4. ESPAÇOS EDIFICADOS, PROFANOS E RITUAIS, EM TERREIROS DE
4.2. Análise dos espaços edificados, profanos e rituais, em terreiros de candomblé
4.2.8. Outros espaços edificados, profanos e rituais
Outros espaços edificados, profanos e rituais, foram identificados pela pesquisa e classificados como demais espaços (vide gráfico 10). Dentro desse universo temos locais considerados públicos e privados, mas que foram unidos aqui por representarem um conjunto diversificado de usos. Ressalvamos apenas a presença das cozinhas de santo e as de branco, descritas no início deste capítulo e com função marcante para o terreiro. Sua frequência foi alta, como veremos a seguir.
Com o valor de 0,9% (1 cômodo apenas), temos os seguintes espaços, respectivamente: área de serviço, lavanderia, casa para receber visitantes, piscina, capela, congá, espaço para ebós e quarto com quadro de santo. Os quatro primeiros são classificados como áreas públicas pelo modelo adotado e se destinam a serviços de limpeza, recepção de pessoas e recreação. O congá e a capela se configuram como espaços privados ligados à religiosidade católica e umbandista; e o espaço para ebós como um espaço misto. Respectivamente, os locais foram identificados no Terreiro Ilê Nidê, no Terreiro Ilê Ogun Anaeji Igbele Ni Oman, no Ilê Asé de Yá Atará Magbá, no Terreiro da Boa Viagem, no Ilê Ti Oxum Omi Ia Ilá Oba Ti Odou Ti Ogum Alé, no Ilê Asé Ode Iulê e no Terreiro Ilê Nidê.
O espaço para ebó tem um caráter ambíguo. Apesar de ser um local onde rituais são feitos, permitindo o trânsito de adeptos e não iniciados, ele tem uma natureza que transita entre o público e privado. Conforme o modelo que adotamos, o que caracteriza um local como público é a possibilidade de circulação de não iniciados no candomblé, como os consulentes. Já o privado é restrito a membros da casa. No caso do espaço para ebó, sua natureza é determinada por quem o ocupa em um dado momento, o que atesta seu caráter ambíguo
Gráfico 10. Demais espaços edificados nos terreiros analisados.
Fonte: Pereira et alii, 2012. 36 27 22 11 8 8 8 8 5 5 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1 23,8% 17,8% 14,4% 7,5% 5,5% 2,5% 5,2% 5,2% 3,5% 3,5% 1,3% 1,3% 1,3% 0,9% 0,9% 0,9% 0,9% 0,9% 0,9% 0,9% 0,9%
Demais espaços edificados nos terreiros analisados
Quantidades Porcentagem
Os espaços ligados à religiosidade católica e umbandista, apesar de não estarem contemplados no modelo que adotamos, podem ser considerados como áreas privadas, respectivamente presentes nos terreiros Asé Yá Nassó Oká Ilê Osun e Ilê Ti Oxum Omi Ia Ilá Oba Ti Odou Ti Ogum Alé. No quarto com imagens de santo encontramos uma imagem de Santo Antônio, com aproximadamente um metro e meio de altura e a capela é dedicada à Nossa Senhora do Carmo.
Já o congá39, localizado no Terreiro Ilê Asé Ode Iulê, pode ser caracterizado como sendo um local de caráter privado e o configura como um cômodo
"[...] grande, com três degraus, ou uma simples mesa. Aí ficam as imagens dos santos católicos sincretizados com orixás, estatuetas de Caboclos e Pretos Velhos (em gesso, geralmente), velas, flores, copos com águas, etc. [...] Termo usado na Umbanda e em cultos não tradicionais, afro-indígenas [...]" (CACCIATORI, 1988, p. 131).
A presença desse espaço é indicativa da inserção de práticas umbandistas dentro do candomblé. Se somarmos a ele a presença dos assentamentos, quartos e casas ligadas às entidades da terra, é possível perceber com mais clareza que o candomblé carioca tem absorvido essas deidades e seus cultos. Isso pode expressar uma adequação do candomblé a novas entidades e também uma evolução ou desenvolvimento no intuito de abarcar esses seres para as dinâmicas religiosas dos terreiros fluminenses.
Com a porcentagem de 1,3% (2 cômodos) temos, respectivamente: bibliotecas, espaços de memória ou museus e galinheiros, considerados públicos, pois permitem a circulação de qualquer pessoa e evocam a história da formação do local, seus dirigentes e a história do desenvolvimento da "nação" a que se filia no Rio de Janeiro. O primeiro espaço foi identificado no Terreiro Ilê Omi Ojuarô e no Ilê Ti Oxum Omi Ia Ilá Oba Ti Odou Ti Ogum Alé. Já o segundo no Terreiro Ilê Ogun Anaeji Igbele Ni Oman (Espaço de Memória Cristóvão dos Anjos) e no Ilê Ti Oxum Omi Ia Ilá Oba Ti Odou Ti Ogum Alé (Espaço Severiano de Logunedé).
