A razão procedimental, se traz consigo enormes potencialidades do ponto de vista da sua heuristicidade para a inteligência das transformações profundas das sociedades contemporâneas não deixa de conter em si um modelo de racionalidade complexo a necessitar de problematização e de clarificação conceptual. A discussão levada a cabo por De Munck e Verhoeven (1997) ilustra isso mesmo. Antes de propôr a sua conceptualização do conceito de procedimentalização estes autores entram em debate com as propostas de Luhmann, Garfinkel e Habermas (idem:36). O primeiro destes três autores realça o conceito de procedimento como instrumento de redução da
59 complexidade. O segundo conceptualiza o procedimento como interpretação situada e o terceiro põe em evidência a procedimentalização como processo de argumentação crítica. Para Luhmann as normas sociais são modalidades necessárias de comunicação social que permitem a redução da complexidade da vida social. Esta complexidade deriva do facto de que os actores sociais perante a necessidade e o esforço de coordenação das suas acções, encontrarem-se perante um leque de possibilidades, no espaço dos possíveis oferecido pela vida social que são sempre mais numerosas do que aquelas que são possíveis de levar à prática. Para reduzir esta incerteza constitutiva do social, os actores devem seleccionar os comportamentos e as expectativas recíprocas dos participantes nos processos sociais. É através da comunicação que as expectativas são estabilizadas. Trata-se de reconhecer que estamos perante um processo dinâmico de construção de saberes e de normas, o que contraria claramente a razão formalista e substancialista típicas das orientações normativas do Estado Social. O procedimento, cuja grande função aqui é a redução da complexidade do social não resulta em Luhmann do simples vivido dos actores como nas abordagens fenomenológicas, mas da sistémica comunicacional, uma vez ser esta que vai produzir o sentido das normas sociais. A realidade nesta abordagem é inteiramente produzida e estabilizada pelos processos sistémicos. O sentido não existe aqui como algo exterior e definido ex-ante aos sistemas comunicacionais, à maneira das totalidades concretas propostas por Gurvitch. Ao mesmo tempo abertos e fechados os sistemas asseguram a sua sobrevivência autopoiética (ibidem:37-38). O procedimento não é assim um mero processo de formação intersubjectiva da opinião, mas um dispositivo institucional que se centra na selecção dos conteúdos frequentemente muito complexos da construção do social para produzir uma validação positiva das normas sociais. A sistémica comunicacional em Luhmann é irredutivelmente procedimental. O mundo social é representado como uma construção selectiva contínua. Diferente da racionalidade procedimental de Luhmann é a conceptualização elaborada por Garfinkel (1967). O procedimento é então um mecanismo central de interpretação situada na construção social da realidade. A etnometodologia28 de Garfinkel põe em causa também a normatividade substancial, mas desta vez o “ataque às normas” não é feito a partir dos sistemas de comunicação, tal como acontece em Luhmann, mas sim da ordem do “vivido” dos actores. Apoiado nas correntes mais desconstrucionistas da fenomenologia, tais como a sociologia
60 fenomenológica de Alfred Shutz e a filosofia da linguagem de Wittgenstein este autor vem defender um conceito de procedimentalização em que o sentido das acções sociais é construído nas interacções situacionais, num ambiente social sempre instável e em construção permanente e inacabada. A ordem social é uma ordem negociada, resultante de transações contínuas entre os actores sociais participantes num jogo interaccional que produzem em conjunto um “mundo comum”. Dois traços maiores caracterizam a procedimentalização tal como conceptualizada pela etnometodologia: - A indexicalidade e a reflexividade dos procedimentos. A ideia de indexicalidade, inspirada na pragmática linguística remete para a inevitável contextualização de toda a produção de sentido produzido nas interacções situadas. Uma significação só se produz e é entendível a partir da referência pragmática a uma situação de enunciação. A produção de uma norma, qualquer que ela seja, não resulta de uma qualquer produção apriorística transcendente mas da construção de sentido resultante das definições de situação produzidas no aqui e agora indexicalizado. A procedimentalização tem como seu segundo grande traço a reflexividade. Se a construção social da realidade resulta dos procedimentos interpretativos levados a cabo pelos diferentes membros que desta maneira fazem a descriptibilidade do social, isso quer dizer que as acções sociais estão sempre sujeitas a uma racionalização progressiva e que elas são sempre criticáveis, sujeitas a um pôr em questão permanente, accountables. A accountability é então um mecanismo de prestação de contas pelo qual os actores reflectem permanentemente sobre as suas acções dizendo aquilo que fazem e o porquê daquilo que fazem. A
accountability das interacções é uma insistência na reflexividade dos actores e como nos recordam De Munck e Verhoven (1997:41) afasta-nos para muito longe da concepção do actor hipersocializado denunciado por Wrong no início dos anos 1960 ou do “idiota
cultural” presente na sociologia de Parsons. Em Habermas (1987) surge uma terceira perspectiva da procedimentalização. O procedimento como argumentação, conceptualizado a partir da sua teoria do agir comunicacional. A razão procedimental é nesta teoria absolutamente central uma vez que ela é o médium de construção dos consensos sociais argumentados. É ele que permite a crítica racional e a fabricação da integração social. Recusando a radicalidade da etnometodologia na conceptualização da procedimentalização, com o peso excessivo que esta põe na descriptibilidade das acções interpretadas em situação, Habermas vai destacar a insuficiência desta perspectiva teórica para dar conta da actividade crítica dos actores e propõe-se reconstruir um conceito de racionalidade e uma proposta de entendimento da construção da ordem
61 social sobre uma versão mais forte da interacção. O procedimento argumentativo substitui-se à accountability de Garfinkel na produção da racionalidade procedimental e o agir comunicacional permite pensar uma integração social fundada sobre o consenso (ibidem:43). Como referem De Munck e Verhoeven (1997:43) Habermas apoia-se numa pragmática formal e põe em jogo as pretensões à validade dos discursos argumentativos dos actores. É na busca pelas pretensões à validade, a partir da procura argumentada dos actores pela verdade, pela justiça ou pela autenticidade que estes podem levar a cabo uma discussão racional crítica, idealmente livre, produtora de consensos sociais racionalmente negociados.
