VAI BEM” BNCC E COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
REGIÃO LOCAL Nº PARTICIPANTES Nº INTERVENÇÕES
3. OS INTERLOCUTORES DA BNCC: OS INTERESSES DO TERCEIRO SETOR
Durante o processo de elaboração e aprovação da BNCC evidenciou que, além dos interlocutores do Estado representados pelo CNE, CONSED e UNDIME, também demons- trou que o setor privado representado nessa pauta pelo, Instituo Natura e Fundação Leman e Instituto Reúna, tiveram atuação consistente nas discussões para a elaboração da BNCC, de forma que as ideias defendidas por esses estão presentes no texto aprovado, a exemplo da formação técnica para o trabalho.
A formulação e a implementação da BNCC nos sistemas de ensinos contaram com o apoio do Movimento pela Base que é definido como:
Um grupo não governamental que, desde 2013, reúne entidades, organizações e pessoas físicas, de diversos setores educacionais, que têm em comum a causa da Base Nacional Comum Curricular. O Movimento pela Base acredita que a BNCC, assim como outras políticas públicas e estratégias, é essencial para melhorar a equidade e a qualidade da Educação do país. O papel do Movimento pela Base é gerar insumos e evidências para qualificar o debate público sobre a causa, observar a qualidade dos processos de construção e implementação do documento, participar dos momentos coletivos de construção desta e de outras políticas correlatas, por meio de leituras críticas, audiências e consultas públicas, zelar pela qualidade e disseminar materiais e informações que apoiem redes e escolas a concretizarem a implementação com foco na aprendizagem dos alunos (BRASIL, 2019).
Nesse contexto, a BNCC é apresentada como sendo a “solução” para acabar com as desigualdades e trazer a tão sonhada qualidade da Educação Básica no Brasil. Construída segundo o Movimento pela Base, após um longo debate com os profissionais da educação, alunos, pais e com a sociedade em geral. Esse discurso defendido pelo Movimento pela Base não é um discurso hegemônico, mas serve para demonstrar os interesses desses grupos no processo de formulação de um documento oficial normativo que norteará toda a educação básica brasileira, com o intuito de enfatizar que estão todos mobilizados por uma educação de qualidade e eficiente, que oferte uma educação de qualidade e ao mesmo tempo acabe com as desigualdades educacionais, de acesso, permanência e aprendiza- gem, existentes no Brasil. Observa-se que a força mobilizadora desses grupos, fundações e institutos nos debates educacionais representam o interesse do vasto mercado que essa área pode oferecer, além de direcionar uma formação escolar para o mercado.
Nos debates, nas reuniões e nos seminários que dispunham sobre a elaboração e, também, da implementação da BNCC teve-se uma participação bastante incrementada por entidades sem fins lucrativos que também fazem parte do Movimento pela Base, estamos nos referindo a Fundação Lemann, Fundação Bradesco, Itaú Social, Instituto Natura, Fun- dação Roberto Marinho, Instituto Unibanco, Instituto Reúna e Fundação Santalina dentre outras entidades com influência política e social muito expressiva, e que não somente de- ram apoio na elaboração do textos da Base como, também, com possibilidade de atuarem na formulação dos currículos dos sistemas de ensino.
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Essa parceria público-privado não cria uma nova pessoa jurídica (Adrião e Peroni, 2009) mas passam a atuar diretamente com o Poder Público definindo e redefinindo ações e políticas que antes era de inteira responsabilidade da administração pública. Essa relação segundo as autoras gera consequências para o campo educacional onde mercado passa a ser o grande termômetro de qualidade e as instituições públicas, no caso as escolas, não deveriam administrar, nem executar as políticas públicas (Adrião e Peroni, 2009). Dessa forma, uma nova configuração é estabelecida e o papel do Estado alterado substancial- mente, uma vez que a não caberia a ele executar as políticas públicas transferindo a res- ponsabilidade para o mercado (privatizações) e para o Terceiro Setor, não estatal, público e sem fins lucrativos (Adrião e Peroni, 2009).
É nesse contexto de relação que nos deparamos com os apoiadores/realizadores da reforma curricular apresentado na BNCC, com destaque para os supracitados e apoiado- res do Movimento Pela Base, em especial vamos apresentar a participação da Fundação Lemann, Instituto Natura e o Instituto Reúna no processo de elaboração e aprovação da BNCC.
A Fundação Lemann foi fundada em 2002 por Jorge Paulo Lemann um dos homens mais ricos do mundo com o intuito de atuar fortemente na formação de professores, promo- vendo fortes debates sobre a educação nacional com foco e interesse numa educação de qualidade. O que nos leva a refletir sobre qual a concepção de qualidade estamos falando ou quais os reais interesses que estão por trás dessa motivação em colaborar na política educacional brasileira?
Organizada para pensar na gestão eficiente a Fundação Lemann usa como caracte- rística a Nova Gestão Pública (NGP) com foco na eficiência, racionalizando tempo e recur- sos e atingindo resultados maiores com menores investimentos. Essa racionalização dos recursos numa realidade brasileira onde as escolas já necessitam de mais recursos seria agravar ainda mais as desigualdades existentes no sistema educacional.
Ressalta-se ainda a coordenação da Fundação Lemann no Movimento pela Base, e sua participação direta nos estudos das duas primeiras versões da Base. Segundo (PERO- NI; CAETANO; ARELARO, 2019) a Fundação Lemann “por meio do Lemann Center, vincu-
lado à Universidade de Stanford-USA, buscou especialistas, ligados ao Comum Core ame- ricano, para revisar a primeira e segunda versão da base” (p. 08). Esse estudo apresentava
a preocupação com as resistências que estavam se aflorando por causa do tencionamento político na época, e para que a Base fosse aprovada e, posteriormente implementada, pre- cisava ser bem conduzida.
