Perfil do pastor neopentecostal
Como já apresentado no capítulo anterior, o contexto religioso brasileiro tem sido fortemente marcado pela influência da mídia. Nesta direção, podemos supor que cada ação relacionada ao mundo eclesiástico também passa por esta dimensão, afinal, uma das características marcantes da religiosidade contemporânea está no personalismo, ou seja, um destaque exacerbado à pessoa. Ao mesmo tempo em que se assiste a um artista na TV, presume-se que, assim como na tela, a vida é uma representação ou uma apresentação de um personagem. Talvez por isso seja tão evidente na sociedade em geral o termo ‘vender a própria imagem’, como se em todos os momentos alguém estivesse observando, assistindo. Este distintivo não é observado somente na sociedade em geral, mas, sobretudo, no interior dos templos, uma vez que a fé,
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RUUTH, Anders. Iglesia Universal Del Reino de Dios. Ib. idem. pg. 88. Texto original: “Por um lado, Dios ha prom etido según Juan 10.10 y el Salmo 23, versículos muy citados, uma vida em abundancia. Por el otro lado, empero, em Malaquías 3.10, versículo básico, encontramos La obrigación que el hombre sin la menor falta debe cumprir, el pago de los diezmos, os dízimos. Macedo dice: “O dízimo foi instituído pelo Senhor, como espécie de imposto às suas criaturas”. (Nos passos, p. 99). El pago de los diezmos constituye el signo de la fidelidad Del hombre hacia Dios. De gran importância son, además, lãs ofrendas voluntarias, as ofertas , que son muestras del amor hacia Dios. Habiendo cumplido com estos requisitos, el hombre está em su derecho de exigir a Dios el cumprimento de SUS promesas. Dicho de outro modo: para recibir algo de Dios es menester de arriesgas algo, cuando mayor la inversión, tanto más grande la ventaja. Es el principio Del tueque: do ut des, yo te doy oara que tu me dês” – Tradução do autor.
especialmente na dinâmica neopentecostal, ganha a função de servi ço à pessoa. A pessoa passa a ser o centro da atenção. Expressões como “eu posso”, “eu quero” ou “eu determino” salientam mais do que um desejo pela bênção pleiteada, deflagram, principalmente, o anseio por ter seu próprio anseio realizado. Não é só a necessidade que está em jogo, é também a vaidade.
Patriota descreve que o momento contemporâneo, sob a cultura da mídia, cria, de tempos em tempos, celebridades que passam a ser cultuadas e admiradas. Para ela, estas pessoas ganham gradativamente o poder de impactar a vida dos outros, o que, segundo a autora, não raramente assume ares de ‘devoção’ e se transformam até mesmo em casos patológicos, fazendo com que os seguidores dessas personalidades criem um mundo paralelo onde passam a viver a vida de seus ídolos.
A pesquisadora acredita ainda que este fato seja recorrente no meio artístico. Para ela “o excesso de exposição na TV, no rádio, nas revistas e jornais, transformam as vidas destes ‘astros’ em palcos hiperdimensionados, tornando, essa superexposição em praticamente todas as ins tâncias da mídia, um dos principais ingredientes para que se aflore em nossos dias, o culto à personalidade”97
A partir desta abordagem, Patriota enfatiza que pastores, como seres públicos, passam pela mesma ocorrência de artistas de TV. Seja num pequeno vilarejo, sem a ingerência midiática, ou numa metrópole, a visibilidade a que estão expostos deflagra no íntimo deles mesmos, como de seus seguidores, o perigo da egolatria. Nesta direção a autora aponta que
O culto a personalidade religiosa na mídia é mais comum do que normalmente se pensa. Em alguns casos, como na Igreja Universal do Reino de Deus, o seu fundador, Bispo Edir Macedo é cultuado e imitado também por seus pastores e bispos. Dona de um império de
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PATRIOTA, Karla Regina Macena P. Paganismo Eletrônico: Celebridade, Idolatria e Culto à
Personalidade. Trabalho apresentado na Sessão de Temas Livres, no XXVI Congresso Anual em
Ciência da Comunicação, Belo Horizonte/MG, 20 a 06 de setembro de 2003. Google Acadêmico - http://scholar.google.com.br/
comunicação que inclui a Rede Record, a IURD tem ‘incomodado’ e ao mesmo tempo, se ‘moldado’ ao contexto midiático98.
