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CAPÍTULO 3 – ARGUMENTAÇÃO NAS APS

3.3 OS VALORES NAS APS

Perelman, no Império Retórico, buscou uma lógica do juízo de valores, a fim de responder a esses questionamentos. Esses questionamentos, também foram associados à Olbrechts-Tyteca, quando Perelman continuou buscando outro paradigma que não as normas jurídicas, no Tratado da Argumentação, para dar legitimidade ao sistema jurídico, estabelecendo os valores compartilhados por membros de determinada comunidade histórica como seu fundamento. Os autores do Tratado não tomam como ponto de partida problemas linguísticos ou literários, mas um problema filosófico relacionado à fundamentação dos juízos de valor. Podemos inserir nos juízos de valor representações mútuas que se fazem uns dos outros, os estereótipos, assim como os valores culturais, em que se dão as trocas comunicativas. Isso porque a partilha de valores é fundamental para se obter o retrato de uma comunidade128, de um auditório. O Direito também é constituído de valores, segundo Déborah Duprat (Procuradora-Geral da República):

Então, o Direito anterior à Constituição [...] trabalhava com classificações binárias. Era de um lado homem, de outro, mulher. Homem heterossexual, mulher de um lado; de um lado, branco, do outro lado, negros, índios; de um lado, adulto, de outro lado, criança, adolescente, idosos; de um lado, são, de outro, doente; de um lado proprietário, de outro, despossuído. A esse primeiro grupo, ele deu um valor positivo e a esse segundo grupo, um valor negativo (STF, 2010, n.d).

Esses valores continuam sendo propagados no interior de nossa sociedade, mesmo havendo novos valores inseridos pela Constituição de 1988. Nesse sentido, dispõe Luis Inácio Lucena Adams (Advogado-Geral Da União):

A Constituição Federal de 88, preambularmente, exaltou a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos. Logo adiante, estabeleceu a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; a erradicação da marginalização e a redução das desigualdades sociais como três das vontades fundamentais que deverão inspirar a atuação do Estado brasileiro. Inevitável a constatação de que, ao se apoiar nos valores de fraternidade, pluralismo, igualdade e justiça e elencar os objetivos fundamentais a serem perseguidos pela República Federativa do Brasil, o Constituinte verbalizou, de maneira contundente, o inconformismo da Nação com a perpetuação das desigualdades derivadas da cultura do preconceito racial. A Constituição Federal exigiu, pois, que evoluíssemos

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de uma realidade estática, marcada pela ineficácia das garantias da igualdade formal, em direção de um estado de coisas mais dinâmico, democrático e plural, diferente daquele ideal que se usou chamar de igualdade material - e acredito que a vice- Procuradora, Doutora Deborah Duprat, levantou muito bem o debate sobre isso.

Nesse sentido, percebemos que há valores ainda na nossa doxa, valores tradicionais, que não representam os valores democráticos. Nesse sentido, a partilha de valores permite, assim, a adesão ou não a uma perspectiva proposta em argumentação ou deliberação pelas trocas comunicativas, que permitem o reconhecimento ou não desses valores entre os oradores/interlocutores e a identificação com os valores antes e pós Constituição. No nosso caso, temos dois pólos de valores possibilitando dois discursos: pró-vida e pró-escolha, identificando-se com os valores inseridos no Direito.

Compreendemos que a necessidade de atualização dos valores, modificação da doxa, se faz também por este prisma e pode ser mobilizada pela AP. É por isso que Bohman (2009) afirma que é um diálogo com objetivo particular, tendo em vista os objetivos de cada expositor, que na AP busca-se produzir justificativas e informações para a demanda que o relator define na decisão de instaurar a AP.

Portanto, ao inserir esses valores nas exposições, constituem valores concretos, que buscam apresentar como se abstratos fossem com a intenção de conquistar os auditórios possíveis. Por isso, os elementos dóxicos (estereótipos, clichês, lugares comuns etc..) são tomados pelos sujeitos (oradores e interlocutores) como valores que consolidam suas perspectivas e que fundamentam suas razões transformando-os em valores concretos, representando os posicionamentos dos oradores/expositores e também dos interlocutores.

