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2.3.2) Entrevistas semiestruturadas

No documento Tribuna ao vivo (páginas 92-97)

Entre novembro de 2014 e maio de 2016, foram realizadas 32 entrevistas para esta tese, totalizando 17 horas de material. Foram feitas 28 entrevistas com deputados, em duas rodadas, e quatro com servidores da ALMG57, todas semiestruturadas, individuais, conduzidas pessoalmente, gravadas e posteriormente transcritas.

Entrevistas são uma excelente forma de estudar elites políticas e suas percepções sobre os acontecimentos (PEABODY et al., 1990, p. 454), pois geram informações mais ricas, nuançadas, espontâneas e profundas do que datasets quantitativos (MUNCK, 2004, p. 109 e p.

116). Tais informações muitas vezes são inéditas e não estão disponíveis em fontes secundárias (RIVERA et al., 2002, p. 683; RATHBUN, 2008, p. 688). As entrevistas são centrais, portanto, quando o fenômeno em estudo é relativamente recente e não há fontes alternativas confiáveis para julgar a motivação dos atores envolvidos (RATHBUN, 2008, p.

692) – como considero que é o caso das transmissões ao vivo do Plenário.

Entrevistas são especialmente úteis se o objetivo é entender como as elites dão sentido à política, como interpretam eventos, ações, planos, obstáculos e alternativas (ABERBACH e ROCKMAN, 2002, p. 673; RHODES et al., 2007, p. 6; GERRING, 2007a, p. 70). Muitas vezes, são a melhor ferramenta para estabelecer como fatores subjetivos influenciam o processo de tomada de decisão política, as motivações e preferências daqueles envolvidos e o papel da agência nos eventos de interesse (RATHBUN, 2008, p. 686). No caso desta tese, as entrevistas ajudam a compreender como cada deputado se relaciona com a tribuna e com a visibilidade midiática via TV legislativa. Uma interpretação multifacetada dos eventos e

capítulo 6, em que discuto as conexões entre representantes e representados (em especial, a questão geográfica é abordada no tópico 6.3.1).

57 Foram feitas, também, duas entrevistas “extras”, com servidores de outras emissoras legislativas: Alberto de la Peña, coordenador de Programação da TV Senado, e Adriana Marcondes, diretora da TV Câmara. Apesar de não se relacionarem diretamente ao estudo de caso feito nesta tese, estas entrevistas contribuem para a contextualização e compreensão do fenômeno de forma ampla.

comportamentos surgiu da sobreposição dos relatos de cada deputado a respeito de sua experiência individual.

Optei por entrevistas semiestruturadas, pois elas oferecem: mais oportunidades de sondagem em um fluxo de conversa não linear (ABERBACH e ROCKMAN, 2002, p. 674);

profundidade das respostas e liberdade para que o entrevistado aponte o que é importante (PEABODY et al., 1990, p. 452; BERRY, 2002, p. 681), levante questões e preocupações em suas próprias palavras, a partir de suas perspectivas, definições e molduras de interpretação (BRINKMANN, 2014, p. 285; HERZOG e ALI, 2015, p. 46); a possibilidade de criar questões adicionais durante o encontro, para aprofundar tópicos ou perseguir rumos inesperados (BERRY, 2002, p. 681).

Como se pode ver no questionário modelo ao fim desta tese (Apêndice 4) 58, todas as perguntas foram abertas. Este tipo de pergunta é recomendado no caso de pesquisas exploratórias e em profundidade e para o estudo de elites, que, em geral, não gostam da camisa de força das questões fechadas (ABERBACH e ROCKMAN, 2002, p. 674). O objetivo das perguntas foi oferecer aos entrevistados uma oportunidade de refletir sobre suas experiências e contemplar o significado mais amplo de suas ações (RATHBUN, 2008, p. 692).

As entrevistas cumpriram um papel fundamental no desenho de pesquisa desta tese, pois contribuíram para desvendar a forma como os deputados entendem o papel da atuação em Plenário e as mudanças, oportunidades e dificuldades trazidas pela transmissão ao vivo de suas ações, adaptando-se a elas de forma consciente, ativa e estratégica.

