SÍNTESE DO CAPÍTULO
2. TRABALHO INFANTIL E TRABALHO EDUCATIVO
2.2 TRABALHO INFANTIL E EDUCAÇÃO
A educação das crianças e dos adolescentes da classe trabalhadora, no Brasil, sempre esteve associada a um aprendizado técnico, geralmente
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A terceira Constituição dos Estados Unidos do Brasil, datada de 16 de julho de 1934.
20 A quarta Constituição dos Estados Unidos do Brasil, datada de 10 de novembro de 1937. 21
A quinta Constituição dos Estados Unidos do Brasil, datada de 18 de setembro de 1946.
22 Reforma agrária, habitacional e financeira. 23
A sexta Constituição da República Federativa do Brasil, datada de 15 de março de 1967, teve todo o seu texto alterado pela Emenda Constitucional de 17 de outubro de 1969.
de atividades simples (costura e trabalhos de agulha; lavagem de roupa; engomagem de roupa; serviços de cozinha; manufatura de chapéus; datilografia; jardinagem, horticultura, criação de aves entre outros). Nas legislações de 1934 e 1937 sua limitação resumia-se a que não ocorresse antes dos 11 anos, a não ser que o menor já tivesse concluído o ensino inicial, quando poderia trabalhar. Portanto, educação, idade e trabalho estiveram relacionados à vida de uma infância pobre e o trabalho infantil a partir dos 12 anos de idade, em estabelecimento que apresentasse o “caráter profissional ou de beneficência” era sempre aceito como medida de proteção e de reeducação.
Rizzini (2000, p. 28) considera que o discurso ideológico para salvar crianças e adolescentes – os filhos da pobreza - tidos como perigosos, justificou uma série de medidas repressivas impostas sob a forma de assistência, por meio do controle e da intervenção da polícia. Tais crianças eram tratadas como menor. Esse termo simbolizava a infância pobre e perigosa, diferenciando-a das demais infâncias. Assim, o Código de Menores24 previa o princípio da regeneração em instituto disciplinar, chamada de Escolas de Reforma para corrigir crianças e adolescentes visando transformá-los em cidadãos úteis para o desenvolvimento do país (RIZZINI, 2000).
O momento histórico da política educacional brasileira se modelava para formar mão de obra qualificada por meio de cursos profissionalizantes (com currículo e conteúdo mínimo) e assim instituiu o ensino profissional destinado às “classes desfavorecidas da fortuna”. As indústrias criaram escolas de aprendizes destinadas aos filhos de operários e de associados, assim como o Estado fundou institutos de ensino profissional, tanto de iniciativa estadual, municipal e associações particulares, para formar um tipo de trabalhador ao molde da pedagogia capitalista.
O Estado brasileiro estabeleceu um modelo de escola voltado somente para os filhos dos trabalhadores ao fundar instituições de auxílio e
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No capítulo III, que tratou do abrigo de menores subordinado a um juiz - Art. 189. Foi destinado a receber provisoriamente, até que tenham destino definitivo, os menores abandonados e delinquentes.
proteção que tinham a finalidade de organizar para os adolescentes períodos de trabalho nas oficinas, os chamados ensinos de ofícios. O ensino profissional se caracterizava pelo disciplinamento da moral e pelo treinamento físico, visando favorecer o desenvolvimento da economia e da defesa do país.
O Brasil entre uma reforma e outra para manter a ordem social, adotou em 1942, o Estado de intervenção na política e na economia, com característica do modelo paternalista e assistencialista e passou a tratar a educação das crianças e dos adolescentes no serviço social do sistema de internato25. A lógica da pedagogia capitalista da educação no trabalho se dava pela reclusão e repressão nos moldes de um sistema penitenciário para crianças e adolescentes da classe trabalhadora.
No período da ditadura militar o Estado brasileiro adotou políticas púbicas baseada nas regras do modelo econômico liberal e um Estado autoritário para conter os anseios das pessoas por um governo popular democrático, adotou a política do imperialismo americano contra o bloco socialista liderado pela União Soviética. Nesse período o autoritarismo e a repressão deram o tom das ações de governo, adotando medidas de vigilância com prisão arbitrária e torturas. Criou o sistema de internações para conter o avanço de crianças e de adolescentes consideradas pelo Estado repressor em situação irregular sob a ideia de reprimir a criminalização da pobreza26.
Ainda nesse período, da ditatura militar, as medidas repressivas visavam cercear as condutas de crianças e de adolescentes criando instituições de “prisão27 e internatos para discipliná-lo em nome da
educação para o mundo ou da correção do comportamento” (PASSETTI, 2008, p. 350). A intenção era [...] “mudar comportamentos, não pela
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Criou em 1942,o Serviço de Assistência ao Menor (SAM), órgão gestado no Ministério da Justiça.
26 Aprovada a Lei n° 5.258, em 10 de abril de 1967, que dispõe sobre medidas de proteção, assistência,
vigilância e reeducação aplicáveis aos menores de 18 anos pela prática de fatos definidos como infrações penais.
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Criou o 2º Código de Menores regulamentado pela Lei Nº 6697/1979 e a Fundação Nacional do Bem Estar do Menor (FUNABEM).
reclusão do infrator, mas pela educação em reclusão” (PASSETTI, 2008, p. 357).
