CAPÍTULO 1. MODERNIDADE E TRADIÇÃO 11
1.5. Tradição e Modernidade, dois conceitos que se complementam 22
A sociedade do século XVII transformou a razão em instituição e em ciência criando modelos experimentais como se fossem o único caminho para “um mundo verdadeiramente humano”, alcançado pela ordem, equilíbrio e civilização e o progresso (GOMES, 2000: 35).
A racionalidade é um marco da modernidade que se manifesta com duplo caráter: um deles é como “território da razão, das instituições do saber metódico e normativo” (GOMES, 2000: 26), e o outro é a contestação por “‘contracorrentes, [do] poder da razão, [dos] métodos e da ciência institucionalizada e [do] espírito científico universalizante” (ibdem). Se assim considerar esse período, se fará da modernidade um campo de tensões e conflitos em torno de seus princípios fundantes, que são a atividade intelectual e sua organização, e passa-se a negar a hegemonia da razão. “Esta é sem
dúvida, uma leitura possível quando se percebe o desenho de outra corrente de pensamento, dita neomoderna ou hipermoderna (GOMES, 2000:27).
Segundo Gomes (2000) pode-se considerar que a modernidade teve início com o surgimento de novos valores que se manifestaram em diferentes dimensões da vida social. Foram mudanças de uma dinâmica espaço-temporal que ocorreram gradualmente e de complexidade tamanha, que embora seja um período preciso - opinião que não é consenso entre os estudiosos do tema - não tem uma única localidade. Gomes (2000) observa que o novo lugar conferido à ciência talvez tenha sido o principal traço dessa mudança de valores e a mais importante característica da modernidade.
Além disso, Gomes (2000) destaca importantes componentes da modernidade como o desenvolvimento do capitalismo, o processo de industrialização e a globalização, que marcaram profundamente a vida em sociedade, conforme exposto anteriormente, mas também a relação da modernidade com o meio ambiente4 e os conteúdos culturais.
A expressão moderno, culturalmente, traz consigo uma imposição “negativa àquilo que existia antes e que a partir de então se transforma no antigo ou no tradicional” (GOMES, 2000:49). O moderno está associado com a contemporaneidade, não só substitui, como pode também negar elementos do passado, algo que não faz sentido no presente. A partir daí surge “a concepção de uma estrutura em progressão, segundo a qual o avanço e a mudança são sempre elementos necessários” (ibdem).
Segundo Gomes (2000) o novo torna-se sinônimo de legítimo e em seu nome busca-se toda forma de justificativa. Isso passa a exigir uma “atualização” de todos sobre todas as coisas e situações, instalando-se uma exclusão de quem não adere a esse novo, moderno, atual.
Segundo Rodrigues (1997) a constituição da modernidade trouxe em si um ideal ambivalente, surgido numa base de contínua referência à tradição, um projeto em constante crise, marcado pela necessidade de incessante ultrapassagem, de tal forma que:
4
É por isso que a tradição e a modernidade são duas faces de uma mesma moeda, estabelecendo entre si uma relação espetacular: moderno é tudo o que se demarca em relação aquilo que permanece como tradicional, tal como tradicional é tudo o que se demarca em relação àquilo que se apresenta como moderno (RODRIGUES, 1997:2).
Na análise dos valores próprios da modernidade, considera-se que “há um duplo fundamento formado pelo par novo/tradicional, noções que já existem há muito tempo, mas tornam-se marcantes a partir da modernidade” (GOMES, 2000:29). Assim falar de moderno ou novo, necessariamente implica remeter- se ao tradicional, são “dois sistemas que se opõem, mas que estruturam uma mesma ordem” (ibdem).
Gomes (2000) aponta que há uma ligação entre esses dois pólos, sendo impossível atribuir a um dos dois, valor superior em relação ao outro. “A tradição não significa a permanência defasada e refratária a qualquer mudança [...] e o novo não deve nos conduzir a considerar que se trata de um movimento em permanente e completa mutação” (GOMES, 2000: 29). Importante é perceber que a base do novo é o tradicional e que mesmo sendo dois pólos, ambos interagem.
Considerando que a ciência moderna se legitima pelo método, são as diferenças metodológicas que constroem as individualidades epistemológicas desses dois pólos, “oriundo do projeto fundado no Século das Luzes. A idéia central nesta concepção é a universalidade da razão” (GOMES, 2000: 30).
