O TRÁFICO DE ESCRAVOS
NÚMERO DE NAVIOS BAIANOS ENVOLVIDOS NO TRÁFICO DA COSTA DA MINA E NO DE ANGOLA (1681-1710)
4.9 UMA HERANÇA POLÍTICA ORIGINADA NAS FÍMBRIAS DA FLORESTA
A população residente nas montanhas e nos vales dos rios situados na região noroeste do território angolano compartilhava a existência de uma herança comum em termos de tradições de governo, que se originara na floresta equatorial, em cujas fímbrias populações esparsas de fazendeiros cultivadores de milho e de mandioca – que se tornaram conhecidos como tekes, tios ou anzicos no sul, mas aos quais, em direção ao norte, eram atribuídos diversos outros etnônimos – tomaram a si a responsabilidade pelo desenvolvimento e colocação em prática de um conjunto de tradições políticas da floresta, que serviu de paradigma para a implantação do sistema político, igualmente centralizado, que passou a ser praticado nas altas planícies recobertas de capim posicionadas ao oeste do médio curso do rio Zaire (MILLER, 1988:30-31). O território tio abrangia toda a chapada existente ao norte do lago Malebo, bem como, rumo ao leste, ocupava as
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A pacaça (em quimbundo, pakassa), cujo nome científico era Syncerus nanus, é uma espécie de búfalo que ainda hoje pode ser encontrada em todo o norte de Angola, estando também presente no sul do Cuanza. Nos distritos do sul de Angola esta espécie de bovídeo é desconhecida, estando lá presentes, todavia, os grandes búfalos pretos, conhecidos também como búfalos do Cabo (Syncerus caffer), cuja presença mais setentrional registrada foi no distrito da Lunda. As pacaças de Angola ainda não foram objeto de um estudo sistemático comparativo. Embora ela seja um animal gregário, nunca vive em grandes manadas, mas sim em grupos com entre dez e vinte animais. Quando ferida e acossada a pacaça, bem como o grande búfalo do Cabo, torna-se um animal muito perigoso
duas margens do Casai. De acordo com a sua tradição tribal, eles sempre moraram ali mesmo, o que era confirmado pelos seus vizinhos, que sempre os consideraram como tendo sido os primeiros habitantes a ocuparem aquele imenso chapadão, que veio a se constituir num importante espaço voltado à produção agrícola. Os tios controlavam o comércio que tinha lugar em torno do lago Malebo, e chegaram a merecer dos portugueses a reputação de serem mais poderosos que o manicongo, do qual foram, em momentos distintos, vassalos e inimigos (SILVA, 1992:484-485).
Às margens da represa natural Malebo, estava posicionada a mais cosmopolita, e provavelmente a mais densa, concentração populacional existente em toda a África central ocidental, no século XVIII. Os únicos outros grupos da África central ocidental que poderiam concorrer com ela, em termos de magnitude, heterogeneidade e concentração demográfica eram os que haviam se estabelecido nas imediações das capitais dos mwaant yaav da Lunda (MILLER, 1988:31-32).
Nei Lopes (1988:116) considera que os lundas têm uma história bastante imbricada com a dos balubas, sendo mesmo, algumas vezes, com eles confundidos. Conforme a tradição, por volta de 1500, um certo número de integrantes da elite dirigente baluba conquistou uma aldeia lunda posicionada ao oeste de Luba Lomani, lá se instalando. Casualmente, pouco antes disso, o chefe local havia entrado em atrito com seus dois filhos e os deserdou, estabelecendo que seria sucedido por uma filha, a qual foi esposada por um príncipe baluba, Muaku, que tornou-se mwata yamwo (mwaant yaav) através do casamento, nascendo, então, o reino dos lundas. Entre os lubas, o mwata yamwo detinha tanto o poder religioso quanto o político administrativo, governando o seu estado, que se constituía num grande centro exportador de escravos, marfim e metais, através de um conselho que era constituído pelos governadores das províncias. Esse estado veio a ocupar, posteriormente, algumas partes da província de Catanga e a região noroeste da Zâmbia, bem como terras situadas no leste de Angola.
O imenso espelho d’água da represa natural de Malebo – que, ao pôr-do-Sol, tinha suas águas tingidas por várias tonalidades de vermelho, rosa, cinzento, alaranjado e amarelo – era o pano de fundo de um cenário através do qual desfilava uma fantástica multidão de pessoas que lá viviam ou por lá transitavam, uma vez que, nos entornos de suas margens, se localizava um
mercado gigantesco para os padrões da África central ocidental, no qual enormes quantidades de mercadorias de toda espécie eram negociadas, como, por exemplo: escravos, roupas, tecidos de ráfia, tecidos europeus e asiáticos, mantimentos, comidas prontas, bebidas alcoólicas, produtos do artesanato local e regional, produtos naturais extraídos da floresta, peixes secos, frutas e outros alimentos de origem vegetal, animais vivos ou abatidos, mel, cera, essências vegetais, temperos, artigos importados dos mais variados tipos e procedências, etc. Diferentemente de seus vizinhos das pradarias, a população local vivia tanto do comércio quanto da produção agrícola. Eles eram conhecidos por um significativo número de designações comunitárias aparentemente semelhantes às usadas nas comunidades agrícolas espalhadas em torno deles, mas suas vinculações por lealdade eram muito menos permanentes, menos influenciadas pelos determinantes de nascimento e de co-residência, e mais condicionadas pelos resultados de associações temporárias de interesses, decorrentes de negócios, do que aquelas que eram mantidas pelos fazendeiros.
Jan Vansina, afirma ter sido da região circunvizinha ao reservatório natural Stanley (lago Malebo) que todos os distintos reinos da região congolesa haviam derivado suas instituições, sendo bastante provável que o conjunto dos estados costeiros tenha usado como paradigma original de sua institucionalização um único estado na mesma área, e que isto tenha ocorrido antes do século XIV (VANSINA, 1975:40).