6. Profecia falada e escrita
7.4. Suficiência insuficiente
O último desafio colocado pelos pentecostais e carismáticos é a sugestão de que é possível
acreditar em profecias extrabíblicas e, ao mesmo tempo, assumir sola Scriptura.
Iniciamos afirmando que sim, é executável abraçar a continuação de todos os dons do NT e, ao mesmo tempo, a crença na suficiência das Escrituras. Se isso já era imaginável nos primórdios do pentecostalismo, quanto mais agora, no fulgor da modernidade líquida e
pulverização digital, que abre mão dos sistemas completos, em favor dos subsistemas.307
Ao argumentar sobre o milagre da encarnação, C. S. Lewis propõe a analogia de um romance ou sinfonia, que nos ajuda a abordar o quarto desafio.
Suponhamos que possuímos parte de um romance ou uma sinfonia. Alguém nos traz um pedaço de manuscrito recém-descoberto e diz: “Esta é a parte que falta na obra. Este é o capítulo em que todo o enredo do romance se baseia. O tema principal da sinfonia”. Nossa tarefa seria verificar se a nova passagem realmente esclarece todas as partes que já vimos e as “une”, caso admitida no espaço central que o descobridor reivindica para ela. Não seria também provável que nos alongássemos muito no erro. A nova passagem, se espúria, por mais atraente que parecesse ao primeiro olhar, tornar-se-ia cada vez mais difícil de reconciliar-se com o restante da obra quanto mais considerássemos o assunto. Mas se fosse genuína, então a cada vez que ouvíssemos a música ou lêssemos o livro, veríamos sua acomodação no todo, fazendo-se mais à vontade nele e extraindo significado de toda sorte de detalhes que até então havíamos negligenciado. Embora o novo capítulo central ou tema principal contivesse grandes dificuldades em si mesmo, nós continuaríamos a considerá-lo autêntico desde que removesse continuamente dificuldades em outros pontos.308
Um romance ou sinfonia configuram um todo, uma obra completa, um sistema em que cada parte se integra e contribui para o global, ajudando a remover dificuldades dos demais pontos. Um construto “espúrio” produz o efeito contrário, não “une”, nem “esclarece” as partes. Na perspectiva da reforma magisterial, o entendimento de que alguns ofícios e dons do NT cumpriram seu papel fundacional e não estão mais presentes, era parte de algo maior,
do sistema, da narrativa ou da sinfonia protestante, que preconizava sola Scriptura. E tal
entendimento unia as partes e removia dificuldades em diferentes pontos doutrinários e práticos da fé protestante. Isso foi assim, até o evento da fusão, mencionado na introdução, que favoreceu a inserção do elemento novo, o recorte pentecostal e carismático, colado como remendo na veste outrora protestante fundacional — um remendo que, na opinião do autor deste estudo, não une, não ajuda a remover dificuldades, nem esclarece as partes, haja 307 Nesse contexto, é presumível assumir não o Sistema Calvinista, como um todo, mas uma parte dele, um subsistema, e.g., os “Cinco Pontos”, e ainda assim, se identificar como reformado ou calvinista.
vista (1) a reticência de alguns concílios, em denominações reformadas, de exercer juízo sobre posições de candidatos ao Sagrado Ministério, abertas a profecias extrabíblicas, a despeito dos documentos oficiais das denominações sobre o assunto; (2) o acanhamento de recém-formados em Teologia, influenciados pela cultura teológica circundante, de assumir e defender a leitura fundacional protestante, perante suas congregações. Enquanto nas igrejas pentecostais ou carismáticas, as pregações sobre o assunto são convictas, em algumas ditas reformadas, exauridas pela fusão, o ensino é titubeante ou favorável às profecias extrabíblicas. Ruthven, teólogo carismático, intui que as duas subscrições — de continuação de todos os dons do NT e da suficiência das Escrituras — são excludentes (cf. seção 5.3), mas é cada vez mais comum teólogos, ministros e concílios reformados considerarem coerente abraçar ambas as proposições.
A doutrina da suficiência da Bíblia é resumida no lema da Reforma sola Scriptura. Kevin
Vanhoozer explica que, de todos os solas da Reforma Magisterial, este é o que tem sofrido
mais ataques:
O sola Scriptura talvez seja o mais desafiador dos solas a recuperar. Até mesmo muitos teólogos protestantes insistem agora em que se abandone esse sola porque insistir na Escritura somente negligencia, ou exclui, a importância da tradição, a necessidade da hermenêutica e a relação entre Palavra e Espírito.309
O autor destes estudos se lembra de duas falas, uma proferida em uma cerimônia de formatura, em um seminário, outra em uma votação de sentença de tribunal de presbitério. Na primeira o pastor, paraninfo da turma, disse:
— Imagine vocês ministrando a uma pessoa endemoninhada. Nesse caso, somente a Bíblia não vai resolver o problema; apenas ler Salmos 23 não expulsará o demônio. Vocês terão de confrontar o inimigo cheios do poder do Espírito Santo.
