• Nenhum resultado encontrado

4.1) Os telespectadores das TVs legislativas

No documento Tribuna ao vivo (páginas 140-145)

4) Os públicos dos discursos

O governo da palavra não é tudo na política, mas a política não pode agir sem a palavra: a palavra intervém no espaço de discussão para que sejam definidos o ideal dos fins e os meios da ação política; a palavra intervém no espaço de ação para que sejam organizadas e coordenadas a distribuição das tarefas e a promulgação das leis, regras e decisões de todas as ordens; a palavra intervém no espaço de persuasão para que a instância política possa convencer a instância cidadã dos fundamentos de seu programa e das decisões que ela toma ao gerir os conflitos de opinião em seu proveito (CHARAUDEAU, 2013, p. 21).

Este breve capítulo funciona como uma introdução aos capítulos 5 e 6, nos quais ataco de fato a pergunta de pesquisa que guia esta tese (como a transmissão ao vivo afeta as atividades discursivas dos deputados em Plenário?). O capítulo estrutura-se em três seções.

Na primeira, apresento algumas considerações sobre o público das emissoras legislativas e o escasso conhecimento de profissionais, analistas e políticos a seu respeito. Na segunda, proponho pensar os telespectadores não a partir de suas características concretas, mas da forma como são construídos no e pelo discurso dos parlamentares. Na terceira e última, apresento a estrutura analítica que guia os capítulos finais desta tese, articulada sobre a distinção entre dentro e fora e os seus avessos.

A votação do impeachment coloca em primeiro plano o contraste entre o potencial das emissoras legislativas e sua realidade cotidiana. Em momentos cruciais, marcantes, é possível que todos se interessem pelo que acontece no parlamento. Nesses eventos, as TVs legislativas podem alcançar uma audiência massiva, impressionante. Afinal, qual outro evento conseguiu dominar as telas de tantos canais abertos e fechados simultaneamente? Se a audiência se dividiu entre eles, a origem de todas as imagens era uma só: a TV Câmara, responsável por enquadrar o acontecimento, escolher seus ângulos, determinar os momentos de corte e edição.

No dia-a-dia, porém, a realidade das emissoras legislativas é bem diferente: são emissoras com audiência limitada, que ficam bem distantes das campeãs de Ibope. Alguns telespectadores – por interesse pessoal ou dever de ofício – fazem parte de um público cativo desses canais, que podem ser considerados de nicho. Outros nunca ou quase nunca assistem a eles e, muito menos, têm o acompanhamento do legislativo como hábito.

O que podemos dizer então do público das TVs legislativas? É comum sua definição de forma vaga, como sendo o povo, a sociedade, os cidadãos ou os eleitores (LEMOS et al., 2011, p. 6; BERNARDES, 2011, p. 66). Mas tais referências genéricas e abstratas não são suficientes para compreender quem de fato é a audiência de tais canais. A TV Assembleia de Minas não é exceção, como mostram os depoimentos dos deputados:

eu percebo que tem muita gente que acompanha, até em função de comentários que fazem, de coisas que ocorreram num debate, por exemplo, que acontece exatamente pela TV Assembleia. E aí, causa exatamente surpresa, esse Ibope que a gente não consegue avaliar ainda, o tipo de eleitor que tem acesso à TV Assembleia (deputado Gustavo Corrêa / DEM).

eu não sei exatamente quantas pessoas que nós atingimos [com a TV Assembleia], mas aí você está falando também para outras pessoas lá de fora, que tem às vezes uma visão diferente de quem está ali participando (deputado Anselmo José Domingos / PTC).

A audiência da TV Assembleia, até me surpreendeu. (...) muitas pessoas comentam com a gente no interior. (...) Eu acho que pesa bastante, a TV Assembleia ao vivo, embora a audiência não seja obviamente igual a programas populares aí da TV. Mas eu acho que o fato da transmissão ao vivo já nos coloca mais frente a frente com o público (deputado Mario Henrique Caixa / PCdoB).

