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6. Profecia falada e escrita

6.1. Os profetas bíblicos

Em Efésios 4.11, o ofício de profeta é mencionado como um presente de Jesus Cristo à igreja,

derivado de sua autoridade como Redentor exaltado: “ele mesmo [Cristo] concedeu uns para

[...] profetas”.210 Os profetas são citados como os oficiais em segundo lugar de importância,

logo depois dos apóstolos: “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas” (1Co 12.28).

Um profeta (nābî’, AT; prophētēs, NT) era escolhido e enviado por Deus para falar

“antecipadamente ou abertamente”,211 como representante autoritativo dele (Êx 7.1; Is 6.8;

206 Van Groningen informa que nem todos os eruditos concordam com esta declaração; há uma tendência de alguns considerarem os fatos históricos, e não a fala de Deus, como atividade iniciante da revelação: “Nos meus primeiros dias de estudo teológico, percebi que alguns estudiosos do AT hesitavam em considerar a palavra falada de Yahweh Deus como o fator iniciante na revelação, conforme registrado nas Escrituras”; cf. VAN GRONINGEN, Gerard. O Progresso da Revelação no Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 16. Van Groningen responde dizendo que “não deve haver dúvida de que quando Deus criou o cosmos sua palavra falada e criadora era e é uma realidade histórica” (VAN GRONINGEN, 2018, p. 16-17).

207 A criação é deflagrada pelo comando “haja” (hayah, existir, Gn 1.3). A provisão, pela ordem “produza”

(dasha, germinar, reverdecer, Gn 1.11). A organização pelos verbos “fazer” (asah) e “separar” (badal, dividir, separar, isolar, Gn 1.4, 7, passim), além dos atos de “ajuntamento” (Gn 1.9-10) e “especificação” (associar “conforme a sua espécie”, Gn 1.12, passim).

208 “Este ato de falar foi a motivação que originou um ato que se seguiu. Em vários exemplos o ato de falar e o ato de executar são tão intimamente relacionados que é difícil distingui-los” (VAN GRONINGEN, 2018, p. 17).

209 A fala de Deus aos homens precede o ofício de profeta, pois Deus se comunicou com Adão, Noé e os patriarcas muito antes do estabelecimento do profetismo de Israel (e.g., Gn 1.28-29; 2.16-17; 3.9 et seq.; 4.6-7; 6.13-21; 12.1; 26.2-5; 31.1). O que diferencia o ofício profético não é o fato de Deus falar com pessoas, e sim, dele designar pessoas para falarem a outras, em nome dele.

210 CHAPELL, Bryan. Estudos bíblicos expositivos em Efésios. São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 192.

211 VINE, E. R.; UNGER, Merril F.; WHITE JR., William. Dicionário Vine: O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. 7. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, p. 903. Hendriksen informa: “Como mostra esse termo – e seus derivados – (visto que neste caso o sentido etimológico continua apegado a ele), um profeta (προφήτηςdeπρόdiante, e φημίfalar) é ‘uma pessoa que fala diante de’. E o que ele fala diante de ou declara publicamente é a vontade e a mente de Deus. Ele é aquele que ‘proclama’, e não necessariamente (ainda que às vezes também) aquele que ‘prediz’. Cf.

10.24; Jr 1.5-10; 7.25). Às vezes ele era chamado de “vidente” (rō’eh, em 1Sm 9.9; 1Cr 9.22, ou

ḥō·zě(h), em 2Cr 9.29), porque Deus se dava a conhecer a ele “em visão” ou “em sonhos”,

excetuando-se Moisés, com quem Deus falava diretamente, e Jesus, “Deus unigênito” que

está “junto do Pai”, revelando o Pai (NAA; Nm 12.6-8; Is 6.1; Ez 1.1; Jo 1.18; Hb 1.1-2).212

O conteúdo da fala profética era divinamente inspirado, ou seja, o profeta era um canal de revelação infalível (Gn 15.1; 1Sm 15.10; 2Sm 7.4; Is 2.1; Ez 7.1; Jn 3.1; Sf 1.1; 1Co 14.6, 29-30; 2Tm 3.16-17; 1Pe 1.10-12; 2Pe 1.19-21). Como explica Berkhof, “o profeta é alguém que vê coisas, isto é, que recebe revelações, que está a serviço de Deus, particularmente como mensageiro, e

que fala em seu nome”.213 Por isso, falas proféticas no AT eram iniciadas com “assim diz o