O raciocínio enquanto movimento histórico ou científico alterna momentos de estabilidade e de crise. “A crise é o anúncio de uma modificação, é também o signo da confrontação entre dois níveis de compreensão, o antigo e o novo” (GOMES, 2000:30). Conforme o autor observa, o novo será valorizado como superior somente na trajetória que busca uma posição adequada, justa e poderosa do ponto de vista da razão, que tem como base os grandes sistemas filosóficos e epistemológicos próprio da modernidade.
O ideal de ruptura com a tradição, posto pela modernidade, revelou uma natureza ambivalente, pois ao tentar destruir a tradição, tirava o sentido e a referência da própria modernidade, uma vez que os ideais modernos só encontram sentido na existência dos ideais tradicionais e de seu rompimento
com eles (RODRIGUES, 1997). Outro problema que Rodrigues aponta, é que o moderno nunca poderá vir a ser tradicional, por isso “todos os projetos modernos sofrem inevitavelmente os efeitos do descontentamento e da consumação do gosto que os gerou” (RODRIGUES, 1997:1). O autor afirma que esse processo tende a dar às obras modernas uma efemeridade ou a defini-las como moda.
Como já vimos anteriormente a proposta de emancipação trazida pela modernidade foi se perdendo ao longo dos três últimos séculos, sendo substituída por modelos padronizados de relações deixando o homem moderno preso à imposição de escolhas alheias ao seu ideal e cada vez mais distante do projeto original (RODRIGUES, 1997).
Na sequência da revisão crítica do processo de modernização, ambas as modalidades da experiência, tanto a tradicional, como a moderna, deixaram de ser vistas como etapas epocais, para passarem a ser encaradas como modalidades distintas da experiência que coexistem num mesmo espaço e numa mesma época (RODRIGUES, 1997:3).
Assim, Rodrigues (1997) considera a importância de conhecer as características dessas duas experiências, tradição e modernidade, o que torna possível compreender a atual relação entre as duas. Na “modalidade tradicional da experiência, o sentido de ser total, una e indivisível, os domínios cognitivo, técnico, ético e estético não são autônomos, mas formam um todo indissociável” (RODRIGUES, 1997:4). Esses domínios permitem a coesão comunitária, por meio de uma sabedoria que torna o indivíduo capaz de falar e agir, definindo assim “o lugar das narrativas míticas na transmissão predominantemente oral da sabedoria tradicional” (RODRIGUES, 1997:4).
Por outro lado, no que se refere às modalidades modernas da experiência, termo usado por Rodrigues (1997), este autor considera que seu ideal é encontrado nas diferentes épocas e culturas, com explícitas manifestações nas diferentes sociedades desde a revolução neolítica “mas é o pensamento racional na antiga Grécia, a partir do século VIII a. C. que marca a viragem moderna ocidental, com o surgimento de um ideal de indagação da
verdade independente das visões míticas herdadas da tradição” (RODRIGUES, 1997:6).
Da manifestação dessa experiência da modernidade decorre uma automatização das diferentes dimensões da realidade, que desfaz “o todo, uno e indiviso, o mundo objetiva-se, no sentido etimológico do tempo” (RODRIGUES, 1997:6). Essa automatização origina-se da racionalidade de como a ciência passou a ser pensada e na relação com a “sabedoria ancestral de natureza mítica, o saber técnico instrumental e as normas estéticas de sua representação” (ibdem).
Para Giddens (1997) a modernidade impõe uma nova ordem nas instituições, quando a vida social é completamente alterada pelo entrelaçamento da individualidade com as influências da globalização, que resulta na mudança de valores culturais. Segundo o autor, para se compreender a vida na modernidade nesse contexto, tem-se que considerar duas questões: o que é a tradição e quais as características de uma “sociedade tradicional” (GIDDENS, 1997: 80).
A ordem social pré-moderna é mantida pela tradição. Esta tem relação intrínseca com o passado, com o presente e a organização do futuro que está envolvida com o controle do tempo e do espaço. E tendo a tradição o elemento da repetição que vai do passado ao futuro, aproximando um do outro em suas práticas, pode-se considerar um tempo contínuo e um espaço que é central para isso (GIDDENS, 1997).
O autor fala da Importância de perceber que mesmo a tradição estando em constante mudança há uma persistência de suas peculiaridades, a mudança não é mecânica nem é ruptura. As tradições têm uma organicidade em seu “desenvolvimento e maturidade, ou enfraquecem e ‘morrem’. A integridade e autenticidade de uma tradição é importante para defini-la como tal” (GIDDENS, 1997:81). São elementos relevantes da tradição: a memória coletiva, o ritual e a verdade formular. Esses três fatores garantem uma combinação que favorecem a solidariedade social.