Como apontam Sharon Rivera e colaboradores (2002, p. 683), a seleção de um desenho de amostragem59 apropriado é crucial para a condução de entrevistas, pois afeta o tipo de conclusões que podem ser alcançadas durante a análise dos dados. O procedimento deve ser sistemático, replicável e explícito (HERZOG e ALI, 2015, p. 42), justificando-se a seleção que é base de investigação.

Foram entrevistados 25 parlamentares60, em duas rodadas de encontros, sendo que os deputados João Leite (PSDB), Rogério Correia (PT) e Sargento Rodrigues (PDT)

58 Em entrevistas semiestruturadas, o questionário é vital: ele mantém o pesquisador no rumo pretendido, cumpre os requisitos dos comitês de ética em pesquisa, permite refletir sobre o processo, ajuda a decidir a melhor forma e momento de fazer perguntas delicadas (HERZOG e ALI, 2015, p. 46). Porém, deve ser suficientemente maleável para se adequar a cada entrevistado e encontro específico, mantendo uma característica mais coloquial e orgânica. Portanto, o questionário base apresentado ao Comitê de Ética em Pesquisa (Coep) da UFMG foi levemente adaptado para cada deputado, de acordo com os cargos ocupados e a trajetória pessoal.

59 O método de escolha não se baseou em amostragem estatística aleatória e representativa. Portanto, não permite

“descrever conclusivamente a distribuição de opiniões” (BAUER e AARTS, 2002, p. 58) ou fazer inferências sobre uma população mais ampla. (ABERBACH e ROCKMAN, 2002, p. 673).

60 Diversos autores alertam para as dificuldades de acesso quando entrevistamos elites políticas, o que leva a certo nível de fracasso nas tentativas de agendamento (ABERBACH e ROCKMAN, 2002, p. 673;

participaram de ambas. Na primeira, relativa aos dados colhidos em 2014, os parlamentares foram selecionados da seguinte forma: os dois deputados da oposição e os dois da situação que fizeram o maior número de pronunciamentos em Plenário (categoria “Destaque”); os líderes dos blocos de situação e de oposição; os presidentes das duas comissões mais ativas;

um deputado da situação e um da oposição que não fizeram pronunciamentos em Plenário no período (categoria “Ausente”). Durante a defesa do projeto, a banca apontou que havia uma falha neste procedimento de escolha, que não contemplava os deputados com valores intermediários de pronunciamentos. Assim, para a rodada de entrevistas baseada nos dados colhidos em 2015, foram mantidas as categorias anteriores e acrescentadas “Média” e “Moda”, cada uma com um deputado da oposição e outro da situação. Foram entrevistadas também duas mulheres, sendo uma de cada grupo, e dois deputados “Extras” (o autor do requerimento que criou a TV Assembleia, Alencar da Silveira Jr., e o 1º vice-presidente da ALMG, Hely Tarqüínio, responsável pela condução da maior parte das reuniões de Plenário). Na categoria

“Destaque”, em 2015 a seleção contemplou deputados veteranos e também novatos, que estavam exercendo seu primeiro mandato na ALMG. Ao completar as entrevistas planejadas, considerei que os objetivos propostos tinham sido alcançados e que não era necessário ampliar a amostra. Isso porque os relatos coletados apresentam uma “variedade saturada”, como preconizam Martin Bauer e Bas Aarts (2002, p. 59):

Aqui a lei da diminuição de retornos pode ser aplicada: acrescentar mais estratos pode fazer apenas uma pequena diferença com respeito a representações adicionais.

Quando isso acontece, o corpus está saturado. (...) a seleção para pesquisa qualitativa é um processo cíclico, e um processo cíclico requer um critério para finalizar, senão o projeto de pesquisa não teria fim. Saturação é o critério de finalização: investigam-se diferentes representações, apenas até que a inclusão de novos estratos não acrescente mais nada de novo.

Com relação aos servidores, a proposta foi entrevistar aqueles diretamente relacionados à direção da TV Assembleia de Minas e à transmissão diária ao vivo das reuniões, para

GOLDSTEIN, 2002, p. 671; PEABODY et al., 1990, p. 453; RATHBUN, 2008, p. 685; RIVERA et al., 2002, p.