SENHOR Deus” (Is 7.70; 10.24; Jr 4.3; Am 1.3; Zc 1.17) e no NT, com “isto diz o Espírito Santo” (At 21.11; cf. 13.2). Berkhof informa ainda, que “era dever dos profetas revelar a vontade de Deus ao povo. Isto podia ser feito na forma de instrução, admoestação e exortação,

promessas gloriosas ou censuras severas”.214

Alguns entendem que há uma diferença entre os profetas do AT e NT, quanto à autoridade da profecia. Dizem que a revelação infalível veio pelos profetas do AT e apóstolos do NT e que a profecia do NT podia conter falhas. Isso é evidenciado — sugerem — de três modos: (1) diferente do AT, o NT não possui livros escritos por profetas, e sim pelos apóstolos e pessoas ligadas a eles. (2) Os profetas de Corinto deviam se submeter à instrução de Paulo (1Co 11.2-16; 14.26-40). (3) A profecia do NT tinha de ser julgada (Rm 12.6;

1Co 14.29; 1Ts 5.20-21).215

Opondo-nos a tal entendimento, admitimos que o profeta do AT é, de fato, distinto do profeta do NT, pois este último ministrava no contexto da promessa de Joel 2.28-32, cumprida no Pentecostes. O profeta do NT recebia revelação pertinente ao Cristo que já veio, ressuscitou, subiu ao céu e voltará, e à redenção consumada na cruz, ou como explica Gaffin Jr., à “salvação em Cristo, com suas implicações ricas e diversificadas para a fé e a

HENDRIKSEN, William. 1 e 2Tessalonicenses, Colossenses e Filemon. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 164. (Comentário do Novo Testamento). Logos Software. Profecia (prophēteia) é a “capacidade de proferir mensagens inspiradas”; cf. LOUW; NIDA, op. cit., #33.461, προφητεία, p. 440.

212 CULVER, Robert D. rō’eh. In: HARRIS; ARCHER JR.; WALTKE, op. cit., p. 1384; ROBECK JR., C. M. Profecia, Profetizar. In: HAWTHORNE; MARTIN; REID, op. cit., p. 1009, 1010.

213 BERKHOF, op. cit., p. 328. Cf. RIDDERBOS, op. cit., p. 506: “A profecia é uma forma especial do Espírito concedida à igreja e operante dentro dela. Por esse motivo, o discurso dos profetas também pode ser chamado de revelação”.

214 BERKHOF, op. cit., p. 329.

215 Será que este era o entendimento de Herman Ridderbos? Ele escreveu que “essa profecia e revelação não

deve ser entendida [...] como dom excepcional, no qual a igreja, como tal, não tem participação e que precisa receber apenas como uma mensagem infalível do Espírito vinda a ela de fora” (RIDDERBOS, op. cit., p. 506; grifos nossos). Lopes considera uma “tese difícil de provar”, a de que a profecia, em 1Coríntios 14, seja um dom revelatório (LOPES, Augustus Nicodemus. O Culto Espiritual: Um Estudo em 1Coríntios Sobre Questões Atuais e Diretrizes. 2. ed. revisada e aumentada. Reimpressão 2017. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 127). Ele diz ainda: “Se por revelação entendermos o conhecimento infalível e seguro da vontade de Deus, captado e transmitido por instrumentos inspirados (os autores bíblicos) de tal forma que viesse a ser conhecida exatamente como Deus o desejava [...] fica difícil considerar nesses termos as [...] profecias [...]que ocorriam durante o culto na igreja de Corinto. Seria dar aos ‘espirituais’ de Corinto o status de apóstolos ou de profetas do AT, ofícios pelos quais Deus transmitiu sua revelação escrita” (LOPES, 2012, loc. cit.). D. A. Carson considera “difícil justificar exegeticamente” que a profecia do AT e NT possuam o mesmo status de

autoridade (CARSON, D. A. A Manifestação do Espírito: A Contemporaneidade dos Dons à Luz de 1Coríntios 12—14. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 95). Para ele, “a profecia do NT, em contraste com a do AT, tem um perfil bem inferior” (CARSON, op. cit., p. 98) e “há exemplos de profecias em Atos que são vistas como genuinamente de Deus, embora tenham menos status de autoridade em comparação com as profecias do AT” (ibid., p. 99). Um argumento que gerou polêmica e engendrou respostas de estudiosos reformados foi o de Wayne Grudem (GRUDEM, 2000, p. 892-902). Grudem sugere que os “profetas” mencionados em Efésios 4.11 são apenas os do AT e que os profetas do NT transmitiam mensagens genuinamente de Deus, mas que podem conter imprecisões de transmissão ou de recepção.

vida da igreja”.216 A profusão de profetas nas igrejas de Antioquia e Corinto (At 13.1; 1Co 14.29-31) confirma o construto do oráculo de Joel, concernente à ampla distribuição do dom profético na igreja do NT. Tais distinções entre os profetas do AT e do NT não implicam, porém, diferença de natureza do ofício (uma vocação e habilitação divina para falar como representante de Deus), muito menos de autoridade (como se o NT abonasse uma profecia errática ou falível).

