midiática dos parlamentares contribui para a consecução desta meta, ou seja, os ajuda a angariar votos?
questionar até que ponto a atuação em Plenário pode redundar em vantagens eleitorais85. O deputado Durval Ângelo (PT) é cético quanto a essa possibilidade:
eu acho que todo parlamentar, alguns até por ilusão, acham que a TV é muito mágica e que atinge muita coisa. Então, tem uma disputa, sim. (...) tem parlamentar que briga por esse espaço loucamente, achando que faz diferença. Não faz. Em aspecto, por exemplo, de ser mais conhecido, não faz. Em aspecto eleitoral, também não faz diferença nenhuma, de achar que alguém que é bom de Plenário e que uma comissão transmitindo ao vivo vá aumentar a sua votação. E eu sou um candidato que já disputei seis eleições, né? Então eu digo sinceramente: faz diferença nenhuma. Você tem é a certeza de que está cumprindo o dever (...) como parlamentar, você está mostrando o seu trabalho. Mesmo que não seja tão visto, mas é o dever cumprido.
Segundo Martins (2016, p. 49-50), “a relação entre sucesso eleitoral e frequência de uso da palavra é, portanto, baixa, e parece sugerir que a tribuna tem pouca eficácia como estratégia de reprodução eleitoral”. Isso explicaria o papel “externo e acessório” dos pronunciamentos para grande parte dos parlamentares, para quem “a verdadeira política, aparentemente, ocorre em outra parte” (MARTINS, 2016, p. 85). O uso da tribuna seria inócuo também para o acúmulo de influência e prestígio dentro do próprio Legislativo. Como apontam Miguel e Feitosa (2009, p. 209), “a ocupação intensiva da tribuna não garante o acesso às posições centrais do campo”.
Essa visão – um pouco pessimista – é condizente com a hipótese de que, em geral, a atenção do eleitor com relação às atividades legislativas de seus representantes é baixa (MAYHEW, 2004, p. 28). Uma perspectiva um pouco mais nuançada, porém, considera que os benefícios potenciais da exposição via TV legislativa serão diferentes para cada político, em especial de acordo com as características de seu eleitorado (CRAIN e GOFF, 1998, p. 23).
as pessoas acompanham a atuação, o voto do cara, questionam ele muito, né? O que é que ele fez, o que ele não fez no parlamento. Mas é uma minoria, são aqueles que têm esse tipo de perfil assim de trabalhar talvez com formador de opinião, ou (...) com regiões onde as pessoas cobram muito o tipo de posição que o cara tem (deputado Anselmo José Domingos / PTC).
Nesses casos, o parlamentar tem uma oportunidade de transformar atividades legislativas que geralmente são “invisíveis” em algo que será apreciado pelos cidadãos e, até mesmo, em apoio eleitoral (HALL, 1996, p. 60). Contudo, “cada tipo de parlamentar apresenta uma necessidade específica de comunicação com o seu eleitorado e, dessa forma, relaciona-se de maneira diferente com a mídia” (JARDIM, 2008, p. 242). É o que ilustram os depoimentos:
Cada um foi eleito por uma determinada corrente, por uma determinada linha de atuação na sua vida, ou na sua carreira, na sua campanha, naquilo a que ele se propôs. E cada um desses deputados busca a melhor forma de comunicar com esses
85 Hall destaca que as motivações dos membros para participar de um fórum tão visível quanto o Plenário não são apenas eleitorais. A decisão de participar é clara e consistentemente relacionada com interesses pessoal na área temática e também com compromissos ideológicos e pessoais, interesses profundos em termos de políticas públicas, crenças sobre justiça, preocupação geral com o bem comum (HALL, 1996, p. 204).
eleitores. Uns têm um trabalho mais voltado para as redes sociais (...) Outros já têm uma atuação menos midiática, (...) com menos exposição. Mas eu acho que cada um deles tem a preocupação de estar sintonizado com a opinião daqueles que o elegeram (deputado Agostinho Patrus Filho / PV).
a grande parte dos eleitores, não tem acesso à comunicação. Os meus mesmo, nem todos assistem TV Assembleia. (...) Os que assistem TV Assembleia me acompanham de perto e gostam. Os que não assistem, gostam porque eu (...) faço discussão com eles lá nas comunidades, nas reuniões de associações comunitárias.