Compreendemos que em uma comunidade menor, como um bairro em uma cidade grande, é mais fácil para os seus habitantes reconhecer os assuntos que precisam ser levados à discussão pública a fim de se propor respostas, mudanças. Os valores compartilhados pela comunidade estabelecem os assuntos mais urgentes, necessários e úteis a serem discutidos, determinando uma ordem para votação e decisão. Os valores, assim, fundamentam as escolhas, pois, segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca (2000, p. 84),

Os valores intervêm, num dado momento, em todas as argumentações [...]. Mas, nos campos jurídico, político, filosófico os valores intervêm como base de argumentação ao longo de todo o desenvolvimento. Recorre-se a eles para motivar o ouvinte a fazer certas escolhas em vez de outras e, sobretudo, para justificar estas, de modo que se tornem aceitáveis e aprovadas por outrem.

A argumentação, durante a deliberação, permite o conhecimento das razões propostas em cada um dos problemas a serem solucionados e para a escolha permite a justificação ao se definir por um ou por outro projeto apresentado e a identificação dos valores que a subsidiam.

Ainda que a justificação não seja o fim da deliberação, a sua existência não elimina o caráter deliberativo. Nesse ponto, a questão dos juízos de valor passa a ser de suma importância, conforme prevê Meyer (2010), pois fazem a ponte entre as esferas da atividade com o direito, a economia, a política ou a religião. “Os valores reportam a ação individual, com muitas motivações implícitas, algumas vezes inconscientes, mas ainda determinantes” (MEYER, 2010, p. 215)129.

A missão dos valores para estabelecer a ligação entre as esferas somente poderá ocorrer se houver interlocutores representando determinadas perspectivas divergentes ou convergentes, mas cuja finalidade é permitir o diálogo e as alterações de perspectivas ou tomadas de posição. Por isso, as motivações são importantes dentro de uma democracia participativa, que deve ser garantida pelo princípio da participação popular. Nesse sentido, a participação das pessoas, associações, através de audiências e consultas públicas tem se multiplicado fruto de uma demanda da sociedade em se organizar e participar nas questões de saúde, educação, moradia e segurança.

Várias leis seguiram o mesmo caminho, prevendo que para a legitimidade, moralidade e transparência deveria constar o princípio da participação popular. Tal fato decorre da democracia tal como explicitada por Bobbio (1998. p. 24): “sistema de poder no qual as decisões que interessam a todos […] são tomadas por todos os membros que integram uma coletividade.”

Não podemos esquecer que são previstas várias formas de atuação do cidadão na condução política e administrativa do Estado, como no caso do nosso objeto de pesquisa, tanto no âmbito da participação legislativa, como da participação na Jurisdição Constitucional. Essa prática resultou na abertura dos processos formais de controle de constitucionalidade, amplificando a participação da sociedade civil, com o objetivo de subsidiar informações acerca de matéria ou circunstâncias de fato aos ministros julgadores, ou seja, elementos extrajurídicos.

A própria natureza da deliberação e da argumentação se opõe à necessidade e à evidência, pois não se delibera quando a solução é necessária e não se argumenta contra a evidência. O campo da argumentação é a do verossímil, do plausível, do provável, na medida que este último escapa às certezas do cálculo (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2000, p. 1).

Os assuntos discutidos nas AP escapam às certezas do cálculo; disso não temos dúvidas. Percebemos que a AP se enquadra tanto nos conceitos de deliberação como no de

129Tradução nossa do original em francês: “Les valeurs rendent compte de l’action individuelle, como autant de motivation simplicites, parfois inconscientes, mais toujours agissantes”.

argumentação e sua necessidade vem exatamente da não evidência a respeito dos assuntos a serem deliberados, como assuntos particulares, nas exposições realizadas. Os valores movimentam a constituição da argumentação na AP, bem como as dimensões argumentativas com o fito de alcançar adesão, como veremos nos próximos itens

3.4 Operações retóricas e dimensões argumentativas na Audiência Pública

Inicialmente, ressaltamos que a divisão utilizada, também entendida como atos, é apenas didática, pois as operações retóricas, que construíram as dimensões da argumentação ou vice e versa, estão envolvidas na produção da argumentação, pois, segundo Barthes “há que se insistir na natureza ativa, transitiva, programática, operatória dessas divisões” (2001, p. 49), pois se tratam de atos de uma estruturação retórica progressiva, indicadas linguisticamente por formas verbais, o que também reforça a referência à ação/atos.