Nessa direção, Rodrigues (1997) aborda a língua materna enquanto elemento importante da tradição, pois é dela que partem os modelos estruturantes da identidade individual e coletiva, que assegura a coesão da
cultura a qual o indivíduo ou grupo pertence. Relacionado à língua materna é competência dos mais velhos a transmissão da sabedoria de maneira a assegurar a continuidade ininterrupta às novas gerações, o que permite a manutenção da identidade e a força de união individual e coletiva da comunidade. A língua materna permite a aprendizagem da tradição onde é possível a distinção e associação de objetos do próprio mundo e do mundo de outros.
Este processo de transmissão é feito em momentos privilegiados, mas alimenta-se no discurso da própria vida quotidiana [...] mais do que a transmissão explícita de conhecimentos ou de saberes formais, discursivamente formulados, a tradição é uma sabedoria que se transmite implicitamente, através da observação e da imitação de posturas, de atitudes, das regras (RODRIGUES, 1997:5).
Giddens (1997) destaca como fundamental da tradição enquanto agente agregador a verdade formular e o guardião ou guardiães: “sejam eles idosos, curandeiros ou funcionários religiosos, têm muita importância dentro da tradição, são agentes ou mediadores essenciais de seus poderes causais” (GIDDENS, 1997:83).
Por sua vez a verdade formular “a que algumas pessoas têm pleno acesso” (p.83) é a linguagem ritual. “O idioma ritual é um mecanismo de verdade em razão de sua natureza formular [...] é aquela da qual não faz sentido discordar nem contradizer e por isso contém um meio poderoso de redução de dissensão” (GIDDENS, 1997: 83). Assim, a verdade formular abordada por Giddens (1997) estabelece uma relação específica com “aquilo que [por ser] verdadeiro, é simultaneamente belo e bom” (RODRIGUES, 1997:4).
O papel dominante de uma sociedade é constituído pela tradição, esta “representa não apenas o que ‘é’ feito com uma sociedade, mas o que ‘deve ser’ feito [...] o caráter moral da tradição apresenta uma medida da segurança ontológica para os que aderem a ela.” (GIDDENS, 1997:84).
Já segundo Refestin (1993) a tradição está sempre enraizada nos contextos da origem ou dos locais centrais. O território tem implicações marcantes com a tradição, resultante de práticas sociais concretas e abstratas que se apropriam de um espaço, tanto físico como simbólico, numa construção social.
No que se refere à implicação da modernidade na tradição, Giddens (1997) aponta duas direções de transformação que são: “[...] a difusão extensiva das instituições modernas, universalizadas por meio dos processos de globalização e os processos de mudança intencional, que podem ser conectados à radicalização da modernidade” (p.74). Essas duas proposições, na visão do autor, causam “Abandono, desincorporação e problematização da tradição” (GIDDENS, 1997:74), porque são mudanças impostas à decisão individual. O consumo, por exemplo, a escolha do que se veste ou do que se come é definida planetariamente, alheia à vontade de indivíduos que se encontram distante do centro de decisão.
No entanto, Giddens (1997) considera que existe a possibilidade de enxergar uma “democracia dialógica estendendo-se desde uma ‘democracia das emoções’ na vida pessoal até os limites externos da ordem globalizada, [uma] oportunidade de se desenvolver formas autênticas de vida humana” (GIDDENS, 2007:131). Isso é possível a partir do questionamento sobre o poder hegemônico da modernidade ter conseguido, de fato, se impor de forma completa e absoluta em todas as partes do planeta. Sabemos que não foi isso o que aconteceu, pois apesar da força dos processos modernizantes as coesões de acomodação, adaptação parcial ou de resistência acabaram criando nichos de diferentes contrastes entre a tradição e a modernidade.
Compreender esses matizes, hoje, deve ser o primeiro passo para redirecionar as políticas públicas para povos em que tradição e território ainda são repletos de verdade formular.
O questionamento da proposta da modernidade abordado neste capítulo é necessário face às contradições que ela apresentou ao longo da história e dos resultados observados na contemporaneidade. Refletir sobre os seus impactos serve para avaliar os erros e os acertos, a importância da razão, da ciência, da expectativa de liberdade e justiça, da promessa emancipatória, e
perceber que são projetos ainda em curso, possíveis de redirecionamento, e que a academia tem um papel importante junto à sociedade nesse ambicioso projeto.
CAPÍTULO 2. AS FACES DA MODERNIDADE NO BRASIL E OS IMPACTOS