684; RHODES et al., 2007, p. 214). Realmente, o processo de agendamento demandou paciência, tempo e persistência, frente a agendas ocupadas, cancelamentos de última hora e algumas recusas definitivas. No caso das recusas, os deputados inicialmente contatados foram substituídos por outros com características similares nos quesitos de interesse para a seleção (por exemplo, número de pronunciamentos e posição frente ao governo).

Essas alterações no conjunto inicialmente previsto de entrevistados são comuns, relacionadas ao caráter dinâmico e por vezes imprevisível do trabalho de campo (HERZOG e ALI, 2015, p. 43). Como aponta Kenneth Goldstein (2002, p. 669), as consequências de não conseguir todas as entrevistas inicialmente previstas são menos severas quando o estudo não tem o objetivo de fazer generalizações para toda a população de legisladores. Ele alerta, ainda, para a possibilidade de que um erro sistemático seja introduzido nos dados caso o pesquisador só tenha acesso a certos tipos de entrevistados. Considero que este não foi o caso aqui, pois as substituições seguiram parâmetros claros e sistemáticos e todas as categorias de entrevistados foram contempladas. Goldstein (2002, p. 672) frisa que, se os diferentes lados e tipos de organização foram ouvidos, o conjunto de informações coletadas possivelmente não é enviesado ou desequilibrado.

identificar os critérios e definições que pautam as transmissões e as pressões a que estão expostos. As listas com todos os entrevistados seguem abaixo:

Quadro 2 – Entrevistas realizadas

Deputados – 1ª rodada

Deputado Partido61 Posição Categoria Data Duração

Rogério Correia PT Oposição (17ª Leg.) Destaque 14/11/14 33 min.

Paulo Guedes PT Oposição (17ª Leg.) Destaque 12/11/14 21 min.

Mário Henrique Caixa PCdoB Outros (17ª Leg.) Ausente 18/11/14 33 min.

Pompílio Canavez PT Oposição (17ª Leg.) Líder 3/12/14 29 min.

Durval Ângelo PT Oposição (17ª Leg.) Comissões 11/12/14 30 min.

Sargento Rodrigues PDT Base (17ª Leg.) Destaque 20/11/14 46 min.

Duarte Bechir PSD Base (17ª Leg.) Destaque 6/4/15 48 min.

Anselmo José Domingos PTC Base (17ª Leg.) Ausente 12/3/15 39 min.

Lafayette de Andrada PSDB Base (17ª Leg.) Líder 10/11/14 38 min.

João Leite PSDB Base (17ª Leg.) Comissões 7/11/14 32 min.

Deputados – 2ª rodada

Deputado Partido Posição Categoria Data Duração

João Leite PSDB Oposição (18ª Leg.) Destaque (veterano) 22/2/16 35 min.

Felipe Attiê PP Oposição (18ª Leg.) Destaque (novato) 23/2/16 29 min.

Dilzon Melo PTB Oposição (18ª Leg.) Média 29/3/16 34 min.

Missionário Márcio Santiago PTB Oposição (18ª Leg.) Moda 5/5/16 23 min.

Luiz Humberto Carneiro PSDB Oposição (18ª Leg.) Ausente 27/4/16 38 min.

Gustavo Corrêa DEM Oposição (18ª Leg.) Líder 5/4/16 27 min.

Sargento Rodrigues PDT Oposição (18ª Leg.) Comissões 14/3/16 34 min.

Ione Pinheiro DEM Oposição (18ª Leg.) Mulher 19/4/16 30 min.

Rogério Correia PT Base (18ª Leg.) Destaque (veterano) 5/4/16 15 min.

Léo Portela PR Base (18ª Leg.) Destaque (novato) 26/2/16 18 min.

Paulo Lamac PT Base (18ª Leg.) Média 9/3/16 25 min.

Deiró Marra PR Base (18ª Leg.) Moda 4/5/16 23 min.

Inácio Franco PV Base (18ª Leg.) Ausente 1/3/16 24 min.

Agostinho Patrus Filho PV Base (18ª Leg.) Líder 27/4/16 40 min.

