CAPÍTULO 4 – CONVENÇÃO DAS IGREJAS BATISTAS INDEPENDENTES: CARACTERIZAÇÃO DE UM PENTECOSTALISMO MARGINAL
4.3. Independência dependente
4.3.1. Teologicamente fragmentada
Passou a haver dois tipos de igrejas após o rompimento de 1952, aquelas que se voltavam aos conselhos dos missionários suecos e aquelas que ficavam fiéis à administração nativa. As perspectivas agora poderiam ter um duplo viés, e tiveram. A falta de cuidado dos
pastores nativos com essa característica da convenção foi preponderante para o surgimento dos mais variados tipos de igrejas que estão debaixo da sigla denominacional da CIBI. Os nativos preocupavam-se com a expansão que, aos poucos, foi ocorrendo, sem, contudo, se pautarem em uma forma doutrinária coesa de pensar para que pudessem desenvolver teologicamente as igrejas e a denominação. Aos poucos, pastores e igrejas de outras denominações evangélicas, sobretudo pentecostais, aderiram à CIBI e, possivelmente, trouxeram consigo a sua teologia e seus costumes, influenciando o modus operandi da convenção, que recebeu diversos tipos de influência teológica, o que ocasionou, com o passar dos anos, uma teologia denominacional fragmentada, sem coesão.
O exemplo abaixo cita um caso de adesão de uma igreja pentecostal à CIBI.
PEDIDO DE INGRESSO - I.E.P.B. ‘EBENEZER’
A Igreja Evangélica Pentecostal do Brasil ‘Ebenezer’, da cidade de Alvorada - RS, pede, através de correspondência, assinada pelo seu Pastor, irmão José Nestor Pinheiro Jacques, e endossada pelo Secretário Regional, Pastor Anarolino da Luz Leão, o seu ingresso na CIBI. A Secretaria da CIBI fará os contatos necessários (Igreja e Secretário Regional), afim de que as exigências legais sejam preenchidas.367
Em uma perspectiva pentecostal, Horton368 expressa, resumidamente, o sentimento que permeava a vida de um fiel, neste caso, assembleiano, afirmando:
Em o Som Alegre anunciaremos as promessas gloriosas incluídas no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, a salvação completa e perfeita de todos os pecadores e tudo o que pertence à nova vida do cristão: “o batismo no Espírito Santo, os dons espirituais, e a próxima e gloriosa vinda do Senhor”. Nota-se que, além da ênfase nas doutrinas pentecostais, principalmente o batismo no Espírito Santo e as línguas estranhas como sua evidência inicial, outra característica predominante do Movimento Pentecostal no Brasil, foi a crença na vinda do Senhor como algo iminente, o que implicava também na busca da santidade. Este era um alvo daqueles que ansiavam subir ao encontro do Senhor.
Faz-se necessário afirmar que, apesar desse entendimento permear a mentalidade pentecostal durante décadas, atualmente, observa-se a mudança ou a ressignificação de tal fenômeno, gerando novos paradigmas e modificando o campo pentecostal, reconfigurando-o. Perspectivas semelhantes ocorreram dentro do seio da CIBI através de novas teologias que foram surgindo e sendo adotadas por muitos pastores. Como temos afirmado, existe a influência estrangeira na CIBI, sobretudo sueca, dando forma ao status quo denominacional, entretanto, a multiplicidade doutrinária da convenção não brota apenas dessa semente, antes, percebe-se que a adesão de pastores de outras agremiações religiosas à CIBI pode ter sido a maior causa desta característica das igrejas.
367 Atas das Deliberações da Comissão Executiva da CIBI, reunida entre os dias 26-27 de junho de 1980, por
ocasião do retiro de pastores da UMBI, realizado em Campinas - SP, p. 4. (Cf. Anexo 15).
368 HORTON. Teologia Sistemática. 1ª ed. - Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 1996.
A fim de exemplificarmos como se davam a adesão de novas igrejas ao quadro da CIBI, apresentaremos dois casos distintos para nortear nossos apontamentos:
Primeiro caso:
ADMISSÃO DE NOVAS IGREJAS
Foram apreciados os pedidos de ingressos na CIBI de novas Igrejas recentemente organizadas. Todos os pedidos foram analisados, um a um, e em seguida encaminhado ao Plenário. As restrições foram com relação as Igrejas Batista Missionária de Governador Valadares e Aguas Formosas - MG, e Jardim das Oliveiras, Jundiaí - SP, Igrejas não oriundas do nosso trabalho. Os pastores das respectivas Igrejas, Hilton Carneiro de Souza e Laudivino Bento da Silva, foram chamados a Executiva, sendo aconselhados a aguardar um “Período de Carência”, todavia, o Plenário resolveu admiti-las também.369
Criou-se, a partir da convenção um formulário para adequar as igrejas que desejavam ser recebidas pela CIBI. Na ata não consta o formulário em si, mas faz menção de sua criação e aceitação pelo plenário presente no evento, o que denota a falta de critérios para a admissão de novas igrejas até então.