A personificação da fé tem sido um forte elemento da religiosidade moderna, especialmente da neopentecostal, transformando a igreja numa comunidade do eu. Por isso, com olhos voltados para si, a igreja moderna se distancia cada vez mais da dimensão coletiva da religião. Exemplo disso são as letras das músicas cantadas na maioria das denominações atualmente , sejam de linha neopentecostal ou não. Normalmente elas retratam situações íntimas de relacionamento direto entre o “eu” e o “tu” – a ligação com Deus sem dimensão social e abrangente como o “nós” tão cantado, por exemplo nos anos 60 e 70. Algumas poesias chegam a ter uma conotação de romantismo e sensualidade.
Este ambiente propicia também ao líder, seja ele leigo, pastor ou bispo, a possibilidade de estabelecer sua própria personalidade como sinal e canal da bênção de Deus. Normalmente, isto é feito pelo que se chama de “ministério”, que é recebido de Deus, assim como no Antigo Testa mento acontecia o chamado profético. Desta maneira, a vocação para o “ministério”, que normalmente se caracteriza pela implantação de uma nova igreja – afiliada ou não a uma denominação já existente – se dá pelo carisma pessoal, ao contrário do que acontece em denominações tradicionais, onde se concretiza pelo reconhecimento da comunidade.
Milagres, prodígios e sinais, sistematicamente, garantem o sucesso de um “ministério” – comunidade. Caso eles não aconteçam, tudo é questionado: a bênção e a presença de Deus, a vocação do pastor, o reconhecimento como Igreja. Caso eles se evidenciem, tudo é avalizado, independente mente da teologia adotada, da forma de administração ou d e algum excesso na autoridade pastoral.
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PATRIOTA, Karla Regina Macena P. Paganismo Eletrônico: Celebridade, Idolatria e Culto à
Galindo e Leite99 consideram, a esse respeito, que o surgimento de um novo ‘modo de ser’ pastoral é fruto de uma sociedade pós-moderna, voltada a valores do consumo e do mercado. Os autores avaliam que
A valorização da estética, o individualismo, a ênfase no presente, a maior adaptabilidade a um contexto de diversidade cultural e religiosa podem servir para reforçar a compreensão do período de inserção desses sacerdotes no mercado religioso. Por esse prisma, supomos que o maior resíduo de pós-modernidade no neopentecostalismo consiste no seu discurs o de que o céu começa aqui e agora. Percebemos, então, que o processo intramundano da religião está entrelaçado com a idéia da prosperidade, a qual se torna bem tangível na imagem pessoal de cada um de seus líderes100.
Considerando ser necessário um maior aprofundamento sobre o perfil do pastor neopentecostal, recorremos a Campos101, em sua abordagem sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, já que, como abordado anteriormente, esta instituição traz sobre si certo consenso sobre o papel que desempenha como referência deste movimento.
Uma das primeiras e, por assim dizer, mais importante marca do perfil neopentecostal de pastor se refere à questão da lealdade à liderança. Sendo típico deste movimento a existência do carisma de um líder que comanda a Igreja como um todo, a questão da submissão e lealdade a este líder parece fundamental. O autor102, através de um paralelo entre protestantes tradicionais e neopentecostais, ressalta a existência de diferenciação neste tema. Considera que na vertente tradicional os carismas são praticamente eliminados, no mínimo, abafados, prevalecendo a autoridade institucional, onde se despontam regras conciliares. Campos considera que isto garante, no tradicionalismo, o controle do culto ao personalismo e, conseque ntemente , problemas com algum dissidente.
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GALINDO, Daniel & LEITE, Lilian Laurência. O marketing pessoal e a construção da imagem de
pastores neopentecostais. Texto apresentado na 6ª Conferência de Mídia, Religião e Cultura – diálogos
na diversidade. Universidade Metodista de São Paulo, agosto de 2008. Google Acadêmico - http://scholar.google.com.br/
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GALINDO, Daniel & LEITE, Lilian Laurência. O marketing pessoal e a construção da imagem de
pastores neopentecostais. Ib. idem. pg. 8.
