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3. Identificação e avaliação do risco de LMEMSLT

3.3. Relação das LMEMSLT com factores de risco

A análise ergonómica do trabalho integra, entre outros aspectos, a identificação e a avaliação dos factores de risco de LMEMSLT. Para tal, descreve, detalha e analisa os factores de risco presentes no local de trabalho, utilizando alguns métodos que foram concebidos com o objectivo de avaliar a probabilidade de ocorrência destas patologias.

A natureza multifactorial das LMELT depende, na generalidade e como já foi referido, da exposição a factores de risco relacionados com a actividade de trabalho, de natureza individual e organizacionais/psicossociais.

Alguns estudos sugerem para o estabelecimento da relação causal, de acordo com os critérios do documento elaborado pelo grupo de trabalho do Coronel

Institute for Occupational and Environmmental Health (C.I.O.E.H.), que, no

caso das LMEMSLT, é necessário analisar os sintomas e sinais de cada situação clínica e o seu enquadramento em relação aos critérios temporais (actuais ou antigos), partindo do pressuposto de ter havido exposição ao(s) factor(es) de risco (Sluiter; Rest; Frings-Dresen, 2001).

A relação oriunda de estudos epidemiológicos entre a presença do factor de risco e o aparecimento da lesão é evidenciada por Bernard (Bernard, 1997) (Quadro nº11).

Essas relações são características da exposição a factores de risco físico da actividade de trabalho. Os estudos permitem analisar e valorizar os factores de risco e as diferentes combinações relativamente a critérios de exposição utilizados para diagnosticar algumas das principais lesões músculo- esqueléticas.

Quadro nº 11: Evidência epidemiológica da relação entre a presença de factores de risco no local de trabalho e o desenvolvimento de LMELT (Adaptado de Bernard, 1997)

Região Corporal

Factor de risco Forte evidência Evidência Insuficiente evidência Inexistência de evidência Cervical Repetitividade Força Postura Vibrações - - SIM - SIM SIM - - - - - SIM Ombro Repetitividade Força Postura Vibrações - - - SIM - SIM - - SIM - SIM Cotovelo Repetitividade Força Postura Combinação - - - SIM - SIM - - SIM - SIM - Mão/punho

(Síndrome do Túnel Cárpico) Repetitividade Força Postura Vibrações Combinação - - - - SIM SIM SIM - SIM - - - SIM - - Tendinites Repetitividade Força Postura Combinação - - - SIM SIM SIM SIM - - - - -

Síndrome das Vibrações Mão/Braço

Vibrações (mão/braço) SIM - -

Coluna Lombar Levantamento/Movimento com aplicação de força Postura Trabalho pesado Vibrações (corpo) Postura estática SIM - - SIM - - SIM SIM - - - - - - SIM

Como foi anteriormente referido, a presença desses factores de risco no local de trabalho, não determina o risco de desenvolvimento das lesões, uma vez que a “dose de exposição” é determinante, envolvendo variáveis como (1) a sua

intensidade ou amplitude, (2) a repetição ou frequência e (3) a duração (Radwin;

Quadro nº 12: Identificação da exposição a factores de risco de acordo com a descrição científica para aplicação em métodos observacionais (adaptado de Radwin; Marras; Lavender, 2002)

Factor de risco Dimensão

Intensidade Repetição Taxa de Duração

Força Aplicações de força Aplicações de força repetidas Aplicações de força estática

Postura Posturas extremas Posturas repetidas Posturas mantidas

Movimentos Movimentos extremos Movimentos repetidos Ausência de movimento

Vibrações Nível elevado de vibrações Exposição repetida às vibrações Exposição prolongada às vibrações Frio Temperatura baixa Exposição repetida ao frio Exposição prolongada ao frio

A análise de risco permite colocar em evidência a presença do factor de risco (ou dos factores de risco), assim como estimar a “dose de exposição” e a consequente probabilidade de ocorrência de um efeito adverso para a saúde (Uva; Graça, 2004). Nesse sentido, para caracterizar a exposição é necessário, entre outros aspectos, conhecer a zona anatómica exposta ao(s) factor(es) de risco, detalhar as posturas assumidas, os ângulos inter-segmentares envolvidos, a velocidade angular de cada movimento, as forças aplicadas, as pausas e a sua distribuição e duração ao longo do período de trabalho (Serranheira; Uva, 2002).

