CAPÍTULO 3 VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER EM SÃO BORJA
3.2 São Borja: um contexto marcado pela violência contra a mulher
3.2.2 Outros casos de violência contra a mulher
Além da história de Maria do Carmo, no decorrer das investigações que realizei, me defrontei com uma série de outros casos de violência contra a mulher, alguns resgatados das notas informativas e de notícias do jornal Folha de São Borja e alguns, sobre os quais obtive informações em conversas informais com moradores mais antigos da cidade e com alun@s do IFF.
Entre esses casos de feminicídio, o que mais me chamou a atenção foi o de Marcele, 26 anos, assassinada pelo ex-namorado, um açougueiro de 28 anos, em maio de 2007. Ele desferiu vinte e seis facadas na mulher, usando uma faca própria para cortes de carne em açougue.
O mais instigante é que Marcele foi assassinada em pleno ponto público, na Praça da Lagoa, e ninguém conseguiu salvá-la, devido à rapidez e precisão dos golpes desferidos. O caso esteve em evidência nos meses de julho, agosto e setembro de 2010, por ter ido a júri popular, quando o homem foi condenado a vinte e nove anos de prisão (FOLHA DE SÃO BORJA, 23 de set. de 2010, p. 15).
No entanto, como já exposto no Capítulo 1 deste trabalho, é normal os assassinos cumprirem somente parte da pena em regime fechado. A redução ocorre porque os criminosos não possuem antecedentes criminais, apresentam bom comportamento, entre outros, e, em pouco tempo, voltam a ter uma vida normal.
Há uma certa semelhança entre esse caso e o de Maria do Carmo, no que se refere ao feminicídio motivado por ciúmes, constituindo um crime do tipo passional, à idade das duas mulheres e aos locais dos crimes serem espaços públicos abertos. A mídia local não estabeleceu essa relação, entretanto, penso que seja pertinente mencionar tal observação, pois isso pode suscitar novos estudos, em outras áreas de conhecimento, como direito, sociologia, antropologia, entre outros.
A fim de mostrar os números de registros de ocorrência de violência contra a mulher, em São Borja, utilizo os dados levantados por Carneiro e Fraga (2011) em
sua pesquisa que teve o propósito de mapear os Registros de Ocorrência e os Inquéritos Policiais, Processos e Sentenças Judiciais dos crimes enquadrados na Lei 11.340/06 - Maria da Penha, envolvendo mulheres vítimas de violência doméstica, nesse município. Essa pesquisa constitui o trabalho de conclusão de Carneiro, sob orientação da profesora Dr.ª Cristina Kologeski Fraga59, do curso de especialização em Políticas e Intervenção em Violência Intrafamiliar da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA).
A investigação foi realizada na Delegacia de Polícia e no Fórum da Comarca do Município, após autorização das instituições, conforme normas éticas da pesquisa documental de comprometimento sobre o sigilo das identidades dos sujeitos. Quantitativamente, as pesquisadoras produziram um levantamento estatístico das denúncias recebidas pelo Posto da Mulher, na Delegacia de Polícia, e apresentaram os crimes de maior proporção, processos e sentenças envolvendo mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, referentes ao período de janeiro de 2009 a dezembro de 2010.
Em um primeiro momento, Carneiro e Fraga (2011) expuseram os dados obtidos no Posto da Mulher, cartório especial da Delegacia de Polícia de São Borja. Elas partiram do número total de ocorrências registradas pela Delegacia de Polícia e estreitaram a investigação para contabilizarem as ocorrências de violência doméstica e familiar contra a mulher. Após verificaram a quantidade de inquéritos que foram instaurados com base na Lei 11.340/06.
No Quadro 4, apresento a quantidade total de ocorrências, as ocorrências de violência contra a mulher no âmbito doméstico e familiar e a quantidade de inquéritos instaurados, em São Borja, nos anos de 2009 e 2010.
Ano Total de BOs Total de BOs de violência doméstica e familiar contra a mulher Total de Inquéritos instaurados conforme a Lei 11.340/06 2009 6.885 509 370 2010 8.191 559 240 Total 15.076 1.068 610
Quadro 4: BOs de violência doméstica e familiar contra a mulher e Inquéritos instaurados a partir da Lei 11.340/06.