101 CAMPOS. Teatro, templo e mercado. Ib idem. pg. 393. 102
Segundo o pesquisador, um dado importante que ajuda no rigor tradicional tem a ver com a exigência de uma qualificação profissional para fazer parte do clero. Avalia ainda que este rigor, ao mesmo tempo em que prepara e socializa o novo clérigo, dá a ele também certo grau de segurança. “Graças a existência desses cânones, ele nunca está sozinho diante de superiores hierárquicos, sempre tem a quem apelar no caso de se sentir injustiçado”103.
Na Igreja Universal do Reino de Deus, e, talvez possamos extrapolar esta condição à maioria das igrejas neopentecostais, o
clero é treinado no próprio trabalho, não há segurança alguma na carreira escolhida, um clima competitivo reina entre pastores, impedindo a formação de um grupo unido pelos mesmos interesses e reivindicações. Predomina a obediência indiscutível aos superiores e destes a Edir Macedo104.
Segundo Campos, esta centralidade de poder na pessoa de Edir Macedo excede questões eclesiásticas e pastorais, deflagrando também seu poderio econômico pessoal já que as empresas “da igreja” estão em seu nome105.
Talvez possamos sinalizar que, cada vez mais, mesmo nas igrejas que não se classificam como neopentecostais, o pensamento relativo a autoridade e hierarquia tem se aproximado do que foi exposto. O carisma tem se firmado, repetidamente, como condição de quem almeja o pastorado, deflagrando uma dicotomia, especialmente em ambientes tradicionais, que em sua lei não sinalizam de forma evidente este fator como condição primordial para o clero. Se por um lado existem questões canônicas a serem observadas para escolher um clérigo, por outro, o carisma pessoal age como fator essencial em questões políticas. Isto tem asseverado tensões nestes meios, confirmando que a “mentalidade pentecostal” tem sido influência constante nos diversos redutos denominacionais. 103 Op. cit. pg. 393. 104 Op. cit. pg. 393. 105 Ib idem. pg. 395.
Outro item importante para entender o perfil pastoral desse movimento, levantado por Campos, faz referência à questão da escolha de candidatos. Na IURD, o pastor, devidamente consagrado adquire o status de “homem de Deus”. Dentre suas várias obrigações, na igreja local, ele administra, praticamente, tudo. O culto, pastores auxiliares, além de “pregar, curar, atender pessoas no local de culto, estar à disposição do setor de publicidade da Ig reja, administrar o templo, liderar o público durante o culto, distribuir sacramentos, contar ofertas, elaborar mapas de frequência aos cultos, relatórios financeiros”106.
O recrutamento se dá, normalmente , a partir de obreiros e evangelistas. É importante dizer aqui que o neopentecostalismo aceita bem a questão do trabalho laico, uma vez que, na maioria de seus templos, a condição de precariedade financeira – as comunidades geralmente são iniciadas sem condições ou ajuda de uma igreja sede, mas como desafio espiritual, fruto do ‘chamado’ de seu líder – por isso, toda ajuda é bem vinda.
Anders Ruuth107 descreve que as atribuições dos pastores da IURD se constituem em dirigir as cerimônias, pregar, ensinar, pastorear e levar uma vida digna. O cargo é vitalício. Entre as coisas que não pode fazer estão: empreender atividades estranhas à denominação, realizar casamentos mistos, realizar operações econômicas sem autorização de sua hierarquia, receber doações pessoais, que devem sempre ser entregues à Igreja. Um dado importante, revelado pelo autor, é que pastores de outras denominações podem se transferir para a IURD desde que tenham idoneidade moral e intelectual e sejam batizados por imersão – esta última, como outra característica do movimento neopentecostal.
O pesquisador considera que os escritos de Macedo não priorizam o ministério pastoral de sua igreja. Não existe nenhum capítulo do bispo dedicado ao assunto. Ruuth entende que
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CAMPOS. Teatro, templo e mercado. Ib idem. pg. 401.