Fred Costa PEN Base (18ª Leg.) Comissões 3/5/16 43 min.

Rosângela Reis PROS Base (18ª Leg.) Mulher 19/4/16 36 min.

Alencar da Silveira Jr. PDT Oposição (18ª Leg.) Extra 14/11/15 31 min.

Hely Tarqüínio PV Base (18ª Leg.) Extra 12/4/16 50 min.

61 Para todos os parlamentares citados ao longo deste trabalho, a vinculação partidária, os cargos ocupados e a própria condição de deputado estadual no exercício efetivo do mandato correspondem à situação no dia em que a entrevista foi concedida. Tal advertência é necessária tendo em vista possíveis mudanças de status desde então, pois mais de três anos separam a realização das primeiras entrevistas da apresentação desta tese. O mesmo vale para os cargos dos servidores entrevistados.

Servidores

Servidor Cargo Data Duração

Rodrigo Lucena Diretor-geral / TV Assembleia MG 4/5/15 47 min.

Fernanda Avelar Gerente de reportagem / TV Assembleia MG 17/4/15 41 min.

Roberta Vieira Diretora de transmissão ao vivo / TV Assembleia MG 4/5/15 15 min.

Cláudio Maciel Diretor de imagens / TV Assembleia MG 16/4/15 15 min.

Todos os participantes concordaram com a divulgação de seus nomes e dados junto às respostas62. Alguns autores sugerem que a garantia de anonimato deixa os entrevistados mais à vontade (RIVERA et al., 2002, p. 686) e reduz os riscos de que sejam prejudicados pela participação (STAKE, 2005, p. 459), especialmente quando se trata de assuntos sensíveis (PEABODY et al., 1990, p. 454). Porém, no caso desta pesquisa, considero que os possíveis riscos para os entrevistados são poucos e improváveis. A possibilidade de que deputados não se sintam confortáveis com a forma como foram retratados é atenuada pelo fato de que são figuras públicas, acostumadas a dar declarações e ler sobre si mesmos na mídia e em trabalhos acadêmicos. Portanto, esta pesquisa faz parte de um conjunto bem mais amplo e diversificado de interpretações sobre o parlamento mineiro e a atuação de seus membros, diluindo possíveis efeitos negativos63.

Justamente por serem figuras públicas, os políticos podem adotar uma atitude defensiva durante as entrevistas, para tentar preservar suas imagens e justificar suas ações. Para minimizar esse problema, é necessário identificar o gerenciamento de imagem pública feitos pelos políticos (RHODES et al., 2007, p. 221) e suas tentativas de reconstrução estratégica dos relatos (RATHBUN, 2008, p. 689), além de ouvir múltiplas fontes (BERRY, 2002, p.

680). A triangulação utiliza múltiplas percepções, fontes de informação e métodos para esclarecer os sentidos e identificar diferentes pontos de vista (STAKE, 2005, p. 454). O procedimento é vital para reconhecer a subjetividade inerente aos testemunhos, garantir um entendimento aprofundado (HERZOG e ALI, 2015, p. 47), pesar evidências conflitantes e buscar a melhor interpretação possível apoiada pelas evidências (RATHBUN, 2008, p. 692).

62 A opção por identificar os entrevistados foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG, como atesta o parecer 1.114.342, de 18/6/15. Os entrevistados foram informados sobre esta característica da pesquisa verbalmente e através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice 5).

63 A opção por não preservar o anonimato dos servidores foi feita de forma quase “automática”, seguindo a decisão de identificar os parlamentares. Durante a banca de qualificação desta tese, porém, fui alertada para as diferentes implicações desta identificação, tendo em vista a posição de subordinação dos mesmos aos parlamentares. Devo confessar que o status fundamentalmente diferente de ambos os grupos não foi levado em conta quando optei pela identificação dos servidores e pode ter suscitado depoimentos mais “contidos”, visando evitar exposição excessiva, crítica aos parlamentares ou possíveis retaliações. Durante a qualificação, porém, prevaleceu a percepção de que não seria necessário refazer as entrevistas com servidores, mas apenas ter essas considerações em mente no momento de interpretar suas respostas.

No documento Tribuna ao vivo (páginas 92-97)