UM OLHAR SOBRE OS OMBROS: a ação dos intelectuais da educação na conformação das reformas educacionais
QUADRO I: DELEGADOS E VISITADORES LITERÁRIOS
DELEGADOS LITERÁRIOS VISITADORES LITERÁRIOS
BARRA DOS
COQUEIROS
João Francisco Menezes
PROPRIÁ Dr. Miguel Floriano de Menezes Dorea PORTO-GRANDE
DE JAPARATUBA
Capitão José Ferreira da Costa
SIMÃO DIAS Dr Lourenço Freire de Mesquita Dantas MARIBONDO Manoel Ferreira
Passos de Faro
ITABAIANA Dr Esperidião Zamiro de Souza Lopes VILLA NOVA Dr. Felippe Xavier da
Silva
DIVINA PASTORA Dr Manoel Cardoso Vieira de Melo SITIO DO MEIO João Vieira da Silva SANTO AMARO Manoel Rollemberg
Acciole de Madureira AMPARO Major Francisco
Joaquim da Silva Lemos
N. S. DAS DORES Major José Joaquim de Paula Cezar ITABAIANA Dr. José Dantas de
Oliveira
CAMPINHOS Manoel Brasil de Oliveira Goes
LAGARTO Dr. Nilo Romero ESTANCIA Comendador
Francisco Teixeira de Faria
119 SACCO DO RIO
REAL
Aristides Correa de Mendes
SANTA LUZIA Ernesto Beraldo Cardoso
ESPIRITO SANTO Capitão Miguel Correia Chaves
Fonte: SERGIPE. Mensagem apresentada à Assembléia Provincial de Sergipe em 1 de Setembro de 1877 pelo Presidente de Província João Pereira de Araujo Pinho. Aracaju: Typografia do Estado de Sergipe, 1877.
Com pouco tempo de funcionamento, o Azylo já apresentava dificuldades de manter o curso e as internas por causa das despesas. O custeio dos gastos do estabelecimento era feito através da subvenção provincial, de rendimentos gerados dos terrenos da marinha doados pelo Barão de Maroim e donativos particulares. Mesmo tendo uma renda própria e uma ajuda mensal da Província, o Azilo N. S. da Pureza encontrava dificuldades de manter o recém criado curso normal. Agravava o fato de que o Azylo N. S. da Pureza não recebia a matrícula das alunas externas que pretendiam freqüentar curso o normal oferecido no estabelecimento por determinação do vice- presidente da Província, José Martins Fontes, em 1877. Dessa forma, os administradores dessa instituição afirmavam que os gastos excediam as receitas.
Para solucionar esse problema, foram suprimidos alguns cargos que oneravam os custos, como o de porteiro e bedel. A função de Regente foi acumulada com a função da professora do ensino elementar da instituição, dessa forma o profissional receberia apenas o provento de professor sem a gratificação para o cargo administrativo. Além disso, foram reduzidas as gratificações concedidas ao diretor, vice-diretor e secretário do curso normal.
Mas não só isso, procurou-se suprimir o número de órfãs acolhidas que, segundo o relatório de Francisco Ildefonso Ribeiro de Menezes (Sergipe,1878:12), era superior ao determinado pelo regulamento. Diante das medidas tomadas, o curso normal feminino oferecido no Azilo não foi extinto. Anos mais tarde, essas medidas foram comentadas pelo presidente de Província, Luiz Alves Leite de Oliveira Bello, “assim, pois, a sua estabilidade deve ser por todos garantida, e os esforços que convergirem para um fim tão justo e nobre naturalmente hão de ser coroados dos melhores resultados” (SERGIPE,1881:21).
120 Acreditava-se que a professora formada por esse curso normal deveria constituir-se em um modelo de virtude por meio de suas atitudes, concepções, condutas e sentimentos. Associava-se a educação da mulher a função social do magistério. Todas essas medidas tomadas pelos gestores da instrução pública tinham a preocupação voltada para a manutenção de um curso que julgavam funcional para a educação provincial de Sergipe. Além disso, ao preparar as jovens asiladas e as alunas externas, o curso normal cumpriria sua função social de disseminar normas, valores e condutas necessárias para a formação esperada para a mulher do final do século XIX.
As normas, os valores, as ações eram interiorizadas, apropriadas e exteriorizadas por essas jovens desprovidas de capital econômico e que, depois de formadas, pleiteavam ascensão social ou mesmo a possibilidade de contrair bons casamentos e certa posição social. Existia uma representação social criada para as jovens normalistas que garantia o acúmulo de capital social que lhes proviam prestígio não só pelo título que carregavam, mas pelo habitus adquirido no curso normal.
