6. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
6.6 SÍNTESE COMPARATIVA DOS CASOS
6.6.5 Principais fatores de dificuldade e de apoio observados
Quadro 6.7 – Sistematização dos principais fatores de dificuldade e de apoio observados nos casos ilustrativos de transferência de tecnologia.
/Empresa Dificuldades Apoio/Estímulo
USP/
Empresa A
- Modelo “fechado” de comercialização da tecnologia (uso de licitação);
-Definição de royalties e valoração tecnológica;
- Burocracia excessiva na universidade; Morosidade do processo jurídico- administrativo na universidade.
- Existência de escritório especializado na universidade para proteção e TT*; - Remuneração pecuniária da TT* para a universidade e inventor;
- Alta qualidade da tecnologia e do documento de patente.
Unesp/
Empresa B
- Pouco conhecimento técnico sobre escalonamento da tecnologia; - Morosidade da área jurídico- administrativa da universidade; - Acompanhamento do processo e comunicação do mesmo junto à empresa pouco sistemático.
- Retorno financeiro para o inventor e para a universidade;
- Confiança da empresa no inventor;
- Tecnologia ter sido testada, comprovada e de alta expectativa de retorno financeiro;
- Suporte jurídico-administrativo da universidade.
Unicamp/
Empresa C
- Morosidade a área jurídico-administrativa da universidade;
- Pouca flexibilidade na gestão do contrato e dificuldade em suprir demandas emergentes da parceira;
- Negociação do contrato de natureza internacional, uso do inglês-jurídico e necessidade de conciliar legislações nacionais.
- Contratação de empresas especializadas na gestão das patentes e dos projetos de P&D pela
Empresa C;
- Apoio e experiência do ETT para negociação do contrato e trâmite do mesmo na universidade; - Pré-relacionamento entre as partes. Existência de convênio/contrato anterior;
- Alta qualidade e expectativa de retorno financeiro sobre a tecnologia;
- Uso de instrumentos formais para promoção da segurança jurídica.
Unifesp/
Empresa D
- Carência de recursos humanos para desenvolvimento da pesquisa;
- Tempo dedicado à interação entre inventor e empresa poderia ser maior;
- Morosidade administrativa da
universidade resultando em prazo estendido para assinatura de contrato;
- Gestão de projetos em pesquisa clínica necessita de melhorias.
- Apoio do ETT para monitoramento de oportunidades de TT*, conseguir parceiro, negociar o contrato e encaminhá-lo internamente à universidade;
- Aprendizado do processo de P&D conjunto com empresas;
- Credibilidade da instituição acadêmica como estímulo à qualidade da pesquisa e para negociação com a indústria farmacêutica.
UFSCar/
Empresa E
- Morosidade no trâmite universitário em função da burocracia excessiva;
- Fixação de percentual de royalties a serem pagos pela empresa. Valoração tecnológica; - Cultura de comercialização de tecnologia universitária pouco desenvolvida;
- Custo da parceria com a universidade em função da cobrança de taxas para efetivação de contratos;
- Escolha da empresa certa;
- Existência de ETT universitário para administrar e legalizar o processo;
- Empresa com departamento de P&D e pessoal qualificado;
- Empresa ter interlocutor especializado em propriedade intelectual;
- Alta qualidade, simplicidade e perspectiva de retorno econômico da tecnologia;
- Inventor altamente capacitado tecnicamente, acessível e envolvido com o processo; - Estabelecimento de um cronograma breve de atividades e execução do mesmo.
O quadro 6.7 sintetiza os fatores de dificuldade e de apoio que mais se destacaram quando da realização das entrevistas com atores dos diferentes processos de transferência de tecnologia estudados. Observou-se que alguns aspectos de dificuldade e de apoio foram comuns, possivelmente porque a natureza dos contratos selecionados é assemelhada. Entretanto, é possível notar pontos distintos indicados entre os casos.
Com foco nas dificuldades apontadas relativas às universidades, presente em todos os 5 casos ilustrativos, a morosidade dos trâmites jurídico-administrativos resultando em um prazo muito estendido para assinatura dos contratos foi marcante. Essa queixa foi manifestada principalmente pelas empresas, não deixando de ser mencionada em 2 casos pelos próprios ETT’s e por inventores. Também foi recorrente nos casos pertinentes, a dificuldade em se definir consensualmente o percentual de royalties a serem pagos pela empresa pela exploração da tecnologia. Trata-se do tema da valoração tecnológica.
No caso da USP o processo adotado para licenciamento da patente foi o de licitação pública, o que gerou a impossibilidade de negociar o contrato com a empresa em termos mais específicos, inclusive acerca do percentual de royalties. No caso da Unesp verificou-se uma dificuldade na comunicação da Unesp para com a empresa no sentido de mantê-la informada sobre o andamento do processo de negociação. Na Unicamp, a negociação com empresa multinacional de um contrato bi-nacional conciliando legislações nacionais foi um aspecto desafiante. Na Unifesp, uma maior interação do inventor com pesquisadores da empresa poderia favorecer uma melhor adequação do projeto e sua gestão. Por fim, na UFSCar, o inventor relatou acerca de uma cultura pouco desenvolvida de comercialização de tecnologia em seu departamento, o que dificultou, de certa forma, seu relacionamento interpessoal e os trâmites do processo.
Como fatores de apoio citados, foi marcante a existência de uma estrutura de apoio nas universidades, isto é, os ETT’s. Tanto inventores quanto empresas indicaram os ETT’s como canais úteis de comunicação que promovem a organização das informações, adequação normativa institucional e acompanhamento do processo. A possibilidade de retorno financeiro para a universidade e inventores também foi destacada como fator de estímulo, especialmente pelos inventores.
Pelas empresas foi unânime a visão acerca das tecnologias das universidades como de alta qualidade, confiabilidade e propiciadoras de alto retorno econômico de sua exploração. No caso da USP, a empresa destacou ainda a qualidade técnica do documento de patente base para o contrato. No caso Unesp ressaltou-se o fato de a tecnologia ter sido previamente testada e comprovada como eficaz. Já no caso da Unicamp, a existência de um
relacionamento prévio em pesquisa com a empresa fortaleceu a confiança entre as partes. A empresa também elevou a importância dos instrumentos de formalização da cooperação com a universidade, o que permitiu uma maior segurança jurídica das relações estabelecidas.
Já no caso da Unifesp, onde o contexto de pesquisa é o da área médica, em particular pesquisa clínica, a credibilidade da universidade agrega valor à empresa por meio dos produtos em que desenvolve conjuntamente, tendo sido esta credibilidade de suma importância para motivar a empresa pelo contrato. Por fim, o caso da UFSCar evidenciou a importância de negociar com um perfil de empresa aberto no sentido da parceria com a universidade. Este perfil de empresa significou neste caso o interesse pela pesquisa e o investimento nos meios para continuidade de sua realização. Ainda, o fato da mesma possuir departamento de P&D estruturado e interlocução no campo jurídico competente da área de propriedade intelectual foram grandes fatores de apoio ao processo.