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4. REFLEXÕES SOBRE O CONTEXTO: ANALISANDO ESPAÇO, CULURA(S) E SUJEITOS

4.2 PERSONAGENS DO CONTEXTO: A PROFESSORA, OS ALUNOS E A DIRETORA

4.3.2 Perspectivas de vida

Quanto às perspectivas de vida, uma das turmas apresentou dados variados sobre as aspirações futuras de suas carreiras profissionais. Foram citados cursos como Direito, Psicologia, Engenharias, Arquitetura, Medicina, Artes Cênicas, Música. A aluna que citou a Música (Aluna G) explicou que a escolha é em função da sua relação indissociável com as dimensões musicais, porque é o que mais gosta de fazer. O outro grupo focal, por sua vez, apresentou uma peculiaridade interessante quanto às aspirações profissionais futuras. Dos vinte e um participantes, dez querem cursar Medicina, seis querem cursar Direito e os restantes não sabem ou não querem. Os jovens apresentaram três fatores principais que motivaram a escolha por estes cursos: pela possibilidade de contribuir para o bem da sociedade, pelo prestígio profissional e pela (suposta) boa remuneração financeira, conforme é possível observar na fala dos alunos abaixo.

Pesquisador: Por que medicina?

Aluna K: Porque eu acho uma profissão muito bonita e corajosa. Médico passa por tantas situações difíceis para ajudar os outros... Não é fácil ser médico.

Pesquisador: E como você pretende se preparar?

Aluna K: Sempre estudar. Minha mãe disse que quanto mais você estuda, mais está por dentro das coisas… É aquilo de estudar pra ser gente, né?

Pesquisador: E você [apontando para um aluno], por que o Direito? Aluno Y - É uma profissão legal… E recebe muito bem [risos].

Primeiramente, vale frisar que a visão apreendida pela Aluna K de que é necessário "estudar para ser gente", ou seja, para que um sujeito ganhe a qualificação de "gente" é necessário o contato com estudos formais, é marginalizadora. Compreendo a boa intenção por trás da fala, que é a exaltação da importância dos estudos para possibilidades de ascensão social e cargos profissionais futuros, mas acaba sendo um termo pejorativo de costumeira reprodução na sociedade. Trata-se de uma concepção que retrata manifestações da Modernidade na educação. Em uma perspectiva semelhante de marginalização de indivíduos, Comenius, autor de um dos marcos de fundação do pensamento moderno em educação, humilha aqueles que não tem acesso à educação formal: “se observarmos com atenção as diversas condições dos homens, verificaremos sempre o mesmo. Quem pode duvidar que a educação seja necessária para que os estúpidos vençam sua estupidez?" (COMENIUS, 1986, p. 74).

Analisando a perspectiva de realização das aspirações profissionais dos alunos, é triste projetar o olhar no futuro destes jovens e saber que poucos deles irão conseguir atingir o sucesso profissional que sonham para o futuro. Esta afirmação pode ser embasada a partir de dados obtidos no Observatório da vida do Estudante Universitário (COMPERVE/UFRN, 2015) de estudantes matriculados no primeiro período de 2013 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte nos dois cursos citados - Direito (turno matutino) e Medicina.

Dos 42 alunos da turma de Direito, 78,6% consideram-se brancos, enquanto apenas 2,4% consideram-se negros e 19% consideram-se pardos ou mulatos. A maioria 54,8% reside em bairros da Zona Sul (bairros considerados nobres), enquanto apenas 11,9% reside em bairros periféricos. Quanto à renda familiar mensal, 38,1% alegaram mais de 20 salários mínimos; enquanto 16,7% de 10 a 20 salários mínimos e 35,7% de 5 a 10 salários mínimos - nenhum aluno alegou renda familiar de até um salário mínimo. Todos os alunos tinham menos de 24 anos, sendo a maioria (61,9%) com idade de 15 a 17 anos - ou seja, alunos recém-saídos da escola. Expressivos 90,5% dos graduandos cursaram todo o Ensino

Fundamental em escolas particulares, enquanto apenas 2,4% cursaram todo o Ensino Fundamental em escolas públicas. Em relação ao Ensino Médio, 78,5% cursaram exclusivamente em escolas particulares e 21,4% cursaram exclusivamente em escolas públicas.

Dos 49 alunos da turma de Medicina, 67,3% consideram-se brancos, enquanto apenas 2% consideram-se negros, 2% mulatos e 28,6% consideram-se pardos ou mulatos. A maioria (53%) reside em bairros da Zona Sul, enquanto apenas 6,1% residem em bairros periféricos. Quanto à renda familiar, 32,6% alegaram de 10 a 20 salários mínimos, 38,8% de 5 a 10 salários mínimos e 30,6 de 1 a 5 salários mínimos – nenhum aluno alegou renda familiar de até um salário mínimo. A maioria dos graduandos (81,6%) apresentava idade de até 21 anos. A maioria (87,7%) dos graduandos cursou todo o Ensino Fundamental em escolas particulares, enquanto nenhum cursou todo o Ensino Fundamental em escolas públicas. No Ensino Médio, 79,6% cursaram exclusivamente em escolas particulares e 16,3% cursaram exclusivamente em escolas públicas.

As estatísticas sugerem que os alunos ingressantes nesses cursos são majoritariamente brancos, jovens, de classe média-alta, residentes em bairros nobres e cursaram escolas particulares durante toda a vida escolar. Os alunos pesquisados nas duas turmas do nono ano encontram-se ao avesso destes padrões: são alunos pardos, estudantes de uma escola pública, advindos de famílias humildes e bairros periféricos. Assim, para um jovem que faz parte deste contexto, virar futuramente um advogado ou um médico é uma meta difícil de ser alcançada ao verificarmos a árdua realidade e condições de vida as quais estes jovens estão submetidos. Passar no vestibular em cursos tão requisitados parece ser estatisticamente mais difícil ao consideramos os contextos da educação básica pública8.

Olhando para os alunos que de primeira mão responderam que não pensam em fazer um curso superior, senti que estes se encontravam em estado de conformismo, num realismo pessimista ao qual estão destinados. Assim, interpretei a realidade diante dos meus olhos como uma turma dividida entre os esperançosos aparentemente utópicos e os pessimistas possivelmente realistas. Em uma reportagem publicada na revista Ensino Superior Unicamp, Alisson (2014, s.p.) destaca uma fala do físico e ex-reitor de graduação da Unicamp Marcelo Knobel, que evidencia que a maioria dos concluintes do ensino médio configuram-se na categorização que apresento como pessimistas realistas: "a grande massa de estudantes que

concluem o ensino médio em escolas públicas não considera o ingresso em universidades públicas, pois sabe que tem pouca ou nenhuma chance de entrar nessas instituições".

A partir da prevalência da escolha pelos cursos de Medicina e Direito e os dados que sugerem o distanciamento do ingresso futuro dos jovens nestes cursos, pensei na importância de promover diálogos com eles sobre novas possibilidades profissionais. O objetivo não seria desvirtuá-los de seus sonhos, mas possivelmente quebrar a unilateralidade destas escolhas demonstrando que há muitas outras opções profissionais interessantes que podem ser escolhidas9; afinal, uma sociedade não se faz apenas com médicos, juízes e advogados. O educador, neste sentido, deve lidar com a tênue conciliação entre o incentivo aos alunos na conquista de seus sonhos – injetando diariamente doses de motivação e perseverança - e o diálogo sobre a abertura de perspectivas e possibilidades de vida e carreira profissional.