CAPITULO 1. A PROMOÇÃO DA AUTONOMIA DA PESSOA
1.1. Teoria de enfermagem do défice de autocuidado
A conceptualização do autocuidado foi iniciada por Orem nos anos 60 ao desenvolver a Teoria de Enfermagem do Défice de Autocuidado. A International Orem Society for Nursing Science and Scholarship fomenta a divulgação e o desenvolvimento da utilização do trabalho desenvolvido por Orem. Na realidade, os conceitos da teoria de Autocuidado de Orem têm sido muito utilizados por inúmeras escolas de enfermagem como base para a construção dos seus currículos académicos e por várias organizações de saúde como base de orientação na conceção dos cuidados com recurso à ação profissional dos enfermeiros.
A Teoria de Enfermagem do Défice de Autocuidado é uma teoria geral que engloba três teorias inter-relacionadas:
1) A Teoria de Autocuidado que descreve como e porquê as pessoas cuidam de si;
2) A Teoria do Défice de Autocuidado que descreve e explica como as pessoas podem ser ajudadas através dos cuidados de enfermagem;
37 3) A Teoria dos Sistemas de Enfermagem que descreve e explica as relações a manter durante as ações de enfermagem (Orem, 2001).
Integrados na teoria do autocuidado, surgem conceitos centrais e inter-relacionados, dos quais destacamos: autocuidado (self-care), agente de autocuidado (self-care
agent), agente dependente de cuidados (dependent care agent), défice de
autocuidado (self-care deficit), sistemas de enfermagem (nursing system), ação de autocuidado ou ação deliberada (self-care agency), comportamentos de autocuidado
(Self-care behavior), fatores condicionantes básicos (basic conditioning factors),
necessidade terapêutica de autocuidado (therapeutic self-care demand) e requisitos de autocuidado (self-care requisites) (Orem, 2001).
Para Orem, o autocuidado não é uma ação inata, antes é adquirida e apreendida pelo cliente no seu contexto sociocultural, ao longo do seu desenvolvimento. É considerado como uma função humana reguladora que os indivíduos têm de desempenhar por si próprios, ou que alguém executa por eles, para preservar a vida, a saúde, o desenvolvimento e o bem-estar. É ainda aprendido e executado deliberada e continuamente de acordo com as necessidades dos indivíduos. Estas condições estão associadas ao estado de crescimento e desenvolvimento, aos estados de saúde, às características específicas de saúde, à cultura e aos fatores ambientais (Orem, 2001).
O indivíduo é capaz de se auto cuidar pois tem habilidades, conhecimentos e experiencias adquiridas ao longo da vida, pelo que se denomina de agente de autocuidado. Quando o indivíduo por algum motivo perde esta capacidade e necessita que este autocuidado seja realizado por outras pessoas, passa a denominar- se agente dependente de cuidados. É neste momento que ele pode beneficiar dos cuidados de enfermagem.
Outro conceito central que Orem desenvolveu na sua teoria é o de ação de
autocuidado ou ação deliberada, que se reporta à “capacidade adquirida, complexa,
para atender as exigências de continuar a cuidar de si próprio, reguladora dos processos de vida, manutenção ou promoção da integridade, da estrutura e do funcionamento humano, bem como, do seu desenvolvimento e promoção do bem- estar” (Orem, 2001, p. 255). Trata-se, por isso, de um fator ativo, voluntário e intencional que envolve a tomada de decisão. O desenvolvimento da prática do
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autocuidado é um processo pelo qual as atividades são aprendidas e que, consequentemente, são determinadas pelas crenças, hábitos, e costumes culturais do grupo, ao qual pertence o indivíduo que as executa. Deste modo, a ação de autocuidado é uma ação deliberada, que se reporta à capacidade do ser humano em envolver-se no autocuidado por influência de fatores condicionantes básicos, que são “fatores internos ou externos aos indivíduos que afetam a sua capacidade de envolver-se no autocuidado ou afetam o tipo e a quantidade de autocuidado necessário” (Orem, 2001, p. 245). Basicamente são as características pessoais, como: idade; sexo; estado de desenvolvimento; estado de saúde; fatores socioculturais; familiares e ambientais; aspetos relativos ao sistema de assistência à saúde; padrão de vida e a disponibilidade de recursos (Orem, 2001).
Para Orem (2001, p. 255) “… a ação de autocuidado desenvolve-se no dia-a-dia através do processo espontâneo de aprendizagem. O seu desenvolvimento é ajudado pela curiosidade intelectual, pela instrução e supervisão de outros e por experiências na realização de medidas de autocuidado”. Neste sentido, as pessoas que cuidam delas próprias devem alcançar alguns objetivos, que são denominados de requisitos de autocuidado, podendo estes serem classificados:
de requisitos universais de autocuidado, quando se encontram relacionados com os processos de vida e com a manutenção da integridade humana estrutural ou funcional, pois são comuns a todos os seres vivos ao longo do ciclo vital e encontram-se inter-relacionados, sendo designados por atividades de vida diária;
de requisitos de desenvolvimento de autocuidado, quando se encontram associados à condição do individuo decorrente do processo de desenvolvimento vital, ou associados a algum evento ao longo da vida, e são relevantes para a formação inicial das características humanas, tais como: infância, adolescência, envelhecimento, gravidez e parto, situação de casamento, divórcio, situações de mudança no percurso de vida;
e por último, os requisitos de desvio de saúde, quando derivam da alteração da condição do indivíduo, à genética, aos desvios estruturais e funcionais, com os seus efeitos, e às medidas de diagnóstico e terapêutica médica (Orem, 2001).
39 No entanto, o défice de autocuidado existe, e está relacionado com a capacidade de ação do indivíduo (ação de autocuidado) e as suas necessidades (exigências de autocuidado). Por isso, o défice refere-se a uma conformidade entre as ações que os indivíduos deveriam desenvolver e aquelas que têm capacidade de desenvolver, no sentido de manter a vida, a saúde e o bem-estar. (Orem, 2001). Esta teórica identificou os défices de autocuidado como totais ou parciais; o primeiro implica a ausência de capacidade para satisfazer a necessidade, e o segundo refere-se à incapacidade de satisfazer alguma, ou algumas necessidades, estando associados não somente às limitações dos indivíduos para realizar estas medidas de cuidados, mas também com a falta de continuidade e efetividade no provimento dos cuidados (Orem, 2001).
O défice de autocuidado implica a necessidade de intervenção de enfermagem que é uma propriedade complexa ou um atributo de um enfermeiro para compensação ou ajuda de outra pessoa, como resposta às necessidades de autocuidado. De acordo com a Teoria dos Sistemas de Enfermagem, as intervenções podem ser: totalmente compensatórias (compensar as incapacidades, apoiar e proteger); parcialmente compensatórias (substituir o cliente em algumas atividades); ou de apoio e educação (ajudar a tomar decisões, dar informação e desenvolver aprendizagem), com o objetivo de satisfazer e modificar os requisitos de autocuidado universal, de desenvolvimento e os desvios de saúde.