Os galinheiros são os locais onde são guardados os animais para os sacrifícios. São lugares públicos, pois os animais, mesmo possuindo energia (axé), não foram sacrificados ainda e podem ser manuseados livremente. Estão presentes nos terreiros Ilê Asé Oyá Funké e o Kwê Asé Olô Jomim
Com 3,5%, ou seja, 5 cômodos, aparecem as salas de visitas e despensas. As primeira são indicadas para recepcionar quem adentra o terreiro para consultas, trabalhos, ebós, banhos ou outras atividades. Podemos entendê-las como um espaço
público destinado a conter o fluxo de pessoas no terreiro até a chegada do dirigente ou mesmo uma sala de espera até se estar acompanhado para outros trânsitos nas dependências do axé. Tal cômodo está presente no Ilê Asé Omó Iná, Ilé Asé deYá Atará Magbá, Ilê Asé Baba Olwô Omim, Terreiro Ilê Asé Igbá Ode e no Terreiro da Boa Viagem. O segundo espaço será descrito em seguida, em conjunto com os tipos de cozinha, devido à sua relação com esses locais.
As salas de visita se relacionam a outro cômodo identificado pela pesquisa, os salões para clientes, cursos e ateliês, com 5,2% de frequência , ou seja, 8 aposentos. Tais espaços são usados para cursos, como o de cultura negra ou língua iorubá, por exemplo, ou ainda para o ensino de alguma técnica manual. Estão presentes no Ilê Asé Omó Iná, Terreiro Asé N´La Ode, Ilê Omo Oya Legi, Ilê Omolu Oxum, Terreiro Ilê Nidê, Ilê Ti Oxum Omi Ia Ilá Oba Ti Odou Ti Ogum Alé, Ilê Asé Obaluayê Azauany e no Terreiro Ilê Asé Igbá Ode. No último são oferecidos, por exemplo, cursos de culinária baiana, ferramentaria e marcenaria.
Também com 5,2%, 8 aposentos, encontramos as casa de filhos de santo ou quartos de filhos de santo, locais privados onde residem filhos sanguíneos dos/das dirigentes ou mesmo parentes, mas também pessoas ligadas ao culto, como as ialaxés dos terreiros. Encontramos essas moradias nos seguintes terreiros: Terreiro Ilê Omi Ojuarô, Terreiro Ilê Asé Oju Oba Ogo Odo, Ilê Asé Omó Iná, Ilê Obá Nilá, Terreiro Ilê Asé Lissá Vodun, Terreiro Bate Folha, Ilê Ogun Anaeji Igbele Ni Oman e Asé Yá Nassó Oká Ilê Osun.
Identificamos o valor de 5,2% para os refeitórios, locais onde os membros dos axés realizam suas refeições. Também podem ser utilizados por visitas para o mesmo fim, o que indica o caráter ambíguo (público-privado) desse cômodo. Tal assertiva se baseia na constatação de que a alimentação também contém energia (axé), sendo o ato de comer um momento em que deuses e homens comungam os animais sacrificados em busca de alimentação (KILEUY & OXAGUIÃ, 2009). A alimentação é servida tanto a iniciados como a visitantes dos terreiros, o que caracteriza a dupla natureza do local. Os refeitórios foram identificados no Terreiro Ilê Omi Ojuarô, Terreiro Ilê Asé Oju Oba Ogo Odo, Terreiro Asé N´La Ode, Ilê Omolu Oxum, Terreiro Ilê Asé Yatopé, Terreiro Ilê Nidê, Terreiro Ilê Asé Igbá Ode e o Ilê Asé Obaluayê Azauany.
Relacionadas aos refeitórios identificamos o percentual de 3,5% para as despensas (5 cômodos). Tais locais servem para a guarda de alimentos que serão consumidos em rituais ou em festas nos terreiros e são considerados locais públicos,
pois os alimentos não foram processados ritualmente ainda. Isto permite a circulação de pessoas sem restrição alguma, sendo indicado até que aqueles que desejam se iniciar no candomblé frequentem o local como forma de treino ou de aptidão à convivência (PEREIRA et alii, 2012).
