OBJETIVOS E OPÇÕES METODOLÓGICAS
3.2. População e Amostra
3.3.2. Outros Instrumentos
3.3.2.1. Avaliação da Inteligência: MPCR, BPR e WISC-III
Para os estudos de validade do SAC relativamente a critérios externos utilizámos algumas medidas de inteligência, nomeadamente as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (MPCR, Simões, 1994, 2000) para os alunos do 2º e 4º anos de escolaridade; e, as Provas de Raciocínio Verbal e de Raciocínio Abstrato da Bateria de Provas de Raciocínio (BPR, Almeida & Lemos, 2006) para os alunos do 6º e 9º anos de escolaridade. Por sua vez, utilizámos a Escala de Inteligência de Wechsler para Crianças (WISC-III, Simões, Rocha & Ferreira, 2003) em uma subamostra de 24 alunos (6 alunos por cada um dos quatro anos de escolaridade, metade rapazes e metade raparigas).
Objetivos e Opções Metodológicas
As razões da escolha destes instrumentos deveram-se aos motivos que passamos a apresentar: (i) Em primeiro lugar, o facto de não possuirmos em Portugal qualquer outro instrumento
estandardizado que permitisse avaliar processos cognitivos;
(ii) Em segundo lugar, porque a única prova de avaliação cognitiva aferida para a população portuguesa e que permitiria avaliar todos os sujeitos na faixa etária da nossa amostra seria a WISC-III. No entanto, como se trata de uma prova de aplicação individual constituída por um elevado número de subtestes, tornava-se incomportável a sua utilização na amostra total (quer pela morosidade que iria trazer ao processo de recolha de dados, quer pela sobrecarga de provas que teriam de ser aplicadas a cada sujeito). Para além disso, a utilização de apenas alguns subtestes da WISC III foi-nos desaconselhada, pelo próprio investigador que realizou o estudo de aferição deste instrumento para o nosso país (Prof. Doutor Mário Simões).
(iii) Em terceiro lugar, porque na opinião dos especialistas da avaliação psicológica da inteligência que consultámos, a utilização das MPCR para o 1º ciclo e a utilização de algumas provas da BPR (Raciocínio Abstracto e Raciocínio Verbal), seria a melhor decisão face aos condicionalismos já apresentados. Optando-se por aplicar a WISC-III apenas a um pequeno grupo de sujeitos como estudo exploratório.
(iv) Por último, porque apesar dos construtos avaliados por estes instrumentos partirem de pressupostos teóricos distintos sobre a inteligência humana, consideramos que existe alguma sobreposição entre eles, nomeadamente o facto de todos eles avaliarem em certa medida, o raciocínio e a capacidade de resolução de problemas.
Passamos agora a uma breve apresentação destes instrumentos.
Matrizes Progressivas Coloridas de Raven
O teste Matrizes Progressivas de Raven (MPCR) é tido como um teste de inteligência (não verbal) e é um dos testes mais utilizados em avaliação psicológica (Raven, Court & Raven, 2001; Simões, 2000). De acordo com Simões (1995, 2000), é possível encontrar na literatura uma grande diversidade de referências àquilo que é avaliado por esta prova, nomeadamente: o factor g de Spearman (inteligência geral), o raciocínio, as capacidades viso-perceptivo-espaciais e a capacidade de resolução de problemas.
Objetivos e Opções Metodológicas
A Escala Colorida (que foi aquela que utilizámos no nosso estudo por ser a única aferida para a população portuguesa) é constituída por 36 itens distribuídos por três séries (A, Ab e B), cada uma das quais com 12 itens organizados por ordem crescente de dificuldade. Os itens da série A fazem sobretudo apelo a processos cognitivos de tipo perceptivo (completamento de um padrão), os itens da série B recorrem já a processos próximos do raciocínio (apreender e aplicar relações), podendo os itens da série Ab assumir uma posição intermédia (apreensão guestáltica da gravura tendo em vista o seu completamento). Deste modo, cada item é constituído por uma forma geométrica na qual falta um elemento (que foi removido) e a criança deve indicar entre as 6 hipóteses alternativas de resposta que lhe são fornecidas, aquela que completa corretamente a forma.
