2.2 SISTEMAS DE AVALIAÇÃO INTERNACIONAIS
2.3.1 Sistema LiderA
Desenvolvido por Manuel Duarte Pinheiro, Professor do Departamento de Engenharia Civil e Arquitetura do Instituto Superior Técnico, o LiderA, acrónimo de liderar pelo ambiente na procura da sustentabilidade na construção, é um sistema de avaliação e reconhecimento voluntário de construção sustentável e ambiente construído, desenvolvido em Portugal.
O sistema resultou de uma conjugação entre uma série de trabalhos científicos sobre a sustentabilidade nos edifícios e ambientes construídos. Estes estudos e trabalhos desenvolvidos entre 2000 a 2005, culminaram numa primeira versão V1.02 (disponibilizada em 2005) destinada sobretudo ao edificado e ao respetivo espaço envolvente. Porém, face às aplicações efetuadas, foi desenvolvida uma nova versão 2.0 (disponibilizada desde Março de 2009), que possibilita o alargamento da aplicação do sistema, deixando de ser apenas aplicado ao edificado e passando também a ser aplicado ao ambiente construído. Inclui a procura de edifícios, espaços exteriores quarteirões, bairros e comunidades sustentáveis e abrange uma maior e distinta área de ambientes construídos (Pinheiro, 2009) (ver figura 2.6).
A busca pela sustentabilidade deve ser fundamentada em ações concretas que resultem efetivamente na obtenção de processos e produtos menos agressivos ao meio ambiente. É neste anseio que o sistema se organiza num conjunto de seis princípios de bom desempenho ambiental, sendo eles (Pinheiro, 2006):
a) Respeitar a dinâmica local e potenciar os impactes positivos - Localizar potenciando as características do solo, valorizando-o ecologicamente, ajustando-o à mobilidade, integrando-o paisagisticamente e valorizando as amenidades;
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b) Eficiência no Consumo dos Recursos - Fomentar a eficiência dos consumos de recursos, nomeadamente na água, energia e materiais;
c) Reduzir o Impacte das Cargas (quer em valor, quer em toxicidade) - Atenuando os impactes dos efluentes, emissões, resíduos, ruído para o exterior e níveis urbanos de calor (efeito urbano de ilha de calor);
d) Assegurar a Qualidade do Ambiente Interior - Fomentar o conforto envolvendo a qualidade do ar interior, o conforto térmico, a acústica, a iluminação e a controlabilidade desses espaços;
e) Assegurar a Qualidade do Serviço - Perspetiva ambiental ao promover a Durabilidade e a Acessibilidade, a Gestão Ambiental e a Inovação, interligando-se as perspetivas económicas e sociais, que, por agora, não estão explicitas no sistema;
f) Assegurar a Gestão Ambiental e a Inovação - Promover a informação ambiental, a melhoria contínua (sistema de gestão ambiental) e dar saltos qualitativos (inovação).
Figura 2.6: Principais Vertentes e Áreas Ambientais de Intervenção (Pinheiro, 2006)
Segundo o LIDERA, a procura da sustentabilidade é efetuada através de seis vertentes, sendo que cada vertente assume um determinado princípio de sustentabilidade. Por sua vez, estas vertentes compreendem áreas de intervenção analisadas através de parâmetros que possibilitam avaliar e orientar os níveis de sustentabilidade. As seis vertentes subdividem-se em 22 áreas e 43 critérios, nos quais se avaliam os ambientes construídos em função do seu desempenho, no caminho para a sustentabilidade (ver tabela 2.9).
Em cada critério são definidos níveis de desempenho correspondentes, de forma a indicar o nível de sustentabilidade da solução aplicada. Estes critérios apresentam igual importância dentro de cada área e para se obter o valor da classificação final, as vinte e duas áreas são ponderadas. Estas ponderações são previamente estipuladas de acordo com o seu grau de importância. Neste sistema, as áreas que assumem maior relevância são as áreas da energia (17%), água (8%) e solo (7%) (ver tabela 2.9).
