Telecomunicações; no segundo, passou a atuar como pesquisador e docente nas áreas de Comunicação, Eletrônica e Eletricidade.
Embora logo tenha publicado a obra Computadores Eletrônicos Digitais pelo ETE ainda e à ,àoà ueài di aàse àaàp i ei aào aà a io alàso eàoàte a,àap ese ta doàu à p ojetoà dosà i uitosà si osàdeàu à o putado àdigital à Cá‘DI,à ,àsuaàatuaç oàp i ipalàfo ou-
69 Wehrner von Braun e Herbert Wagner estavam entre os levados aos EUA.
70 O artigo de Raúl Rojas (2010) sugere que o comportamento discreto de Helmut Schreyer tenha se dado por
95 se em telecomunicações, uma demanda do Exército no período. Ainda que lecionasse a dis ipli aàso eàCo putado esàElet i osàDigitais,à s àpodiaàfala àe àteo ia,àpoisà oàe istiaà adaàso eàoàassu toà oàB asil .71 Apenas em 1958 que Schreyer pode orientar os primeiros projetos de alunos, o que resultou na produção em 1960 de dois computadores – um analógico e outro digital, o último apelidado de Lourinha.72 Não é possível especular se a atividade no GTAC estimulou Schreyer a motivar seus alunos a idealizarem um projeto de computador, mas com certeza sua experiência foi ressaltada pela atuação no GTAC, fazendo- o integrar a Associação Brasileira de Computadores Eletrônicos (ABRACE), fundada em 1961, e atuar como docente na PUCRIO entre 1963 e 1976.
No entanto, Helmuth Schreyer manteve o foco na área de telecomunicações, integrando uma comissão do Exército para viajar à Europa analisar a possibilidade de fabricação de cristais de quartzo em 1967 (ROCHA, 2010). Nos anos 1970, atuou também pelo Dentel, aferindo e homologando equipamentos de transmissão – o oà aà ha adaà Fai aà Cidad o ,à f a ueadoà aoà pú li oà aà pa ti à deà 73, de forma concomitante às tarefas docentes no Instituto Militar de Engenharia.
Com processo de redescoberta de suas contribuições, nos anos 1970 o engenheiro foi convidado a visitar a Alemanha e outros países europeus para uma série de palestras e depoimentos sobre sua experiência em projeto de computadores. Um tanto modesto, entendeu que outros projetos em computadores que usavam válvulas eram semelhantes à suaàideia,à asà ueàistoàe aàf utoàdeàu àdese ol i e toà ueà esta aà oàa ,à o oàaà iaç oà do telefone ou da própria válvula eletrônica. Lamentava apenas ter trabalhado só, sem recursos e em condições de guerra, enquanto ingleses e norte-americanos dispuseram de equipes de pesquisa e recursos vultosos.
No Brasil, Schreyer ainda recebeu o título Carioca Honorário pelo jornal o Globo, pelas o t i uiç esàaoà dese ol i e toàdoàp o essa e toàdeàdadosà oà‘ioàdeàJa ei o àe à .à No entanto, Schreyer experimentou problemas familiares que acabaram por afetar sua saúde – sua filha foi assassinada, após um histórico de agressões e ameaças à família, pelo ex-marido
71 Globo 10.05.1979.
72 Entre os integrantes estava Edson Dytz, que futuramente seria membro da SEI entre os anos de 1979 e 1985,
ocupando o posto máximo do órgão nos dois últimos anos.
96 em 1980. O crime ganhou ampla repercussão nos jornais da época, mobilizando o Movimento Feminista que exigia a condenação do réu, mas Schreyer não chegou a acompanhar a decisão do caso, falecendo em 12.12.1984.