O teste das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (MPCR) foi objeto de várias investigações no âmbito da sua aferição nacional (Simões, 2000). Nos estudos de fidelidade dos resultados das MPCR, os índices encontrados foram .90 pelo método de bipartição, .89 para o coeficiente de alpha de Cronbach e .87 para o procedimento teste-retente, para o total da amostra em aplicação individual. Por outro lado, os estudos de validade externa encontraram correlações satisfatórias (sempre significativas ao nível de p.001) entre o desempenho nestas provas e os resultados escolares dos alunos nas áreas de língua portuguesa e de matemática. Por último, as normas estão organizadas em percentis, com as médias e desvios padrão, por níveis etários em anos e meses (dos 5 anos e 9 meses aos 11 anos e dois meses) e por nível escolar (do 1º ao 5º ano de escolaridade), quer para aplicações individuais quer coletivas.
Testes de Raciocínio Abstrato e de Raciocínio Verbal da Bateria de Provas de Raciocínio
A Bateria de Provas de Raciocínio (BPR) encontra-se validada e aferida para a população portuguesa (Almeida & Lemos, 2006). Esta bateria é constituída por três versões de um conjunto sequencial de provas destinadas a avaliar as capacidades cognitivas de alunos entre o 5º e o 12º ano de escolaridade. Neste sentido, as versões utilizadas no nosso estudo foram a BPR 5/6 que se destina a alunos do 5º e 6º anos de escolaridade e a BPR 7/9 que se destina a alunos do 7º ao 9º ano de escolaridade.
A BPR avalia a capacidade de raciocínio dos sujeitos, fortemente associada ao factor g de Spearman, recorrendo a provas de conteúdo diverso (Almeida & Lemos, 2006; Lemos, 2007). Deste modo, a BPR 5/6 é constituída por 4 provas: Raciocínio Abstrato (RA), Raciocínio Numérico (RN),
Raciocínio Verbal (RV) e Resolução de Problemas (RP). Por sua vez, a BPR 7/9 é constituída por 5
provas: Raciocínio Abstracto (RA), Raciocínio Numérico (RN), Raciocínio Verbal (RV), Raciocínio
Objetivos e Opções Metodológicas
Neste estudo empírico utilizámos apenas duas das provas da BPR 5/6 e da BPR 7/9:
Raciocínio Abstrato (RA) e Raciocínio Verbal (RV).
A opção por utilizar apenas estas duas provas deveu-se às seguintes razões:
(i) não sobrecarregar os sujeitos com um elevado número de testes e não tornar o processo de recolha dados demasiado moroso;
(ii) porque as diferentes provas que compõem a BPR apresentam correlações significativas com o total da bateria, existindo um importante factor geral que explica cerca de 60 % da variância dos resultados obtidos;
(iii) porque os testes que compõem o SAC apresentam conteúdo diferenciado, uns de conteúdo mais verbal e outros de conteúdo mais viso-perceptivo-espacial, decidindo-se assim escolher aqueles testes da BPR que apresentavam um conteúdo mais próximo.
Esta opção foi igualmente sugerida pelo autor e investigador responsável pelos estudos de aferição da BPR para Portugal (Prof. Doutor Leandro de Almeida).
A prova de Raciocínio Abstrato é constituída por 20 itens na versão BPR 5/6 e por 25 itens na versão BPR7/9. Estes itens de conteúdo abstrato envolvem analogias com figuras geométricas, ou seja, A:B // C: (A, B, C, D, E). É necessário que se descubra a relação existente entre os dois primeiros termos e aplicá-la ao terceiro, para se identificar o quarto termo entre as 4 alternativas de resposta na BPR 5/6 e as 5 alternativas de resposta na BPR 7/9. O tempo limite é de 5 minutos em ambas as versões (BPR 5/6 e BPR 7/9).
A prova de Raciocínio Verbal é constituída por 20 itens na versão BPR 5/6 e por 25 itens na versão BPR 7/9. Estes itens envolvem a analogia entre palavras. A relação analógica existente entre um primeiro par de palavras deverá ser descoberta e aplicada, de forma a identificar a quarta palavra, que mantém a mesma relação com uma terceira apresentada, entre as quatro ou cinco alternativas de resposta (conforme a versão, BPR 5/6 ou BPR7/9, respetivamente). O tempo limite é de 4 minutos em ambas as versões (BPR 5/6 e BPR 7/9).
