CAPÍTULO 2 – REVISÃO DA LITERATURA
2.5 Tribunal de Contas
O Tribunal de Contas31, enquanto órgão supremo de fiscalização e controlo da atividade financeira pública (Guilherme d`Oliveira Martins32, 2007), tem realizado nos últimos anos vários relatórios de auditoria a empreendimentos públicos, por gestão direta do Estado, alguns deles abordados neste trabalho, cujas conclusões e recomendações têm sido divulgadas nos principais órgãos de comunicação social e que constam no portal do TdC. Segundo o Presidente do TdC, com este trabalho realizado pode verificar-se, assim, como o Tribunal de
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O Tribunal de Contas é um «órgão de soberania, tribunal único e supremo na sua ordem/categoria, constituindo, em síntese, o órgão supremo de controlo externo e independente da atividade financeira, nos domínios das receitas, das despesas e do património públicos, podendo, complementarmente, julgar a responsabilidade financeira (Tavares, 2006).
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Contas é valioso e essencial para compreender a realidade nacional em termos de práticas que originaram enormes desvios dos custos e prazos nos empreendimentos públicos, realizados nos últimos vinte anos em Portugal. Dessas más práticas, resultaram, como constatado, acréscimos de custos em obras públicas e situações de ilegalidade, negligência e desperdício dos dinheiros públicos que, segundo Guilherme d`Oliveira Martins, se impõe prevenir e contrariar.
Segundo Tavares33 (2006) “recomendação do TdC é um ato de um órgão público (neste caso do Tribunal de Contas), no exercício dos seus poderes legais de controlo da legalidade, da regularidade e da gestão financeira, em que, verificadas determinadas situações, indica/aconselha/apela/exorta os órgãos controlados a seguir determinado caminho em ordem a suprir ou corrigir as mesmas ou evitar a sua ocorrência futura”. Para Martins (2006), “teologicamente, as recomendações do TdC existem para garantir, assegurar e contribuir para o melhor exercício possível da atividade administrativa e financeira pública. Nessa medida, desempenham também uma importante função pedagógica e de escrutínio das contas e dos projetos de investimento público”.
Em termos técnicos, as auditorias do TdC visam, assim, identificar e analisar as componentes que integram os contratos/projetos, face à eficiência da gestão, conformidade legal e regulamentar, não visam apurar responsabilidades, essa competência como referido anteriormente pertence aos Tribunais competentes, incluindo o TdC na sua Câmara Jurisdicional. As auditorias avaliam também os procedimentos de controlo interno das empresas/instituições públicas, e a sua compatibilidade com as práticas de boa gestão dos dinheiros públicos.
Em entrevista ao “Diário Económico” (13 de Agosto de 2013), o Presidente do TdC quando questionado sobre se há poder para responsabilizar os gestores públicos por práticas de má gestão dos dinheiros públicos, respondeu que quem demanda não é o TdC. Este Tribunal não pode requerer julgamento, poder que pertence ao Ministério Público (MP) que está junto ao TdC e que participa em todas as Seções e em todas as iniciativas. Não há decisões do TdC que não sejam tomadas na presença do MP, com a sua competência constitucional. A lei hoje prevê que o MP possa requerer a responsabilização dos gestores públicos com base em
33 José Tavares, Diretor Geral e Juiz Conselheiro do TC sendo também, por inerência, Secretário-Geral do
relatórios do TdC, quer com base em relatórios de instituições de controlo interno. O cumprimento oportuno das recomendações do TdC também tem ajudado a mitigar os impactos técnicos negativos da construção de obras públicas. Segundo o Presidente do TdC, as recomendações, nos últimos dois exercícios completos, chegaram a 80% de cumprimento. As recomendações quando não são cumpridas têm de ser justificadas e são sancionadas através de multas que funcionam, segundo o Presidente do TdC, como poderosos dissuasores, visto que um responsável sabe que a sua carreira profissional fica fortemente afetada se for sancionado pelo TdC.
Resumidamente, o TdC têm três competências diferentes: a fiscalização prévia, a auditoria, onde se apreciam critérios de economia, economicidade e de eficiência, e o julgamento da responsabilidade financeira.
Dever de Accountability (dever de responsabilização)
Accountability é um termo de origem anglo-saxónica e está relacionado com as finanças públicas. Não tendo tradução direta para a língua portuguesa pode, segundo Moreno (2010), aproximar-se da palavra “responsabilização” ou da expressão “prestar contas, explicá-las e assumir as responsabilidades pelos resultados da gestão”.
Para Moreno (2010), accountability significa ainda “…que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como o faz, porque o faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir, assumindo todas as responsabilidades decorrentes do seu agir e dos respetivos resultados”. A obrigação de prestação de contas é ainda maior quando a função é pública, ou seja, quando se trata do desempenho de cargos pagos pelo dinheiro dos contribuintes”.
Nesta linha de pensamento, a propósito da crise que Portugal atravessa, o antigo Presidente da República, Jorge Sampaio diz que Portugal precisa de uma cultura de responsabilização, de prestação de contas, de transparência e de boa governação para superar a crise. Jorge Sampaio discursava no dia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, no dia 9 de Outubro de 2013, onde reafirmou que os portugueses são capazes de ultrapassar as dificuldades com que Portugal se confronta, considerando que país tem "tudo para conseguir”.
Sobre aquilo que "falta" para Portugal "conseguir dar o salto para o século XXI", o antigo Presidente da República afirmou que "…as análises e os diagnósticos da crise que Portugal atravessa são conhecidos, vão da economia ao sistema político e partidário". E chamou a atenção para a necessidade de uma mudança de paradigma cultural que está por fazer “ Há uma cultura da responsabilização e da corresponsabilização que nos falta adquirir; há uma cultura de “accountability”, de prestação de contas, de transparência e de boa governação que importa reforçar; há uma cultura de excelência, da autonomia e da iniciativa empreendedora, que nos falta a todos um pouco", enumerou.
Jorge Sampaio apelou para que todos desempenhem o seu papel que permita “incutir na sociedade portuguesa mais estes valores, princípios e critérios de exigência e rigor”.
No capítulo 3 apresentam-se as bases da presente investigação, definindo-se o problema e enumerando-se os objetivos que se pretendem atingir com a apresentação do modelo proposto pelo investigador. Posteriormente apresenta-se a metodologia de investigação para o estudo de caso, que se baseia em métodos qualitativos.