Como referem De Munck e Verhoeven:
“Este agir comunicacional é um médium possível de integração social. Trocando as pretensões à validade e problematizando-as argumentativamente, os participantes estão em condições de transmitir e renovar o seu “stock” de saber cultural, de reforçar a sua solidariedade de grupo numa prática consensual; e de formar as identidades pessoais em interacção com os outros. O agir comunicacional combina assim funções de intercompreensão, de coordenação da acção e de socialização” (ibidem:44).
O contributo da teoria do agir comunicacional é inestimável para a compreensão dos processos de relação à norma nas sociedades ditas pós-industriais. Mas estas perspectivas centradas sobre o mundo vivido dos actores não deixam de apresentar fragilidades e limitações. Uma das suas maiores fragilidades é precisamente a crença transversal a estas abordagens de uma ordem social fundada meramente sobre o consenso. Num mundo onde impera a pluralidade normativa, onde o que prospera é o politeísmo valorativo e normativo não se apresenta credível um dispositivo de construção procedimental da relação à norma meramente assente na interpretação interactiva situada ou na troca comunicacional argumentada assente na discussão racional crítica dos actores. É na sequência destas críticas e do apontar destas limitações que surge uma quarta proposta de fabricação social assente na procedimentalização, apresentada desta vez pelo próprio De Munck que reforça o peso da instituição e que a conceptualiza como um dispositivo cognitivo colectivo. Este autor denuncia aquilo que considera duas tendências patológicas da teoria social contemporânea: - A ilusão sistémica e a deriva interaccionista. A primeira patologia fantasia a existência de lógicas sistémicas que não existem (ibidem:48), uma vez que supõe a existência de sistemas regulados autopoiéticos que se alimentariam à revelia do mundo vivido dos actores
62 sociais como no caso da teoria sistémica Luhmanniana e por seu lado, a segunda grande patologia, pressupõe a ilusão contrária à ilusão sistémica, uma vez que faz a hipóstase da interacção, ou seja, a pressuposição de que a construção do mundo social se faz somente a partir dos procedimentos interactivos, desligados estes de quaisquer constrangimentos exteriores institucionais, numa lógica de inteligibilidade do social que substituiria para usar as palavras de Castel, a “ordem da determinação” pela “ordem da
interacção” (ibidem:53). Segundo De Munck é para ultrapassar esta dupla patologia que uma melhor teoria da instituição é necessária, o que coloca em evidência o papel fundamental das instituições na construção dos saberes colectivos e no reconhecimento da importância de um novo modelo de racionalidade. Abre-se assim espaço para um quarto paradigma teórico de procedimentalização para além de Luhmann, Garfinkel e Habermas. O reconhecimento das instituições na formação do saber colectivo tem como pressuposto central que nem as interacções existem num vazio social, nem os sistemas se produzem independentemente da ordem das interacções. As interacções constroem-se a partir das redes institucionais que acumulam, memorizam e formatam o saber colectivo. É a partir da estruturação das instituições que um processo de procedimentalização racional negociado é possível. De Munck aconselha assim a tratar as instituições à maneira da perspectiva da economia não convencional de Olivier Favereau como dispositivos cognitivos colectivos (ibidem:54). Sugere-se assim que partamos de uma hipótese de racionalidade limitada dos actores à maneira de Herbert Simon e a partir dela nos interroguemos sobre os procedimentos efectivos que põem em prática os actores para construir um saber colectivo complexo. Favereau define a norma como uma heurística ao serviço de um processo de aprendizagem por partes dos actores. Ela nunca se aplica de forma mecânica às situações sociais, mas funciona como um modelo de comportamento que dá indicações que vão necessariamente ser interpretadas e reinterpretadas no momento em que são diferencialmente apropriadas. A norma resulta assim de aprendizagens anteriormente solidificadas mas ela simultaneamente abre espaço à possibilidade de aprendizagens ulteriores. Ela não define assim de forma exaustiva um plano traçado a priori de forma detalhada, uma vez que um fechamento normativo deste tipo não permite o ajustamento aos dados novos da situação resultantes das imprevisibilidades sociais e seria portanto propenso a lógicas de acção
“disfuncionais”, mas assemelha-se muito mais a um procedimento capaz de fazer juz aos ajustamentos necessários tendo em conta as situações não previstas e não intencionalmente antecipadas. Abre-se assim espaço para uma teoria da acção reflexiva