De fato, chama atenção a falta de informações concretas sobre o público das emissoras legislativas, especialmente no Brasil. São poucas – quase inexistentes – as pesquisas quantitativas ou qualitativas sobre essa audiência, suas preferências, hábitos ou características (BARROS e BERNARDES, 2009, p. 8; SANTOS, 2008, p. 69). Assim, os políticos e os funcionários das TVs apenas podem especular sobre o público para o qual estão falando:

Há os que “imaginam” que estejam falando para formadores de opiniões (...) Outros acreditam que o público da emissora seja formado pelo “seu Zé e a dona Maria”, numa alusão à população em geral (...). No entanto, são suposições que habitam o

imaginário de cada jornalista, sem que haja dados concretos que as confirmem (QUEIROZ, 2007, p. 176-177).

“A TV [Assembleia de Minas] não tem uma medição de audiência. A gente não sabe quem assiste a gente”, corrobora a gerente de Reportagem Fernanda Avelar. Ainda que haja momentos de pico (SANTOS, 2008, p. 69), a abrangência das TVs legislativas “é reduzida e limitada à televisão a cabo, não estando acessível à maioria dos brasileiros” (SANTOS, 2008, p. 150)88. Os deputados mineiros reforçam esta percepção:

eu acho que a influência (...) da nossa TV Legislativa é pequena, ela tem baixíssima audiência, é beirando o traço (deputado Durval Ângelo / PT).

a TV Assembleia não é uma TV aberta, não tem aquele alcance todo, é diferente (deputado Joao Leite / PSDB).

O panorama parece desolador. Todavia, existe uma tendência entre pesquisadores, profissionais e políticos a minimizar a relevância dos índices de audiência para as TVs legislativas (ROWLEY e KURPIUS, 2005, p. 175; GRUNDY, 2000, p. 34; LAMB, 1992, p.

229). O importante não seria a quantidade de espectadores e, sim, o “princípio do acesso”: o fato de que a mera existência destes canais permite que os cidadãos acompanhem os trabalhos legislativos sem depender das decisões editoriais das emissoras comerciais (MITCHELL, 1992, p. 90; WEATHERILL, 1992, p. xvi; JARDIM, 2008, p. 282). A possibilidade de que o eleitorado esteja atento aos debates e negociações que acontecem no parlamento seria suficiente para impactar a atuação dos legisladores (MITCHELL, 1992, p. 90). Além disso, o monitoramento através da imprensa comercial garantiria uma expansão indireta do alcance das TVs legislativas (CRAIN e GOFF, 1998, p. 24; GONÇALVES, 2011, p. 60).

Outro aspecto que relativiza a importância dos índices de audiência é a segmentação dos públicos, uma realidade no panorama midiático atual. Como aponta Jesús Martín-Barbero (2002, p. 48), a cultura segmentada é marcada pela “diversidade de gostos e modos de consumir” e pela “fragmentação e especialização das ofertas de consumos”. Logo, as TVs públicas podem contemplar interesses minoritários e construir identidades próprias (REY, 2002, p. 94-95). As TVs legislativas não precisam ter como meta a conquista de audiências massivas – o que seria ilusório –, mas garantir a consistência da sua oferta de informação (cumprindo seu papel de veículo de transparência e accountability), voltada a nichos

88 No momento, o Brasil passa pelo processo de migração digital e desligamento da TV analógica, como determinado pelo Decreto 5.820/06. Os esforços de migração das TVs legislativas estão sendo coordenados pela Rede Legislativa de TV Digital, que “tem como meta a universalização da cobertura do sinal das emissoras de rádio e TV das Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e Câmara dos Deputados para que alcancem todos os brasileiros de forma aberta e gratuita” (CÂMARA, 2015, p. 6). Entretanto, a meta ainda não foi cumprida. Mais informações sobre o processo de migração digital estão disponíveis nos sites: < http://www2.camara.leg.br/comunicacao/rede-legislativa-radio-tv> e

<www.vocenatvdigital.com.br> (acesso em 23/01/2018).

específicos do mercado. Podemos pensar esses nichos de duas maneiras: (1) como uma parcela da população mais interessada nas atividades do Legislativo de forma geral, que acompanharia com certa assiduidade e consistência as atividades políticas; (2) como grupos variáveis, cujo engajamento com relação às atividades do parlamento é determinado em grande parte pelos temas e projetos que estão na agenda.

