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5.3.2) A derrubada da quarta parede

No documento Tribuna ao vivo (páginas 192-196)

A reunião está suspensa para alguns entendimentos. Os acordos, daqui para a frente, sob a minha presidência, vão ser feitos por escrito. (...) Não houve acordo para dois artigos 70. Você já havia usado seu tempo para falar da tribuna. O tempo era outro.

(...) Daqui para a frente, qualquer acordo terá de ser feito por escrito, senão vou suspender a reunião toda hora (deputado Hely Tarqüínio / PV, Plenário, 24/3/15).

A “suspensão para entendimentos” é um momento em que os parceiros interrompem a encenação para “afinar o script”, aparar arestas, definir os próximos passos. A transmissão ao vivo é interrompida nesses momentos e os acordos são selados “fora da cena”. Cria-se, assim, um intervalo de privacidade dentro da reunião pública e midiatizada, em que os parlamentares conversam de forma espontânea, negociam, decidem como prosseguir: quando são questões mais simples, eles permanecem no Plenário, mas não há transmissão pela TV, captação e amplificação de áudio pelos microfones, nem registro taquigráfico; em casos mais complexos, eles se deslocam para outros espaços, mais reservados. Quando as reuniões são retomadas, os deputados continuam com os pronunciamentos ou votações. Ou seja, a construção do entendimento raramente é feita diante das câmeras, o que vemos é uma encenação ou publicização do que foi decidido. Quando uma das partes descumpre unilateralmente o acordo, pode sofrer críticas e sanções dos parceiros de encenação (e rivais em termos políticos).

Agora, se aqueles que são líderes de governo querem realmente votar as matérias que são de interesse do governo, creio que devem ter um tratamento mais equilibrado, mais respeitoso com aqueles que estão na tribuna. Senão, não há deputado do PMDB, do PV e de qualquer outro partido que consiga costurar acordo desse jeito. Se os próprios líderes melam os acordos, partindo para o ataque, fica difícil. (...). O deputado da base vota, depois vem aqui e declara voto. Fala dos louros, fala dos ganhos. É isso que os deputados têm de fazer. Mas não aprenderam ainda, vai demorar um pouquinho para aprenderem (deputado Sargento Rodrigues / PDT, Plenário, 30/6/15).

Essas explicações sobre os acordos e o papel de cada grupo, muitas vezes bastante didáticas, são voltadas aos parceiros de encenação (deixando claro que algumas ações fogem do script, são consideradas inaceitáveis e passíveis de retaliações) e também ao público externo. É comum, também, que os deputados mineiros se dirijam diretamente aos telespectadores, evidenciando a sua consciência a respeito da encenação feita ali. Este é o tema do próximo tópico.

Nada deixa as encenações em Plenário mais evidentes do que os momentos em que os deputados se dirigem diretamente para os telespectadores, falando e olhando para eles através das câmeras. O teatro nos fornece ferramentas e conceitos para compreender melhor este tipo de estratégia. A “quarta parede” é uma convenção teatral que cria distanciamento: os personagens agem como se estivessem apenas em seu próprio mundo, e não atuando para uma plateia. Esta parede é quebrada quando o personagem se dirige para fora do contexto diegético (em geral, para os espectadores) ou revela que está engajado em uma encenação, destruindo a ilusão de realidade (BROWN, 2012). A presença ou ausência da quarta parede distingue tipos de teatro e pode ser usada como recurso para diversos fins, como envolver o espectador na história, levá-lo a questionar o conteúdo do que assiste, encorajar sua visão crítica. A derrubada da quarta parede rompe a ilusão de realismo e desvenda a situação performática daquele que se exibe e daquele que contempla110.

A definição de um palco cria uma distinção entre sua frente (onde ocorre a encenação), seus bastidores (onde os roteiros são escritos, direções são definidas, encenações são afinadas, ou seja, onde a encenação toma forma), suas plateias (RAI, 2014, p. 6). No caso do parlamento, o plenário é o palco central (MARTINS, 2016, p. 11; HALL, 1996, p. 213), que dá peso e simbolismo específicos às encenações feitas ali. A consciência de sua teatralidade fica evidente nas palavras do deputado Paulo Lamac (PT): “O Plenário, ele é a cena pública, onde são feitos os posicionamentos, onde se delimita, se demarca posicionamentos políticos ideológicos e onde se manifestam os acordos que foram feitos”. A ideia de uma preparação prévia também se destaca na descrição de Vanderlei Miranda (PMDB): “O Plenário é apenas o palco onde acontecerá o embate, o debate, a discussão dos projetos que aqui chegam”

(Plenário, 6/5/15).