63 que leva em conta as instituições sociais e para uma concepção institucionalista de racionalidade procedimental. Este é um tipo de racionalidade que leva reflexivamente em conta a sua incompletude e que tem como uma das suas principais consequências a introdução de procedimentos de revisibilidade permanente das decisões de modo a acompanhar racionalmente a aplicação das normas num contexto de imprevisibilidade que pode obrigar a progressivas mudanças de orientação na construção da acção pública estatal. Os processos de negociação e de interacção são assim cruciais neste modelo racional-negociado cuja emergência permite dar conta dos novos modos de procedimentalização das normas sociais que participam profundamente nas transformações da relação às normas sociais nas sociedades de modernidade avançada. Não é só a crise da relação às normas típicas da emergência e do desenvolvimento da modernidade que estão em causa é também o modelo de racionalidade que sustenta a relação às normas herdadas do Estado Social que está em profunda transformação (ibidem:57-58). Nos últimos anos, investigações empíricas levadas a cabo nos mais diversos campos da vida social demonstram um apoio a esta tese de uma tendência efectiva de mutação em relação à norma nas sociedades contemporâneas no sentido de uma crescente racionalidade procedimental. Casimiro Balsa (2012) procura pensar a procedimentalização a partir das políticas sociais levadas a cabo em Portugal em torno do dispositivo Rede Social cujo objectivos centrais são as políticas de desenvolvimento social e neste caso particular, a luta contra a pobreza. A partir das noções de Estado Poiético, autopoiésis e de agir poiético Balsa (2012) procura perceber o sentido das novas orientações de políticas públicas numa situação de mutação do papel do Estado. Chega à conclusão que o Programa Rede Social: “conseguiu mobilizar todos os níveis
de iniciativa que se propunha mobilizando um grande número de parceiros públicos e privados e suscitando a produção de um grande número de instrumentos para a acção”. Constata que as realizações levadas a cabo por este programa adquirem uma grande diversidade de modos de expressão e de sentidos o que considera aliás uma das marcas distintivas das políticas públicas de activação e que se enquadram numa orientação procedimental. Uma outra marca da orientação procedimental das políticas públicas que permite accionar a metáfora do agir poiético é a prioridade da acção estatal posta no fazer por fazer em relação às próprias finalidades do fazer. A avaliação dos próprios técnicos que têm como missão a implementação do Programa Rede Social permitiu constatar que 46% admite que o PRS obteve resultados positivos só ao nível do trabalho em parceria, em detrimento da resolução dos problemas sociais, o que sugere
64 que a instrumentalização centrada no agir poiético se sobrepôs aqui à praxis aristotélica conotada com a realização das finalidades políticas da acção. A situação empírica analisada por Balsa permite-nos pensar as novas lógicas de acção pública estatal, sugerindo os resultados evidenciados um claro enfoque do Estado em novas formas de implementação das políticas públicas centradas numa orientação procedimental que nos permite dar sentido à metáfora do Estado Poiético, sem esquecer que o Estado abrindo a acção pública a novos actores tradicionalmente fora da sua esfera de acção, não deixa nunca numa lógica autopoiética de procurar assegurar o controlo sobre a acção pública. Como refere Balsa (2012:2) invocando o principio da autopoiésis, tal como definido por Maturana e Varela (1995)“(…) sendo constrangido a jogar no registo da
procedimentalização, o Estado mantém a sua capacidade de regular a acção a partir de objectivos éticos e políticos, mesmo que isso possa aparecer como um ritual de adorno”. O Estado não formaliza e prescreve mais todos os procedimentos da acção pública uma vez que percebe que a heterogeneidade de actores, dispositivos e contextos não lhe permitiria o sucesso da implementação das políticas que pretende pôr em prática. Esta constatação empírica de fundo permite abrir espaço para a importância sociológica dos diversos modos de apropriação das políticas públicas estatais por parte dos actores encarregues de pôr em prática a acção pública. A compreensão sociológica de como o universo normativo se difracta pelo tecido social torna-se assim deste modo uma das chaves da inteligibilidade social das mutações do Estado nas sociedades contemporâneas. É a este nível que ganha sentido na nossa análise a sociologia da individuação de Martucelli (2006) e o operador analítico prova.