3 A AMBIVALÊNCIA POLÍTICA DA LÓGICA ESTÉTICA DO GOSTO
3.3 PROBLEMA DO GOSTO A PARTIR DE HUME E KANT: AUTORIDADE DO
Parte do esforço dedicado à investigação sobre o gosto, bem como sobre a reflexão acerca do belo e da arte, foi canalizado no sentido de se fundamentar a possibilidade de um consenso em matéria de gosto, como nos casos de David Hume e Immanuel Kant. Esse foi um empreendimento necessário, afinal, o interdito do senso comum segundo o qual não se discute sobre gosto possui um fundamento lógico. Na medida em que o gosto se refere a um sentimento subjetivo de prazer ou desprazer, ele é, como o próprio Hume (2008) afirma, autorreferente e sempre verdadeiro. Como não se refere a fatos objetivos, o sentimento de prazer sentido não poderia ser anulado por nenhuma crítica, por mais racional, sistemática e coerente que viesse a ser.
Há, e isso não é menos importante, a própria defesa filosófica segundo a qual o gosto não possuiria regras explícitas sobre as quais se poderia atuar – pelo contrário, assim como o objeto artístico possui parte de seu encanto naquilo que não é compreensível e não é dedutível de regras – o je ne sais quoi – assim é o gosto, como faculdade de apreciação estética (CARCHIA & D’ANGELO, 2009).
Por fim, crê-se que os indivíduos têm direito livre de gostar ou desgostar do que bem entenderem, ou seja, presume-se um princípio de igualdade dos gostos, um interdito a qualquer interferência estrangeira sobre a subjetividade (HUME, 2008). Questão que se torna ainda mais importante em sociedades individualistas, hedonistas e democráticas: com qual fundamento e com que autoridade alguém poderia arrogar o direito de intervir sobre o gosto de terceiros, questionar o princípio de prazeres privados e subjetivos? O problema do gosto, por mais antigo que possa ser, tornou-se ainda mais relevante no contexto contemporâneo, reinventando a tensão entre a liberdade individual e as normatizações coletivas.
Para Hume, o problema está enraizado em uma série de paradoxos. Carrol (1984) estabelece as oposições que, de um lado, afirmam o caráter contingente, relativo e variado dos gostos e, de outro, aspectos que afirmam a possibilidade, necessidade e realidade da discussão, da crítica e formação de consensos. Se à primeira vista o gosto não permite disputas, por outro, reconhece-se, de comum acordo, a existência de obras superiores; se todo sentimento possui sua verdade na autorreferencialidade, afirmando, assim, a igualdade de valores de todos os gostos, por outro, reconhece-se a existência de julgadores melhores que outros – hierarquizando-os, rompendo o princípio da igualdade. Se se afirma que o gosto é um princípio subjetivo, particular, contingente, por outro lado, há uma subjacente visão segundo a qual há
propriedades objetivas dos objetos que são responsáveis por desencadear os sentimentos subjetivos. O gosto é tido tanto como um “sentimento”, um gostar; quanto uma capacidade de julgar e, dessa forma, possibilitaria a emergência de espaços de discussão, argumentação na produção de um consenso.
Hume (2008, p.42) afirma, apesar de reconhecer a volubilidade das discussões, que “é natural que procuremos um padrão do gosto; uma regra pela qual os vários sentimentos dos homens podem ser reconciliados; pelo menos, uma decisão, confirmando um sentimento, e condenando outro”. O problema é que, ao fundamentar a possibilidade de consenso, Hume não teria proposto um único padrão de gosto, mas dois: haveria um padrão ligado às “regras da arte”, possuindo uma dimensão objetiva, ligada à qualidade das próprias obras, e um outro padrão que poderia ser alcançado a partir dos julgamentos dos críticos ideais (SHELLEY, 1994; WIEAND, 1984). Embora tenha se utilizado da visão segundo a qual o prazer estético seria meramente subjetivo, Hume concederia espaço para uma interpretação causalista10 desse prazer, isto é: há um conjunto de propriedades do próprio objeto que funcionam como gatilhos que desencadeiam o prazer subjetivo. O problema é que, independentemente disso, em seu ensaio, Hume pouco aborda sobre quais seriam as propriedades capazes de desencadear tais sentimentos. Dickie (1996) lembra que nisso ele difere de Hutcheson, que teria considerado o princípio da “unidade da diversidade” como elemento básico capaz de desencadear o prazer estético.