O Plenário é um palco simultaneamente teatral e televisivo, em que os políticos atuam tanto para a plateia presente in loco, nas galerias, quanto para aquela distante fisicamente daquele espaço. As atuações são caracterizadas justamente por este reconhecimento dos múltiplos níveis de audiência e pela possibilidade de que os políticos priorizem públicos e

110 O fato de que as encenações podem ser feitas de diversos modos, quebrando ou não a quarta parede, destaca ainda mais os casos em que os deputados optam por evidenciar suas encenações durante as transmissões ao vivo.

Ou seja, a derrubada da quarta parede não é característica inescapável da transmissão ao vivo. Há outros tipos de encenação possíveis, que se pretendem mais “naturalistas” ou “realistas”. Um exemplo seriam as transmissões televisivas das sessões de julgamento do Supremo Tribunal Federal: obviamente os ministros têm plena consciência do fato de estarem sendo acompanhados pelos cidadãos e pela imprensa e, em muitos momentos, atuam para eles; mas, mesmo assim, buscam manter a ilusão de que seu desempenho não é afetado pela presença das câmeras (agem como se houvesse a quarta parede). Assim, em comparação com o Legislativo, são muito mais raras nas sessões do STF as menções ao público externo, os olhares para as câmeras e a interpelação direta aos telespectadores.

interajam com eles simultânea ou sequencialmente, alternando as formas de endereçamento.

Os deputados mineiros, em geral, abrem suas falas cumprimentando todos os públicos, com pequenas variações sobre a fórmula:

Senhor presidente, demais deputados e deputadas presentes, distinto público que nos acompanha pelas galerias, boa tarde. Gostaria de cumprimentar aqui também o nosso público que acompanha pela TV Assembleia (deputado Glaycon Franco / PTN, Plenário, 28/5/15).

Senhor presidente, quero cumprimentar os deputados e o público presente nas galerias e saudar todos os mineiros que nos acompanham em diversas cidades de Minas pela TV Assembleia (deputado Paulo Guedes / PT).

Mas, para além desse reconhecimento quase burocrático, há momentos em que públicos externos tornam-se o foco central dos discursos. Os deputados olham diretamente para as câmeras, interpelam o telespectador, gesticulam em direção a ele. É o que podemos ver nos exemplos abaixo:

Nós, do movimento social, estamos preparando um plebiscito para a Semana da Pátria, de 1º a 7 de setembro, e quero falar um pouco sobre isso, chamar a atenção de você que está nos acompanhando pela televisão e pela rádio para a importância do tema. (...) Quero fazer um apelo: você, que concorda comigo, pode ajudar a fazer esse plebiscito popular. (…) Você pode organizá-lo na sua casa, no seu comércio, na sua escola, na sua rua (…). Para o sistema dominante, do jeito que está é bom, mas para você, que foi para a rua, que luta por um Brasil melhor, que quer um País melhor agora no presente e para as nossas futuras gerações, não está nada bom. (…) faço este convite a você para que venha conosco, ajude a fazer o plebiscito. (…) Vamos, mais uma vez, passar este país a limpo (deputado Pompílio Canavez / PT, Plenário, 25/6/14).

Quero falar para você, contribuinte de Minas Gerais, pagador de impostos de Minas Gerais, que está ficando caro para você. O governador Pimentel criou mais secretarias, mais órgãos. (...) ele está metendo a mão no seu bolso; está tirando do seu bolso ao cobrar esse imposto caro na energia elétrica, que já está no quarto aumento. E você está pagando a conta! Está pagando a conta para toda essa companheirada que o Pimentel trouxe para o governo. (...) Você que está me assistindo. Isso está na sua conta de luz, no biscoito que você comprou para o seu filho, no ICMS que está sendo arrecadado e que você está pagando (deputado João Leite / PSDB, Plenário, 28/5/15)

Quando optam por priorizar os públicos externos, muitas vezes os discursos assumem um tom didático – é a “pedagogia da democracia” identificada por Renault (2004, p. 93). Se o discurso é voltado para os leigos, precisa necessariamente explicar detalhes que, para os parlamentares, são básicos e já conhecidos:

Para que a população entenda, para que os colegas que nos acompanham das galerias possam entender, estamos encaminhando votação de um projeto que foi redigido pelo governador e vetado por ele (deputado Gustavo Valadares / PSDB, Plenário, 28/5/15).