O Instituto Natura criado em 2010 com uma visão mais voltada para a atuação nos seguimentos educacionais, desenvolve dentro das consultorias pedagógicas realizadas juntos as escolas os modelos de Comunidades de Aprendizagens numa tentativa de apro- ximar professor e aluno visando o processo ensino e aprendizagem.
As comunidades de aprendizagens desenvolvidas pelo Instituto Natura visa “revolu- cionar” e transformar as formas de aprendizagem educacionais. Uma ideia que tem o diálo- go como ponto central entre os entes inseridos no contexto de aprendizagem. Observa-se nesse movimento do Instituto Natura um processo diferente da Fundação Lemann, pois enquanto a Fundação Lemann trabalha em nível macro, com consultorias e elaboração de documentos referências na política educacional, o Instituto Natura atua no interior das escolas num processo de aplicação daquilo que foi produzido pela fundação Lemann, ou seja, apesar de diferentes se completam.
Essa atuação mais direta nas escolas, do Instituto Natura, nos faz refletir em relação as táticas de venda utilizada por consultores da empresa, de forma que os produtos são ofe- recidos de forma direto, no contato, no diálogo e nas trocas de experiências. Dessa forma, no campo educacional é muito enfatizado a orientação vocacional, o empreendedorismo, a meritocracia que são formas de responsabilizar os jovens pela sua própria formação sem levar em consideração os fatores sociais que interferem no dia a dia educacional deles.
O Instituto Reúna tem como coordenadora Katia Cristina Stocco Smole que já foi Secretaria de Educação Básica no MEC, que tem vasta experiências no campo pedagógi- co. O Reúna surge com a missão de auxiliar no processo de implementação da BNCC nos sistemas de ensino, construindo para isso, um suporte técnico-pedagógico aos sistemas, às escolas e aos professores.
Esse apoio técnico-pedagógico tem uma forte atuação na produção de materiais que serve para que os professores entendam a base, sem para isso ter que recorrer a fadadas leituras do documento. Além disso, damos destaque para as competências e habilidades exigidas como direitos de aprendizagens na base, organizadas dentro dos conteúdos a serem trabalhados pelos professores em sala de aula. Dessa forma, a atuação do Instituto Reúna vira “aliada” dos professores que estão sobrecarregados de trabalhos em diversas escolas.
Essas entidades supracitadas no texto de elaboração e aprovação do BNCC, trazem em suas ideologias exatamente o que a Base tem a oferecer aos sistemas e as escolas e sobretudo aos professores em relação ao currículo e ao que deve ser ensinado. Detalhar o que precisa ser ensinado é limitar a ação da escola e do professor, é dizer que o professor não tem autonomia para escolher, nem para elaborar seu método de trabalho. Uniformizar as práticas pedagógicas, é antes de qualquer coisa, não respeitar a diversidade existente entre as instituições e também entre o público ao qual se destina.
4. CONCLUSÃO
A ideia de uma Base Nacional Comum não é nova, está presente na CF/88, na LDB/96 e no PNE (2014-2024), ou seja, documentos dos anos 80 e 90 que surgiram no bojo
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da reformulação do Estado Brasileiro, mas que ganhou força com o PNE (2014-2024) e entre 2015 e 2018 intensificaram-se as discussões e como consequência da homologaram do documento da BNCC. As discussões foram longas e envolvia projetos hegemônicos de educação e sociedade onde as entidades público-privadas, professores e sociedade civil participaram, com seus representantes nesses debates.
A versão aprovada da BNCC é a chamada terceira versão, que desmembrou a BNCC do Ensino Médio da BNCC do Infantil e Fundamental quebrando assim a ideia de Educação Básica como um todo. É importante ressaltar que ambas passaram por audiências públicas com participação e intervenções da comunidade e de entidades ligadas a educação.
Desde os primeiros debates e das primeiras pautas onde se discutiram a BNCC, tivemos uma presença muito forte dos agentes privados, presentes e atuantes no Movi- mento Pela Base e, também atuando, após a aprovação do documento, nos sistemas de ensino como apoiadores e implementadores da BNCC. Damos destaque para três desses agentes privados, a saber: a Fundação Lemann, o Instituto Natura e o Instituto Reúna que atuam como apoiadores e implementadores da Base, além de apoio técnico-pedagógico com livros e matérias prontos para serem explorados em sala, o que julgamos ser ofensivo ao trabalho docente.
Dessa forma, analisando as justificativas e argumentações dos defensores da Base, um ponto bastante enfatizado é que a BNCC trará uma solução as mazelas educacionais existentes. As ações facilitadoras dos processos de aprendizagem dos interlocutores do terceiro setor, podem de fato estarem apontando para mercantilização da educação, tirando proveitos de maneira um tanto privilegiada, visto conhecerem os mecanismos de inserção nas políticas governamentais.
Finalmente, concluímos que a implementação da BNCC no formato que foi homolo- gada, pode criar ainda mais desigualdades sociais, haja vista, que as realidades e necessi- dades educativas das regiões brasileiras são bastante diversas. Nas palavras dos autores concluímos nossa argumentação dizendo que “Quando são colocados projetos curriculares
como forma de proporcionar a igualdade de oportunidades em busca da redução das desi- gualdades, somos colocados diante de uma proposta ilusória que não consegue se apro- fundar no cerne do problema” (CURY, REIS, ZANARDI, 2018, p. 76).
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