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Tabela 2.9
Tabela exemplificativa de avaliação do Sistema LiderA (Pinheiro, 2010)
Vertentes Área Wi Critérios N.º Critério
Integração local (6 critérios) (14%)
Solo 7% Valorização territorial C1
Otimização ambiental e implantação C2 Ecossistemas naturais 5% Valorização ecológica C3 Interligação de habitats C4 Paisagem e património 2% Interligação paisagística C5 Proteção e valorização do património C6 Recursos
(9 critérios) (32%)
Energia 17% Eficiência nos consumos e certificação energética
C7
Desenho passivo C8
Intensidade em carbono C9
Água 8% Consumo de água potável C10
Gestão das águas locais C11
Materiais 5% Durabilidade C12
Materiais locais C13
Materiais de baixo impacte C14 Produção alimentar 2% Produção local de alimentos C15 Cargas
ambientais (8 critérios) (12%)
Efluentes 3% Tratamento de águas residuais C16 Caudal de reutilização de águas
usadas
C17 Emissões atmosféricas 2% Caudal de emissões atmosféricas C18
Resíduos 3% Produção de resíduos C19
Gestão de resíduos perigosos C20 Valorização de resíduos C21 Ruído exterior 3% Fontes de ruído para o exterior C22 Poluição ilumino- térmica 1% Poluição ilumino-térmica C23 Conforto ambiental (4 critérios) (15%)
Qualidade do ar 5% Níveis da qualidade do ar C24
Conforto térmico 5% Conforto térmico C25
Iluminação e acústica 5% Níveis de iluminação C26
Conforto sonoro C27
Vivência socioeconómica
(13 critérios) (19%)
Acesso para todos 5% Acesso aos transportes público C28 Mobilidade de baixo impacte C29
Soluções inclusivas C30
Diversidade económica 4% Flexibilidade – adaptabilidade aos usos C31
Dinâmica económica C32
Trabalho local C33
Amenidades e interação social
4% Amenidades locais C34
Interação com a comunidade C35 Participação e controlo 4% Capacidade de controlo C36
Condições de participação e governância
C37 Controlo de riscos naturais C38 Controlo das ameaças humanas C39 Custo do ciclo de vida 2% Custos do ciclo de vida C40 Uso sustentável
(3 critérios) (8%)
Gestão ambiental 6% Condições de utilização ambiental C41 Sistemas de gestão ambiental C42
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As vertentes posicionam como mais relevante os recursos (energia, água e materiais) com 32% do peso, seguido da vivência socioeconómica (19%), conforto ambiental (15%), integração local (14%), cargas ambientais (12%) e por fim o uso sustentável (8%) (Pinheiro, 2011).
Os níveis de desempenho do LiderA assentam em dois pontos: a prática atual (classe E) e os níveis de desempenho efetivamente sustentáveis concretizados por serem neutrais ou regenerativos (classe A+++) (ver figura 2.7). As classes de desempenho do LiderA, para cada um dos critérios e global (ponderando os critérios e áreas) são as seguintes (Pinheiro, 2009):
a) Classe E, que indica um valor de desempenho igual à da prática usual ou de referência (existe também a G, classe que significa que o desempenho é pior que a prática);
b) Classe D, classe que indica uma melhoria de 12,5% face à prática (ou valor de referência); c) Classe C, classe que indica uma melhoria de 25% face à prática (ou valor de referência); d) Classe B, classe que indica uma melhoria de 37,5% face à prática (ou valor de referência); e) Classe A, classe que indica uma melhoria de 50% face à prática (ou valor de referência); f) Classe A+, classe que indica uma melhoria de 75% face à prática (ou valor de referência)
representando, no fundo, um fator 4;
g) Classe A++, classe que indica uma melhoria de 90% face à prática (ou valor de referência) representando, no fundo, um fator 10;
Nota existe ainda a classe A+++, que indica que o desempenho é neutral ou até regenerativo melhorando estruturalmente o desempenho do ambiente (por exemplo, produz mais energia do que necessita, disponibiliza a água melhor do que a existente quando a recebe), este nível e classe é utilizada apenas para casos de investigação e de atribuição individual a critérios específicos. Não existe por isso uma classe global agrupando todos os critérios de A+.
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As últimas classes (A+, A++ e A+++) são referenciadas como sustentabilidade forte. No geral, será complexo e por vezes até economicamente inviável atingir os níveis de efetiva sustentabilidade definidos pela classe A+++, pelo que inverter a tendência de pressão ambiental crescente e reduzi-la é uma aposta no bom caminho (Pinheiro, 2009).
A experiência resultante da aplicação do LiderA e das certificações obtidas, revela que em muitas das situações se consegue atingir o desempenho de C e B, por vezes até A com acréscimos de custos reduzidos, dispondo de uma boa relação custo eficiência, desde que tal tenha sido considerado adequadamente na fase inicial da conceção do projeto.