Theodoro Oniga mantinha um perfil mais eclético em seus interesses de pesquisa do que Helmuth Schreyer. Nascido em 02.02.1917, na localidade de Iapa, Romênia, formado em Engenharia Eletromecânica e ex-professor da Universidade Politécnica de Bucareste, Oniga migrou para a França com a ascensão comunista no país em 1946. Especializou-se em Engenharia Aeronáutica e prestava serviços a empresas locais. Quando o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) intencionou construir um túnel aerodinâmico para pesquisas, o fundador e direito do instituto, Ernesto Lopes da Fonseca Costa criou o Centro de Estudos em Mecânica Aplicada (CEMA) em 1952 para geri-lo e incumbiu o pesquisador francês Edmond Antoine Brun de organizá-lo.
Os esforços resultaram na contratação de dois pesquisadores, Pierre Cassal e Theodoro Oniga. A contratação de Oniga se revelou positiva74 – o engenheiro romeno se tornou uma importante referência técnica do órgão, uma raridade em se tratando de estrangeiros contratados pelo INT. Além disso, sua permanência no Instituto se deu motivado peloàa ie teàdeà e toà olu ta is o àeàu à li aà ueà alo iza aàaàpes uisaàeàaài o aç oà po àso eàosàt a alhosàdeà oti aàouà u o ti os à “CHWá‘T)MáN,à ,àp.à .àNaàdi eç oà do CEMA, Oniga deu início a pesquisas em energia eólica, solar e térmica, organizando eventos como o Primeiro Simpósio de Energia Solar em 1958.
Além de receber o prêmio de pesquisa do INT, Theodoro Oniga passou a pesquisar e escrever sobre outros temas tecnológicos. Um dos seus interesses estava na Cibernética e automação de processos – ainda em 1952, Oniga minist ouàu à u soàdeà Teo iaàeàápli aç oà deà áuto atis o ,à oà ualà dis utiaà dife e tesà fo asà deà auto ati idade ,à se o e a is osà eà i e ti a ,à e t eà out osà assu tos.à Nestaà li ha,à e aà e o he idoà entusiasta dos computadores eletrônicos e robótica, ao ponto de Lucas Lopes percebê-lo, em
74Ed o dàá toi eàB u àeàTheodo oàO igaàpu li a ia àoàli oà áàutilizaç oàdaàe e giaàdosà e tos àai daàe à
97 suas memórias, como um dos primeiros homens a falar sobre o tema75 (LOPES, 1991, p. 271). Era reconhecido como grande calculista e à época do GEACE, e atuou como docente na PUCRIO em seus primeiros tempos de CPD76.
Ao contrário Helmuth Schreyer, que manteve um perfil discreto em sua trajetória, Theodoro Oniga foi o que mais adquiriu visibilidade tanto ao tratar sobre a questão computacional quanto em outros projetos. Curiosamente, seus comportamentos contrastavam com as trajetórias: Helmuth Schreyer detinha um forte temperamento, destratando quem achasse incapaz, independente da hierarquia (ROCHA, 2010), enquanto Theodo oàO igaàe aàu à apazài t o e tidoàeà odesto,à asàdeàe t ao di iaài telig ia à (LOPES, 1991, p.271). Isto pode ter contribuído para seu entendimento com empregadores e olegas,à pa ti ipa doà segu doà oà p p io,à deà u aà e dadei aà o spi aç o,à daà ualà participaram representantes entre os mais brilhantes das Forças Armadas, sobretudo da Marinha, mais igualmente do INT, que esteve presente em todas as atividades de pioneiro te ol gi o 77 (ONIGA, 1981, p.6).
