4 ANÁLISE DOS DADOS
4.1.3 Terceiro Bloco: Práticas Gerenciais de Contabilidade
4.1.3.1 Análise Descritiva das Práticas Gerenciais de Contabilidade
O primeiro questionamento do bloco envolveu a discriminação das práticas gerenciais de contabilidade e seu grau de utilização por meio de escala likert, numa escala de 1 a 5 pontos.
As práticas que obtiveram maior média foram: registro dos custos das mercadorias (média 4,1748), administração ou gestão do caixa (média de 4,1574), quantidade de vendas necessárias para cobrir os custos (média de 4,0459) e fluxos de caixa relacionados a
recebimentos e pagamentos (média de 4,0385). Já as práticas com menor grau de utilização foram: balanço perguntado (média de 2,0485), utilização de ferramenta estratégica (similar ao BSC – média de 2,8506) e utilização de método de custeio semelhante ao ABC (média de 3,0875). As abstenções nas respostas foram motivadas pela falta de conhecimento sobre a adoção da prática gerencial pela empresa ou pelo não conhecimento da própria prática. As assertivas com mais falta de respostas foram: Custeio ABC (com 80 respostas válidas), ferramenta estratégica ou Balanced Scorecard (com 87 respostas válidas) e custeio por absorção (com 90 respostas válidas).
As respostas encontradas corroboram o perfil das empresas estudadas no sentido de que estas adotam formas mais tradicionais de práticas gerenciais, como o controle dos custos das mercadorias, caixa e controle das vendas (receitas).
O segundo questionamento objetivou apurar se os controles adotados estão relacionados ao alcance de metas e objetivos da organização, à mensuração dos gastos e/ou ao controle das atividades. As médias foram maiores para o objetivo de mensurar os gastos (média de 4,0982) e para alcançar objetivos e metas (média de 4,0714), ao passo que o objetivo de controlar as atividades apresentou média de 3,6786.
Questionou-se, ademais, como as empresas definem os preços de seus produtos: se se baseiam mais em seus custos ou no preço de mercado, e se o valor estipulado é o realizado no momento das vendas. As duas assertivas foram medidas em escala likert de 5 pontos (1 – “discordo totalmente” a 5 – “concordo totalmente”), ambas com médias acima de 4. Esse resultado indica que essas duas técnicas de determinação do preço não são excludentes e, portanto, que os empresários, para a fixação do preço do produto, tendem a considerar tanto os custos das mercadorias acrescidos de uma margem definida quanto o preço de mercado.
Os participantes também responderam se tais preços eram praticados de fato ou se sofriam alteração no momento das vendas. Como tal questionamento compreendeu respostas binárias (“sim, o preço é praticado”, ou “não”), a variação das respostas foi de 0 a 1, e a média encontrada foi de 0,5089, indicando que aproximadamente metade dos respondentes consegue, na maioria das vezes, vender pelo preço pré-definido. Sobre as motivações das variações nos preços, a maioria respondeu que costuma atender aos descontos solicitados pelos clientes para vender. A prática dos descontos é comum na região, a depender da forma de pagamento e da quantidade a ser vendida. A figura 18 exibe as motivações encontradas para as diferenças nos preços:
Figura 17 - Motivações das Diferenças entre o Preço Estabelecido e o Alcançado
Fonte: dados da pesquisa (2017).
Como se pode verificar na Figura 18, os clientes aparecem como maior frequência, sendo o principal motivo de modificação dos preços. Muitos afirmaram que há muita negociação com os clientes, e alguns até afirmaram que definem um preço esperando que ainda haja desconto.
A adoção de práticas gerenciais de contabilidade pode estar associada ao estilo de gestão e as estratégias definidas pela organização. Para verificar as estratégias adotadas pelas empresas, foi perguntado como as empresas se posicionavam no mercado e quais as estratégias de seus produtos e vendas. Foram 4 questões compostas por escala likert de 5 pontos (1- “discordo totalmente” a 5-“concordo totalmente”). A média de concordância com as assertivas foi próxima a 4, indicando que a empresa busca, ao mesmo tempo, trabalhar com a estratégia de baixo custo e de diferenciação ao mesmo tempo (CHENHALL E LANGFIELD-SMITH, 1998; PORTER, 2005). Em análise posterior, na seção da abordagem qualitativa, se vê que algumas empresas até possuem 2 marcas diferentes, com estratégias diferentes. O que surpreende, no entanto, é a alta concordância com a existência de uma gama ampla de produtos oferecidos, visto que é comum as empresas se especializarem em um público específico, como “roupas femininas, roupas íntimas, calções masculinos”, etc. A única assertiva que apresentou
média abaixo de 3 foi a primeira, (“a empresa tende a ter o mesmo conjunto de produtos, não liderando mudanças no mercado e oferecendo uma variedade limitada de produtos”), com média de 2,8360. Esse baixo nível de resposta se alinha à ideia de que oferecem uma grande variedade de produtos.