Não sei se os caríssimos pares sabem, mas é importante que os nossos telespectadores tenham conhecimento (deputado Antônio Jorge / PPS, Plenário, 14/7/15).

O ator ajusta sua encenação de acordo com os públicos para quem se apresenta, o que faz com que a audiência seja parte da própria encenação (sua fonte e objeto) (FINLAYSON, 2015, p. 93). Além de se referir diretamente aos cidadãos, os parlamentares endereçam seus discursos aos colegas e a autoridades111. A alternância das formas de endereçamento é estratégica, pois permite segmentar discursivamente audiências amplas, que incluem pessoas com visões e opiniões diversas (ILIE, 2010, p. 887).

O endereçamento aos pares pode caracterizar uma interação efetiva ou pode ser um recurso dramatúrgico. Segundo Renault (2004, p. 88), a câmera de televisão teria transformado “a figura do presidente ou dos colegas senadores e deputados em figuras de retórica, nas quais o parlamentar apoia o discurso com a clara intenção de dirigir-se ao telespectador”. Quando interpelam os colegas, os deputados evidenciam o fato de que os pares são ao mesmo tempo uma de suas plateias e também seus parceiros na encenação para o público mais amplo. Quando um deputado é nomeado e individualizado na fala de outro, não significa que o discurso seja voltado especificamente para ele, mas é como se ele representasse os demais deputados para efeitos da própria encenação. O uso deste tipo de endereçamento dá mais naturalidade às falas, cria a sensação de que há um debate ou diálogo ocorrendo no Plenário. O fato de que o discurso está sendo acompanhado pelos demais parlamentares diferencia o Plenário de outros tipos de palcos – falar ali não é o mesmo que gravar um programa em estúdio, como sugere o deputado Inácio Franco (PV) – e dá aos discursos mais legitimidade e valor simbólico.

A necessidade de se apoiar nos colegas presentes sugere que a interpelação direta aos telespectadores e o olhar para a câmera não são naturais para alguns deputados. É importante lembrar que na ALMG – como em grande parte dos parlamentos atualmente – a cobertura é feita através de câmeras controladas remotamente. São equipamentos pequenos, que ficam presos às paredes, distantes dezenas de metros dos deputados e acima da sua linha de visão (entre 3 e 5 metros de altura). Dependendo da posição do deputado no recinto, a câmera o captura de lado, o que deixa o olhar diretamente para ela ainda mais difícil e artificial. Muitos optam, assim, por olhar para os colegas até quando se dirigem verbalmente aos

111 É comum que os deputados interpelem, em seus discursos, diversas autoridades (governador, presidente, secretários, ministros, dirigentes de órgãos públicos, etc.). Esses endereçamentos sugerem algumas possibilidades não excludentes: os deputados acreditam que esses indivíduos assistem às transmissões ao vivo;

farão com que os discursos cheguem realmente até eles (através do envio das notas taquigráficas, de diligências e comunicações oficiais diversas); utilizam-nos como destinatários de forma retórica, jogando para a plateia (querem dar mais credibilidade e peso às suas falas: eu cobrei dele, eu o denunciei); os discursos feitos no Plenário refletem falas feitas em outras arenas e momentos (em que, efetivamente, dirigiram-se a essas pessoas com palavras ou ações). As lógicas que regem essas interações são qualitativamente distintas do endereçamento aos pares ou aos cidadãos de forma geral e extrapolam os objetivos desta tese.

telespectadores. Porém, mesmo que não interpelem diretamente os telespectadores, isso não significa que os oradores não os levem em conta. Em outras palavras, o deputado não precisa se dirigir diretamente à plateia para atuar para ela, pois seus atos e discursos sempre são atravessados por esses múltiplos públicos.

No documento Tribuna ao vivo (páginas 192-196)