CAPÍTULO I: A CENTRALIDADE DA MÍDIA NA POLÍTICA: MÚLTIPLOS
2.1 Os componentes no processo de agendamento
2.1.4 A pesquisa sobre agendamento no Brasil
No Brasil os estudos sobre agendamento normalmente são voltados para conteúdos específicos no universo midiático. Há uma tradição de pesquisa na área com enfoques voltados para períodos eleitorais, tema predominante na pesquisa sobre mídia e política. Normalmente são estudos voltados para a compreensão das interfaces entre a agenda da mídia, dos candidatos e da opinião pública. Não será nosso objetivo resgatar todo esse repertório, mas sim mencionar alguns registros que ajudem a pavimentar nosso terreno de pesquisa, ou seja, as relações entre as agendas midiática e governamental.
Fausto Neto (1995, p.17-18), diz que é no interior do telejornalismo que se constitui a estruturação de um saber que se define exclusivo e auto-suficiente não apenas para falar, mas
construir a própria noção de política. Assim, o papel do discurso jornalístico da atualidade é não apenas de interlocução, mas atua também na construção do agendamento da própria política (p. 18). No caso específico da televisão, considera que ela não só fala, mas mostra segundo seu ponto de vista, procurando agendar a política, monitorar os passos dos atores sociais, exercer a condição de ‘grupo de pressão’, prescrever suas ações e finalmente sentenciar processos. “A TV, através do telejornal, se converte em um grande dispositivo político” (p. 75). Portanto, considera a cobertura do impeachment como um exemplo didático de como o poder dos media age sobre outros poderes, abrindo caminho para reflexões futuras sobre o papel do jornalismo e sua eficácia nas sociedades democráticas.
No caso do impeachment do ex-presidente Collor, ele identificou nos principais telejornais do país os dispositivos que interferiram no processo de afastamento do presidente. "Denominada pela noção moderna de ‘praça pública’, a TV, via telejornal, converte o exercício da publicização de fatos como a possibilidade da prática da democracia. Mas em função das regras particulares de cada sistema de comunicação, acaba oferecendo o seu como único modelo de construção da política" (Fausto Neto, 1995, p.75).
Quanto à função de agendamento, na visão de Kucinski (1998, p.23), ela ocorre a partir do processo mediático de produção de consenso, que tem início na definição da agenda nacional de discussões. É mediante a inclusão ou exclusão de itens na agenda, ou de enfoques adotados, que se inicia a construção do consenso. Retomaremos essa questão no próximo tópico, ao comentar as particularidades na disputa pela agenda.
Para o autor, o processo de formação da agenda se dá em duas etapas: os formadores de opinião, que podem ser intelectuais ou jornalistas e demais pessoas que interagem com muitos em uma pequena região; já num processo mediático de âmbito nacional, os formadores de opinião são os colunistas de destaque e os comentaristas de TV. “No Brasil, esses jornalistas, ainda que ocasionalmente críticos a aspectos isolados da política do governo, apóiam sistematicamente os objetivos estratégicos das elites”(p. 24). Mesmo considerando que a origem do agendamento ocorre nos principais jornais do país8, Kucinski (1998, p. 28)
deposita na televisão brasileira, especialmente na Globo, o papel de popularização da agenda: “num país de cultura oral, é a TV que massifica a agenda”.
Gomes (2004, p.325) também nos traz contribuições à teoria do agendamento: "a indústria da informação não apenas nos diz o que devemos considerar como o mundo real (embora seja apenas atualidade midiática), mas como e com que prioridade ou urgência o
devamos considerar e, sobretudo, porque o devemos considerar". O autor entende por "considerar" um nome geral para indicar comportamentos e atitudes fundamentais, tais como: "pensar, dizer, discutir, conversar, usar como parâmetros das próprias decisões etc". Nessa argumentação, Gomes pressupõe as hipóteses metodológicas das teorias da comunicação nos chamados cognitive media effects, principalmente as hipóteses de que a agenda do público tende a coincidir com a agenda dos meios de comunicação (agenda-setting) e a hipótese de que os meios constituem os enquadramentos dos fatos políticos e sociais que orientam a percepção pública desses mesmos fatos (media framing). Portanto, essas duas teorias serão retomadas no decorrer da pesquisa, quando demonstraremos as compatibilidades entre a agenda do governo Lula e da mídia.
Maria Izabel Szpacenkopf (2003, p.80), refere-se à estratégia da mídia de “agendar” os assuntos sobre os quais devemos estar informados, hierarquizando a importância deles e cultivando nossas crenças e posições a serem assumidas em relação a um mundo apresentado, prova que escolhas alheias a nós influenciam o que devemos pensar, o quanto devemos pensar e como devemos nos comportar. Apesar da autora não utilizar a hipótese do agendamento na sua análise sobre telejornais, mas sim na noção de poder disseminada por Pierre Bourdieu, percebemos nessa passagem que ela respalda o que os teóricos da agenda-setting vêm afirmando.