Essa é um pouco a diferença. Por isso que eu falo, presença aqui e lá. Se for só aqui, não reflete lá (deputado Paulo Guedes / PT).
Mas, afinal, a atuação exibida pelas emissoras legislativas tem impacto eleitoral ou não?
Seguindo o raciocínio de Mayhew (2004, p. 38), podemos separar esta pergunta em duas questões distintas: as atividades dos políticos realmente têm impacto eleitoral? Eles acreditam que tenham este impacto? Ou seja, precisamos distinguir o impacto efetivo das percepções.
No caso desta tese, interessa apenas o segundo ponto, pois as percepções podem ser suficientes para motivar a atuação dos parlamentares. Além disso, o impacto efetivo das atividades é difícil (ou até impossível) de avaliar. Mayhew (2004, p. 39) destaca que a percepção dos parlamentares pode não ser precisa: políticos bem-sucedidos tendem a superestimar o impacto de suas próprias ações, creditando o sucesso a sua atuação pessoal. No caso da visibilidade conferida pelas emissoras legislativas, a percepção dos parlamentares varia muito. Alguns veem benefícios expressivos:
tem uns [deputados] que são muito midiáticos e que, às vezes, têm uma atuação pequena, pobre, aqui dentro. Mas são muito midiáticos, e aí são campeões de votação. Tem outros, (...) ao contrário, que são extremamente comprometidos, compromissados, esforçados, estudiosos, mas não são midiáticos e acabam tendo a votação pequena (...) aqueles que têm o comportamento mais midiático levam vantagem (deputado Lafayette de Andrada / PSDB).
eu percebo que tem muita gente que acompanha (...) [o] que acontece exatamente pela TV Assembleia. (...) [aqueles que] souberem trabalhar, têm condições exatamente de obter um grande benefício e uma grande conquista com esses mecanismos aí (deputado Gustavo Corrêa / DEM).
Outros colocam ressalvas a uma conexão direta entre visibilidade e retorno eleitoral:
por exemplo, há parlamentares que têm uma votação expressiva e que jamais utilizaram a tribuna, ou dão entrevistas, são ilustres desconhecidos. Mas, na campanha, eles conseguem votos, são recordistas de votos em Minas Gerais, e não têm nenhuma vida política construída. São profissionais de campanha. (...) eu tenho dificuldade em entender como que alguém se elege para o parlamento e não parlamenta. (...) não fala, não defende, não briga, não acerta, não erra (deputado Pompílio Canavez / PT).
eu não sei se a TV Assembleia traz voto. É um meio de comunicação fantástico, dá a visibilidade no Estado inteiro. Agora, eu não sei se visibilidade na televisão dá voto (...) tem uns deputados aí que vão todo dia, mas o voto deles é menor (deputado Inácio Franco / PV).
Porque eu acho que a TV Assembleia não dá voto, porque ainda é mal utilizada, e pouco utilizada, como instrumento de comunicação com as massas. (...) Quem vem
para cá e [acha que] vai se eleger com o voto da mídia, das nossas transmissões, não vai se eleger, não. (...) Vai perder a eleição. Ela é um complemento (deputado Duarte Bechir / PSD).
Vistos em conjunto, os depoimentos parecem sugerir que a conexão entre a atuação em Plenário (e a possível visibilidade conquistada com essa atividade) e sucesso eleitoral pode até existir, mas é incerta. Os dados de 2014 – um ano de eleições – ilustram essa interpretação: a participação extensa em Plenário não garantiu retorno positivo nas urnas. Este foi o caso de Pompílio Canavez (PT), que não se reelegeu mesmo tendo feito quase o dobro da média de pronunciamentos e sendo um dos mais ativos na TV Assembleia. Por outro lado, deputados quase “invisíveis” para os espectadores da emissora legislativa estiveram entre os mais votados – é o caso de Mário Henrique Caixa (PCdoB)86 e Gil Pereira (PP).
