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Precedentes da gestão escolar para equidade: contextualizando a discussão o revisitar alguns dos debates que estiveram presentes na base da constituinte brasileira

de 1987, nos chama a atenção as mobilizações dos movimentos sociais, em especial o movimento negro2, em torno de mudanças na política educacional. O ponto de

1Esse artigo baseia-se em Oliveira e Silvério (2019), conforme referenciado na bibliografia.

2As organizações e entidades negras, como se auto denominam, no cenário brasileiro que são representativas

do movimento social negro têm sua existência e a sua ação registradas, ao menos, desde as primeiras décadas do século XX, atuando, de acordo com o contexto social, basicamente na luta pela integração do negro na sociedade. Somente a partir do surgimento do Teatro Experimental do Negro (TEN) , na década de 1940, a problemática de uma identidade negra, a qual a ideologia do branqueamento tentou suprimir, tornou-se uma questão central no resgate da contribuição efetiva do negro e da sua especificidade no que tange ao tratamento recebido pelo grupo na construção do país. A partir do final dos anos 1970, no interior do processo de luta

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confluência do conjunto das mobilizações na constituinte foi a Subcomissão dos Negros, Populações Indígenas, Pessoas Deficientes e Minorias, instalada junto à Comissão da Ordem Social. Em relação aos negros, a determinação pelo regimento interno da constituinte de que a temática racial seria abordada agradou às organizações do movimento negro, entretanto, o fato de o espaço destinado a essa discussão estar restrito à “subcomissão”, acima mencionada, sinalizava as dificuldades impostas por uma correlação de forças politicamente desfavorável (RODRIGUES, 2005). De acordo Silvério,

Tais dificuldades nos remetem às constatações feitas por Zambrano (2004), ao analisar o caso colombiano, em que as substituições radicais – culturais ou jurídicas – das relações sociais e das representações da sociedade são, de fato, transformações que só podem ser produto de processos e lutas, nas quais um pacto constitucional é apenas o princípio de novos estágios (isto é, o início de novos processos e lutas) do que ele chama de Fenômenos Político-culturais Emergentes (FPcE). (SILVÉRIO, 2005, p. 89)

Como resultado das mobilizações da constituinte, forjou-se a Constituição Brasileira de 1988, “batizada” como cidadã3. Entre o batismo (como cidadã) e a realização do que a constituição

projetava, em termos de mudanças reivindicadas pelos movimentos sociais, nos deparamos com os processos de lutas pela realização de um conjunto múltiplo de interesses em disputas. Em outros termos, ao conceber o problema como mudança social em expansão com impactos na organização social em seu conjunto, a Constituição Política se institui como referente de análise, e os desdobramentos ulteriores evidenciam na transição brasileira uma tensão entre uma perspectiva que procura conservar os pressupostos da ideologia da democracia racial e outra que se orienta por dar visibilidade, e expressão, à pluralidade dos modos de ser brasileiro (SILVÉRIO, 2005, p. 90). Esse diagnóstico nos parece ainda válido, especialmente quando consideramos a reação ao avanço de uma agenda de direito a ter direitos de negros e indígenas entre outros grupos, que tomou lugar no Brasil desde 2014. As questões colocadas à época eram:

1) Que efeitos têm produzido as mudanças culturais captadas pela Constituição e quais desenvolvimentos se podem observar em relação a elas?

2) Como interpretar as novas demandas colocadas pela diversidade nas últimas décadas e as não resolvidas anteriormente, como, por exemplo, as terras indígenas e as terras quilombolas?

Uma resposta possível é que a similaridade das demandas colocadas sob o guarda-chuva da diversidade decorre da persistente exclusão social no Brasil, e na América Latina, é resultado de séculos de exploração colonial de recursos, políticas que aprofundaram a subalternização de povos nativos e descendentes de africanos, trabalho forçado, etc. A vigência de um pacto político que permitiu a expansão de direitos, entre 1988-2014, que entrou em declínio com o processo consumado de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 e foi substituído por um conjunto de medidas reativas às mudanças em curso no período. Desta forma, por um lado, vivemos

pela democratização, o conjunto crescente de entidades e organizações que se autointitulam pertencentes ao movimento negro tem operado de forma incisiva na luta antidiscriminação racial e antirracista dentro e fora do país. De modo geral, a ideia de raça que essas entidades e organizações tomam como parâmetros para a sua ação é aquela na qual raça é utilizada como uma categoria de interpretação com base em uma reapropriação social, política e cultural construída pelo movimento negro que prescinde de qualquer sentido biológico e cientifico do termo.