No essencial e como já foi referido, é necessário classificar o risco sempre em função da exposição a cada factor de risco, designadamente através da quantificação dos elementos de análise da frequência, intensidade e duração (Figura nº11 e Quadro nº13):

Figura nº 11: Representação das características da intensidade, duração e repetição de um factor de risco ao longo do tempo (NRC/IOM, 2001)

Frequência

Duração

Intensidade Factor de risco

Quadro nº 13: Identificação da exposição a factores de risco de acordo com a forma de avaliação habitual (adaptado de Radwin; Marras; Lavender, 2002)

Factor de risco Dimensão

Intensidade Taxa de

Repetição Duração

Força Força aplicada Frequência da aplicação de força Tempo durante o qual a força é aplicada

Postura Ângulo articular Frequência da postura Tempo de manutenção da postura

Movimentos Velocidade, aceleração Frequência dos movimentos Tempo de duração do movimento Vibrações Aceleração Frequência de exposição às

vibrações

Tempo de exposição às vibrações

Frio Temperatura Frequência da exposição ao frio Tempo de exposição ao frio

Os modelos anteriormente referidos ainda não são suficientes para que exista uma classificação efectiva do risco face à exposição aos factores de risco. Desta forma, Kadefors (Kadefors, 1997) desenvolveu um método de avaliação biomecânica do trabalho manual, designado “modelo do cubo”, que se fundamenta em suportes teóricos referentes ao aumento significativo do risco perante a interacção concomitante de dois ou mais factores de risco. Concretamente, este método integra a postura, a força e o tempo em vinte e sete combinações onde a classificação do risco é obtida através da multiplicação de factores de ponderação (1: baixo, 2: médio e 3: elevado).

Assim, em situações de trabalho onde não existam exigências a nível do levantamento e transporte de cargas, é possível delimitar a análise de risco de LMELT aos membros superiores, designadamente cotovelos, punhos, mãos e dedos, criando um sistema de classificação com base nas exigências da actividade e utilizando os três principais factores de risco (Quadro nº14):

Quadro nº 14: Critérios de classificação do risco em função das exigências da actividade de trabalho de acordo com o modelo do cubo (adaptado de Kadefors, 1997)

Dimensão Aplicação de força Postura Tempo (repetitividade)

Exigências ligeiras Aplicação de força inferior a 10% da FMV (carga inferior a 1,0 kg manipulada com uma mão).

Cotovelo com flexão entre os 60 e 100º. Mão na zona de conforto articular (à altura do cotovelo, próxima do corpo).

Inferior a 1 hora por dia (no total) ou inferior a 10 minutos consecutivos. Repetitividade: ¾ Cotovelo <4 gestos/minuto ¾ Mão/punho <1 gesto/minuto ¾ Dedos <20 gestos/minuto Exigências moderadas Exigências de aplicação de força entre 10 e 20% da FMV.

Cotovelo com flexão entre os 0 e os 60º. Mão em zona próxima da região de conforto articular.

Entre 1 e 4 horas diárias (no total) ou entre 10 e 30 minutos consecutivos.

Repetitividade:

¾ Cotovelo ≤4 gestos/minuto ¾ Mão/punho 1-10 gestos/minuto ¾ Dedos 20-200 gestos/minuto

Exigências elevadas

Aplicações de força acima de 20% da FMV (manipulação de cargas com uma mão, acima de 2Kg).

Cotovelo com flexão superior a 100º. Mão a nível ou acima da altura do ombro ou membro superior em extensão fora da zona de conforto articular.

Mais de 4 horas por dia (no total) ou mais de 30 minutos consecutivos.

Repetitividade:

¾ Cotovelo >4 gestos/minuto ¾ Mão/punho >10 gestos/minuto ¾ Dedos >200 gestos/minuto

Apesar da maioria destas relações serem complexas as associações são claras (NRC/IOM, 2001) e revelam as fortes relações entre a exposição e as exigências elevadas durante a realização da actividade de trabalho, particularmente a nível fisiológico e biomecânico, que originam fadiga, dor, lesão e até incapacidade.

Sistematizando, foram identificadas relações entre as exigências da actividade de trabalho – carga externa (dose), designadamente exigências de aplicação de força, elevada repetitividade, posturas extremas, exposição a vibrações e a baixas temperaturas, com a elevada prevalência de patologias em grupos de trabalhadores (resposta). Igualmente, existe evidência de relações entre a carga externa e a carga biomecânica com a carga interna e as respostas fisiológicas. Também se verificam relações entre a carga externa e a tolerância interna, ou seja, fadiga e efeitos adversos a nível tecidular resultantes de cargas superiores às suportadas pelos tecidos. Finalmente, verificaram-se relações entre a carga externa e a presença de dor, desconforto, lesão e incapacidade. Quando a carga externa aumenta verifica-se uma subida dos números de casos sintomáticos e de lesão. Apesar da evidência referida, ainda se denota a necessidade de investigação a vários níveis nesta área da Saúde Ocupacional (NRC/IOM, 2001).

Como a carga externa imposta aos trabalhadores, quer a nível da actividade de trabalho, quer no âmbito organizacional/psicossocial, e as características e capacidades individuais são, com frequência, desvalorizadas, principalmente quando a produtividade se sobrepõe ao “Homem” é necessário que as exigências actuais de produção sejam perspectivadas de modo a permitir valorizar a “qualidade de vida” no trabalho. Aspectos determinantes na exposição a factores de risco de LMEMSLT, como a intensidade, a repetitividade e a duração de exposição, devem ser sempre analisados na concepção da generalidade dos postos de trabalho industriais no sentido de respeitar as características fisiológicas dos trabalhadores e permitir uma efectiva gestão do risco destas lesões. Para além disso, é indispensável que os métodos de avaliação do risco permitam obter resultados fiáveis e válidos.