Alvitramos que não há diferença entre os profetas do AT e NT, quanto à autoridade e exatidão da profecia, por quatro razões: (1) A sugestão de Grudem, de que tanto Ágabo quanto os profetas de Corinto (At 11.27-28; 21.10-11; 1Co 14.1-40) ministravam um tipo de profecia menos autoritativo, distinto da profecia do AT, não corresponde ao ensino da

Escritura sobre o ofício profético.217 (2) O que Paulo fala sobre a profecia, em 1Coríntios

14.3, é perfeitamente aplicável aos profetas do AT. (3) Dizer que as profecias do NT são de

outra natureza, revelações do Espírito Santo, cuja autoridade é inferior às revelações das

Escrituras canônicas, dadas pelo mesmo Espírito,218 meras “impressões do Espírito na

mente”,219 ou que são sim, divinamente inspiradas, mas pode haver ruído ou corrupção, ou

seja, erro, em seu enunciado ou recepção220 ou, por último, que profecias são condicionais,

ou seja, pode não acontecer o que o profeta afirmou, caso o receptor da mensagem não aja de conformidade com o anúncio ou não exercite sua fé — nada disso corresponde ao ensino bíblico sobre os profetas e as profecias. (4) Tanto no AT quanto no NT, profecias que contêm erros devem ser tidas como falsas. Uma suposta profecia que “falha” não é dada pelo Espírito Santo. No AT, os profetas falsos deviam ser mortos; no NT eles deviam ser identificados, rejeitados e “vencidos” pelo apego à doutrina sadia (Dt 13.1-5; 18.20-22; Mt 7.15; 2Pe 2.1; 1Jo 4.1-6). Se no AT, o profeta era obrigado a pronunciar mensagens consistentes com a Lei de Moisés (cf. Ml 4.4), no NT, a profecia tinha de ser “segundo a

proporção (analogia) da fé” (Rm 12.6), quer dizer, análoga à “fé” ou doutrina do evangelho

(At 6.7; Jd 3).221 Sendo assim, concordamos com Thomas Schreiner, quando afirma que:

216 GAFFIN JR., op. cit., p. 66-67.

217 Não há espaço aqui para analisar a argumentação de Grudem. Os interessados em conhecê-la podem conferir GRUDEM, 2000, p. 892-902; GRUDEM, 2004, p. 87-117. Uma refutação da tese de Grudem consta em GAFFIN JR., op. cit., p. 62-78. Para Carson, o fato do profeta do AT dever ser obedecido, mas o do NT ter de ser cuidadosamente avaliado (op. cit., p. 96-97); o fato de não existir um texto ameaçando de excomunhão um profeta que “não fizesse jus à sua designação” (ibid., p. 97); e o fato dos profetas de Corinto terem de se subordinar à autoridade apostólica de Paulo — todas essas “observações exegéticas minam a crítica de Gaffin [...] contra Grudem” (ibid., loc. cit.; grifo nosso). Outras respostas bíblicas a Grudem são fornecidas por O. Palmer Robertson (ROBERTSON, O. Palmer. A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje. São Paulo: Editora Os Puritanos, 1999, p. 106-135); KNIGHT III, op. cit., p. 99-101; KNIGHT III, George W.

A Profecia no Novo Testamento. São Paulo: Editora Os Puritanos, 1998; SCHREINER, Thomas R. Teologia de Paulo: O Apóstolo da Glória de Deus em Cristo. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 332-334.

218 PACKER, 2018, p. 269; WILLIAMS, op. cit., p. 692-693. Packer (2018, loc. cit.) afirma que “a profecia potencialmente universal do NT era menos do que infalível e irreformável, havendo a possibilidade de precisar ser qualificada ou, de fato, corrigida”. Discordamos desta ponderação, pois a profecia do AT também exigia ouvidos atentos e discernimento.

