No contexto apresentado, a identidade é apreendida na dimensão simbólica conotando um prestígio revelado a partir da mudança de análise do território, que antes era apenas pela delimitação do estado-nação, o que permitia análises com referências de cunho nacional renegando as peculiaridades individuais.
Nesse sentido o território reúne características passíveis de serem analisadas no que diz respeito à conexão de grupos sociais e sua atuação no espaço por carregar conteúdo identitário em pequenas escalas analíticas.
Sobre as identidades, foram realizados inúmeros trabalhos com análises de características psicológicas adquiridas em face dos territórios vividos. Em 1972, Erick Erikson abre o campo de compreensão do termo inserindo a ideia da personalidade com foco na crise da adolescência. É nela que os seres humanos definem seus conceitos, pois até então se esperava que eles aceitassem os
comportamentos impostos, mas a partir de questionamentos, eles criam suas próprias regras, definindo assim sua identidade.
Por outro lado, percebe-se que os jovens não criam regras iguais para todos, em decorrência do contato com grande quantidade de culturas diversas no transcurso da adolescência, podendo provocar a falta de manutenção das identidades.
A construção das identidades assume, desse ponto de vista, uma dimensão geográfica: um grupo preocupado em não ver suas novas gerações se afastarem dos ideais tradicionalmente professados tem interesse em viver isolado. Desse ponto de vista, a construção do território faz parte de estratégias identitárias (CLAVAL, 1999, p. 13).
A construção da identidade pode basear-se em objetos materiais, que servem de referência para a formação dos territórios. Assim, a construção dos locais como bairros ou cidades e o enraizamento físico conduzem a um conhecimento da relação entre a história e o espaço notados a partir e no cotidiano.
Vê-se, então, porque os problemas do território e a questão da identidade estão indissociavelmente ligados: a construção das representações que fazem certas porções do espaço humanizado dos territórios é inseparável da construção das identidades (CLAVAL 1999, p. 16).
Tal ideia conduz a inferir o imbricamento de identidade e território na análise geográfica. Portanto, é necessário ter uma clara noção sobre quais aspectos propõem a compreender de fato a identidade e suas relações espaciais.
Nesse processo relacional da identidade e do território, precisa-se levar considerar a alteridade. No dicionário Aurélio (2010) existe tal significado “[..] qualidade do que é outro (por opor. a identidade)”. Na existência humana só existe o chamado “eu-individual” a partir do contato com o Outro. Assim, há que se considerar um processo incessante de interação.
Santos (2006, p. 214) ao analisar aspectos relacionados ao lugar pela interação afirma, a partir das ideias de Bakhtin (1986, 1993, p. 54), que a arquitetura concreta do mundo atual dos atos é realizada em três momentos básicos: o eu-para- mim mesmo; o outro-para-mim; o eu-para-o outro ("basic moments: I for-myself, the
other-for-me, and I-for-the-other"). É desse modo que se constroem e se refazem os
Os aspectos relacionados ao cotidiano social são notados quando toma-se a alteridade em análise. Características habituais normais são reveladas tornando possível o desvelamento de determinadas realidades, pois:
[...] a experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos „evidente‟. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente nada de „natural‟. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única (LAPLANTINE, 2000, p. 21).
A percepção do Outro se torna substantivamente essencial na construção da identidade de indivíduos. Nesse ínterim, localidades onde as pessoas estão mais próximas tendem a exercer maior influência sobre os demais que cercam e assim conformando marcas delineadoras de identidade.
As características marcantes da relação Eu x Outro são apreendidas através da cultura repassada de geração a geração, como afirma CLAVAL:
O indivíduo é moldado pela cultura: o que sabe fazer, suas maneiras de sentir e de ver, suas aspirações, são recebidos de seu círculo ou construídos a partir dos elementos por ele fornecidos. [...] Eles adquirem atitudes para ação, procedimentos para enfrentar situações variadas, regras a seguir ou modelos a imitar. Isto não os circunscreve à repetição indefinida das mesmas receitas (2007, p. 106).
As pessoas estariam atreladas aos outros e à sua cultura, portanto passíveis da existência de múltiplas identidades a depender do nível de imbricamento entre os elementos da formação de uma característica social coesa.
Le Bossé (2004, p. 173) analisando identidade, territorialidade e fronteiras indica que para compreender plenamente a expressão territorial do grupo, nos beneficiamos ao examinar a maneira como o grupo percebe e representa seu “outro”, inimigo ou vizinho, e como esse “outro” contribui para soldar a coesão interna do grupo identitário.
Dentro dessa análise há de compreender a importância do simbolismo presente na formação das identidades. Para a existência da identidade territorial a presença de um símbolo pode ser necessária.