Em relação a um padrão mediado pelo julgamento dos críticos, Hume (2008) é mais específico. Elenca 5 qualidades que constituiriam o crítico ideal, capaz de reconhecer virtudes e defeitos nas obras e, dessa forma, contribuir para a constituição de um consenso. O crítico seria um modelo, um exemplo, um instrumento no qual se apoiar.
Para Hume, haja vista que o gosto é uma experiência sensorial, é necessário que o sujeito da experiência esteja em condições saudáveis, para que seus órgãos (sentidos) não distorçam a experiência. Para atender aos requisitos do padrão do gosto (o bom gosto do crítico de Hume) é necessário que o indivíduo seja (1) dotado de delicadeza – um exercício livre da imaginação –, (2) que cultive talentos e disposições naturais através da prática, (3) que seja familiarizado com o mundo da arte, realizando experiências imersivas, (4) que desenvolva a capacidade subjetiva de ver, examinar e ponderar, pois seria “impossível prosseguir na prática da
10 Em relação a esse ponto, os intérpretes problematizam o ceticismo de Hume quanto à causalidade, se é algo
objetivo ou mera crença psicológica/hábito. Do ponto de vista da arte, como será argumentado adiante, há uma divergência fundamental quanto à natureza do prazer estético: seria ele apenas subjetivo ou há qualidades inerentes aos objetos que são estímulos responsáveis para desencadear o prazer?
contemplação de qualquer espécie de beleza sem frequentemente ser-se obrigado a estabelecer comparações entre eles” (HUME, 2008, p. 50); é assim que o indivíduo torna-se capaz de emitir julgamentos acerca das artes, discernindo a qualidade dos objetos; e, não menos importante, (5) é necessário que o indivíduo esteja desprendido de suas relações sociais, despojado de preconceitos, que sua relação com o objeto de arte seja uma relação na qual o mundo histórico esteja suspenso – o preconceito destrói a experiência da arte e afetaria de modo irreversível o julgamento e o sentimento.
Assim, para o autor, o padrão do gosto estaria incorporado nos indivíduos capazes de atender todas essas exigências, o que explica a raridade com que eles apareceriam no mundo. Todavia, o empreendimento de Hume (2008, p. 55) acaba por demonstrar que, em termos de julgamento, “não é possível pôr no mesmo pé o gosto de todos os indivíduos, e que alguns homens em geral, por mais difícil que seja identifica-los rigorosamente, devem ser reconhecidos pela opinião universal como merecedores de preferência, acima dos outros’’. O crítico ideal de Hume estaria acima dos demais indivíduos e serviria de modelo para um padrão do gosto, acima de todas as particularidades e parcialidades.
Apesar da ênfase concedida sobre o papel do crítico e a possibilidade de alcançar um consenso através dele, Wieand (1984) e Shelley (1994) defendem que, do ponto de vista de Hume, o padrão das “regras da arte”, vinculadas às propriedades objetivas das obras, e não o padrão ligado a uma aliança e acordo entre críticos, seria o modelo de consenso estético ideal, pois permitiria uma melhor adequação de uma importante transição: o deslocamento da esfera subjetiva para uma esfera objetiva, na qual se poderia pautar para fundamentar preferências e avaliações.