Desses atos retóricos, os três primeiros são considerados os mais importantes (Inventio, Dispositio, Elocutio), cada qual suporta uma rede ampla e sútil de noções e os três alimentaram a retórica para além da antiguidade. Os dois últimos (Actio e Memoria) tornaram-se menos significativos quando a deliberação, a partir de quando a oratória, o discurso falado, deixou de ser o único objeto da retórica, que passou a enfocar, quase exclusivamente, os textos escritos. Atualmente, essa perspectiva está se alterando, dependendo do gênero analisado, como na presente pesquisa, pois na AP a situação discursiva passa pela oralidade. Nesse sentido, a importância do Actio e da Memoria são indiscutíveis para nosso objeto de análise. A Actio remete à dramaturgia das palavras, a um ritual, bastante evidente na AP, inclusive decorrente do lugar discursivo o próprio discurso jurídico e de suas

praxis; a Memoria postula níveis dos estereótipos, um intertextual fixo, transmitido

mecanicamente (BARTHES, 2001). Os estereótipos, um dos elementos dóxicos destacados por Amossy (2006; 2010), cristalizados no seio social, são constantemente significados metaforicamente pelos indivíduos daquela sociedade, sem os “lugares comuns” impossível significar, faz parte do construto da doxa no discurso.

Segundo Barthes (2001, p. 51), “a inventio remete menos a uma invenção (dos argumentos) do que a uma descoberta: tudo já existe, basta reencontrá-lo: é uma noção mais ‘extrativa’ do que ‘criativa’. Isso é corroborado pela designação de um ‘lugar’ (a Tópica), de onde se podem extrair os argumentos e aonde se deve levá-los”. Essa definição de Inventio coaduna com o que observamos nas APs, cuja extração de argumentos transpõe do mundo jurídico para o cotidiano, construído por argumentos do mundo científico (biomédico),

dogmático (religioso), fundados no fato real vivenciado pelos médicos, pacientes, familiares dos pacientes etc., sujeitos reais envolvidos na problemática que as APs trazem através do despacho inicial para a sua realização.

Na questão da temática, o lugar comum, inicialmente indicado pela definição do que seria vida e qual seria protegida juridicamente, encontrou vazão no universo dos direitos fundamentais da mulher, cujo papel jurídico de igualdade e isonomia fixou-se a partir da Constituição, a qual mudou o paradigma jurídico, refletindo e refratando o paradigma social já existente, dessa forma, trazendo novos elementos a serem utilizados como fundamentadores na argumentação jurídica. Assim, os atos ou peças se constituirão como inventio na situação comunicativa e para cada uma delas teremos topoi específicos. A stasis é o fundamento das APs, cujo papel seria o de realizar perguntas, buscando esclarecer os principais pontos de um assunto. O procedimento da heurística retórica consistia na prática de fazer perguntas relevantes para esclarecer os principais pontos de um assunto e reconhecer o ponto de decisão (judicatio) da causa (CROWLEY; HAWHEE, 2008). Inserimos, então, a decisão inicial para realização da audiência no mecanismo da inventio. Para Grácio (2010, p. 108), a stasis:

“relaciona-se com a elaboração das questões através das quais um assunto em questão pode

ser argumentativamente instituído e estreitado de forma a focar-se em aspectos específicos e atingir um determinado cerne.”.

A elaboração dessas questões visa permitir o discurso e o contradiscurso, o que, para Grácio (2010, p. 24), não pode se afastar da noção de stasis devido à interação argumentativa:

A noção de stasis torna-se, aqui, central: uma argumentação não se define pela existência de uma iniciativa discursiva (que, no entanto, pressupõe), mas pelo facto do confronto de um discurso por um contra-discurso polarizar a interacção numa questão, ou ponto de desacordo tematicamente circunscrito, a debater.

Nesses termos, o processo discursivo estará embasado em questões propostas pelo ministro relator ou Presidente do STF, fixadas no despacho inicial em que se instaura a AP, que serão utilizadas para definir o questionamento. A AP é um instrumento que negocia a diferença de valores através dos proferimentos realizados na AP. Nesse ponto, passamos para a dispositio.