219 GRUDEM, 2000, p. 892.

220 STORMS, op. cit., p. 107-108; STORMS, C. Samuel. O Ponto de Vista da Terceira Onda. In: GRUDEM, 2003, p. 101-139.

221 A tradução da NTLH entende que Paulo está falando sobre uma medida de fé subjetiva, dada ao profeta: “se o dom que recebemos é o de anunciar a mensagem de Deus, façamos isso de acordo com a fé que temos”. Gaffin propõe uma leitura semelhante, sugerindo que Deus concede “medidas de fé” pertinentes ao exercício de cada um dos dons mencionados por Paulo em Romanos 12.6-8 (cf. GAFFIN JR., op. cit., p. 67-69). Mesmo assim, não parece haver motivo para rejeitar a interpretação de Calvino, ratificada por Ridderbos: “É possível, pois, que ele esteja aqui, pela mesma razão, admoestando os que profetizavam na igreja, para que

harmonizassem suas profecias à norma de fé, a fim de que não divagassem em algum ponto ou se desviassem da linha reta. Pelo termo fé ele quer dizer os princípios rudimentares da religião, e que seja condenada como sendo falsa qualquer doutrina que não pode ser encontrada em plena correspondência com estes princípios”; cf. CALVINO,

O ônus da prova está com aqueles que desejam criar uma divisão entre os profetas do AT e do NT, pois o que se espera é que ambos se comportassem da mesma maneira. Ambos eram julgados da mesma maneira e esperava-se precisão dos dois. [...] Resumindo, não há nenhuma evidência convincente de que os profetas do NT falassem tanto a verdade quanto o erro. A exemplo dos profetas do AT, eles comunicaram a palavra do Senhor com precisão.222

Estabelecido o ofício profético, Deus moveu alguns dos seus profetas a escrever (Êx 17.14; 34.27; Is 30.8; Jr 30.1-2; 36.2). Os livros do AT são produto deste esforço de escrita. Ainda que se saiba que nem todos os seus autores (e.g., Davi ou Esdras) tenham exercido o ofício profético, de modo geral, considera-se que tais livros advém de revelação profética, daí sua autoridade como regra de fé e prática. A escrita da palavra demarcou a transição de uma cultura oral, baseada na escuta, para uma cultura visual, baseada na leitura. A “religião das

profecias” cedeu lugar para a “religião do livro”.223

Organizando até aqui, primeiro Deus falou. Em seguida, ele designou profetas como mediadores de sua fala. Depois, adicionou uma segunda camada de mediação, movendo alguns profetas a escrever. Quando a coleção de livros do AT foi completada, tanto o ofício de profeta quanto a revelação cessaram por alguns séculos, até a vinda de Jesus Cristo.

Terminado o AT com o Messias mencionado como promessa, fazia-se necessário o NT, revelando Cristo e explicando não apenas como a promessa se cumpriu, mas também, quais as implicações deste cumprimento. Uma vez que a fala de Deus cria, provê e organiza, sem a revelação divina continuada no NT, não haveria uma palavra escrita sobre a nova criação em Cristo, nem sobre a provisão para a vida diária cristã, tampouco para a organização da

igreja. Em outras palavras, a revelação do AT não era suficiente; não estava completa. Por

isso, Deus levantou novos agentes e os capacitou com o dom de profecia, para produção e completação da revelação. Esses novos agentes foram o próprio Senhor Jesus Cristo, bem como os apóstolos e profetas do NT, como lemos em Hebreus 2.3-4:

Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor [Jesus], foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram [os apóstolos]; dando Deus testemunho juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade.

A palavra “apóstolos” não consta em Hebreus 2.3. A confirmação ou “testemunho” de Deus com “sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade” (Hb 2.4), especialmente à luz de 2Coríntios 12.12, permite identificar os “que a ouviram” com os apóstolos. Este é o entendimento de Calvino, que primeiro vê a palavra “salvação” (Hb 2.3), como equivalente à “doutrina”:

Observe-se que a palavra “salvação” aqui se aplica metonimicamente à doutrina, porque, assim como Deus quer que os homens sejam salvos, de nenhuma outra forma senão através do evangelho, assim também, quando ele é negligenciado,

João. Romanos. São José dos Campos: Editora Fiel, 2013, p. 496–497. (Série Comentários Bíblicos). Logos Software. E ainda: “Nessa passagem, não é dito que todo profeta deve profetizar segundo a medida de fé que lhe foi dada, pois esse seria um parâmetro geral demais e difícil de compreender. Fica evidente que a intenção aqui é apresentar uma norma que seja mais objetiva, isto é, a fé de acordo com seu conteúdo, ou, de um modo geral, a doutrina cristã” (RIDDERBOS, op. cit., p. 507; grifo nosso).