A possibilidade de se discutir acerca de gosto, para Kivy (2015), está ligada à tradução de julgamentos a partir de sentimentos (a afirmação de que algo é belo refere-se ao sentimento de prazer sentido, então, é o sentimento que definiria o que é ou não belo) em julgamentos sobre fatos (desloca-se da sensação sentida para uma propriedade do objeto, que teria despertado, causado, determinado sentimento). Assim, ao fazer do “gostar” do gosto uma “avaliação” acerca de propriedades dos objetos, torna-se possível sair do emaranhado do relativismo e ter algum fundamento. Kivy (2015) lembra que, a busca por um padrão do gosto envolve a busca por um padrão externo, que conceda, como lembra Carrol (1984), alguma possibilidade de objetividade em matéria de gosto.
A resposta de Kant em relação ao problema da possibilidade de consenso em matéria de gosto possui outro fundamento, embora parta de um problema comum. A questão da diversidade dos gostos está expressa em sua antinomia do gosto. Na Crítica da Faculdade do
Juízo, Kant (2010, p. 64) afirma que a experiência da arte é uma experiência imediata, que “belo é o que agrada universalmente sem conceitos”. Essa tese condensa uma série de problemas para sua filosofia do gosto, sobretudo em relação às seguintes questões: qual é a possibilidade da universalidade, uma vez que a experiência do belo é um sentimento subjetivo? Como poderia haver um consenso em matéria de gosto se ele é apenas um sentimento subjetivo e independente da razão e suas operações? A famosa antinomia kantiana do gosto encerra esse último dilema a partir de três postulados: (1) cada um tem seu próprio gosto; (2) não se pode disputar sobre o gosto; (3) pode-se discutir sobre o gosto (embora não se possa disputar) (KANT, 2010).
Ora, a afirmação segundo a qual cada um tem seu próprio gosto afirma mais do que a existência de uma diversidade empírica em matéria de gosto. Para Kant, uma vez que o gosto é um julgamento, ele exige que os sujeitos sejam autônomos. A autonomia do gosto é tida como a capacidade de julgar por si próprio, sem o recurso ao juízo de terceiros. Opõe-se, assim, frontalmente à visão de Hume segundo a qual o crítico seria uma autoridade à qual os incapazes deveriam recorrer para fundamentar ou aprimorar seus próprios juízos. Para Kant, o juízo deve ser feito de modo livre e a liberdade do juízo é relativa à existência de outros julgadores. Assim, o sujeito não deve se submeter a argumentos, pois o gosto nada tem a ver com conceitos, sendo um sentimento, bem como não deve se constituir a partir da imitação, pois deve afirmar uma capacidade do próprio sujeito. Em suma, Kant (2010, p. 129) afirma que “o gosto reivindica simplesmente autonomia. Fazer de juízos estranhos fundamentos de determinação do seu [próprio juízo] seria heteronomia”.
Todavia, adiante Kant alega que é possível discutir sobre o gosto. O ponto central é que há uma diferença entre disputar e discutir. A discussão, a seu ver, tem a ver com o fato de que, apesar de o gosto e seu sentimento aspirarem à universalidade, fundamentando a possibilidade de um consenso, ele alcançaria esse ponto de vista elevado por um caminho que nada tem a ver com a racionalidade de argumentos e demonstrações, pois uma vez que o julgamento do gosto é imediato, não requer a mediação de conceitos. Em matéria de gosto, não há disputa, pois não há conexão entre o prazer estético e possíveis argumentos e demonstrações lógicas. Kant (2010, p. 131) afirma, a esse respeito:
parece que esta é uma das razões principais pelas quais se reservou a esta faculdade de juízo estética precisamente o nome de gosto. Pois alguém pode enumerar-me todos os ingredientes de uma comida e observar sobre cada um que ele aliás me é agradável, além disso, com razão, elogiar o caráter saudável dessa comida; todavia sou surdo a todos esses argumentos, eu provo o prato em minha língua e meu paladar e, de acordo com isso, não segundo princípios universais, profiro meu juízo
Assim, enquanto Hume postula a existência do crítico como central para a formação de um padrão de gosto – o bom gosto – Kant reluta e mantém que o gosto acaba por ser um princípio subjetivo avesso a qualquer preceito ou regra.