Ainda que bem-intencionado, desejando motivar os recém-formados a buscar uma vida cheia do Espírito Santo, tal pastor estabeleceu um dilema falso entre a Escritura e o
poder de Deus. Seria mais adequado ele informar que a Escritura instrui que temos de lidar
com os poderes das trevas revestidos com o poder do Espírito Santo.
Na segunda ocasião, um colega afirmou que a Bíblia é suficiente quanto às verdades sobre salvação, mas não para outras questões também importantes da vida espiritual. Eu presumo que ele esteja se referindo ao fato da Bíblia não fornecer informação sobre tudo. Nesses termos, somos ajudados pela nota de Vanhoozer :
O sola Scriptura também implica a suficiência da Escritura, embora o conceito abstrato nos leve a perguntar: “Suficiente para quê?” Dizer que a Escritura é suficiente para tudo — investimentos no mercado de ações, torneiras pingando, artérias entupidas — é sobrecarregá-la de expectativas irreais e, por fim, sucumbir ao biblicismo ingênuo e ao pântano do pluralismo interpretativo generalizado.310
Mesmo assim, o alcance da suficiência bíblica é devidamente esclarecido por John Frame: “a Escritura contém todas as palavras divinas necessárias para cada aspecto da vida humana”. Comentando o capítulo um, parágrafo seis, da CFW, Frame pondera que “‘fé e vida’ são um par de conceitos abrangentes [...]. Por isso, é razoável pensar que ‘fé e vida’ [...]
refere-se a todo o escopo da vida cristã”.311 E prossegue:
309 VANHOOZER, Kevin J. Autoridade Bíblica Pós-Reforma: Resgatando os Solas Segundo a Essência do Cristianismo Protestante Puro e Simples. São Paulo: Vida Nova, 2017, edição do Kindle, posição 3030 de 7110.
310 VANHOOZER, op. cit., posição 3107 de 7110.
Suficiência [...] não é suficiência de informações específicas, mas suficiência de palavras divinas. A Escritura contém palavras divinas suficientes para tudo na vida. Ela tem todas as palavras divinas que o encanador precisa e todas as palavras divinas que o teólogo precisa. Assim, ela é tão suficiente para o trabalho de encanação quanto para a teologia. E, nesse sentido, ela também é suficiente para a ciência e a ética.312
Vanhoozer enquadra a suficiência em uma moldura cristocêntrica, como segue:
Esses versículos [2Tm 3.16-17] nos ajudam a ver o que significa suficiência e o que não significa. A Bíblia é suficiente para o uso que Deus faz dela, e não para outro uso qualquer que nós queiramos dar a ela. Nas palavras de John Webster: “A Escritura basta. Isto porque a Escritura é o que Deus deseja ensinar”. A Escritura “basta” para aprender Cristo e a vida cristã.313
Destacando a expressão “todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação,
fé e vida do homem”,314 no mesmo trecho da CFW analisado por Frame, Chad Dixhoorn
afirma o seguinte:
Se você quer saber o que vai equipá-lo completamente para a salvação, para a fé, ou para a vida, você o encontrará nas Escrituras (2Tm 3.15-17). Se você quer saber o que Deus considera essencial para a própria glória, você o achará na Bíblia. Na verdade, “todo o conselho de Deus” concernente a todas as coisas necessárias é revelado na Palavra de Deus.315
A vida inteira é coberta pelas Escrituras, não apenas as ditas questões “religiosas”. Por isso, o modo como compreendemos a suficiência da Bíblia estabelece o pano de fundo de nosso debate sobre ministérios e dons. Para quem abraça a leitura fundacional protestante, suficiência das Escrituras equivale a término e, por conseguinte, cessamento da revelação
— nenhuma necessidade de profecias extrabíblicas —; sola Scriptura quer dizer que a Bíblia
dá conta de todas as nossas necessidades espirituais. Sola Scriptura não corresponde a uma
“amarração” ou demarcação de “limite hermenêutico” ou “tradição eclesiástica”, nem é
assumido por ser um marco da Reforma ou da CFW. O princípio sola Scriptura deflui da
própria Escritura.