222 SCHREINER, op. cit., p. 333, 334. Bryan Chapell (op. cit., p. 133) também argumenta que “profetas”, em Efésios 2.20, se refere aos profetas do AT e NT.

então se rejeita toda a salvação divina. “Porquanto ele é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” [Rm 1.16]”.224

Em segundo lugar, Calvino chama estes que “ouviram”, de “discípulos de Cristo”.225

Daí, comentando Hebreus 2.4, ele os identifica como os apóstolos: “Além do fato de que os

apóstolos haviam recebido do Filho de Deus a mensagem que pregavam, o Senhor também imprimira seu selo de aprovação na pregação por meio de milagres, como que por uma

solene rubrica”.226

Simon Kistemaker vai em direção semelhante vinculando a “salvação” (em Hb 2.3), com o NT: “Assim a palavra salvação refere-se ao evangelho da salvação proclamado por Jesus. Essa única palavra engloba a doutrina da redenção em Cristo e, em um sentido,

refere-se ao NT”.227 Hebreus se refere aos apóstolos como primeiros ouvintes: “ele não fornece

detalhes sobre a proclamação do evangelho por Jesus (1.3) e pelos apóstolos, e não especifica

o que são os “sinais, prodígios e vários milagres, e por dons do Espírito Santo”.228

Fritz Laubach entende que Hebreus 2.3-4 informa sobre a revelação do evangelho, que culminou nas Escrituras:

O apóstolo fala de um modo específico sobre como Deus introduziu a salvação em nosso mundo: a salvação eterna das pessoas está vinculada à palavra viva de Deus! Jesus Cristo, o Filho de Deus e Senhor do mundo, incorporou a salvação divina em sua pessoa, anunciando-a em sua pregação. Por meio de sua paixão, morte e ressurreição ele abriu o acesso à salvação para todas as pessoas. Os apóstolos, testemunhas do Ressuscitado, constituem o fundamento da igreja (Mt 16.18; Ef 2.20) e tornam-se portadores da mensagem da salvação. Assim como a palavra de

revelação do AT, falada por meio dos anjos, evidenciou-se como legalmente eficaz, assim também a salvação no NT foi “anunciada de maneira legalmente válida pelos apóstolos, ratificada juridicamente”. O próprio Deus confirmou a sua palavra.229

Resumindo, para que fôssemos alcançados pelo evangelho, o Espírito Santo graciosa e eficazmente (1) concedeu plenitude de revelação sobre Jesus Cristo; (2) providenciou a escrita desta revelação; (3) chamou e moveu pessoas para cumprirem a missão, de modo que o evangelho chegasse até nós; (4) nos iluminou, ou seja, nos esclareceu e deu entendimento quando ouvimos, lemos, estudamos e meditamos no evangelho; (5) aplicou o evangelho em nosso coração e, (6) ainda hoje, pela Palavra, cria coisas novas, nutre e organiza nossa vida (Cl 1.25-29; Lc 1.1-4; At 1.1; Gl 6.11; Rm 10.12-15; 2Co 4.5-6; Sl 119.97-112; Ef 5.25-27; 6.17; 1Pe 1.22—2.3).

224 CALVINO, Hebreus, p. 51.

225 “Por essa razão o apóstolo nos lembra que a doutrina que lhes fora ensinada por outros, no entanto procedia de Cristo. Ele afirma que os discípulos de Cristo eram aqueles que se mantiveram fiéis às instruções transmitidas por Cristo mesmo” (CALVINO, op. cit., p. 52). Grifo nosso.

226 Ibid., loc. cit.; grifo nosso.

227 KISTEMAKER, Simon. Hebreus. 2. ed. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2013, p. 84. (Comentário do Novo Testamento). Logos Software.

228 KISTEMAKER, Hebreus, p. 85. Grifo nosso.

229 LAUBACH, Fritz. Carta aos Hebreus. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2000, p. 51–52.

(Comentário Esperança). Logos Software. Citando SCHLIER, H. Ki-ThW, p. 603, v. 1, Laubach informa que tanto o adjetivo bebaios, traduzido como “firme”, em Hebreus 2.2, quanto o verbo bebaioō, traduzido como “confirmada”, em Hebreus 2.3, transmitem o sentido de ratificação legal. “A palavra grega [...] que o apóstolo utiliza nos v. 2, 3, significa originalmente ‘afixar’, ‘passar a vigorar legalmente’, cf. 1Coríntios 1.6. A validade legal da palavra de Deus é confirmada no AT e NT pelo pacto da aliança, em grego

diathēkē; cf. também Marcos 16.20. É importante que de acordo com 2Coríntios 1.21, 22 a ratificação e confirmação da palavra de Deus acontecem quando somos selados com o Espírito Santo em nossos corações” (LAUBACH, op. cit., p. 52, nota de rodapé 88).