Kant afirma que um julgamento de gosto aspira à universalidade quando seu fundamento não está nos sentidos, mas em um modo de funcionamento das faculdades mentais. Ele estabelece uma divisão entre gosto dos sentidos e gosto da reflexão. O gosto dos sentidos teria validade meramente privada, pois seu fundamento é a sensação de agrado despertada pela existência física do objeto. O gosto da reflexão – definido como gosto puro – está fundamentado no interesse desinteressado em relação à existência física do objeto. O prazer do gosto dos sentidos está preso às sensações, enquanto que o do gosto puro provém do livre jogo da faculdade da imaginação e do entendimento. Esse livre jogo das faculdades é desencadeado pelo fato de que o gosto puro é um juízo reflexivo, um modo de julgamento no qual o universal, a regra, a lei está ausente. Desse modo, a imaginação e o entendimento, a partir de um particular, buscam encontrar determinado universal. Essa é a atividade da reflexão do gosto, e o prazer do gosto puro aí está fundamentado. O fato é que, nesse caso, o gosto puro produz julgamentos de validade pública, pois Kant afirma que o julgamento “isto é belo” aspira ao assentimento de outros e que, caso fosse um julgamento meramente privado, as pessoas profeririam o julgamento segundo o qual “isto me agrada”. Ao ajuizar algo como belo estaria pressuposta a possibilidade de se escapar do caráter privado do prazer subjetivo e instituir um consenso universal, ao menos hipoteticamente aspirar a isso, ainda que não se recorra a nada além da pressuposição de que todos os outros indivíduos deveriam sentir o mesmo prazer e ajuizar da mesma forma.
Ora, como poderia um sujeito esperar o assentimento de outros, como se fosse quase necessário que, diante de determinado objeto, ele sentisse o mesmo prazer e ajuizasse da mesma forma? O problema é que a tentativa de imputar o assentimento a qualquer um ao declarar algo belo reside no fato de que deve haver algo comum a todos, uma base universal de tal modo que se pudesse alcançar um consenso. Essa base universal não seria a da lógica, a dos conceitos, mas a pressuposição da existência de um sentido comum, da partilha de uma estrutura universal. Qual seria esse fundamento comum a todos? Na concepção kantiana, supõe-se que todos os indivíduos possuam capacidades comuns, um sentido comum, e que, por essa razão, todos estejam aptos a desenvolver um livro jogo da imaginação e do entendimento, isto é, a sentir um prazer a partir da atividade reflexiva do gosto, fundamentada na experiência de um objeto considerado belo (DICKIE, 1996).
O debate acerca da existência de um padrão do gosto tem como pano de fundo, como já dissemos, a questão do caráter meramente subjetivo ou não do gosto. O interessante é que, do ponto de vista político, é exatamente a forma pela qual Kant associa a autonomia do gosto e o hipotético acordo em relação a seu julgamento que fundamenta a relação entre gosto e liberdade. A independência do juízo estético em relação às esferas normativas – a moral e a verdade – torna-o autônomo, exprimindo, assim, um grau de autonomia e liberdade individual.
O juízo estético, de Kant (2005), possui familiaridade com sua concepção de autonomia através do uso público da razão). Politicamente, Kant prevê que a maioridade individual – concebida como a conquista da autonomia e da liberdade – está expressa no fato de os sujeitos serem capazes de se autodeterminarem e utilizarem a própria razão de modo livre. Igualmente, o juízo estético também exprime graus de liberdade (ou não) em relação a terceiros, ao exigir dos indivíduos que eles tenham um gosto próprio – inalienável. É a partir dessa conexão, entre a maioridade concedida pelo uso da própria razão e o caráter próprio do juízo estético, que alguns pensadores têm utilizado Kant como pano de fundo para pensar a relação entre gosto,