Em uma nota de rodapé, Vanhoozer cita Robert W. Jenson, para quem “o sola Scriptura
é o slogan mais problemático da Reforma e, em sua opinião, ‘não pode, no fim das contas, ser
resgatado para qualquer uso significativo’”.316 Como dissemos alhures, Ruthven exemplifica
o evangélico alinhado à reforma radical, que não subscreve sola Scriptura. Outros acreditam
na contemporaneidade das revelações, dizendo que isso não fragiliza seu compromisso com
a suficiência bíblica. Evangélicos que dizem abraçar o lema sola Scriptura, acreditam em uma
suficiência insuficiente, pois o Espírito Santo precisa chamar e designar pessoas com o dom de profecia, para prover a igreja com mais revelações.
Para os reformadores magisteriais e teólogos de Westminster, a revelação encapsulada nas Sagradas Escrituras é suficiente. Não são necessárias novidades e sim reafirmação e conhecimento do evangelho (Is 8.20; Lc 16.27-31; Gl 1.8; 1Tm 3.15). O propósito do ministério profético era tríplice:
312 FRAME, op. cit., p. 195. Grifo nosso.
313 VANHOOZER, op. cit., posição 3107-3123 de 7110. O autor cita WEBSTER, John. The Domain of The Word: Scripture and Theological Reason. London: Bloomsbury T & T Clark, 2012, p. 18. Grifo nosso.
314 DIXHOORN, op. cit., p. 40. Grifo nosso.
315 Ibid., p. 41. Grifos nossos.
316 JENSON, Robert W. Lutherans Slogans: Use and Abuse. Delhi; EUA: American Lutheran Publicity Bureau, 2011, p. 63, apud VANHOOZER, op. cit., posição 3031 de 7110.
1. Oficial. Os profetas foram designados por Deus para um ofício reconhecido pela igreja.
2. Basilar ou fundacional. Eles lançaram o fundamento sobre a qual as novas gerações de cristãos devem edificar (cf. seção 5.2).
3. Canônico. Os profetas foram usados por Deus para escrever ou influenciar diretamente a escrita ao AT e NT (seção 6.2).
Na luta da Reforma Magisterial do séc. 16, havia a consciência de que a pureza do evangelho só poderia ser mantida a partir da rejeição tanto da Sagrada Tradição quanto das novas revelações.
Enquanto os reformados enfrentaram os desafios católico romanos à clareza e suficiência da Bíblia, os anabatistas minaram sola Scriptura também por apelos à revelação extrabíblica e pela criação de uma multidão de seitas individualistas lideradas por profetas carismáticos. Nos dias de hoje, também, a Palavra e o Espírito muitas vezes são colocados um contra o outro naquilo que lamentavelmente é chamado de “avivamento”. Pontos de vista errôneos sobre orientação do alto e alegações de ter recebido revelação direta do Espírito contribuem para isso.317
Esse modo de compreender a profecia e a revelação resguardou o protestantismo primevo de perigos e assegurou benefícios.
Os perigos da abertura a novas revelações proféticas são três: (1) fragilidade bíblica; (2) complexidade em discernir qual nova profecia provém de Deus; (3) possibilidade de acolhimento de doutrinas estranhas às Escrituras.
Primeiro, há uma base bíblica suficiente para afirmar que a revelação profética cessou após o fechamento do NT: Se o NT é o clímax da revelação; se o alicerce da igreja só precisa ser lançado uma única vez; se a Bíblia é Palavra de Deus suficiente, não há necessidade de atualização do ofício profético, nem de profecia extrabíblica.
Segundo, o argumento dos defensores da atualidade do dom de profecia — as profecias atuais não têm o mesmo peso da Bíblia, ou seja, não são Palavra infalível — atrapalha ao invés de ajudar. Isso é exemplificado na instrução a seguir, dada por um estudioso que defende a atualidade das profecias:
O povo deve ser instruído antecipadamente que não é adequado pensar na profecia como uma analogia dos profetas do AT. Portanto, não seria correto prefaciar o que disserem com a declaração “Assim diz o Senhor”.
Em vez disso, devem começar dizendo: “Acho que o Senhor está colocando em minha mente que” ou “parece que o Senhor está nos mostrando” ou algo
equivalente a isso. Se for realmente uma revelação vinda do Senhor, até mesmo um prefácio simples encontrará a confirmação no coração do povo de Deus e trará os resultados que o Senhor deseja.318
Eis o problema: como saber ao certo qual profecia é digna de confiança?
Os evangélicos que defendem profecias extrabíblicas respondem que ela não oferece perigo, pois seu conteúdo não pode contradizer a Escritura — toda nova profecia deve ser
testada.319 Os McAlister informam que o Espírito Santo não acrescenta nova revelação às Escrituras:
317 BOICE, James M. et al. Reforma Hoje: Uma Convocação Feita Pelos Evangélicos Confessionais. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 104.