Nos estudos de fidelidade dos resultados da BPR, os testes de Raciocínio Abstrato (RA) e de
Raciocínio Verbal (RV) apresentam índices de precisão ou de consistência interna satisfatórios: a
prova RA apresenta coeficientes de precisão de .79 para a versão 5/6 e de .76 para a versão 7/9, a prova RV apresenta coeficientes de .78 para a versão 5/6 e de .77 para a versão 7/9. Por outro lado, os estudos de validade externa encontraram correlações satisfatórias (sempre significativas ao nível de p.001) entre o desempenho nestas provas e os resultados escolares dos alunos nas disciplinas de
Objetivos e Opções Metodológicas
Língua Portuguesa e Matemática, embora essas correlações sejam mais elevadas para a prova de
Raciocínio Verbal do que para a prova de Raciocínio Abstrato, em ambas as versões (ver Almeida &
Lemos, 2006; Lemos, 2007).
Por último, na normalização dos resultados para a BPR e para cada uma das suas versões foram tidas em conta as seguintes variáveis: ano de escolaridade, género e meio (urbano e rural). Os resultados encontram-se normalizados em 5 classes (ver Almeida & Lemos, 2006).
Escala de Inteligência de Wechsler para Crianças
A Escala de Inteligência de Wechsler para Crianças-3ª Edição (WISC-III) é um instrumento de avaliação cognitiva de administração individual, destinada a crianças e adolescentes dos 6 aos 16 anos. Trata-se de uma escala que assume o exercício e a avaliação da inteligência na sua natureza compósita, ou seja, pressupondo a capacidade intelectual dos indivíduos como um potencial decorrente da integração e ponderação de diversas habilidades e funções cognitivas (Simões et al., 2003). Nesta linha, a escala permite calcular uma medida de inteligência geral (Quociente Intelectual da Escala Completa, QIEC), dois quocientes parcelares segundo a natureza verbal (Quociente Intelectual Verbal, QIV) e não-verbal (Quociente Intelectual de Realização) das suas provas, ou ainda de outros indicadores decorrentes de novos agrupamentos dos seus subtestes (Índices Fatoriais), que nos estudos de aferição portuguesa são três: o Índice de Compreensão Verbal (ICV), o Índice de Organização Percetiva (IOP) e o Índice de Velocidade de Processamento (IVP).
A WISC-III inclui um total de treze subtestes, dos quais seis pertencem à subescala Verbal (Informação, Semelhanças, Aritmética, Vocabulário, Compreensão e Memória de Dígitos) e sete pertencem à subescala Realização (Completamento de Gravuras, Código, Disposição de Gravuras, Cubos, Composição de Objetos, Pesquisa de Símbolos e Labirintos).
Os coeficientes de fidelidade (consistência interna) situam-se: entre .66 e .84 nos subtestes; entre .79 e .91 nos Índices Fatoriais; e, entre .88 e .93 nos Quocientes Intelectuais. Vários estudos de validade têm sido realizados, mas destacamos aqui dois estudos de validade de critério onde se analisaram as correlações entre os resultados na WISC-III e as classificações escolares. Num primeiro estudo com uma amostra de 154 crianças e adolescentes do 2º, 4º, 6º e 9º, as classificações escolares foram obtidas na altura da aplicação da WISC-III (validade concorrente) e as correlações obtidas foram: .40 (QIV), .33 (QIR), .39 (QIEC), .35 (ICV), .29 (IOP) e .25 (IVP). Num segundo estudo que incluiu um subgrupo de 93 sujeitos, presentes no grupo anterior, cujas classificações escolares foram registadas 18 meses depois da administração da WISC-III (validade preditiva) foram observadas
Objetivos e Opções Metodológicas
correlações mais elevadas: .60 (QIV), .41 (QIR, .58 (QIEC), .57 (ICV), .42 (IOP) e .11 (IVP) (ver Simões, Rocha & Ferreira, 2003, para mais detalhes).
Para cada um dos 13 subtestes, a distribuição das notas brutas para cada grupo etário foi convertida numa escala com média 10 e desvio-padrão 3. As distribuições das notas nos QIs e nos Índices Fatoriais têm uma média de 100 e um desvio-padrão de 15, com uma amplitude de 40 a 160. As normas foram derivadas em intervalos de 6 meses para cada um dos onze grupos de idade (6-16 anos).
3.3.2.2. Ficha de Avaliação do Professor
Como no 1º ciclo não são afixadas pautas com as classificações escolares dos alunos no final de período letivo, optámos por elaborar a “Ficha de Avaliação do Professor” (ver Anexo 5), com o objetivo de recolher a informação relativa ao desempenho escolar em geral e ao aproveitamento global em Matemática e em Língua Portuguesa, para os estudos de validade preditiva do SAC. Nesta Ficha, cada professor deveria classificar o aluno numa escala de 1 a 5, mantendo-se os mesmos critérios que os professores utilizam para atribuir a sua classificação no final de cada período letivo.