A penúltima questão do bloco dedicou-se aos objetivos de cálculo e conhecimento dos custos, tendo sido novamente elaborada com base em escala likert de 5 pontos. Com base nos dados, percebe-se que a média de concordância das afirmativas é elevada. Verificou-se ainda que a maior média encontrada das respostas fornecidas foi relacionada com promoção de melhorias (média de 4,5133) e aumento o lucro ou resultado (com média de 4,4912), e a menor média foi a de estudo das variações orçamentárias (3,5), essa menor média pode ser explicada pela utilização reduzida da mesma prática.
O último questionamento incidiu sobre o método de pagamento adotado pela empresa (depósitos, dinheiro em caixa, carta de créditos ou cheques), bem como qual a forma de planejamento desses pagamentos. Evidencia-se que o método de pagamento mais adotado é o dinheiro (caixa), com média de 4,2301, sendo depósitos bancários a segunda opção, com média de 2,7788. Quanto ao fluxo de pagamentos, a maior média foi verificada na assertiva associada ao pagamento das despesas de acordo com um planejamento, ou datas fixas para o pagamento de alguma despesa já incorrida (4,2018). No entanto, em que pese esta constatação, observou- se ainda que mesmo muitos alegarem estar com dívidas e com baixo recursos de caixa nos últimos anos, devido à crise, a média dessa assertiva (de só pagar quando há dinheiro disponível) foi baixa (média de 2,5175), indicando que eles discordam da utilização dessa prática na empresa deles. Alguns afirmaram até que, em caso de necessidade, recorrem aos próprios recursos ou pedem auxílio.
A seguir, é apresentado um resumo com os principais pontos observados nesta seção:
Tabela 13 - Sumarização dos Resultados Encontrados no Bloco 2
Variáveis do Bloco Principais Resultados
Práticas Gerenciais de Contabilidade: o Mais usadas (em ordem decrescente): registro dos custos das mercadorias (média 4,1748); administração ou gestão do caixa (média de 4,1574); quantidade de vendas necessárias para cobrir os custos (média de 4,0459), e fluxos de caixa de recebimentos e pagamentos (média de 4,0385);
o Menos usadas (em ordem crescente): balanço perguntado (média de 2,0485); Balanced Scorecard ou
adaptações (média de 2,8506), e Método de custeio ABC (média de 3,0875).
Uso da contabilidade/custos/orçamentos Para alcançar objetivos e metas (médias de 4,0714 e 4,0982, respectivamente) e, em menor grau, para controlar as atividades (média 3,6786)
Determinação do preço de venda uso tanto de custo mais margem (média de 4,3661) quanto de preço de mercado (média de 4,0982);
Prática do preço de venda metade vende pelo preço definido (média de 50,89). O principal motivo de diferenciação dos preços advém da demanda dos clientes por descontos e a necessidade da venda;
Estratégia as empresas se afirmam mais inovadoras (média de
3,9211) do que limitadas em sua oferta de produtos (média de 2,3860); e se dividem entre a estratégia de diferenciação e baixo custo (médias de 3,6991 e 3,7699, respectivamente);
Objetivo dos custos: o Houve semelhança entre as médias, mas as maiores foram (em ordem decrescente): promover melhorias (média de 4,5133); aumentar o lucro/resultado (média de 4,4912), e formação inicial do preço de venda (média de 4,2719);
o As menores médias foram (em ordem crescente): estudo das variações orçamentárias (média de 3,5487); avaliação de desempenho (média de 3,9107), e controle dos custos com pessoal (média de 3,9196);
o Formas de pagamento das despesas: paga-se principalmente em dinheiro/caixa (média de 4,2301), e de acordo com um plano de pagamento (média de 4,2018), indicando-se que tais pagamentos podem ocorrer após a despesa, e/ou à vista (média de 4,0702).
4.1.3.2 Inferências Acerca das Práticas Gerenciais de Contabilidade e Estratégias (Terceiro Bloco)
Observou-se que as variáveis de práticas gerenciais de contabilidade estão positivamente associadas umas às outras (ver tabela D5, no Apêndice D).
Contatou-se ainda que, quando o empresário não consegue vender pelo preço pré- estabelecido, há associações marginalmente significantes como: “a minha empresa tende a ter o mesmo conjunto de produtos, não liderando mudanças no mercado e oferece uma variedade limitada de produtos”, com uma significância de 0,072 (coeficiente de – 0,171); “promover
melhorias” como objetivo dos custos, com significância de 0,067 (coeficiente de -0,174), e “traçar planos e metas”, com significância de 0,096 (coeficiente de -0,159). Embora marginalmente significantes, a um nível de 10%, tais associações indicam um comportamento negativo em relação a algumas práticas adotadas pela empresa (ver tabela D6, no Apêndice D).
As empresas que se adjetivam como “inovadoras” em seus produtos apresentam associações positivas com a busca em surpreender os clientes (coeficiente de 0,377 e significância de0,000) e com diversos objetivos dos custos.
As demais associações não são mencionadas, haja vista que não houve significância entre as variáveis.