3 Entre 1987 e 1988, o Congresso Nacional se dedicou a redigir a nova Constituição Federal do Brasil. O

resultado desse trabalho simbolizou não só a formalização de princípios sociais e políticos que passariam a vigorar no país, mas também o fim da ditadura militar. Chamada de Constituição cidadã pelo deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, a nova Carta substituiu o texto de 1967, que havia consolidado o golpe de 1964 ao conferir mais poderes à União e ao presidente da República.

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Laplage em Revista (Sorocaba), vol.5, n.Especial, set.- dez. 2019, p.98-111 ISSN:2446-6220 a expansão dos direitos com o desenvolvimento de um campo normativo, isto é, um conjunto de leis que reconheciam a diversidade da população brasileira; e, por outro lado, a sua não consolidação para além da sua dimensão legal, no presente momento, tem significado um risco constante aos pequenos avanços conquistados nas últimas duas décadas, por exemplo, na agenda dos direitos humanos, que se constituiu em um guarda-chuvas para o direito à diferença. O caso exemplar é o da educação. Uma parte importante das reivindicações do movimento negro no Brasil sempre esteve relacionada à luta por mudanças no currículo escolar que contemplassem a presença ativa dos negros e negras na construção da sociedade brasileira. A alteração da Lei nº 9.394/03 de Diretrizes e Base da Educação Brasileira (LDB), provocada pela Lei nº 10.639/03 e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana (de acordo com a homologação, em 18 de maio de 2004, do Parecer nº 03/2004, de 10 de março, do Conselho Pleno do Conselho Nacional de Educação, aprovando o projeto de resolução dessas diretrizes que as acompanham), podem ser consideradas novos marcos na história da educação do país. Em seu conjunto, essas normas representaram transformações substantivas que refletiam mudanças sociais profundas na forma como nossa sociedade se autoimagina e se representa enquanto uma comunidade imaginada.

O período entre a promulgação da Constituição de 1988 e a aprovação da Lei n. 10.639/03 é de extrema importância para a compreensão das mudanças sociais em curso, tanto em um contexto nacional quanto transnacional. Alguns dos marcos que nos servem como referência são os seguintes: a Marcha Zumbi dos Palmares (1995), a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 9.394/1996 (LDB), os Seminários Regionais Preparatórios para Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata4, a III

Conferência Mundial das Nações Unidas Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Durban, na África do Sul (2001) e, por fim, a aprovação da alteração da LDB pela Lei nº 10.639/2003, bem como sua regulamentação. Em relação à sua efetiva implementação, durante o ano de 2008 ocorreram seis encontros regionais (dois no Nordeste e um em cada região do país) e um encontro nacional, os quais serviram de base para a construção de um plano5. A Marcha Zumbi dos Palmares – contra o

racismo, pela cidadania e a vida – foi organizada pelo movimento negro no ano de 1995, tendo como tema central a homenagem aos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares. Os desdobramentos da Marcha ganharam relevância no cenário político nacional com a instalação, em 1996, durante o Governo Fernando Henrique Cardoso, do Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da

4 Por meio de Decreto de 8 de setembro de 2000, o então presidente da República Fernando Henrique Cardoso,

criou o Comitê Nacional para a Preparação Brasileira na Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. O Comitê Nacional foi encarregado de coordenar o processo de discussão dos temas substantivos da Conferência Mundial e sistematizar as contribuições dos órgãos governamentais e de movimentos da sociedade civil interessados na Conferência. Os seminários, com a mesma pauta de discussões, ocorreram em três capitais: Belém, São Paulo e Salvador. Os textos resultantes encontram-se nos Anais com o mesmo nome, publicados pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, com o apoio do Instituto de Pesquisas em Relações Internacionais (Ipri) do Ministério das Relações Exteriores, em 2001.

5 O Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações

Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana é o resultado das solicitações advindas dos anseios regionais, consubstanciadas pelo documento Contribuições para a Implementação da Lei n. 10.639/2003: Proposta de Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, fruto de seis encontros denominados Diálogos Regionais sobre a Implementação da Lei n. 10.639/03, do conjunto de ações que o MEC desenvolve, principalmente a partir do surgimento da Secad, em 2004, documentos e textos legais sobre o assunto. Cabe aqui registrar a participação estratégica do Setor de Educação da Unesco do Brasil, do movimento negro, além de intelectuais e ativistas da causa antirracista.