Conforme o conceito de habitus pensado por Bourdieu, os sujeitos incorporam durante sua formação esquemas de percepção e de ação que fazem parte da posição que ocupam na estrutural social. Esses esquemas incorporados, ou melhor, apropriados não governam as ações dos sujeitos de modo mecânico, rígido, mas determinam princípios de orientação que são adaptados por esses sujeitos nas mais variadas circunstancias de ação. Como acredita Bourdieu(1989), esses sistemas de disposições ou esses esquemas de pensamento apropriado pelos indivíduos são apenas dispositivos de orientação e não imposições nas quais o sujeito agiria de forma mecânica, determinada, pelo contrário eles são apropriados pelo sujeito.
O curso normal era destinado a preparar as jovens que pretendiam seguir a carreira do magistério. Mas servia também como um curso que formava moças com bons modos e que no futuro fossem boas donas de casa. Ou seja, dava noções de cultura geral àquelas que iriam estudar até o casamento. Esse era o grande trunfo da escola para conseguir, inicialmente, a legitimação perante a sociedade. As jovens que conseguiam contrair casamento a Província cedia um dote a jovem.
A legislação também contribuiu para o estabelecimento das normas para a conduta das professoras primárias através dos Regulamentos de Instrução Pública. Essa regulamentação designava, dentre outros, os deveres pelos quais professores públicos
121 deveriam seguir. Os deveres estavam ligados normalmente às obrigações de bem educar, de pontualidade, de inserir nos alunos o gosto pelos estudos e a aplicações das punições, quando elas julgassem necessário.
Conforme relatórios, em 1881, o Azylo N. S. da Pureza possuía 21 órfãs acolhidas e ainda era regido tanto pela professora Porphira Dina de Almeida e como pelo diretor Tomaz Narciso Ferreira. A professora era responsável pelo curso primário e ministrava aulas às alunas do curso normal conforme constava no relatório de 1881. Este revelava que a professora Porphira Dina de Almeida além de ocupar o lugar de regente da escola primária do Azylo, era professora de primeiras letras e de prendas domésticas no curso normal. Dentre as alunas de Porphira Almeida, a asilada Libania Lina do Nascimento Castro prestou exames perante a Diretoria da instrução pública e obteve aprovação. Com isso ela adquiriu permissão para reger qualquer cadeira do ensino primário.
Ao final de cada ano, as alunas passavam por exames composto de banca examinadora, das nove asiladas que prestaram exames de habilitação, uma foi aprovada com distinção e oito plenamente. Além das aulas de ler, escrever e contar, as alunas do Azylo recebiam também educação doméstica que ao final do ano, depois do período dos exames, elas apresentavam os bordados, crochês, trabalhos com flores de lã e quadros de paisagens desenhados pelo sistema japonês, como revelou o relatório de Luiz Alves Leite de Oliveira, então presidente de província. (SERGIPE,1881:21)
Em mensagem, questionava-se o presidente de província, Theophilo Fernandes dos Santos, das condições da estrutura do prédio da instituição apesar do asseio despendido pela direção e alunas dessa instituição. Mesmo havendo necessidade, o prédio não tinha condições de abrigar novas meninas. As doações não eram suficiente para manter a instituição. Muitas famílias se comprometiam em corroborar para o funcionamento da instituição, essas ajudas podiam ser ou não financeiras. Durante muitos anos parte dos livros didáticos da instituição eram doados pelo Juiz Abílio Cezar Borges. Além do compromisso da Província, essas doações normalmente serviam como dotes de casamento para as asiladas.
Mas com o funcionamento do curso normal a necessidade de prover essas normalistas asiladas com dotes foi suprimida com a indicação dessas alunas para ocupar as cadeiras do ensino primário nas cidades do interior. O sucesso do curso pode ser
122 verificado através da freqüência das jovens asiladas e da procura de matricula por parte das alunas externas. Em 1882, todas as 25 orfãs asiladas receberam instrução regular como já foi mencionado, muitas delas estavam matriculadas no curso normal (SERGIPE,1882:23). Segundo Fala de presidente de província, em 1886, das cinco asiladas que concluíram o curso, todas estavam atuando como professoras primárias (SERGIPE,1886:10).
O relatório de 1886 informou que a instituição ainda continuava recebendo um número de 20 a 25 matricula para alunas internas. Mas 14 alunas já matriculadas freqüentavam as aulas primárias. Das quatorze alunas matriculadas no curso primário, três prestaram exames de habilitação com aprovação satisfatória e as demais alunas apresentaram ao público uma exposição dos trabalhos manuais desenvolvidos ao longo das aulas. Das alunas que estavam matriculadas no curso normal oferecido nessa instituição, cinco foram tituladas e uma se encontra no segundo ano do curso. Nesse momento, o programa do curso normal exigia apenas três anos para formar as professoras que iriam atuar no ensino primário em Sergipe.
Conforme o relatório do presidente de província, Manoel d´Araujo Goes, em 1886, o campo educacional sergipano dispunha de um curso normal feminino que funcionava no Azylo N. S. da Pureza, um curso normal de primeiro grau funcionando no pavimento térreo do Palacete da Assembléia Provincial e uma Escola Normal de segundo grau funcionando no prédio do Atheneu, onde também estava em exercício a Secretaria da Instrução Pública.