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Professora Dr.ª em Serviço Social, pela Pontifícia Universidade Católica (PUCRS). Professora Adjunta do curso de Serviço Social da UNIPAMPA. Coordenadora do curso de especialização em Políticas e Intervenção em Violência Intrafamiliar, da UNIPAMPA.
Fonte: 1ª e 2ª Delegacias de Polícia de São Borja/RS. In: Carneiro e Fraga (2011), com adaptações.
Esses números apontam um registro significativo de ocorrências – ou BOs – sobre violência contra a mulher, no âmbito doméstico e familiar nos dois anos investigados. Vale lembrar que esses números representam apenas a violência que sai do ambiente privado e torna-se pública, pois muitas mulheres vítimas desse tipo de violência não têm coragem de registrar a ocorrência, por temerem as consequências do seu ato.
Em 2010, houve 50% a mais de registros de ocorrência de violência doméstica e familiar do que em 2009 e isso repercute em várias possibilidades de interpretação. A primeira é que esse índice representa um aumento de denúncias de mulheres que sofrem violência; a segunda possibilidade diz respeito ao aumento de agressões praticadas por homens contra suas companheiras; e, uma terceira hipótese está relacionada ao aumento de agressões e aumento de denúncias.
Outro ponto interessante a ser discutido é a queda de instauração de Inquéritos baseados na Lei 11.340/06, de 370 em 2009, para 240 em 2010. Considerando o aumento de registros de ocorrência entre esses dois anos, esses números indicam que 139 ocorrências não foram instauradas em 2009 e 319 também não resultaram em investigação em 2010.
Os casos não chegam a ser esclarecidos devido à renúncia das próprias vítimas em representarem contra seus agressores. Isso esclarece por que os agressores voltam a praticar esse tipo de delito, além de instigar questionamentos para se entender os motivos que levam as vítimas a não desejarem que seus agressores sejam responsabilizados pelos crimes que cometeram (CARNEIRO; FRAGA, 2011).
Considerando as relações de poder entre o homem e a mulher e a dominação do masculino sobre o feminino (macho x fêmea), é possível deduzir que as vítimas têm medo de dar prosseguimento aos trâmites legais que um BO desencadeia, pois há inúmeros casos em que as mulheres efetuam os registros e, ao mesmo tempo, afirmam que não querem representar contra seus agressores (CARNEIRO; FRAGA, 2011). Assim, o registro da ocorrência representa, para essas mulheres, apenas uma tentativa para controlar os atos de violência do seu agressor.
Dentre os tipos de crimes praticados contra as mulheres, no âmbito doméstico e familiar, encontram-se os de ameaça, lesão corporal, vias de fato60, injúria e outros, como os de desobediência à ordem judicial, calúnia, difamação, dano, perturbação da tranquilidade e tentativa de feminicídio. O levantamento realizado por Carneiro e Fraga (2011) considerou somente os Inquéritos Policiais instaurados, sendo que o número de crimes não equivale ao número de Inquéritos instaurados, pois um fato delituoso pode englobar mais de um crime.
No Quadro 5, apresento os números que indicam a quantidade de cada tipo de crime nos Inquéritos instaurados com base na Lei 11.340/06, em 2009 e 2010, na Delegacia de Polícia de São Borja.
Ano Ameaça Lesão
Corporal
Vias de Fato Injúria Outros
2009 215 131 27 26 61
2010 130 74 14 13 47
Total 345 205 41 39 108
Quadro 5: Tipos e quantidades de crimes verificados nos Inquéritos Policiais embasados na Lei 11.340/06.
Fonte: 1ª e 2ª Delegacias de Polícia de São Borja/RS. In: Carneiro e Fraga (2011), com adaptações.
Nos 370 Inquéritos instaurados em 2009, pode-se verificar a ocorrência de 460 crimes enquadrados na Lei Maria da Penha, ou seja, vários desses Inquéritos foram instaurados para investigação de mais de um crime. O que também é visível no ano de 2010, em que nos 240 Inquéritos instaurados são investigados 278 crimes.