Após do GEACE, Oniga manteve-se em atividade ligado à ABRACE – em 1964, por e e plo,àes e euàpa aàoàJo alàdoàB asilàoàa tigoà OàB asilà aàe aàdosà o putado es , um e eàpa o a aàso eàosà o putado esàeàsuasàp ese çasà oàpaís,àeàe à ,à áàsegu a çaà a io alà aàe aàdosà o putado es .78 À medida que a ABRACE decaiu, as falas de Oniga sobre computadores deixaram de aparecer, para dar lugar ao enfoque de outras tecnologias – nos a osà ,à oltouàaàfo a àaà uest oàe e g ti a,à oo de a doà oàINTàdoàp ojetoà Utilizaç oà dosàÓleosàVegetaisàB asilei osà o oàCo ustí eisàdeàMoto esàDiesel à INT,à ,àp.à .à
Este acúmulo de expertises corroborou para que prestasse serviços à Consultec no começo dos anos 1960. Pode-se dizer que Theodoro Oniga tinha, além da reconhecida
expertise, uma militância anticomunista, o que contribuiu para que prestasse seus serviços
aos projetos industriais da Consultec de Lucas Lopes e também para que atuasse na Análise e
75 Ta toà ueàTheodo oàO igaàti haàu aà pe ue aàta ta ugaà o ti a à LOPE“,à1991, p.271), como Grey Walter,
psiquiatra inglês e desbravador da robótica (BRETON, 1991, p.175; 179).
76 Entrevista de Georg Herz ao Núcleo de Memória da Pós-Graduação e da Pesquisa na PUCRIO em 25.10.2007. 77 De certo modo, o autor antecipa a preocupação dos militares com a questão computacional ainda nos anos
1960.
98 Perspectiva Econômica (APEC) (DREIFUSS, 1980, p. 117). Esse trânsito aparentemente permitiu-lhe instalar como conselheiro técnico do Ministério das Relações Exteriores, integrando a comissão brasileira na Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD) (FARIAS, 2012), às vésperas do Golpe de 1964. Nos anos 1970, encontrava-se contratado pela Marinha para atuar como analista no Centro de Análise de Sistemas Navais. Pelos serviços prestados, ainda foi condecorado com a medalha Almirante Tamandaré. O final da vida de Oniga, falecido em 18.04.2011, esteve longe de ser marcada pela tragédia familiar como a de seu colega alemão – passou os últimos anos de vida dedicando à atuação teatral, participando de uma companhia e encenando diversas peças no Rio de Janeiro.
As trajetórias de Helmuth Schreyer e Theodoro Oniga apresentam algumas similaridades – ambos vivenciaram as dificuldades inerentes a muitos pesquisadores científicos no país dos anos 1950 e 1960. Emprestavam sua expertise aos trabalhos do GTAC e ao GEACE (neste último, Schreyer teve uma presença menos efetiva, através de cursos), mas tinham dificuldades em suas pesquisas tecnológicas mais ambiciosas (computadores, fontes de energias não convencionais) por haver desinteresse e falta de recursos. Isto refletiu a falta de recursos e o foco em resolução de problemas imediatos, em detrimento da pesquisa de longo prazo, reproduzindo o choque entre o COSUPI e a comunidade científica.
O próprio Schreyer, em seu relato de 1977, confessou ter deixado todos seus do u e tosà o à )useà a tesà deà i ig a ,à poisà sa iaà ueà se iaà i possí elà dese ol e à te ologiaà e à o putado esà oà B asil à “CH‘EYE‘,à ,à p. à – assim, não houve condições para que este reproduzisse suas pesquisas em computadores eletrônicos digitais e replicasse seus experimentos. Sua atuação acabaria por se focar na docência e no domínio da tecnologia de cristais de transmissão, cuja aplicabilidade pareceu ser mais interessante ao Exército e aos Correios. Theodoro Oniga enfrentou ao longo da década de 1950 a falta de recursos no INT e acompanhou a decadência do CEMA. Em 1967, quando o engenheiro se encontrava no exterior, o centro foi fechado79. Ao pesquisador, restou lamentar que os
79“egu doàO iga,à joga a àosà ui zesàdeàati idadeàdoàCEMáàe àdoisàpa el esàaíà oàpo o.àQua doà olteiàeà ià
99 esforços em energia e li a,àsola àeàt i aàdosà a esà oàpude a àe o t a à apli aç esà p ti asàe àg a deàes ala,à u àte poàe à ueàoàpet leoàe aà aisà a atoà ueà guaà i e al à (ONIGA, 1981).