Parece seguro afirmar, assim, que a visibilidade dos trabalhos legislativos é crucial e benéfica para alguns, potencialmente negativa para outros e indiferente para os demais. Tal assertiva, porém, é demasiado vaga. Considero que é possível avançar se diferenciarmos os possíveis impactos da TV legislativa de seus benefícios. Como apontam Crain e Goff (1998, p. 46), as transmissões ao vivo redistribuem influência de alguns legisladores e grupos políticos para outros. As reuniões televisionadas afetam os resultados eleitorais, ajudando alguns parlamentares e prejudicando outros (CRAIN e GOFF, 1998, p. 3). Sugiro extrapolar este raciocínio: se a visibilidade nas transmissões ao vivo traz vantagens para alguns deputados, isso significa que a forma como estes poucos beneficiados exploram o meio afeta potencialmente a Casa como um todo.
Ou seja, a introdução deste recurso nos cálculos políticos e eleitorais dos deputados mineiros teve e tem impactos sobre a instituição de forma geral – independente de alguns parlamentares considerarem o recurso irrelevante para suas carreiras individuais. Se alguns deputados julgam a visibilidade importante e atuam de forma a maximizar o aproveitamento destas oportunidades, aqueles que não ocupam estes espaços podem acabar sendo prejudicados (mesmo que, como fazem questão de frisar, seus eleitores não acompanhem a TV Assembleia).
Eles podem ser considerados omissos ou apáticos frente à presença e atividade constante de alguns colegas nas telas de TV.
86 Cabe aqui uma ressalva: Mário Henrique Caixa é narrador esportivo e atua na Rádio Itatiaia. Assim, sua votação expressiva pode ser derivada justamente da visibilidade midiática, mas através de um veículo comercial e não da emissora legislativa. Frente a uma audiência massiva durante a narração de jogos de futebol, ele pode prescindir da visibilidade mais modesta da TV Assembleia, sem prejuízo para sua votação. Seu caso ilustra também como é difícil propor uma conexão direta entre experiência pregressa com a mídia e exposição na emissora legislativa: se a intimidade com os meios de comunicação pode favorecer a participação na TV Assembleia, também pode torná-la supérflua. Como apontam Miguel e Máximo (2015, p. 5), “deputados com grande notabilidade pessoal possuem outros recursos para garantir sua visibilidade, com o que a (pequena) atenção obtida pelo pronunciamento em plenário tornar-se-ia menos importante”.
Ainda que não considerem a transmissão ao vivo favorável para seu perfil e eleitorados específicos, os parlamentares podem sentir seus impactos. Em outras palavras, aqueles que não exploram esta arena de visibilidade para seu benefício podem ser prejudicados por sua ausência, julgados à revelia por sua recusa em se mostrar para as câmeras. Independente de querer aparecer ou de considerar que a visibilidade é relevante para seus eleitores, os parlamentares precisam levar em consideração as formas concretas como a TV legislativa redistribui influência política – nem que seja para contrabalançar essa influência com ações em outros espaços. Se um parlamento conta com transmissões ao vivo de suas atividades cotidianas, os impactos são amplos e gerais. Extrapolam, assim, aqueles deputados que consideram a possibilidade de ganhos eleitorais advindos dessa arena de visibilidade, pois ajudam a moldar o contexto no qual todos devem atuar.
4) Os públicos dos discursos
O governo da palavra não é tudo na política, mas a política não pode agir sem a palavra: a palavra intervém no espaço de discussão para que sejam definidos o ideal dos fins e os meios da ação política; a palavra intervém no espaço de ação para que sejam organizadas e coordenadas a distribuição das tarefas e a promulgação das leis, regras e decisões de todas as ordens; a palavra intervém no espaço de persuasão para que a instância política possa convencer a instância cidadã dos fundamentos de seu programa e das decisões que ela toma ao gerir os conflitos de opinião em seu proveito (CHARAUDEAU, 2013, p. 21).
Este breve capítulo funciona como uma introdução aos capítulos 5 e 6, nos quais ataco de fato a pergunta de pesquisa que guia esta tese (como a transmissão ao vivo afeta as atividades discursivas dos deputados em Plenário?). O capítulo estrutura-se em três seções.
Na primeira, apresento algumas considerações sobre o público das emissoras legislativas e o escasso conhecimento de profissionais, analistas e políticos a seu respeito. Na segunda, proponho pensar os telespectadores não a partir de suas características concretas, mas da forma como são construídos no e pelo discurso dos parlamentares. Na terceira e última, apresento a estrutura analítica que guia os capítulos finais desta tese, articulada sobre a distinção entre dentro e fora e os seus avessos.