CONSTRUINDO TRÂNSITOS EM TRÂNSITOS TEÓRICOS
2.4. P OSICIONAMENTO : ONDE AFLORAM PERFORMANCES E PERFORMATIVIDADES
2.4.1. P OSICIONAMENTO SEGUNDO L ANGENHOVE & H ARRÉ
Nas Ciências Sociais, os conceitos de posição e posicionamentos foram introduzidos por Hollway (1984), na área de Psicologia Social. Para a pesquisadora, interessada em analisar a construção das subjetividades heterossexuais,
discursos disponibilizam posições a serem ocupadas pelos sujeitos. Essas posições são em relação a outras pessoas. Como o sujeito e o objeto de uma sentença... homens e mulheres são situados uns em relação aos outros por meio de significados que um discurso particular torna disponível. (HOLLWAY, 1984, p. 236, apud LANGENHOVE & HARRÉ, 1999, p. 16)81
Contrária a uma visão representacionista-reflexiva da realidade, a autora reconhece a natureza discursiva e dialógica da construção dos significados e dos papéis e lugares que esses significados constroem para seus autores. Ou seja, os posicionamentos têm a ver com a maneira como as pessoas são localizadas ou se localizam no discurso quando se engajam na construção de significados.
Tendo seus trabalhos inscritos na área da Psicologia Social Construcionista, Rom Harré, Luk van Langenhove & Bronwyn Davies, seguidos de outros autores, desenvolveram uma teoria sobre posicionamento que, partindo das premissas inicialmente teorizadas por Hollway, dialoga com várias disciplinas e é utilizada como aparato teórico por pesquisadores de diferentes áreas.
Conforme postulado por Langenhove & Harré (1999, p. 14) e Davies & Harré (1999), o desenvolvimento do conceito de posicionamento proposto por eles surgiu da necessidade de se buscar uma alternativa dinâmica ao conceito mais estático de papel (role) utilizado por muitos teóricos para análise dos fenômenos sociais. Segundo explicam, o uso desse conceito traz muitas implicações problemáticas para o desenvolvimento de uma psicologia social do selfhood, uma vez que dá conta apenas de evidenciar aspectos cristalizados de sua configuração. Como buscavam um conceito teórico mais apropriado para analisar “como é que as pessoas fazem/agem sendo uma pessoa de determinado tipo” (DAVIES & HARRÉ, op. cit., p. 52)82, passaram a considerar a noção de posições e não de
papéis, pois, dessa forma, seria possível pensar em um aparato teórico que contemplasse novas ideias sobre a ontologia desse fenômeno tão complexamente articulado.
A ontologia padrão (standard ontology) considera três níveis de fenômeno social; as pessoas, as instituições e as sociedades que, obviamente, não podem existir fora
81 No original: “discourses make available positions for subjects to take up. These positions are in relation to
other people. Like the subject and object of a sentence […] women and men are placed in relation to each other through the meanings which a particular discourse makes available”.
82
de uma relação espaço-temporal. No entanto, conforme apontam os autores, não é suficiente abordar o fenômeno social em relação a sua posição absoluta no espaço-tempo, o que evidenciaria uma perspectiva enraizada no pensamento clássico, estabelecida por meio de sensações – como em Newton e Euclides – ou por meio de instâncias dadas a priori, como em Kant.
Quando se analisa o fenômeno social a partir da noção de papel é possível apenas evidenciar aspectos estáticos, formais e ritualísticos (DAVIES & HARRÉ, op. cit., p. 33) da formação do selfhood, fora do jogo discursivo. Nessa ótica, “a pessoa está sempre separada dos vários papéis que assume e qualquer conversação particular é entendida em termos de alguém desempenhando certo papel. O que é falado é, em certa medida, ditado pelo papel e deve ser interpretado nesses termos” (DAVIES & HARRÉ, 1999, p. 52)83.
Toda a categorização atribuída a cada um dos papéis é transcendente à ação e funciona como um elenco de ferramentas pré-existentes exploradas pelas pessoas para criar conversações.