A dispositio ou taxis é o segundo elemento observado para a construção da arte

retórica. Ficaria entre a res (inventio) e a verba (elocutio), pois diz respeito tanto ao material como às formas discursivas. Para Meyer (2014), a função seria a de expor a investigação proporcionada pela invenção, que seria “[...] o arranjo e a hierarquização desse material [repertório temático em que se há de buscar as provas e o material, necessário à consecução

dos propósitos do produtor – inventio]” (MEYER, 2007, p. 11). Reconhecemos que as ideias a serem defendidas por cada expositor estariam inseridas na dispositio, mas o modo como foi realizado o entrelaçamento das informações ocorre na elocutio

A elocutio tem a função de transformar os argumentos em palavras e, por isso, erroneamente, essa operação foi reduzida, muitas vezes, apenas às figuras de retórica. Essa operação surgiu quando Górgias quis aplicar critérios estéticos, vindos da poesia, à prosa, conforme relata Barthes (2001, p. 88),

[...] define um campo que abrange toda a linguagem: inclui ao mesmo tempo a nossa gramática (até o âmago da Idade Média) e aquilo a que chamamos a dicção, o teatro da voz. A melhor tradução de Elocutio talvez seja, não elocução (demasiado restrita), mas enunciação, ou, mais estritamente, locução (atividade locutória).

As classificações internas da Elocutio foram numerosas, tanto por causa das várias traduções e adaptações para o grego, latim e outras línguas românicas, quanto pelas reinvenções terminológicas. Barthes (2001; 2002) sintetiza a grade de classificação da

Elocutio e a define como a oposição entre o paradigma e o sintagma: 1) escolher as palavras

(electio, eglogè); 2) reuni-las (synthesis, compositio). Além dessa questão, nos estudos sobre a retórica, os ornamentos foram definidos em grupos binários. No entanto, essa classificação se mostra contraditória quando se comparam estudiosos do assunto. Por exemplo, a hipérbole é um tropo para Lamy e uma figura de pensamento para Cícero, como coloca Barthes (2001; 2002). Insta esclarecer que a Elocutio não deve ser vista apenas como relacionada às figuras, apesar de elas estarem inseridas nela e servirem como argumentos. Para Barthes (1975, p. 89), “A melhor tradução de Elocutio talvez não seja elocução (demasiado restrita), mas

enunciação, ou, mais estritamente, locução (atividade locutória)”.

Representa, assim, a etapa linguística, quando se elabora a construção do discurso, a argumentação através de palavras, frases e orações. Em sentido técnico, é a redação do discurso, segundo Reboul (2004, p. 61; 2004, p. 247), e que permite as escolhas lexicais, gramaticais e semânticas para sua construção. Ela nos permite também analisar as estratégias realizadas pelos expositores nas APs, como por exemplo, na utilização de tropos, como a metáfora e a metonímia. Os tropos ou “lugares comuns” eram uma lista em que se buscavam os elementos para a construção do discurso. Além de permitir a análise de reconhecimento e identificação entre os expositores dos discursos: pró-vida e pró-escolha.

Como podemos observar, desde a antiguidade, as figuras se estabelecem como primordiais ao discurso com o objetivo de alcançar o auditório. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2000) compreendiam que o objetivo das figuras, em geral, era trazer para o discurso um

elemento que seria atenuado ou reforçado, fazendo-o mais essencial do que em situações nas quais não se utilizasse tal estratégia e destacam o papel da função argumentativa existente nas figuras, sendo importante “[...] mostrar em que e como o emprego de algumas figuras determinadas se explica pelas necessidades da argumentação” (PERELMAN; OLBRECHTYS-TYTECA, 2000, p. 190).

A quarta operação da antiga retórica – a actio (agereetpronuntiare) – é a etapa que compreende o trabalho de exposição e manifestação do discurso que, segundo Barthes (2002, p. 562), significa: “representar o discurso como um ator: gestos e dicção”130.

Ainda conforme Barthes (2001, p. 50), a Actio, assim como a Memoria, mesmo tendo sido deixada de lado durante um tempo, mostra-se essencial para as APs em que a oralidade conduz os procedimentos “porque [no caso da actio] remete a uma dramaturgia da palavra (isto é, a uma histeria e a um ritual)”. Já para Reboul (2004, p. 44), Actio “é a proferição efetiva do discurso, com tudo que ele pode implicar em termos de efeito de voz, mímicas e gestos”. Podemos considerar os slides, as fotos, apresentados como performativo do logos e atuando como actio, inclusive o tom de voz, porque, segundo Meyer (2007, p. 120),

A força de uma imagem deve-se a esse fenômeno de atração e repulsão que ela desperta de modo quase instantâneo, mecânico. Um jogo sobre identidade e diferença, portanto uma manipulação daquilo que somos, que queremos e podemos ser. É esse o segredo de seu poder retórico: ela influencia por força de sugestão, cria ou anula valores que são nossos, ou os quais nos pomos. Mas também consegue fazer agir, induzindo a conclusões, como comprar aquilo que nos querem vender, acreditar naquilo que querem nos induzir a pensar, e assim por diante.