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De todos os modos, pode considerar-se uma debilidade de Macedo o fato de não ter desenvolvido o tema eclesiástico, ainda mais perceptível na falta de estudo acerca do que se entende por Reino de Deus; se comenta, o faz de maneira fragmentada, relacionando-o com o tema dos dízimos e ofertas: “...a fidelidade nos dízimos se torna um prazer em contribuir para o engrandecimento do Reino de Deus aqui no mundo” (Espírito p. 68). Percebe-se que para Macedo, o Reino de Deus se realiza precisamente em uma perspectiva intramundana: “Quando vejo pessoas sendo curadas, recebendo o enchimento do Espírito Santo, prosperando financeiramente e vivendo constantemente num estado de vitória, me alegro grandemente e me rejubilo. Chamo a isto viver o Reino de Deus... (Vida p. 17).108
Esta aparente despreocupação com o ministério pastoral parece ir além dos limites da Igreja Universal do Reino de Deus. Em tempos de neopentecostalismo, a função pastoral, visivelmente, tem sido relativizada, especialmente no que diz respeito a instrução intelectual. Talvez se pudesse dizer que existe, até mesmo, uma resistência, por parte de comunidades influenciadas pela ‘mentalidade neopentecostal’ ao fato de haver interesse pessoal do pastor por algum tipo de reflexão de formato acadêmico, que fortaleça suas relações com a própria teologia e dela com outras ciências. A ênfase quanto à lisura moral, a vocação espiritual, os dons, e o batismo por imersão, parecem suficientes para o reconhecimento do ministério pastoral, apesar de considerarmos que, de maneira geral no neopentecostalismo, o item “estudioso da Palavra” se desponta quase que em todas as avaliações da figura do Pastor, mesmo que este ‘estudar a Palavra’ nem sempre considere as ferramentas da hermenêutica ou da exegese.
Em linhas gerais, a experiência desses recrutados no campo religioso protestante, segundo o autor, é pequena. Alguns são oriundos do kardecismo, outros de religiões afro-brasileiras. Um bom número relata ter vindo do catolicismo, mas poucos provem de uma experiência anterior de pastorado. O pesquisador descreve que
108 RUUTH, Anders. Iglesia Universal Del Reino de Dios. Op. cit. pg. 108. Texto original: “De todos os
modos, puede considerarse una debilidad de Macedo la de no Haber desarrollado el tema eclesiástico, aun más sentida viendo la falta de um estudo acerca de lo que se entiende por el Reino de Dios; se lo comenta solo em forma fragmentaria, relacionándolo com los dízimos e
ofertas: “...a fidelidade nos dízimos se torna um prazer em contribuir para o engrandecimento do
Reino de Deus aqui no mundo” (Espírito p. 68). Llégase a la impresión de que para Macedo, el Reino de Dios se realiza precisamente em uma perspectiva intramundano” – Tradução do autor.
A observação da postura corporal, linguagem, nível de raciocínio e aspirações expressas pelos pastores, indicam procederem das camadas mais pobres da sociedade, espaço onde se localiza o celeiro das vocações pastorais dessa Igreja, como também pudemos encontrar entre pastores das denominações protestantes tradicionais (Campos, 1987). Entre eles há muitos negros, mulatos e nordestinos, pessoas que no centro-sul do Brasil têm tido maiores dificuldades de ascensão social. A riqueza, o poder e o prestígio estavam longe de suas condições sociais de origem109.
Desta maneira, parece ficar em suspense as reais motivações de candidatos ao pastorado, sobretudo, em situações onde o empenho pessoal e o carisma parecem ter mais valor do que a capacidade reflexiva e acadêmica.
É no dia a dia que são forjados os aspirantes ao pastorado neopentecostal, sobretudo numa doutrinação que imprime nos discípulos até mesmo as características pessoais de seus ‘mestres’, como tom de voz, sotaque, forma de abordagem e vocabulário. Normalmente, os candidatos passam por estágios ao lado de pastores titulares. Segundo Campos, “é ali, junto a outro pastor e, sob a sua orientação, que ele aprende coisas essenciais como, tirar uma boa coleta, dar um bom conselho, realizar milagres e fazer exorcismo”110.
A formação neopentecostal é marcada, sobretudo, por um treinamento, onde intuição e percepção tomam o lugar da reflexão e do conhecimento. Não há academia, nem pesquisa, e o mais grave, para Campos, “o candidato ao pastorado não se despoja de suas raízes sócio-culturais, que motivaram a sua vida até recentemente, fazendo que o processo de treinamento não se dê por ruptura, e sim, por continuidade”111. Para o pesquisador, nessa dinâmica, estes novos ministros passam a reformular suas antigas práticas de maneira que se adequem às novas demandas, como “xamã, pai-de- santo, exorcista”. 109 Ib idem. pg. 404. 110 Ib idem. pg. 405. 111 Ib idem. pg. 406.