No entanto, conforme apontam os autores aqui focalizados, a substância das realidades sociopsicológicas está no discurso, nas conversações e, portanto, nos atos sociais e atos de fala e em seus contextos, o que rejeita qualquer possibilidade de realidade cristalizada e necessariamente prevê movimento, fluidez e um constante processo de mudança. Assim, as pessoas passam a ser vistas como territórios (locations) para os atos sociais e, nessa perspectiva,
como um espaço, uma série de possibilidades e território real, o conjunto de pessoas não é necessariamente Euclidiano. A rede de territórios temporais, o aspecto-tempo da vida humana, também muda. A distinção entre passado, presente e futuro não segue exatamente o tempo psicológico, em parte porque o passado social e psicológico não é fixo. O futuro social pode influenciar o passado social. As ocorrências dos atos são os momentos do tempo social. (LANGENHOVE & HARRÉ, 1999, p. 15)84
83 No original: “in role theory, the person is always separable from the various roles that they take up; any
particular conversation is understood in terms of someone taking on a certain role. The words that are spoken are to some extent dictated by the role and are to be interpreted in these terms”.
84 No original: “as a space, a set of possible and actual location, the array of persons is not necessarily
Euclidian. The grid of temporal locations, the time-aspect of human life, also changes. The distinction between past, present and future does not go over neatly into psychological time, partly because the social and
Tendo como referentes as pessoas e seus atos sociais no discurso, a realidade passa a ser considerada a partir de três processos básicos de práticas discursivas: (1) conversações e outras trocas simbólicas; (2) práticas institucionais e (3) usos de retóricas sociais.
Para os autores, a substância básica da realidade social são as conversações ou trocas simbólicas, no interior das quais os atos sociais e ícones dessa sociedade são gerados e reproduzidos e o mundo social é criado. Isso se dá a partir de dois processos discursivos, o posicionamento e a redescrição retórica, por meio dos quais os elementos da ontologia padrão (pessoas, instituições e sociedades) podem ser redimensionados em uma nova ontologia.
Segundo esclarecem, redescrição retórica consiste na “construção discursiva de histórias sobre instituições e eventos macrossociais que tornam essas instituições e eventos compreensíveis como ícones sociais” (HARRÉ, 1975, apud LANGENHOVE & HARRÉ, 1999, p. 15)85 e posicionamento “é o que é criado na fala e por meio da fala quando os
falantes e os ouvintes se assumem como pessoas” (DAVIES & HARRÉ, 1999, p. 52)86. Os
autores ressaltam que
com posicionamento, o foco está no modo como as práticas discursivas constituem os falantes e ouvintes de determinadas maneiras e ainda, ao mesmo tempo, são um recurso através do qual eles podem negociar novas posições. (DAVIES & HARRÉ, op. cit. p. 52)87
Justamente por abarcar tanto os significados que já são dados macrossocialmente pelo contexto histórico, quanto os que os indivíduos, em suas localidades, geram quando estão engajados no discurso, considero fundamental o construto teórico de posicionamento para a definição das ferramentas de análise dos dados desta tese.
psychological past is not fixed. The social future can influence the social past. The occurrences of acts are the moments of social time”.
85 No original: “[…] the discursive construction of stories about institutions and macrosocial events that make
them intelligible as societal icons”.
86
No original: “[…] position é what is created in and through talk as the speakers and hearers take themselves as persons”.
87 No original: “With positioning, the focus is on the way in which the discursive practices constitute the
speakers and hearers and yet at the same time they are a resource through which speakers and hearers can negotiate new positions”.
Certamente, os significados que os estudantes congoleses do convênio PEC-G constroem para suas des(re)territorializações se dão no atravessamento de uma série de outros sentidos macro-sócio-historicamente construídos e estabilizados/sedimentados pelas instituições e construções culturais no processo de citação (DERRIDA, 1982), mas também por sentidos construídos localmente, por meio de suas agências, as quais permitem iterativamente (DERRIDA, op. cit.) a negociação de novas posições e, por conseguinte, reposicionamentos.