CAPÍTULO 1 – GÊNERO SOCIAl E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
1.1 Perspectivas sobre Gênero Social
1.1.1 Relações de poder e desigualdade de gênero
Como este estudo está centrado nas representações da violência contra a mulher, considero interessante citar Bourdieu (1995) sobre as questões do poder simbólico que se manifesta nas relações entre homens e mulheres no mundo social. Para esse sociólogo, mulheres e homens trazem consigo as marcas de uma ideologia dominante e podem e devem resistir a isso, utilizando inclusive o discurso para se manifestar e para provocar mudanças ideológicas e sociais.
Entendo que seja importante, também, pontuar algumas questões da teoria de Foucault12 (1988) sobre poder. Para esse estudioso, é impossível compreender o fenômeno do poder sem considerar a realidade da organização social. Em uma sociedade cada vez mais complexa, o poder sempre aparece ligado a um perigo potencial, que frequentemente se materializa como violência, desde o constrangimento físico até as sutilezas contemporâneas do assédio moral, da violação da privacidade e do desrespeito às pessoas. Diante disso, o poder, como prática social, é uma forma de dominação.
Outro ponto abordado por Foucault (1988), que é fundamental a este estudo, diz respeito à relação entre linguagem e poder. A teoria foucaultiana permite entender o poder como algo construído nas interações sociais e nos discursos, por
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A abordagem de Foucault (1988) sobre poder possui grande respaldo nas diferentes áreas de conhecimento, especialmente quando o foco se centra em desigualdades sociais e em gênero social.
isso, para se compreender as relações de poder que se manifestam em uma determinada sociedade, é preciso investigar como isso ocorre discursivamente. Se o poder é algo construído nas interações sociais e nos discursos, então o poder constitui uma representação.
Sem se preocupar, necessariamente, em concordar com Bourdieu (1984) ou com Foucault (1988), Thompson (1990) estabelece a distinção entre poder e dominação. Para esse pesquisador, o poder está relacionado à capacidade de uma pessoa ou de um grupo de pessoas para poder fazer algo, enquanto a dominação é uma relação entre pessoas ou grupos de pessoas e ocorre quando uma pessoa ou um grupo se apropria ou expropria o poder – ou capacidade de – de outras pessoas e/ou outros grupos, de maneira desigual.
A fim de se compreender as estruturas objetivas que podem coagir a ação e a representação dos indivíduos - os agentes ou atores sociais – no mundo social, em relação a poder e dominação, Bourdieu (1995) apresenta três fundamentos básicos em sua teoria, que são o poder simbólico, o campo social e o habitus. Esses fundamentos são pertinentes a este estudo, no que tange às relações de poder entre homens e mulheres, ao contexto social e histórico em que essas relações se manifestam e às representações das manifestações de poder – dominação - no que se refere à violência doméstica e familiar.
O poder simbólico surge como todo o poder que consegue impor significações e legitimá-las. Os símbolos afirmam-se, assim, como instrumentos por excelência de integração social, tornando possível a reprodução da ordem estabelecida. É um poder invisível que só poder ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe são sujeitos ou mesmo que o exercem (BOURDIEU, 1995, p. 7-8).
O campo surge como uma configuração de relações socialmente distribuídas. Através da distribuição de diversas formas de capital – no caso da cultura, o capital simbólico – os agentes ou atores participantes em cada campo são munidos com as capacidades adequadas ao desempenho das funções e à prática das lutas que o atravessam. As relações existentes no interior de cada campo definem-se objetivamente, independente da consciência humana. Na estrutura objetiva do campo (hierarquia de posições, tradições, instituições e história) os indivíduos adquirem um corpo de disposições, que lhes permite agir de acordo com as
possibilidades existentes no interior dessa estrutura objetiva: o habitus13.
O campo de produção simbólica é um microcosmos da luta simbólica entre as classes: é ao servirem os seus interesses na luta interna do campo de produção (e só nesta medida) que os produtores servem aos interesses dos grupos exteriores do campo de produção (BOURDIEU, 1995, p. 12).
O habitus funciona como uma força conservadora no interior da ordem social. Expressa o produto da inscrição no corpo da relação de dominação. Mantém a pessoa dominada ou dominante em suas ideias, percepções, práticas ou ações, dentro dos padrões de comportamento e de autocompreensão atribuídos pelo processo de socialização do sistema de dominação (BOURDIEU, 1995, p. 8). O habitus contribui como elemento conservador da ordem social, pois mantém os indivíduos habituados a estilos de vida, costumes, tradições, valores, (in)verdades, entre outros.
Bourdieu (1995) também aborda a violência simbólica. Essa violência existe na sociedade, mas a maioria das pessoas não possui consciência sobre a sua existência. Muitas vezes, em uma relação de dominação do homem sobre a mulher, a dominada não se considera vítima, e o dominante não se considera agressor.