E decidindo da forma, como acreditamos ser a melhor forma, já na composição do discurso, a memoria é trabalhada com base na escrita do discurso como preparação do ato de proferir o texto discursivo. E, para Barthes (2002, p. 562), memoria significa, especificamente, “recourir à la mémoire”.

Como afirmado, na atualidade, a democracia em desenvolvimento no Brasil, está ampliando os espaços discursivos, promovendo a necessidade da produção oral, o que reforça a actio e memoria como necessárias para a pesquisa discursiva.

O ato inicial somente ocorre com a fixação da stasis, pois, segundo Meyer (2007, p. 25):

[...] o orador e o auditório negociam sua diferença ou sua distancia, se preferirmos, comunicando-a reciprocamente. O que constitui a diferença, e mesmo o seu diferencial, é certamente múltiplo, e pode ser social, político, ético, ideológico, intelectual – sabe-se lá o que mais – mas uma coisa é certa: se não houvesse um

problema, uma pergunta que os separasse, não haveria debate entre eles, nem mesmo discussão (Grifos nossos).

Ou seja, apenas se ocorrer o problema, a pergunta, o debate seria instaurado, temos, assim, na AP, a construção de identificações ou distâncias para o público, mas, com certeza, apresentando diferenças segundo a polaridade do discurso e as perspectivas apresentadas. Por exemplo, quando o direito busca fixar o início da vida, precisa recorrer a outras áreas, como a biológica, e surgem também questões religiosas. Cada uma dessas áreas produziu e produz saberes que poderiam ser utilizadas com o fim argumentativo, permitindo o embate131.

Sabemos que, inicialmente, em relação ao processo do qual emergem as APs, a participação efetiva dos sujeitos na interação verbal por meio dos proferimentos de cada parte somente seria possível em momento posterior, e os participantes seriam apenas as partes processuais habilitadas para apresentar seus memoriais. A AP surge como procedimento em que se dá voz aos interessados, pois o Regimento Interno da Câmara dos Deputados, que regulou as primeiras audiências no STF, até regulamentação do RISTF, definia que os procedimentos deveriam ser orais. Segundo Rais (2012, p. 56)

[...] a própria [AP] já limitar os participantes dessa audiência às pessoas com experiência e autoridade na matéria, aqui a legislação descarta a manifestação de meros interessados, como consta na rotina de outros diplomas legais que tratam da audiência pública, dessa forma é possível concluir que nas Leis n. 9.868/99 e n. 9.882/99 os mecanismos de informação do Supremo Tribunal Federal possuem a finalidade de instruir os julgadores e, ao menos nessa previsão, não é possível constatar a participação da sociedade no exercício da democracia, mas, sim, no exercício de auxiliares da Corte.

Nesse ponto, compreendemos que a AP é um ato processual, com construção deliberativa regulamentada, a qual permite a participação de parcelas da sociedade que representa grupos sociais interessados, não sendo possível uma abertura ampla e irrestrita de participantes pelo próprio lugar discursivo – esfera jurídica, e, mesmo no exercício de auxiliares da Corte, as exposições realizadas fundamentam e fomentam a doxa na decisão jurídica, bem como permite a visibilidade para toda a sociedade, mesmo não dando voz a todos na sociedade.

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Tal perspectiva pode ser percebida quando da fala do Presidente e Relator “Muito embora creia que esse tema será melhor esclarecido quando ouvirmos o segmento técnico, dou a palavra, no caso, ao Doutor Paulo Silveira Martins Leão Júnior ou ao Padre Luiz Antônio Bento para, querendo, esclarecer o que versado pelo Subprocurador-Geral da República” (STF, 2008, p. 15), percebido posteriormente pela sua fala também “Cumprimento o ilustre Professor Doutor Rodolfo Acatauassú Nunes pela fidelidade intelectual. Passamos do campo religioso para o campo técnico-científico. Agradeço o comparecimento de Sua Senhoria e os