A partir do referencial teórico apresentando, contemplando Sustentabilidade e Inovação e tendo em vista o conceito e as dimensões da inovação social, bem como sua prática em organizações do setor privado, verifica-se que esta pesquisa complementa a literatura existente no que se refere aos estudos sobre ISC e como esta pode atender à sustentabilidade organizacional. Conforme observado, com os avanços tecnológicos, a globalização e a atuação das empresas enquanto coexistentes em uma sociedade, as organizações têm cada vez mais responsabilidades sobre a sustentabilidade e as dimensões do desenvolvimento sustentável. Tal situação exige que as preocupações com a inovação ultrapassem a questão competitiva e de valor econômico, para também ocuparem-se do valor social, exigindo investimentos não apenas
na dimensão econômica, mas também nas dimensões ambientais e sociais do desenvolvimento sustentável. Neste contexto, uma alternativa viável pode ser o investimento em processos de inovação social.
Contudo, visando aprimorar e incentivar as organizações privadas a investirem em inovações sociais, são necessários estudos que indiquem meios através dos quais tais investimentos possam resultar em ganhos, mesmo que indiretos, relacionados aos objetivos estratégicos da organização, os quais ultrapassem o valor social, já reconhecido como objetivo primário de processos de inovação social impulsionados por organizações privadas. O presente estudo pretende contribuir para identificar e aproximar os conceitos de sustentabilidade organizacional e inovação social no contexto de organizações privadas, ou seja, inovação social corporativa, objetivando analisar a dinâmica entre seus elementos na dimensão social. O esquema resultante da revisão de literatura realizada, a partir do qual a pesquisa será estruturada, é apresentado na Figura 8.
Fonte: elaborado pela autora (2018).
Há uma vasta gama de definições sobre inovação social no referencial teórico aqui apresentado (DRUCKER, 2005; MURRAY; MULGAN; CAULIER-GRICE, 2008; BIGNETTI, 2011; CAULIER-GRICE et al., 2012; MOULAERT et al., 2013; BEPA, 2014; CAJAIBA-SANTANA, 2014; CRISES, 2015; DAINIENE; DAGLIENE, 2015). Neste estudo a inovação social será definida como o processo de implementação de novas soluções ou
produtos direcionados à melhoria da qualidade de vida de uma determinada comunidade, a partir da interação e cocriação entre atores, priorizando a mudança ou melhoria social em detrimento ao lucro e com um caráter duradouro para a comunidade. O conjunto de ações nesse sentido pode favorecer o reconhecimento de uma organização como inovadora sustentável, quando consideradas as três dimensões da sustentabilidade. Acrescenta-se que, neste estudo serão analisadas as ações implementadas por organizações do setor privado e sua aproximação com a sustentabilidade social das organizações.
Por fim, a partir do referencial teórico, foram identificados critérios e condições apresentados pelos autores para caracterizar a inovação social conforme seus objetivos e motivações, processo, atores e resultados. Acrescenta-se a isto os fatores que diferenciam as práticas sociais, indicando a existência de um processo de ISC daqueles que respondem à RSE e os elementos que precisam permear este processo. A síntese destes fatores é apresentada no Quadro 7.
Quadro 7 - Fatores indicativos de inovação social corporativa
(continua)
Fator Autores
OBJETIVOS E MOTIVAÇÕES
Motivada por uma missão social cujo retorno esperado é uma mudança na sociedade.
Lundström e Zohu (2011) Procura promover novas práticas baseadas nas relações sociais e
experiências de quem precisa.
Moulaert (2003) Implementa soluções para problemas sociais que ultrapassam a
capacidade do governo e diferenciam-se das soluções já existentes.
Murray, Mulgan e Caulier-Grice (2008); OECD (2017)
Visa a inclusão social, criação de emprego e qualidade de vida. OECD (2010; 2017) Percebe o bem-estar social como uma meta (não consequência)
relacionada a qualidade de vida e das atividades desenvolvidas pelas pessoas.
OECD (2010; 2017)
A prática social é oriunda de um investimento estratégico e não de uma intensão filantrópica.
Herrera (2015)
ATORES SOCIAIS
Provoca a mobilização e participação das pessoas, melhorando as relações sociais, estruturas de governo e/ou empoderamento coletivo.
Moulaert et al. (2013). A prática social é resultado de um processo de cooperação entre diversos
atores.
Lévesque (2002), Cloutier (2003), Harayama e Nitta (2010).
O usuário final é envolvido no processo de desenvolvimento das práticas sociais direcionadas a ele.
Cloutier (2003) Os setores internos da organização colaboram e participam da cocriação
da prática social, desenvolvida pela própria empresa e não por contratos com ONGs ou grupos comunitários.
Herrera (2015)
PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO
Existiu um processo de P&D socialmente relevante e aplica ativos corporativos na prática, ao invés de contribuir financeiramente ou com mão-de-obra em práticas já estabelecidas.
Herrera (2015)
Seu processo teve início a partir da avaliação, pesquisa ou constatação de uma necessidade social ainda não atendida.
Mulgan et al. (2007), Caulier-Grice et al. (2012), Herrera (2015) A prática é testada, avaliada e adaptada de acordo com os resultados
testes iniciais.
Mulgan et al. (2007), Caulier-Grice et al. (2012), Herrera (2015)
(Conclusão) Ocorreu processo de compartilhamento e difusão da prática para outros
setores, localidades.
Mulgan et al. (2007), Caulier- Grice et al. (2012), Herrera (2015)
A prática social resultou em mudança sistêmica envolvendo a cultura, o comportamento dos usuários, as práticas e políticas.
Caulier-Grice et al (2012)
RESULTADOS
Modifica a economia e aprofunda-se na cultura (local, regional, global). Drucker (2005) Volta-se para a economia social, percebendo recursos não mercantis e
não monetários.
Lévesque (2002) Contribui para o surgimento de novos modelos de desenvolvimento. Vaillancourt (2017) Nível micro: Satisfaz necessidades sociais, melhora o padrão de vida
continuamente e enriquece a autonomia de grupos de indivíduos.
Cajaíba-Santana (2014) Nível Macro: Promove uma mudança geral na sociedade ao eliminar a
desigualdade e exclusão social.
Cajaíba-Santana (2014). Promove mudanças no processo de trabalho, relações de poder, aumento
da autonomia e empoderamento dos funcionários.
Cloutier (2003); Bignhetti (2011) Produz novas fontes de receita a partir de um sistema de inovação
socialmente relevante.
Herrera (2015) A cultura corporativa oriunda da prática social passa a ser fonte de
vantagem competitiva.
Herrera (2015) Fonte: elaborada pela autora (2017).
Ainda, quatro condições são destacadas na literatura e precisam ser levadas em consideração na realização de processos de inovação social e em seus resultados: cocriação, autonomia, empoderamento e impacto social relevante, os quais também podem atender aos resultados esperados para a sustentabilidade social nas organizações, conforme critérios apresentados na seção 2.1.6. Esses fatores contribuem para a definição das técnicas de coleta e análise dos dados, apresentadas a seguir.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Nesta seção é apresentada a caracterização do método utilizado para a realização da pesquisa, envolvendo o delineamento, a definição das unidades de análise, as técnicas e o instrumento de coleta de dados e, por fim, as técnicas utilizadas para analisar os dados obtidos, constituindo o conjunto de procedimentos metodológicos adotados neste estudo.