Uma das questões em que Bourdieu (1995) centraliza seus estudos é a análise sobre como os agentes ou atores sociais incorporam a estrutura social, ao mesmo tempo em que a produzem, legitimam e reproduzem. Nessa perspectiva sociológica, a relação de força material e simbólica entre os sexos é refletida nas instituições, como família, escola, Estado, que ainda estão presentes no inconsciente coletivo, no que diz respeito ao patriarcado como ideologia dominante.
Quanto às representações da diferenciação social entre mulheres e homens – ou feminino e masculino - manifestadas nas práticas culturais sobre as formas de exercício de poder, destaco a concepção adotada e promovida por Foucault (1988) de que o poder implica em uma construção social e cultural, pois o poder é um conjunto de práticas sociais e discursos construídos historicamente que disciplinam o corpo e a mente das pessoas e dos grupos e implica sobre as ações dos sujeitos
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O termo habitus de Bourdieu (1995) estabelece estreita relação com o de teia dialógica de Bakhtin (1997). Ambos remetem ao senso comum, devido a sua pluralidade discursiva.
que o exercem.
Essa concepção contribui para o debate sobre as relações de gênero e remete à interpretação dessas relações sob a forma de redes tensas e continuamente ativas, em que se possibilita a capacidade de exercer o poder em múltiplas instâncias e intensidades diversas (LOURO, 1997).
Bourdieu (1995) não utiliza a expressão gênero14 para tratar dos problemas relativos às desigualdades – ou diferenças - entre homens e mulheres, mas utiliza os termos feminino e masculino, mulher e homem. A diferença entre o significado de gênero e sexo é abordada por Scott (1995), e será apresentada ainda neste capítulo, quando tratarei das representações de feminino e de masculino e da violência contra a mulher.
Na perspectiva de Bourdieu (1995), a sociedade vem sendo conduzida em uma esteira de relações binárias em que a mulher, corriqueiramente, ocupa o espaço subordinado ao homem; e o homem é a figura principal, considerado capaz de ocupar lugares não permitidos à mulher. “Como estamos incluídos, como homem ou mulher, no próprio objeto que nos esforçamos por apreender, incorporamos, sob forma de esquemas inconscientes de percepção e de apreciação, as estruturas históricas da ordem masculina” (p. 31).
A construção social das diferenças entre mulheres e homens é decorrente do princípio da visão social que divide arbitrariamente o mundo. Esse princípio funciona como um esquema de percepção, pensamento e ação que propõe a divisão entre os sexos como algo normal, natural e inevitável, pois está na “ordem das coisas”. A visão androcêntrica, que considera o ser humano do sexo masculino como o centro do universo, incorporada na sociedade, legitimou a ordem masculina. Essa ordem funciona como uma grande máquina simbólica, que ratifica a dominação masculina sobre a qual se alicerça (BOURDIEU, 1995, p. 17 e 18).
A estrutura patriarcal provém dessa realidade histórica de dominação masculina e, sem dúvida, é passível de transformação. A história de re(criação) continuada das estruturas objetivas e subjetivas da dominação masculina, que se realiza permanentemente, desde que existem mulheres e homens, e por meio da qual a ordem masculina se vê continuamente reproduzida através dos tempos, pode
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Gênero é um termo que possui vários significados. No sentido de desigualdades entre feminino e masculino foi concebido e adotado algum tempo após o desenvolvimento dos estudos de Bourdieu (1984) e teve sua origem nas discussões e estudos do Movimento Feminista.
e deve ser mudada e, principalmente, recriada (BOURDIEU, 1995).
A dominação masculina não está somente dentro dos lares, ela pode ser percebida em diversos aspectos e instâncias da sociedade, por exemplo, o menor salário atribuído às mulheres em determinadas profissões, a exploração do corpo feminino na mídia, a atribuição de algumas profissões aos homens e de outras às mulheres, a incumbência de atividades domésticas e de obrigações com os filhos destinadas às mulheres, entre outras.
Nessa relação de dominação, o poder apresenta duas faces, a da potência e a da impotência (SAFFIOTI, 2004). As mulheres estão familiarizadas e algumas condicionadas à face da impotência, enquanto o homem faz uso da face da potência e é nisso que ele acredita. No entanto, ao expressar seu poder sobre a mulher, ele demonstra sua impotência para lidar com diferentes problemas, em diferentes situações, que não pela manifestação de poder.
As relações hierarquizadas de poder entre mulheres e homens e suas consequentes relações de dominação, constituídas ao longo da história como representações sociais e culturais, motivaram a desacomodação do grupo social menos privilegiado – o das mulheres - em busca de mudanças na ideologia predominante. Essa desacomodação provocou uma verdadeira revolução cultural em diversos países, o feminismo, que tinha por meta a igualdade entre mulheres e homens. Atualmente, esse movimento idealiza a relação entre homens e mulheres sem manifestações de poder - dominação - e sugere o respeito às diferenças existentes entre feminilidade e masculinidade, desde que essas diferenças não sejam fator de preconceito contra as mulheres, ou seja, objetiva o fim das desigualdades de gênero.