Alinhados à primeira perspectiva, alguns sugerem que o público-alvo da cobertura legislativa é formado por uma pequena parcela de cidadãos ativamente interessados e civicamente engajados (MITCHELL 1992, p. 96-97; IPU, 2007, p. 21; O’DONNELL, 1992, p. 267; SANTOS, 2008, p. 137; NOLETO FILHO, 2014, p. 120). Podemos supor que seria uma “elite cognitiva”, cuja autoridade e capacidade derivam de “seu acesso qualificado aos meios de informação política” (ALDÉ, 2001, p. 50). Ao analisar as ações de comunicação da ALMG, Fuks e Fialho identificaram claramente dois tipos de público, que se diferenciam com relação aos graus de interesse e atenção: uma minoria bastante restrita, porém relevante, que acompanha o que acontece na ALMG; e uma maioria composta pelo público desinformado, para quem a ALMG é “distante do seu mundo cotidiano”, “praticamente invisível” (FUKS e FIALHO, 2007, p. 11-12). As percepções dos deputados mineiros reforçam essa percepção:

a atividade parlamentar é um pouco complexa. (...) para um público muito seleto, muito reduzido, tem valor discutir isso lá. (...) Eu acho que muita discussão do projeto, o povo não entende nada. A maioria (deputado Hely Tarqüínio / PV).

Há um percentual que avalia, que tem uma avaliação “mais apurada”, entre aspas, no sentido de procurar conhecer o trabalho do parlamentar, do que ele faz através das redes sociais, de acompanhamento dessas redes, da informação mesmo, televisiva, jornalística. E mais um outro público, um outro percentual, que não consegue acompanhar (deputada Rosângela Reis / PROS).

se você pegar hoje, a maioria da sua região ela às vezes nem assiste o canal nosso de TV, porque ela não tem acesso, ou ela também não tem o tempo disponível para estar assistindo (deputado Luiz Humberto Carneiro, PSDB).

Obviamente, mesmo os cidadãos mais atentos têm limitações de interesse, tempo e recursos. Por isso, eles conseguem acompanhar apenas um pequeno conjunto de ações mais proeminentes (GRIMMER, 2010, p. 28). Podemos nos aproximar da segunda perspectiva e supor que os pronunciamentos muitas vezes são voltados para públicos específicos, apoiadores e influenciadores, e não para o eleitor médio. Esses públicos não necessariamente fazem parte da elite cognitiva citada acima (que seria um grupo mais ou menos estável, com características demarcadas) ou se restringem a ela. Eles podem ter uma composição variável, que flutua de acordo com os temas e projetos em pauta.

A distinção proposta por Arnold (1990) entre públicos atentos e desatentos pode ser adaptada para pensar essas questões. De forma geral, os legisladores reconhecem que nem

todos os cidadãos estão igualmente interessados na solução de cada conflito e que podem dividi-los em duas “classes”: públicos atentos, que sabem quando um tema específico está na agenda do parlamento, conhecem as alternativas que estão sendo consideradas, têm preferências relativamente bem estabelecidas sobre o que o Legislativo deveria fazer; e públicos desatentos, que não têm preferências firmes nem sabem o que o parlamento está

considerando (ARNOLD, 1990, p. 64-65)89. Diversos autores destacam a importância desses grupos mais interessados ou organizados de eleitores (FENNO, 1977, p. 915; MAYHEW, 2004, p. 130-131; HALL, 1996, p. 198). As distinções apontam para relações diferentes com o parlamento de forma geral (atenção, conhecimento, escrutínio – como no caso das elites cognitivas), mas também para o fato de que os interesses e preferências divergem bastante dentro do eleitorado de um mesmo representante e, principalmente, com relação aos de outros parlamentares. Fica claro que os temas aos quais os eleitores de um estão atentos não necessariamente mobilizam os eleitores dos demais, criando pressões variáveis sobre os legisladores. Assim, frente a cada tema, cada representante “vê” um eleitorado diferente e é a ele que se dirige (FENNO, 1977, p. 883). Os parlamentares optam por destacar subconjuntos específicos do eleitorado, os cidadãos que estão interessados e, portanto, potencialmente atentos (HALL, 1996, p. 60). Nas palavras do deputado Gustavo Corrêa (DEM):

seu eleitor cobra muitas das vezes uma ação específica, isolada que vise atender o interesse dele ou da comunidade a qual ele representa. Então, eu acho que a sociedade ainda não entende, não analisa, na sua grande maioria, a importância da presença do parlamentar no Plenário e nas comissões, aonde será dado o início a um projeto (...) que vai às vezes abranger o Estado todo e que não especificamente a uma determinada cidade ou região ou comunidade que será exatamente contemplada.

