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2 MÉTODO E INSTRUMENTOS DE PESQUISA

2.5 Validade dos dados

Para Pereira (2004), o dado qualitativo é uma representação simbólica de um evento aparentemente imponderável e normalmente tácito. Assim, sua coleta e tratamento são tarefas que exigem perícia e zelo. O pesquisador deve tomá-lo a partir da fixação de premissas que preservam alto grau de significância com o meio. Dessa forma, a análise do dado qualitativo concederá o aval necessário para a tradução dos eventos mensurados e o entendimento das relações envolvidas.

Independentemente disso, é sempre importante que os instrumentos de uma pesquisa científica sejam expostos a critérios de validação. No caso de pesquisas com abordagem qualitativa, pode-se dizer que esta importância torna-se uma necessidade. Para o método do estudo de caso, Yin (1994) propõe que a cientificidade com relação aos dados seja aceita mediante três atitudes do pesquisador: uso de fontes múltiplas de dados, criação de um banco de dados para cada caso estudado e estabelecimento de uma cadeia de evidências.

O uso de múltiplas fontes de dados possibilita ao pesquisador checar a veracidade das evidências por meio de sua triangulação. Em se tratando de estudo de caso do tipo multicaso, e estando as unidades de análise sob a mesma investigação, a utilização de fontes múltiplas é um conceito preexistente. É essencial, entretanto, que elas sejam apropriadamente selecionadas (VOSS, TSIKRIKTSIS & FROHLICH, 2002).

O banco de dados sobre o caso estudado é composto não somente pelos dados coletados, como orienta Rowley (2002), mas também pelos relatórios de análises, notas, entrevistas, transcrições e outros documentos que pautaram as considerações conclusivas do estudo. Em atenção a isso, parte importante do material dessa natureza efetivamente utilizado foi formatada para compor os anexos da tese. Juntamente com os instrumentos de coleta de dados aplicados.

2.6 Amostragem

Para a composição da amostra, inicialmente tomou-se um universo formado pelos agentes dos macrossegmentos de produção e de industrialização da cadeia produtiva do café. O macrossegmento de produção é composto por pequenas propriedades de produção familiar, que atuam individualmente ou sob a tutela de cooperativas, e pelas empresas rurais. Como o primeiro grupo de agentes constitui ampla maioria neste macrossegmento, revelou-se adequado reduzir a população às cooperativas de cafeicultores, que são instituições com representatividade sobre os pequenos produtores, exercem papel de liderança no grupo e são formadoras de opinião.

O macrossegmento de industrialização é composto, principalmente, pelas empresas de torrefação e moagem. Muitas cooperativas de cafeicultores do país, originalmente constituídas para gerenciarem funções produtivas e de beneficiamento do produto, estabeleceram estratégias de verticalização e de agregação de valor ao produto e já atuam em ambos os macrossegmentos. Parte da produção que beneficiam passou a ser processada por elas mesmas, em torrefadoras próprias. O produto chega ao mercado também com marca própria. Deste modo, a população amostral final ficou composta pelas grandes cooperativas de cafeicultores que operam simultaneamente nos macrossegmentos de produção e de industrialização.

É pressuposto da pesquisa que o problema investigado não distingue o produto pela espécie, atingindo tanto os produtores de café arábica, como os de café conilon. Como demonstrado adiante (Seção 5.2.1, Tabela 5.1), as produções mais representativas de café arábica pertencem a Minas Gerais (68,0%) e São Paulo (9,7%), enquanto as produções mais representativas de café conilon pertencem a Espírito Santo (75,2%) e Rondônia (12,6%).

Com base nestes dados, definiu-se uma amostra não probabilística, por intencionalidade, formada por cinco grandes cooperativas localizadas nas principais regiões cafeeiras dos estados mencionados. A sede e a área de atuação de cada uma delas encontram-se nas seguintes localidades:

 Região de Guaxupé/MG;  Região de Patrocínio/MG;  Região de Franca/SP;

 Região de São Gabriel da Palha/ES;  Região de Ji-Paraná/RO;

As cooperativas da amostra serão referenciadas como Coop-A, Coop-B, Coop-C, Coop-D e Coop-E. No rol de atividades dessas cooperativas constam, além da assistência à produção, o recebimento, transporte, armazenamento, beneficiamento, padronização, classificação, industrialização e comercialização do café nos mercados interno e externo. As cooperativas situam-se, em cada caso, num importante cinturão produtivo de seus estados, cuja representatividade no cenário nacional pode ser constatada na Tabela 2.1.

Tabela 2.1 – Participação das regiões das cooperativas da amostra na produção nacional de café,

em 2010.

Cooperativa

Municípios produtores na região

Produção regional (ton) produção nacional Participação na

Arábica Conilon Arábica Conilon

Coop-A 187 776.064 - 34,9 % - Coop-B 50 333.834 - 15,0 % - Coop-C 35 99.877 - 4,5 % - Coop-D 32 - 370.182 - 54,4 % Coop-E 52 - 141.160 - 20,7 % Total 356 1.209.775 511.342 54,4% 75,1%

Fonte: Elaborada a partir de Conab (2012) e IBGE (2012).

