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Produção e Atividades primárias Dentro da Porteira

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5.6 Caracterização da Cadeia Produtiva de Caju da Guiné-Bissau

5.6.2 Produção e Atividades primárias Dentro da Porteira

O segmento transformação ou dentro da porteira, diz respeito às atividades e agentes ligados diretamente à atividade produtiva. Na cajucultura, esse segmento, envolve atividades de seleção, plantação, colheita e armazenagem da castanha de caju com casca (PESSOA; LEITE, 2015).

Conforme apresentado anteriormente, a cajucultura é praticada em todas as regiões (Estados) do país. Essa cultura abrange cerca de 5% de toda superfície do país e que em média, cada guineense consegue produzir 54 kg de castanha de caju. A produção bruta cresce 10% ao ano, devido a fase de produção plena de muitos cajueiros (ANCA-GB, 2016).

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Entrevista concedida pelo DRG1 presidente de ANAG-GB. Entrevista I [07 de Janeiro de 2017]. Entrevistador: Alfa I. S. Samate. Bissau, 2017. Arquivo I mp3, 4:15:09 minutos - 4,1 MB.

Na opinião dos dirigentes entrevistados, grande parte dos produtores se dedica apenas a cajucultura como a principal atividade econômica. Utilizam-se de outras culturas, apenas para a sustentabilidade/segurança alimentar. Na cultura de caju, a mão de obra é predominantemente familiar e temporária. São analfabetos em sua grande maioria, exceto alguns dos agricultores (proprietários) entrevistados têm ensino básico e curso superior. A produção de castanha de caju (CCC) e derivados, são realizadas por pequenas unidades de produção familiar, que representam cerca de 99% do total.

Em relação a matéria prima, de acordo com os atores da cadeia de caju entrevistados (dirigentes e agricultores/proprietários), para a produção, as sementes são adquiridas à nível local, isto é, nas aldeias que compõem as oito regiões produtoras. No campo, as sementes são adquiridas com os vizinhos produtores em valores (preços/kg) iguais aos praticados no mercado, de graça ou por alguma forma de troca.

Nesta etapa, no entanto, não foi identificado a adoção de boas práticas culturais recomendadas cientificamente, por parte dos agricultores em todo o processo. As sementes não são adequadamente selecionadas para a plantação. Os agricultores selecionam sementes de caju, apenas pelo tamanho, estética, ―histórico dela ser produtivo‖, utilizando técnicas subjetivas e empírica com base em ―olhómetro‖, herdadas de seus antecessores (pais e avôs).

Na plantação, os agricultores não seguem as regras do espaçamento cientificamente recomendadas e defendida pelas instituições referência na área como EMBRAPA e o INPA do Brasil, como procedimento que permite alcançar a maior produtividade das copas/pomares de caju. Outros fatores igualmente, constatados são com relação ao cuidado e manutenção dos pomares. Segundo o DRG1:

Prática de limpeza, poda e outros cuidados não são verificadas com frequência na cajucultura guineense. Apenas os mais esclarecidos adotam esta prática, uma vez que eles sabem e acreditam na sua importância para a produtividade e qualidade da castanha de caju.15

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Entrevista concedida pelo presidente de ANAG-GB (DRG1). Entrevista I [07 de Janeiro de 2017]. Entrevistador: Alfa I. S. Samate. Bissau, 2017. Arquivo I mp3 4:15:09 minutos - 4,1 MB.

A colheita e armazenagem, embora serem realizadas sem algum problema aparente, também não seguem as recomendações técnicas adequadas. Conforme o DRG3:

Os agricultores deixam de colher a castanha a tempo, correndo, assim, o risco de ela danificar (ficar vermelho ou apodrecer) ou quebrar durante o processamento. Após a colheita, as castanhas não são adequadamente secadas e armazenadas, podendo assim apodrecer e gerar prejuízos ao agricultor e à indústria principalmente. As castanhas geralmente, são colhidas de forma prematura ou tardias. A secagem, manuseio e a armazenagem são igualmente feitos de forma inadequada, embora tais práticas terem sido toleradas ao longo dos anos pelos compradores internos dos exportadores in natura e da indústria local.16

Desta forma, conclui-se que assim como no cultivo, as técnicas de colheita e armazenamento utilizadas pelos produtores, são inapropriadas. Diante disso, os agricultores, em sua maioria entrevistados, alegaram o não recebimento de qualquer tipo de assistência técnica, gerencial e financeiro por parte do governo ou entidades privadas de fomento, embora os dirigentes entrevistados terem afirmado a existência e disponibilidade de tais serviços.