Este símbolo pode estar contido nas paisagens e todas possuem símbolos, como afirma Cosgrove (2004, p.106): “[...] todas as paisagens são simbólicas, apesar da ligação entre o símbolo e o que ele representa pode parecer muito tênue”. As paisagens são mais que aspectos funcionais e concretos, há elementos que vão além da mera visão estruturada pelos níveis espectrais alcançados pelos olhos, vão além da morfologia objetiva, há de fato, múltiplos patamares de significados.
A interpretação da paisagem para a Geografia é a busca da explicação científica de como as formas observadas são o resultado visível da combinação de processos físicos, biológicos e humanos ou antrópicos. Percebida por intermédio de uma visão científica, a paisagem ganha uma abordagem com características próprias de um método de pesquisa. Assim, o estudo da paisagem se constitui num dos mais antigos métodos de estudo pertencentes à Geografia5.
Para além da descrição das paisagens, torna-se necessário enxergá-la como interface, não apenas no sentido ecológico percebido no encontro: atmosfera/hidrosfera/litosfera, e sim entre homens e natureza.
Essa é a visão clássica da paisagem, que negligencia um universo complexo para análises mais profundas em que as humanidades6 são esquecidas ou analisadas parcialmente. É necessário explicitar o significado da paisagem.
As paisagens tomadas como verdadeiras de nossas vidas cotidianas estão cheias de significados. Grande parte da geografia mais interessante está em decodificá-las. É tarefa que pode ser realizada por qualquer pessoa no nível de sofisticação apropriado para elas. Porque a geografia está em toda parte, reproduzida por cada um de nós. A recuperação do significado em nossas paisagens comuns nos diz muito sobre nós mesmos. Uma geografia efetivamente humana é uma geografia humana crítica e relevante, que pode contribuir para o próprio núcleo de uma educação humanística: melhor conhecimento de nós mesmos, dos outros e do mundo que compartilhamos (COSGROVE, 1999, p. 121).
Nesse sentido, a paisagem pode servir para desvendar a identidade de território no recorte espacial. Os questionamentos são baseados nessa assertiva. A identificação do símbolo ajudará no entendimento da forma construtiva da identidade territorial através da afetividade, dos sentimentos e das imagens e representações.
Quando há a apropriação simbólica de um território, a identidade pode emergir, respaldando assim a análise proposta. Cosgrove (1999, p.108) afirma que
5
2005. Mundo Geográfico. Disponível em <http://mundogeografico.sites.uol.com.br/principal.html> 6
“todas as paisagens possuem significados simbólicos porque são o produto da apropriação e transformação do meio ambiente pelo homem”.
A análise aqui diz respeito à existência da identidade territorial no bairro Bugio, a partir da presença de símbolos na paisagem que deem ancoragem à mesma, concreta ou simbolicamente. Nesse contexto é possível indagar até que ponto o ecossistema manguezal contribui para isso. Assim, teorizar a identidade torna-se imprescindível para a compreensão do questionamento proposto.
As reflexões sobre identidade perpassam os campos da sociologia, psicologia e também da geografia. Então, há uma busca de empreender uma análise voltada para esta última sem, contudo, esquecer concepções que contribuem sobremaneira para a análise pretendida.
Nesse sentido, pode-se afirmar que a identidade é uma representação socialmente constituída, ou seja, uma representação que os grupos têm sobre si próprios. Uma definição simples é encontrada no dicionário Aurélio (2010) como sendo “[...] o que faz que uma coisa seja da mesma natureza que outra”. Entretanto, o conceito vai além dessa simplificação de dicionário.
Para Hall, (2006, p. 38):
A identidade é [...] algo formado, ao logo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo tão inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”.
É notório que a identidade não é algo estático e permanece em constante modificação/mutação levando aos grupos, diferentes características delineadoras de sua identidade. Seguindo esta ideia de dinâmica, Bauman (2005, p. 17) comunga dizendo que
[...] o “pertencimento” e a “identidade” não tem a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento” quanto para a “identidade”. A dinâmica da identidade está presente em qualquer que seja o local, mesmo em comunidades tradicionais. Para Haesbaert (1999, p.174), “[...] a identidade social é uma identidade carregada [...] de subjetividade e de
objetividade”. Tal ideia confirma o peso da base territorial na formação da identidade. O autor prossegue, “identificar [...] é sempre identificar-se [...], e
identificar-se é sempre um processo de identificar-se com, [..], é sempre um
processo relacional”. Para ele a identidade nunca é uma, é múltipla, está em curso, em processo de formação.
Com as alterações locais das identidades, há também mudanças no território e territorialidades, podendo ocorrer misturas ou conjugações de simbologias entre os indivíduos, e apesar da obviedade de conflitos devido às junções, as mesmas convivem sem percalços aparentes e destruidores.
Não há um bloco contínuo de identidade em um determinado espaço, com suas próprias regras e submissões, há sim de fato uma associação que por vezes é amistosa sem prejuízos aos grupos contidos no território.