A educação oferecida nas instituições de disciplina manteve a linha assistencialista à infância e à adolescência. O Brasil outra vez optou por corrigir a desigualdade social das crianças e dos adolescentes “pela educação para/pelo trabalho” (PASSETTI, 2008), erigindo um “ensino pelo medo”. Tratou-as como criminosas e utilizou o método disciplinar, inclusive “vestindo-os uniformemente, estabeleceu rígidas rotinas de atividades, higiene, alimentação, vestuário, ofício, lazer e repouso” (PASSETTI, 2008, p. 356).
Os anos de chumbos 28 teve uma longa duração na história do povo
brasileiro, entrecruzaram as décadas de 60, 70 e 80 do século 20. As fundações se transformaram em espaços de torturas e reprodução da violência contra as pessoas que não aceitavam o golpe militar.
No Brasil ditatorial, existiu, na economia, uma acelerada modernização da indústria e do setor de serviços (FERNANDES, 2005), sustentada por um mecanismo de concentração de renda, aumento da dívida externa, abertura ao capital estrangeiro e inflação elevada que acentuava as desigualdades e as injustiças sociais.
É nesse cenário de negação dos direitos de proteção às crianças e aos adolescentes em condição de miséria, que o trabalho infantil no Brasil, passou a ser considerado como solução alternativa à pobreza , sendo percebido pela sociedade capitalista ainda como algo normal. Para muitos o trabalho infantil seria uma cultura muito aceita na sociedade brasileira, segundo autores como Sarmento; Gouvea (2010), Rizzini (2008), sendo justificada por diversos motivos, da obrigação de ajudar em casa ao seu caráter educativo.
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O período de 1969 a 1973 ficou conhecido como o Milagre Econômico, o país desenvolveu grandes projetos de infraestrutura, por exemplo, a construção da hidrelétrica de Tucuruí, e gerou empregos, mas também uma dívida externa muito maior que anos depois seria cobrada pela exclusão social e a manutenção do trabalho infantil e os baixos salários dos trabalhadores adultos. Ver (Irene Rizzini, 2003).
Tanto pela elite como pela população de menor renda, que julga ser natural o trabalho da criança pobre: em primeiro lugar, em função da necessidade de ajudar sua família ou mesmo para seu o sustento; em segundo lugar, porque é melhor a criança trabalhar do que ficar nas ruas, desocupada e à mercê de delinquentes; e, em terceiro lugar, porque o trabalho educa (OIT/BRASIL, 2003, p. 20).
Prevalecia o discurso de desenvolvimento do mercado de trabalho, de uma economia política voltada aos interesses da pedagogia do capital. Ideologicamente, tratava-se de assegurar a organização moral da sociedade pelo convencimento de que crianças e adolescentes pobres deveriam receber uma educação no trabalho, pois assim os problemas sociais e econômicos da classe trabalhadora seriam solucionados.
As crianças e os adolescentes em situação de pobreza transformaram-se no foco privilegiado de um discurso da pedagogia do capital, que sublimava o trabalho, particularmente para conter uma infância pobre. O discurso ideológico capitalista buscava justificar a entrada precoce de milhões de crianças e de adolescentes no trabalho infantil29 como solução para os problemas sociais e a situação de miséria, ocasionando a baixa escolarização em decorrência da crise econômica mundial e aumentando no Brasil a “desigualdade social, concentração de renda, miséria, subdesenvolvimento, corrupção e negligência” (IPEC/BRASIL, 2001, p. 34).
Segundo Kassouf (2003, p. 58), “a pobreza, a escolaridade dos pais, o tamanho e a estrutura da família, [...] a idade em que os pais começaram a trabalhar e o local de residência” - se os pais são solteiros ou separados, a relação entre irmãos mais novos e mais velhos, entre outros aspectos são os determinantes mais levados em conta para a inserção de crianças e de adolescentes na força de trabalho sob a égide do capital.
No dizer de Kassouf (Idem, p. 34) o trabalho infantil dificulta o acesso à educação porque muitas crianças e adolescentes trabalham sem
29Mais de 9,0 milhões de trabalhadores tinham apenas entre 5 e 17 anos no começo da última década do século
XX. Deles apenas uma ínfima minoria ganhava o equivalente a meio salário mínimo. A maioria recebia pouca ou nenhuma remuneração, o que os colocava entre os mais pobres dos pobres. IBGE/PNAD (2001).
estudar. Portanto, a educação oferecida tem como base o trabalho em prejuízo da educação formal, assim como as constituições federais anteriores colocavam a família como responsável principal pela educação dos filhos. Raramente na falta de recursos dos responsáveis, o Estado assumiu obrigações com o ensino de crianças e de adolescentes da classe trabalhadora.
É com a Constituição de 1988, que a educação deixa de existir com o caráter assistencialista e passa a ser entendida como direito necessário ao desenvolvimento integral de crianças e de adolescentes, sendo de responsabilidade do Estado, da família e da sociedade. Tratava-se de uma luta social, da sociedade civil articulada com os setores sindicalistas e trabalhadores de outros segmentos, em defesa dos direitos sociais e humanitários.
A participação da sociedade consagrou a Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988, como também a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990 - duas Leis de fomento ao direito e proteção de crianças e de adolescentes.