Na sua pesquisa, porém a autora chegou a conclusões semelhantes às de Fausto Neto sobre os telejornais, desta vez refletidas na ótica do agenda-setting. Diz que o agendamento de notícias políticas e de economia efetuados pelos poderes envolvidos constrói a atualidade, e nele os jornalistas se inspiram para programar os acontecimentos. Para Szpacenkopt (2003, p.173) as mídias impõem um cardápio de acontecimentos diários. Considerando que a agenda-setting, ou a Agenda Midiática repousam sobre a idéia de que “os indivíduos que participam da vida social organizam seus comentários sobre o que passa no espaço público em função do que é apresentado na mídia” (apud Patrick Charaudeau, 1997, p.153). Assim, a autora diz que os acontecimentos políticos justificam a importância que os telejornais dão a eles, que pode ser resumida da seguinte forma: “se o governo faz a atualidade, a informação faz o acontecimento num quadro de acontecimentos que foi traçado fora dela” (p. 173 apud Gérard Leblanc, 1987, p. 82). Como o governo e o Estado interferem na agenda de notícias, mesmo que não diretamente, a democracia precisa da publicidade dos atos daqueles, da opinião pública favorável às medidas e decisões que são implantadas por seus representantes (Szpacenkopt, p.173-174). A autora diz que não é o telespectador que escolhe as informações, embora sejam programadas em função dele. Nessa “rede de poderes, a atualidade é agendada,
construída e mantida em função de interesse múltiplos” (Idem, p. 174). Finalizando, diz que um telejornal, “se interessado em atender as exigências e comandos de instituições ou mesmo do Estado, sua intenção poderá ser a de captar o espectador numa tentativa de mantê-lo 'controlado' por um conjunto de idéias” (Idem).
Nota-se que a autora apresenta uma visão passiva do campo político, uma vez que ela ignora a força dos políticos de também interferir no conteúdo jornalístico. Apesar de mencionar que o governo pode influenciar na agenda de notícias, Szpacenkopt enfatiza pouco esta perspectiva.
Procurando compreender as estratégias para formação de consenso e da hegemonia na transição política brasileira a partir de 1987, Francisco Fonseca (2005) fez um estudo exaustivo (oito anos de pesquisa nos espaço de opinião dos quatro principais jornais: Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo e Jornal do Brasil) na grande imprensa, constatando um consenso forjado em torno da agenda ultraliberal no país. Considerando a imprensa um aparelho privado de hegemonia, como empresa e como partido do capital global, Fonseca identificou uma atuação pragmática e doutrinária nos jornais."Não observamos vestígios de pluralismo na grande imprensa, pois, reitere-se, os quatro jornais não apenas atuaram de forma impressionantemente semelhante como buscaram objetivos idênticos, resguardada sempre as idiossincrasias (no sentido amplo)", diz Fonseca (p. 444). Constatou que os jornais justificaram posições em nome da democracia liberal, mas atuaram de forma antiliberal e antidemocrática, pela ausência de vozes discordantes nos noticiários. Diante do quadro analisado, conclui que a grande imprensa possui um poder "sem freios nem contrapesos", cujo objetivo foi obter uma hegemonia capaz de formar e depois implementar agenda ultraliberal, ou seja, um consenso forjado. Mesmo refutando a teoria do agenda- setting em sua pesquisa, preferindo optar pelo conceito gramsciano de hegemonia, Fonseca atinge objetivos semelhantes aos propostos pelo paradigma do agendamento e do enquadramento.
Entre os autores também dedicados ao tema do agendamento no Brasil, encontramos em Antônio Hohlfeldt uma visão menos redutora a dos autores mencionados acima. Ele diz que numa sociedade urbana complexa, temos a necessidade de mediação dos meios de comunicação: "não podemos testemunhar as decisões do Palácio do Planalto ou do Congresso Nacional" (2001, p.192). Portanto, dependendo da mídia, sofremos sua influência a médio e longo prazo, não nos impondo determinados conceitos, mas incluindo em nossas preocupações certos temas, que de outro modo, não chegariam a nosso conhecimento e, muito menos, tornariam temas de nossa agenda (p.193).
Assim, a passagem citada por Hohlfeldt se insere na nossa perspectiva de abordagem, reconhecendo a importância dos MCM em mediar os acontecimentos gerados no governo federal, com possíveis conseqüências para a população e principalmente para o próprio Estado brasileiro. Entendemos é que os efeitos também serão perceptíveis no governo, que reconhecendo esse potencial da mídia, também tentará interferir no processo, disputando espaços no campo jornalístico. Isso também pode gerar conseqüências indesejáveis ao gestor público, numa complexa relação que abordaremos a seguir.