Há, porém, solicitações de caráter administrativo. Existem exigências relativas à produtividade, como número de pessoas e valores de arrecadação. Campos menciona que
a programação do novo papel exige a combinação das exigências da organização religiosa, das expectativas do público e das necessidades pessoais e familiares de cada um. O pastor iurdiano experimenta na carne o dilema do ator que, no ato cênico, está entre o público e o autor do roteiro dramatúrgico. É dentro dessa estreita faixa que ele terá de atuar com flexibilidade para criar novas soluções. Obviamente, nem sempre esses pastores, por causa de suas origens e treinamento, estão em condições de atender a tais requisitos. O público quer um espetáculo, que lhes traga sentido para a vida e solução para seus problemas. A hierarquia da Igreja exige que desse público seja extraído “a mais-valia”, isto é, o “sangue da Igreja”, metáfora empregada por Macedo (Veja, 6.12.95) para designar o dinheiro arrecadado nos cultos112.
Desse ponto, podemos afirmar que as exigências que são feitas a pastores e, atualmente isto tem sido generalizado também em denominações de vocação tradicional, tem imitado os processos do mercado capitalista, voltados ao gerenciamento, com desdobramentos e necessidades de atingir metas, especialmente financeiras.
Outro dado importante na dinâmica pastoral iurdiana, é a questão da itinerância. O autor mostra que tais pastores são submetidos ao que chama de “itinerância contínua”, além de nem sempre receberem altos salários por isso ou algum tipo de promoção, portanto, considera que ainda é melhor se submeter a esta condição do que a anterior, principalmente pelo despreparo para enfrentar o mercado de trabalho. A questão cultural pessoal de pastores e famílias tem complicado o avanço da IURD, especialmente no que se refere ao exterior. Faltam ‘profissionais’ capacitados, com domínio do idioma e que tenham facilidade de adaptação. Campos faz citação ao que acontecia por ocasião de sua pesquisa:
essas dificuldades de adaptação têm acontecido com freqüência no pastoreio dos florescentes templos iurdianos na África do Sul, Angola,
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Moçambique e em outros países africanos. Pastores enviados para lá, saídos do centro-sul brasileiro, não se têm adaptado com facilidade à dura realidade africana. A IURD está no momento experimentando nordestinos, que, em função da cultura menos urbana e industrializada, têm dado melhores resultados nos campos missionários da África113.
Além do fator ‘itinerância’, o pesquisador demonstra outro quadro dramático: a demanda de adequar questões familiares às exigências do desafio institucional. Campos114 descreve o fato de que, visando maior mobilidade e agilidade da família pastoral, “a Igreja Universal exige do pastor enviado para fora que não tenha filhos ou que se submeta a vasectomia, diminuindo-se dessa forma as despesas da Igreja com remanejamento e sustento de pastores com família numerosa”115. Esta ingerência na vida pessoal e familiar de pastores nos parece uma característica própria do movimento neopentecostal. Textos bíblicos como o dos evangelhos de Lucas 5:11 “E, arrastando eles os barcos sobre a praia, deixando tudo, o seguiram”; Lucas 5:28 “Ele se levantou e, deixando tudo, o seguiu”; Mateus 16:24 “E ntão, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”; Marcos 8:34 “Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”; Lucas 9:23 “Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me”, são invocados para reforçar a necessidade de cumprir, sem discussões, as imposições institucionais.
No neopentecostalismo, a espiritualização dos processos naturais do cotidiano, como vimos anteriormente, serve para intimidar tanto leigos como a clérigos, condicionando -os a obediência à autoridade e à bênção de Deus. Normalmente, questionamentos, apontamentos ou mesmo o uso de reflexão mais racional são relacionados, na ótica deste movimento, à falta de espiritualidade ou ao fato de “não estar na bênção” – em concordância com as regras apresentadas. O ‘servir a Deus’ te m representações institucionais de forma muito acentuada, principalmente no que se refere à subserviência aos interesses denominacionais.