A territorialidade se exprime mais em termos de polaridade que de extensão. Nada se opõe, neste caso, a que os grupos de identidades diferentes se justaponham ou se imbriquem: sua co-habitação não provoca problemas de natureza política e religiosa na medida em que cada um dispõe de pontos de referência que o vincula a uma porção do espaço. As sociedades tradicionais oferecem múltiplos exemplos, no campo ou na cidade, de mosaicos territoriais estáveis (CLAVAL 1999, p. 17).
A junção de populações, com diferentes territorialidades em um mesmo estado-nação permite concluir na coexistência pacífica de identidades territoriais sem mais complicações severas de convivência.
Partindo desse princípio, torna-se difícil conceber, e é uma dúvida, de que existam identidades sem referenciais espaciais, mas é possível. Sempre existirão formas e objetos que darão ou podem facilitar a formação de um imaginário que permitirá aos indivíduos a se compreenderem como agentes de produção espacial, mesmo que tais forma e objetos não estejam materialmente concretos no espaço.
A própria evolução das identidades e das territorialidades mostra a existência de referenciais espaciais na determinação territorial, tendo nos últimos anos uma tendência à homogeneidade provocada por mudanças de ordem econômica transformadoras de fenômenos de localismos.
As referências espaciais existem e também participam num processo de multiterritorialidade, em que coexistem várias identidades num mesmo local que podem se modificar ou incorporar novos valores na construção identitária.
Porém, a industrialização e crescimento da circulação de bens e serviços provocaram mudanças, como aponta Claval (1999, p. 19):
Com a industrialização, os utensílios se padronizam, as roupas são feitas dos mesmos tecidos e segundo modelos similares – a calça de blue jeans que se tornou o uniforme de uma parte da população mundial é uma prova.
Assim será possível compreender que o ponto de partida de tais alterações deu-se no próprio imaginário social acerca da noção de tempo, enquanto regulador dos modos de vida, e dos conceitos de apropriação do espaço geográfico e dos lugares (CORDOVA 2001, p. 147).
A dissolução das identidades tradicionais segue junto com as identidades do estado-nação sem que haja conflitos que afetem os ordenamentos territoriais locais.
Indo no sentido da história, elas englobam, sem que em geral isto provoque dificuldades, o que subsiste de sentimentos de pertencimento e de territorialidades do passado. Estas deixam de ser vividas sob a forma de territorialidade contínua - e se transformam em territorialidades simbólicas que se prestam perfeitamente ao jogo de hierarquização e de imbricação dos pertencimentos (CLAVAL 1999, p.19).
Mas no tempo contemporâneo não há nada que faça os seres humanos serem obrigados a incorporar as novas formas e referências espaciais para a formação de sua identidade; há sim a necessidade, por vezes, de se diferenciar mesmo, por exemplo, através da vestimenta. Ninguém é obrigado a se vestir de acordo com o que a moda impõe.
É notória a interferência do meio global no local e isso tem repercussão no território como diz Claval (1999, p. 20): “[...] a transformação contemporânea dos sentimentos de identidade tem repercussões sobre a territorialidade: ela leva a uma reafirmação apoiadas nas formas simbólicas de identificação”.
A sociedade está em processo de transição à pós-modernidade, tendo como indício o desmoronamento e a derrocada de algumas culturas tradicionais em face do fim de ideologias tidas como centralizadoras donas das verdades territoriais e as únicas vias possíveis.
A busca da explicação do sentimento de identidade sempre existiu e sempre existirá em todas as épocas em que se suscitem desconfiança do que se é para um determinado grupo e como estes relacionam em territórios criando novas territorialidades e alterando ou não a organização espacial.
Nunca se pensou em identidades como hoje, pois vivemos num mundo onde as pessoas não sabem mais o que elas são e que as facilidades de comunicação e de deslocamento multiplicam os pontos de referência em que podem se ancorar (CLAVAL 1999, p. 21).
Portanto, o território se redefine em razão das novas formas referenciais buscadas pelos indivíduos na formação de novas territorialidades e na consequente aceitação em grupo com as mesmas identidades ou a incorporação de novos elementos tornando o que Haesbaert (2005) chama de múltiplos territórios, e Canclini (2000), de hibridismo cultural.
O interesse que suscita a noção de território, as novas formas de territorialidade e as geopolíticas que elas implicam é considerável. É explorando essas modalidades inéditas de relações dos grupos com o espaço que os geógrafos podem trabalhar positivamente por um mundo melhor e mais justo. A tarefa comporta, entretanto, um risco: aquele de participar do jogo de fabricações dos discursos identitários ao invés de lhes considerar a partir de um olhar crítico. O papel do intelectual não é o de forjar ideologias, mas o de desmontar seus mecanismos e o de fazer compreender para que elas servem e que perigos elas implicam (CLAVAL 1999, p. 24).
Assim, o objetivo do trabalho está pautado na análise do bairro Bugio como recorte espacial onde a paisagem do ecossistema manguezal está presente desde a sua construção e pode se configurar em um símbolo formador de identidade territorial pelas representações socias.