No âmbito tecnológico, todos os dirigentes e agricultores entrevistados, afirmaram que a atividade produtiva de castanha de caju com casca (CCC) desde a plantação até a colheita e armazenamento, não envolve o uso de tecnologias modernas e avançadas. As plantas de caju (cajueiros), não são geneticamente modificadas em variedades mais produtivas, resistentes a pragas e doenças ou de melhor aparência. Todo o processo ocorre de maneira ―tipicamente tradicional‖ ou artesanal. Portanto, desta forma, a cajucultura guineense pode ser classificada como uma agricultura não mecanizada, remota e de subsistência.

Foi constatado por meio da entrevista com os dirigentes e observação direta, que o sistema produtivo da cajucultura da Guiné-Bissau, por envolver exclusivamente a planta de cajueiro gigante, é de ciclo perene e não envolve uso de insumos, como máquinas e equipamentos específicos. Desta forma, não inclui custos com energia, água para irrigação, gastos com manutenção, requeridos no modelo de produção do cajueiro anão precoce desenvolvido pela EMBRAPA e amplamente cultivado atualmente nos principais cinco Estados do Brasil (Bahia,

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Entrevista concedida pelo presidente de ANCA-GB (DRG3). Entrevista III [08 de Janeiro de 2017]. Entrevistador: Alfa I. S. Samate. Bissau, 2017. Arquivo III mp3. 29:33 minutos – 28,6 MB.

Ceará, Maranhão, Piauí e rio Grande do Norte). Diante disso, o DRG3 afirma o seguinte:

Até hoje a nossa produção é cem por cento (100%) biológico/orgânico, os produtores não usam nada de químico ainda. Não se tem práticas de pulverizar/regar e de nutrir a terra para se ter a castanha e derivados, como em Tanzânia, Moçambique, Brasil, etc., onde tais práticas são indispensáveis. Eles usam adubos químicos para aumentar a produção dos pomares/copas. 17

Percebeu-se desta forma, que o segmento produtivo da CCC, no entanto, não utiliza quaisquer inputs do tipo fertilizantes ou defensivos químicos, para estimular a produtividade e combater pragas e doenças, estando assim muito bem posicionada para se fortalecer e explorar o atraente mercado de orgânicos.

Após a colheita, a castanha é secada e armazenada, para possível venda aos compradores. Não há pista de secagem devidamente apropriada, construída para com a finalidade de secar adequadamente a castanha. A secagem é ainda feita de maneira tradicional, isto é, no chão de barro. A armazenagem é realizada nos próprios quartos de casa (residência do agricultor) e nas ―bembas‖ (uma espécie de pequeno armazém de barro). Tais estruturas, não têm nenhuma área de ventilação adequada para armazenagem.

Comercialização e Distribuição do CCC

A comercialização se faz entre produtor e comprador ou corretor, em torno do preço estabelecido pelo governo em parceria com outras entidades privadas, que atuam no setor de caju. Os preços são fixados com base na realidade dos agricultores e tendências do mercado internacional. Assim sendo, o agricultor pode ser considerado um agente receptor/tomador de preço do seu produto. O quadro 12, ilustra a estratégia de preços, formas de transação e de pagamento comumente utilizado entre agricultores e compradores de acordo com os dirigentes do setor.

Quadro 12: Estratégias de fixação de preço de CCC, conforme os dirigentes.

Estratégia de Preço de Venda adotado pelos produtores da castanha de caju

Frequência %

Mercado 0 0%

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Entrevista concedida pelo presidente de ANCA-GB (DRG3). Entrevista III [08 de Janeiro de 2017]. Entrevistador: Alfa I. S. Samate. Bissau, 2017. Arquivo III mp3. 29:33 minutos – 28,6 MB.

Qualidade 0 0%

Quantidade 0 0%

Estoque especulativo 0 0%

Outros. Quais? 0 0%

Nenhuma 11 100%

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O quadro 12 mostra que na opinião dos dirigentes, os agricultores são tomadores de preços pré-fixados pelo governo e outras entidades, assumindo assim uma posição de total ausência de estratégia de preços por parte dos mesmos.