Os crimes de maior incidência identificados nos referidos Inquéritos foram os de ameaça, sobrepostos aos de lesão corporal. Isso é um indicativo de que muitas mulheres, em São Borja, estão denunciando a violência psicológica em que se
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Trata-se de infração penal que ataca a incolumidade física, consubstanciada em atos de ataque ou violência contra pessoa, desde que não caracterizem lesões corporais. Vias de fato são todos os atos de provocação exercitados materialmente sobre a pessoa, ou contra a pessoa. Por exemplo: empurrar pessoas, sacudi-las, rasgar-lhes as roupas, puxar cabelo, dar-lhes socos ou pontapés, arremessar-lhes objetos, arrancar-lhes parte do vestuário, ou seja, toda a prática de ato agressivo de uma pessoa contra outra.
constitui a ameaça sofrida antes que essa violência se torne física, como é o caso da lesão corporal e das vias de fato.
A injúria, ou violência moral, ocupa o terceiro lugar na escala de ocorrências de crimes contra a mulher, conforme os Inquéritos investigados. O item Outros refere-se a diferentes tipos de crimes – citados nesta mesma subseção – de menor incidência e inclui até mesmo o crime de desobediência à ordem judicial.
Esse tipo de crime remete à medida protetiva prevista na Lei Maria da Penha de que o acusado deverá respeitar um limite mínimo de distância da denunciante. Isso ocorre porque houve um BO anterior, foi formalizada uma ação de proteção à denunciante e o acusado desrespeitou a ordem judicial.
Conforme Carneiro e Fraga (2011, p. 23), procedimentos policiais que ingressam na Vara Criminal do Fórum da Comarca Municipal passam a ser tratados como processos. Diante disso, as pesquisadoras contabilizaram os processos dos crimes previstos na Lei Maria da Penha, ativos e arquivados em 2009 e 2010, existentes na Vara Criminal do Fórum da Comarca de São Borja.
Em 2009, houve um número superior de ingresso de expedientes na Vara Criminal, do Fórum da Comarca de São Borja, aos de 2010, assim como o número de processos arquivados. No entanto, a quantidade de processos ativos em 2010 supera a de 2009. Comumente, o arquivamento de processos ocorre quando há acordo entre as partes ou desistência da ação pela vítima ou condenação, o que incide em compreender os processos ativos como em fase de instrução.
No Quadro 6, com base em Carneiro e Fraga (2011), apresento a quantidade total de processos da Vara Criminal referentes a crimes cujas penas estão previstas na Lei Maria da Penha, nos anos de 2009 e 2010, assim como a fragmentação desses números em processos ativos e processos arquivados.
Ano Processos verificados
na Vara Criminal conforme Lei 11.340/06
Processos ativos Processos arquivados
2009 433 103 330
2010 418 214 204
Total 851 317 534
Quadro 6: Quantidade de Processos baseados na Lei 11.340/06 – Vara Criminal de São Borja. Fonte: Fórum da Comarca de São Borja/RS. In: Carneiro e Fraga (2011), com adaptações.
O estudo de Carneiro e Fraga (2011) aponta que o percurso da denúncia de violência doméstica e familiar contra a mulher realizada na Delegacia de Polícia, muitas vezes, é interrompido e poucas chegam ao julgamento, repercutindo na impunidade dos agressores, uma vez que não houve sentenças com condenação nos anos investigados.
Esses dados levantados pelas pesquisadoras são considerados alarmantes para um município com o índice populacional como São Borja. Diante disso, a responsabilidade para prevenir e erradicar a violência doméstica e familiar não pode ser direcionada somente às autoridades judiciárias. É necessário muito mais do que (tentar) aplicar as normas de prevenção, erradicação e punição desse tipo de violência como está previsto na Lei Maria da Penha.
A promoção de políticas públicas efetivas no município que busquem atender integralmente a mulher vitimada e que estejam centradas no respeito aos direitos humanos, na capacitação profissional e inclusão social das mulheres menos favorecidas, pode corroborar com a extinção das desigualdades de gêneros e, consequentemente, com a diminuição da violência contra a mulher.