As regiões abordadas são responsáveis por 54,4% da produção nacional de café arábica e 75,1% da produção de café conilon. Diante da expressividade desses dados, entende-se que há suporte quanto à relevância da amostra. A regionalidade dada na tabela segue a divisão considerada pelo setor e pela Conab: Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Alta Mogiana, Norte do Espírito Santo e Rondônia, respectivamente.

Para cada cooperativa definiu-se a realização de duas entrevistas: uma em sua sede, com um profissional do setor de classificação dos lotes recebidos; e outra em sua torrefadora vinculada, sendo própria ou terceirizada, com um profissional responsável pela gestão da qualidade na produção (ou cargo com função próxima).

Em uma das cooperativas, porém, a informação de que ela possuía torrefadora própria revelou-se equivocada. Em virtude da importância dessa cooperativa no setor nacionalmente, inclusive como referência de preço, optou-se por não descarta-la da amostra. Mantendo a coerência com os outros quatro casos, onde a firma do setor de industrialização entrevistada tinha a própria cooperativa como fornecedora, tomou-se uma de suas torrefadoras clientes, observando aquelas com maior número de transações anuais, como elemento da amostra.

O contato com o setor de industrialização visava, principalmente, checar os atributos de qualidade requeridos para o café beneficiado e se o sistema de pagamento adotado pela cooperativa, a seus fornecedores, irradiava-se a seus clientes. Assim, entendeu-se que tal procedimento não acarretou em qualquer descaracterização da fonte de dados.

Junto ao setor de recebimento e classificação, foram observados os procedimentos com relação ao produto beneficiado destinado ao mercado aberto, seja interno ou externo, e também ao produto destinado ao mercado de cafés especiais. Cada cooperativa integra o setor em uma região onde pelo menos um programa de diferenciação do produto, para acesso ao mercado de cafés especiais, está em andamento. Antes da etapa de campo havia indícios de que o pagamento ao cooperado pudesse ser orientado de forma distinta, no caso de produtos direcionados a um mercado ou a outro. Por isso a observação desses programas parecia interessante ao estudo.

Uma etapa complementar da pesquisa foi desenvolvida durante um intercâmbio acadêmico, de curta duração, junto ao Institut für Betriebslehre der Agrar- und Ernährungswirtschaft, da Justus-Liebig-Universität Gießen, na cidade de Gießen, Alemanha. Na ocasião, aproveitou-se a oportunidade para desenvolver um instrumento de pesquisa, de mesma natureza que o aplicado no Brasil, para colher dados primários junto a traders alemães importadores do café brasileiro. Optou-se por empregar também a mesma técnica de pesquisa, a entrevista.

Os objetivos nas entrevistas foram basicamente os mesmos que os da investigação junto ao setor de industrialização no Brasil. Entretanto, devido ao posicionamento estratégico desses agentes, entre os setores de produção e de industrialização e, mais ainda, em um trecho internacionalizado da cadeia produtiva, os dados não apenas complementaram a pesquisa, mas a enriqueceram de forma singular. Pôde-se conceder uma nova dimensão à análise dos resultados mediante a observação da lógica e da dinâmica comercial da cadeia, em contexto globalizado.

Devido ao curto tempo disponível naquele país, a amostra foi composta por intencionalidade com três elementos com destacada presença de mercado. Tanto a amostragem, como a elaboração do instrumento de coleta de dados, foram realizadas sob a tutoria e colaboração do Prof. Dr. Rainer Kühl, coordenador do departamento local responsável pelas linhas de pesquisa em gestão agroindustrial (Betriebslehre der Ernährungswirtschaft). Duas empresas foram selecionadas na cidade de Hamburgo e uma na cidade de Bremen.

As amostras não aleatórias possuem a limitação de, a princípio, não se oferecerem a tratamentos estatísticos, como alertam Marconi e Lakatos (2008). Além disso, as amostras intencionais geralmente concedem menos credibilidade com relação à representatividade do universo amostral, devido ao risco da opinião dos entrevistados não ser, necessariamente, um reflexo da opinião dos demais membros do grupo. Entretanto, a opção em não utilizar amostra aleatória, neste caso, se justifica pela intenção em investigar as entidades de maior porte, pois elas representam um número maior de cafeicultores e detêm mais recursos de poder financeiro, organizacional, político e tecnológico na cadeia produtiva.

Na impossibilidade de relatar diretamente a opinião de uma amostra significativa de cafeicultores, já que se trata de um universo imenso, este estudo focou as entidades que melhor projetam o setor nos grandes estados produtores e que concentram um número expressivo de produtores. Os critérios da seleção da amostra, portanto, seguiram uma estratégia baseada nas necessidades da pesquisa. A pertinência da intencionalidade na amostra pode ser vista, por exemplo, em Kish (1976), Cooper e Schindler (2003), Marshall e Rossman (2006) e Cohen, Manion e Morrison (2007).