A manutenção desta comida pode se dar por duas formas: ou são levadas pelos membros do terreiro ou são adquiridas com os valores arrecadados de cada pessoa da casa. Este valor é designado em algumas casas como mensalidade, sendo enviado pelos membros mensalmente ao/a dirigente do terreiro (PEREIRA, 2013). Tal quantia serve ainda para a manutenção e reforma dos espaços edificados do terreiro e para a compra de insumos para a casa, como papel higiênico, produtos de limpeza, velas, azeite de dendê e o que se faça necessário conforme o/a dirigente. As despensas estão presentes no Terreiro Ilê Omi Ojuarô, Ilê Omolu Oxum, Terreiro Ilê Asé Yatopé, Ilê Ajagunã Ajagunã Asé Oyá Messan e Terreiro Ilê Asé Igbá Odé.
Foi calculado um percentual de 7,5% para os/as dirigentes que moram nos terreiros, ao todo 11 residências. Consideramos esses locais como espaços privados, não havendo uma obrigatoriedade nessa moradia. Conduru (2010) indica que nos terreiros comunidades era mais costumeiro que o/a dirigente residisse no axé, como um gestor da rede de mútua ajuda que se estabelecia no local. Esse percentual representa menos da metade dos babalorixás e ialorixás residindo dentro das casas de candomblé, o que sugere que esse hábito se encontra em queda dentre os terreiros analisados.
Os terreiros que possuem seus dirigentes residindo neles são: o Ilê Asé Ode Iulê, Terreiro Ilê Asé Oju Oba Ogo Odo, Terreiro Rwe Sinfá (Casa das Águas de Ifá), Terreiro Asé N´La Ode, Terreiro Ilê Asé Lissá Vodun, Ilê Omo Oya Legi, Ilê Asé Opô Afonjá, Ilê Asé Baba Nile Ké, Terreiro Ilê Asé Yatopé, Abassá do Ogum e Ilê Ajagunã Ajagunã Asé Oyá Messan.
Para os dois tipos de cozinha existentes em terreiros, as de santo e as de branco, encontramos um percentual de 14,4% para a primeira e 5,5% para a segunda, respectivamente 22 cozinhas para os orixás e oito para pessoas. A prevalência das cozinhas utilizadas para a produção de alimentos rituais não descarta que as mesmas produzam alimentos comuns, mas sua identidade se relaciona mais ao caráter privado de preparar iguarias para as deidades do candomblé e, de forma secundária, para pessoas em geral. Os tabela 4, abaixo, sistematiza a quantidade de terreiros com cozinhas de santo e de branco.
Tabela 4. Tipos de cozinha nos terreiros analisados.
Cozinha de Santo Cozinha de Branco
Ilê Asé Oyá Funké Terreiro Ilê Omi Ojuarô
Terreiro Ilê Asé Oju Oba Ogo Odo Ilê Asé Omó Iná - Jeje-Ketu Ilê Obá Nilá – Gantois -Ketu
Terreiro Asé N´La Ode – Gantois - Ketu Terreiro Ilê Asé Fire Imó Ogun Oyá Terreiro Ilê Asé Lissá Vodun Ilê Omo Oya Legi
Ilê Asé Opô Afonjá Kwê Asé Olô Jomim Terreiro Bate Folha Ilê Omolu Oxum Terreiro Ilê Asé Yatopé Terreiro Ilê Nidê Abassá do Ogum
Ilê Ti Oxum Omi Ia Ilá Oba Ti Odou Ti Ogum Alé Ilê Ajagunã Ajagunã Asé Oyá Messan
Terreiro Ilê Asé Igbá Ode Ilê Asé Obaluayê Azauany Ilê Asé Baru Lepé
Terreiro da Boa Viagem
Ilê Asé Omo Karê Ilê Asé Oyá Funké
Terreiro Ilê Asé Fire Imó Ogun Oyá Ilê Asé Opô Afonjá
Ilê Omolu Oxum Terreiro Ilê Nidê Terreiro Ilê Asé Igbá Ode Ilê Asé Baru Lepé
Fonte: Pereira et alii, 2012.
Os banheiros contabilizam 17,8% dos demais espaços edificados. Estão associados a banhos com caráter higiênico, não sendo utilizados para banhos rituais, que se realizam no roncó ou em espaços como o específico para ebós, como já descrevemos. Ao todo foram contabilizados 27 banheiros, que representam 100% da amostra analisada.
Os espaços privados denominados de quarto das malas, quarto das ekedis, quarto dos ogãs ou dos filhos de santo contabilizaram 23,8% da amostra, um total de 36 cômodos. Esse dado nos indica que em todos os terreiros existem esses aposentos, destinados ao descanso durante a realização de rituais, ocorrendo até mais de um destes quartos em algumas casas.
A presença de mais de um destes cômodos indica não apenas um número alto de membros no terreiro, mas pode corresponder a uma divisão por gênero entre os adeptos do axé. Pode também indicar capital disponível no momento da construção do terreiro, ou ao longo de sua vida, para a implantação de mais de um destes espaços.