E podemos supor que o público das emissoras legislativas oscila seguindo padrões similares. Em um ambiente político no qual os meios de comunicação são um ator fundamental, os públicos são marcados por “padrões de recepção” distintos, que participam de sua caracterização como cidadãos-eleitores (ALDÉ, 2001, p. 46). “Atitudes políticas e situações de comunicação se reforçam e complementam (…) embora consumidos de maneira diferenciada, os meios de comunicação perpassam de maneira importante a construção das atitudes políticas de todos os tipos de cidadão e receptor” (ALDÉ, 2001, p. 161). Isso não

89 Os públicos atentos geralmente comunicam aos representantes claramente suas opiniões, preferências e também a intensidade de seus sentimentos com relação a cada projeto (através de lobistas, participação em audiências, publicações, reuniões privadas, correspondências, presença no legislativo) (ARNOLD, 1990, p. 67). Isso não significa que os parlamentares possam simplesmente ignorar os públicos desatentos, pois suas preferências potenciais ou latentes podem se transformar em opiniões intensas e reais com fortes repercussões políticas (ARNOLD, 1990, p. 68). Ou seja, públicos desatentos podem ser “ativados”, especialmente através da influência de um instigador (que pode ser o próprio parlamentar, um rival, outros agentes políticos). Essas possibilidades afetam as decisões de um político sobre quando se manifestar, quais posições tomar, a quem se dirigir.

significa que os conteúdos das emissoras legislativas fiquem restritos a esses públicos atentos ou às elites cognitivas: as informações podem circular por diversas rotas e atingir os demais cidadãos através da mediação da imprensa, de grupos de interesse, organizações da sociedade civil, movimentos sociais ou outros atores.

Os canais legislativos oferecem, ainda, uma possibilidade de formação do público, a partir da ampliação de seu conhecimento sobre o legislativo. Como sugere Guillermo Gómez (2002, p. 244), “os telespectadores ‘não nascem, são feitos’. E uma televisão pública enfrenta, antes de mais nada, o desafio de sua ‘feitura’”. As mídias legislativas podem “contribuir para a educação política do cidadão ao oferecer instrumentos analíticos para que ele entenda o processo político/legislativo em sua complexidade e para que possa, com isso, tornar-se um cidadão mais participativo e atuante na sociedade” (BARROS e BERNARDES, 2009, p. 6).

Nas palavras do deputado Rogério Correia (PT),

[Algumas pessoas] gostam de ouvir TV Assembleia, parece que não, mas gostam.

Esse pessoal, muita gente gosta de política mesmo. Ali é um aprendizado, as pessoas veem, elas tomam partido, o povo vai se politizando, viu? TV Assembleia, TV Senado, politizam.

Frente à ausência de pesquisas mais amplas sobre o público empírico da TV Assembleia, os parlamentares dependem muito do retorno extremamente irregular que recebem dos eleitores para avaliar a importância da emissora e tecer considerações sobre seus telespectadores.

Recebo vários contatos, (...) retornos positivos. As pessoas gostam de assistir, gostam de ver o posicionamento da gente enquanto deputada, eles acompanham (deputada Rosângela Reis / PROS).

na realidade, as manifestações realizadas na tribuna, elas repercutem muito pouco.

(...) o retorno que a gente tem de manifestação de que as pessoas viram, gostaram ou não gostaram, apoiam ou não apoiam, é desproporcionalmente pequeno (deputado Paulo Lamac / PT).

Nesta tese, não pretendo estudar as recepções concretas dos telespectadores, mas justamente a forma como os deputados mineiros compreendem as relações que podem estabelecer com eles através de sua atuação em Plenário. Assim, interessa-me observar quem são os destinatários propostos pelos discursos, mantendo sempre em mente a ressalva de que isso não significa que tais destinatários tenham uma existência material.

No documento Tribuna ao vivo (páginas 140-145)