318 Cf. GRUDEM, 2004, p. 289. Grifo nosso.
Profecia não nos assusta, pois cremos que é o mesmo Deus quem fala por meio de alguém cheio do Espírito Santo, e jamais poderá contradizer o que ele mesmo falou por meio dos autores das Sagradas Letras. Se houver divergência, certamente a falha parte de nós e não dos autores da Bíblia, pois não cremos que Deus acrescenta nova revelação às Escrituras, as quais em si são suficientes [...].320
Na prática, isso é complicado e há risco das novas revelações serem acolhidas como iguais ou superiores às Escrituras. Os próprios McAlister admitem essa possibilidade:
Todavia, afirmar que todos observam as Escrituras com esse rigor seria um erro. Há muitos — especialmente entre os neopentecostais — que levam ao extremo essa abertura para as coisas novas que Deus possa fazer. Chegam a dizer que Deus pode até nos mostrar revelações novas desde que não sejam contraditórias às Escrituras. Em outras palavras, desde que a Bíblia nada fale a seu respeito, não são
necessariamente antibíblicas. Mas esse é um terreno minado e perigoso.321
Retornando à analogia de Lewis, será que isso se integra ao todo da teologia reformada? Une? Ajuda a remover dificuldades dos demais pontos? O que deve fazer a moça que ouve
do “profeta” que “o Senhor está dizendo” que ela deve se casar com o Osório?322 A CFW
responde a essa questão muito bem, informando que, em determinadas “circunstâncias”, o
melhor é usar a “luz da natureza e da prudência cristã”,323 quer dizer, é mais sensato a moça
checar se o Osório é um homem de Deus; se ela o ama; se ele a ama, se os pais de ambos concordam com a união e se há condições econômico-financeiras para o casamento. Não é necessária uma profecia extrabíblica para isso.
Resumindo, acreditar em profecias extrabíblicas abre caminho para a insegurança quanto à direção de Deus, para o acréscimo de doutrinas estranhas e até contrárias à Bíblia, para a desvalorização do uso da Escritura como regra única de fé e prática (a palavra final, nas controvérsias, vem da Sagrada Tradição ou das novas revelações?) e para a possibilidade de deturpação do evangelho, do culto e da santidade prática.
Uma vez que, biblicamente, revelação é uma palavra infalível de Deus, conclui-se que o Espírito Santo não concede novas revelações. Crer e viver à luz dessa verdade produz quatro resultados excelentes.
1. Segurança doutrinária. Nossa fé e prática passam a se basear não em tradições ou experiências subjetivas, e sim na Palavra de Deus.
2. Valorização do uso da Bíblia. Recorremos ao AT e NT como fontes únicas de instrução, fortalecimento e santificação. A palavra final, em qualquer
controvérsia, passa a ser a da Sagrada Escritura.324
3. Pureza do evangelho e do culto. A pregação e a adoração da igreja são purificados da “Sagrada Tradição” da ICAR e das “novas revelações” dos entusiastas contemporâneos. É incluído no culto apenas o que é biblicamente prescrito. 4. Maturidade. Alimentados pela doutrina sadia, deixamos de ser “como meninos,
agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina”; não mais somos presas da “artimanha dos homens” e da “astúcia com que
320 MCALISTER; MCALISTER, op. cit., p. 66-67.
321 Ibid., p. 67. Os McAlister (ibid., loc. cit.) listam algumas crenças e práticas abraçadas por neopentecostais, a partir de supostas novas revelações do Espírito, e.g., relacionados à guerra espiritual (hierarquias
demoníacas, mapeamento espiritual), terapias de regressão e quebra de maldições e agendas apocalípticas.
322 ROBERTSON (op. cit., p. 97-135) demonstra que, em determinadas situações, exercitar esse tipo de avaliação é virtualmente impossível.
323 ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER, CFW, 1.6, in: BEHR, p. 1994.
induzem ao erro” (Ef 4.14). Enfim, somos feitos discípulos maduros de Jesus Cristo.
Deus não emudeceu. Ele continua criando, provendo e organizando por meio de sua Palavra profética. Esta Palavra nos foi dada, completa, nas Escrituras, de modo que não precisamos de profecias extrabíblicas. Ouvimos a voz de Deus quanto lemos, estudamos e meditamos nas “Sagradas Letras” (2Tm 3.15). Além disso, Deus fala conosco no ensino e na pregação zelosa e fiel. O Espírito, que inspirou os autores bíblicos, ilumina nosso entendimento e transpõe a revelação escrita nas páginas da Escritura para nosso coração nos instruindo, repreendendo, corrigindo e educando na justiça, fazendo de nós cristãos “perfeitos e perfeitamente habilitados para toda boa obra” (Sl 40.6-8; 2Tm 3.16-17).