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População Negra (GTI). Este teve um papel fundamental no reconhecimento, por parte do Estado brasileiro, do racismo em nossa sociedade.

A III Conferência Mundial das Nações Unidas Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada pela ONU em Durban, na África do Sul (2001), é considerada como fundamental no estabelecimento de uma série de ações políticas como, por exemplo, as recomendações sobre a adoção das cotas para estudantes negros nas universidades públicas e a criação do Conselho Nacional de Combate a Discriminação. A sua revisão, em 2009, em Genebra, reafirmou a Declaração e Programa de Ação de Durban (DDPA), conforme foi adotado na Conferência Mundial em 2001, e expressou preocupações com o “fato de que os desafios e obstáculos identificados no DDPA permaneciam pendentes de superação para erradicar, prevenir e combater efetivamente o racismo, a discriminação, a xenofobia e a intolerância correlata” (Revisão de Durban, Seção 1).

Nosso argumento é que os fenômenos político-culturais emergentes (FPcEs), isto é, as lutas políticas que resultaram em processos de mudanças culturais e representacionais, de acordo com Zambrano (2004, p.231-260), resultaram na ampliação do escopo de direitos no plano jurídico. No entanto, no momento de definição de políticas públicas para consolidação da ampliação de direitos para a realização da justiça social articulada com a justiça intergeracional, a tensão Estado versus Mercado foi reposta em sua plenitude (nacional e internacional). Acarretando em um giro que ao demonizar a diversidade, na chave das diferenças, repõe, por um lado, para o campo progressista a questão de classe em detrimento das diferenças em geral (em especial as diferenças etnicorraciais) e, por outro lado, o retorno do mito da democracia racial para os setores conservadores como estratégia de combate ao campo normativo constituído em torno da diversidade.

No entanto, nem tudo está perdido, uma vez que tanto os Núcleos de Estudos Afro-brasileiros (NEABs) quanto Organizações Não Governamentais (ONGs), e algumas fundações de caráter privado, têm mantido a pauta em questão. Desde a constituinte em 1987, portanto, foi possível identificar dois tipos de pleitos do movimento negro brasileiro organizado, a saber: “(i) aqueles relacionados a problemas gerais que incidem majoritariamente sobre a população negra como violência policial, questão carcerária, direito à saúde (das mulheres, principalmente), acesso à educação, acesso ao trabalho (direitos trabalhistas de profissionais do campo e empregadas domésticas e diaristas), acesso à terra e (ii) àqueles relacionados mais estritamente com o pertencimento racial e que possuíam objetivos de caráter coercitivo, promocional e didático- pedagógico de acordo com os/as próprios/as ativistas” (SANTOS, 2015).

Esses dois tipos de pleitos transitaram, desde então, tanto na Constituição de 1988 quanto nas iniciativas, propostas e lutas sociais, entre três “caminhos” distintos, mas nem sempre separáveis, de encaminhamento da questão étnico-racial no país: o coercitivo, o promocional e o didático- pedagógico. O coercitivo sugere que todos são iguais perante a lei e que, portanto, qualquer discriminação atentatória aos direitos humanos deveria ser punida como crime inafiançável cabendo ao judiciário processar e julgar.

O promocional é aquele que ao identificar qualquer prejuízo, ou privilégio, em decorrência de nascimento, raça, etnia, cor, sexo, religião etc., atribuí ao poder público à obrigação, mediante programas específicos, de promover a igualdade social, econômica e educacional. O didático- pedagógico ao estabelecer a educação como direito de todos e dever do Estado de provê-la torna- se inseparável dos princípios de acessibilidade e de igualdade entre homens e mulheres e, portanto, a necessidade de ampliação da política pública estratégica de combate a todas as formas de racismo e de discriminação.

Em outros termos, dada a nossa formação social, na qual a diferença (racial, étnica e de gênero) foi historicamente base para as hierarquias e os interesses privados (individuais) submeterem os interesses públicos (coletivos), haveria a necessidade de criar uma nova orientação para a educação no sentido de potencializar mulheres e negros. Assim, o currículo escolar torna-se um dos elementos centrais de crítica, pois nele se encontra as representações que reproduzem’ uma versão de grupos dominadores e subordinados na história. É no caminho didático-pedagógico que foram

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Laplage em Revista (Sorocaba), vol.5, n.Especial, set.- dez. 2019, p.98-111 ISSN:2446-6220 pensados os editais “Gestão Escolar para a Equidade – Juventude Negra”, objeto de avaliação nesse artigo.

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