FORMULÁRIO PARA ADMISSÃO DE NOVAS IGREJAS
A Comissão Executiva, pensando nas Igrejas não oriundas de nossos trabalhos, sugere um prazo de, no mínimo, um ano (Período de Carência), para admissão de tais Igrejas. Elege-se uma Comissão para confeccionar um formulário a ser preenchido pelas Igrejas que pedem ingresso à Convenção das Igrejas Batistas Independentes. Foram eleitos os pastores Alcides Gonsalves dos Santos, Paulo e Pedro Mendes. O formulário foi apresentado ao Plenário, sendo aprovado, com apenas uma emenda.370
Segundo caso:
PEDIDO DE ADMISSÃO DE NOVAS IGREJAS
Passaram pela Comissão Executiva os pedidos de admissão de algumas Igrejas, encaminhados ao plenário, as seguintes Igrejas foram recebidas como membros da Convenção: 1ª Igreja Batista Independente, em Vitória, ES, com 39 membros (Pastor Hilton C. de Souza); Igreja Batista Independente de Paranaguá, com 138 membros (Pastor Alexandre R. Lima); 2ª Igreja Batista Independente de Paranaguá, PR, com 67 membros (Pastor José Dionísio dos Santos); Igreja Batista Independente de Valparaíso, Luziânia, GO, com 43 membros (Pastor Naason Nóbrega); Igreja Batista Renovada de Campinas, Goiânia, GO, com 117 membros (Pastor Adail Bendito de Cerqueira); Igreja Batista Esmirna em Taguatinga, DF, com 66 membros (Pastor Joel G. Correia); Igreja Batista Filadélfia de Cuiabá, MT, com 17 membros (Pastor Carmelindo G. de Souza).
*** As Igrejas Batista da Gratidão (Gandu, BA); Batista Belem (Jequié, BA); e Batista de Renovação Espiritual (Córrego Novo, MG), terão que observar o prazo de carência, estabelecido para trabalhos não oriundos de nossa Convenção.371
As décadas de 1970 e 1980 foram marcadas por comportamentos fundamentalistas e por uma leitura literal da Bíblia nas igrejas pentecostais, o que oportunizava o trânsito religioso
369 Atas das Deliberações da Comissão Executiva da CIBI, reunida entre os dias 22-26 de janeiro de 1980, por
ocasião da XXIX Assembleia Geral da CIBI, realizada em Goiânia - GO, p. 3.
370 Atas das Deliberações da Comissão Executiva da CIBI, reunida entre os dias 11-16 de janeiro de 1983, nas
dependências da Escola de 1º grau “Eda Mantoanelli”, realizada em São Caetano do Sul - SP, p. 3.
de membros dessas igrejas entre si, pois, de modo geral, se comportavam de forma semelhante. Esse movimento estava ligado também ao deslocamento de pessoas que vinham de outras partes do país, atraídas pelas ofertas de emprego na região Sul e Sudeste. Tais pessoas traziam consigo seus sonhos de uma melhor qualidade de vida, dinheiro e, talvez, uma melhor educação para os filhos. Traziam ainda sua religiosidade, transformando o imaginário pentecostal da época, desdobramentos que até a atualidade são sentidos.
Ao referir-se ao pentecostalismo crescente, Souza372, diz que se caracterizava por uma forma de pensar, citando a fala de um pastor norueguês:
A respeito da salvação por meio da justificação pela fé, somos luteranos. Na forma de batismo nas águas, somos batistas. A respeito da santificação, somos metodistas. Na evangelização, agressivos como o Exército da Salvação. Porém, em relação ao batismo no Espírito Santo, somos pentecostais.
Ser pentecostal denota, sobretudo, ter experiências de êxtase sobrenatural, naquilo que concerne às diferenciações entre os protestantes e pentecostais, pois, como coloca Souza, os pentecostais da década de 1960 assemelhavam-se muito aos protestantes quanto à sua doutrina, sendo vital, sobretudo, o batismo no Espírito Santo. As igrejas da CIBI, como temos demonstrado nos casos acima, possivelmente tornaram-se doutrinariamente plurais ao receberem influência de outras igrejas no ceio da convenção, não havendo consenso em questões básicas da fé. Convém ressaltar que as igrejas da CIBI se aproximam muito com o fenômeno que ocorreu no pentecostalismo brasileiro nos últimos anos, sendo reconfigurado constantemente, emergindo dele novos movimentos religiosos, tornando-se o maior fenômeno religioso brasileiro do século XX e o que sofre maiores mutações. Tal dinâmica pode justificar as distintas igrejas engajadas na CIBI, sendo a esta uma representação de um ideal utópico, inalcançável, mas que coexistem de forma singular, pois entendem que manter os vínculos denominacionais transpõe as barreiras doutrinariamente levantadas, fazendo com que desprezem as diferenças, pensando em um bem maior, como bem descreve o slogan utilizado na convenção do centenário da CIBI, em 2012, em Santa Rosa e Guarani - RS: Crescendo em
harmonia e aliança.