Desta forma, do lado dos agricultores, embora a resposta da maioria corroborar a visão dos dirigentes em relação a estratégia de fixação de preço, alguns deles se posicionaram contrariamente a esse respeito. O quadro 13, traz a resposta dos agricultores em relação a estratégia de fixação de preço do quilograma da castanha de caju.

Quadro 13: Estratégias de fixação de preço de CCC/KG segundo os agricultores.

Estratégia de Preço de Venda da castanha adotado

Frequência % Mercado 9 8% Qualidade 0 0% Quantidade 0 0% Estoque especulativo 0 0% Outros. Quais? 0 0% Nenhuma 110 92%

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

O quadro 13, mostra que alguns agricultores (8%) (provavelmente os mais instruídos, com maior poder negocial e que possuem além da cajucultura, outras fontes de renda) adotam o cenário do mercado como instrumento fiel de fixação de seus preços de CCC/kg. Assim, compreende-se que a estratégia de preços pode variar de acordo com situações especificas dos próprios produtores.

Outros aspectos também relevantes são os contratos e formas de pagamento, durante a transação comercial de CCC entre agricultores e compradores. O quadro 14 mostra a resposta dos dirigentes em relação a formas de contratos e de pagamento mais utilizados durantes essa transação.

Quadro 14: Formas de transação comercial da castanha de caju entre o produtor e compradores.

Tipos/Formas de Transação comercial utilizados pelos produtores

Frequência %

Contratos 0 0%

Verbal 11 100%

Outros. Quais? 0 0%

Formas de Pagamento utilizados na transação

Frequência %

100% à vista 6 55%

100% Troca/Escambo 1 9%

Parte Dinheiro/à vista e outra parte por Troca 11 100%

Outros. Quais? 0 0%

Fonte: Elaborado pelo autor (2018).

Conforme o quadro 14, os agricultores e compradores, firmam seus compromissos de compra e venda da castanha de caju, de forma verbal ou tácita. Ou seja, a transação produtor-intermediário não envolve contratos. Conforme Parreiras (2007) esse tipo de relação, normalmente é sustentada pela confiança desenvolvida ao longo dos anos entre os pares.

De acordo com alguns dirigentes (55%) e agricultores (13%), dependendo da instrução acadêmica e nível de renda (situação econômica) do produtor, a forma de pagamento varia. Existem produtores que conseguem receber suas vendas à vista e outros que geralmente comercializam em forma de escambo. A primeira, normalmente são aquelas com maior instrução acadêmica e com outras fontes de renda fora a cajucultura. A segunda que representa os 99% dos agricultores, são aqueles produtores dependentes apenas da cajucultura e com baixo nível de instrução.

A castanha é vendida de forma normal e/ou antecipadamente aos intermediários, que por sua vez, fazem a coleta do produto no campo para armazéns dos exportadores, próximos aos pontos de expedição internacional. Pois, mais de 98% da produção é destinado à exportação e o resto é adquirido pela indústria local de beneficiamento da CCC e derivados.

Durante a transação comercial, os agricultores negociam e vendem suas safras antes (venda antecipada), durante ou após a campanha. A transação envolve dois tipos de intermediários e/ou corretores. Os compradores junto aos agricultores e os revendedores que compram e vendem aos exportadores e às indústrias de beneficiamento local. Contudo, o papel do exportador pode ser considerado de

intermediação, uma vez que ele ―inibe‖ a possibilidade dos demais agentes negociarem diretamente com os importadores estrangeiros.

É importante destacar também, a presença ou existência das práticas de formação de stocks especulativos, por parte dos comerciantes intermediários e/ou alguns produtores/proprietários conhecedores do mercado, que possuem maior instrução acadêmica, poder aquisitivo, de obtenção e interpretação de informação e consequentemente, com maior poder negocial.

A distribuição da CCC é feita pelo comprador intermediário dentro da porteira. São utilizadas caminhonetas alugadas ou próprias, dos grandes exportadores, para a coleta da castanha junto às aldeias/vilarejos locais. De acordo com os dirigentes entrevistados, as condições de estradas e vias de acesso, são muito precárias a ponto de tornar-se alguns lugares, inacessíveis por serem muito custoso de chegar e efetuar a coleta efetiva.

No documento Download/Open (páginas 156-162)