bem definidos, em especial a fiscalização das ações do governo estadual e a obstrução à tramitação de projetos no Plenário. Ambas as funções acabam sendo executadas principalmente pela oposição, enquanto a base tenta fazer com que a agenda do governo seja apreciada, o que novamente ressalta o antagonismo no Plenário:
eu serei oposição nos próximos quatro anos, e farei um papel de fiscalizar a ação do outro governo, não é? (...) é representar o eleitor, também, quando você faz oposição, fiscaliza a utilização dos recursos públicos, as legislações que estão passando. Isso tudo é muito importante para o eleitor (deputado João Leite / PSDB).
Dessa forma, é esperada a grande atenção que as ações do governo estadual recebem na tribuna. Em especial, a oposição utiliza-se da prerrogativa de fiscalização para atacar o grupo rival – comportamento observado nos dois períodos analisados, independente do grupo que era oposição à época –, o que faz com que a situação defenda e louve ações de seu grupo.
Mesmo em falas mais objetivas, em que a fiscalização é mais concreta, está amalgamada a crítica partidária, como se vê no exemplo abaixo:
Números são coisas exatas. (...) O secretário de Fazenda Afonso Bicalho veio aqui e confirmou, em público, que o grande problema do Estado de Minas Gerais é a despesa de pessoal, que está elevada e provocando o déficit. (...) Como membro da Comissão de Fiscalização Financeira e Orçamentária, a nossa preocupação é alertar o governo para o risco que está correndo neste momento. (...) A gestão que o PT vem fazendo é arriscada, temerária e se assemelha, no mundo das finanças, a nos assentarmos diante de uma mesa de jogo, de uma roleta e ficarmos apostando:
“apostarei no 13, vermelho, e vai dar”. (...) este é um discurso técnico para alertar o governo sobre o que pode ocorrer (deputado Felipe Attiê / PP, Plenário, 16/6/15).
Costumeiramente, a fiscalização serve de combustível para críticas de escopo mais amplo, referentes a ações dos governos anteriores, a atos da presidência da República, a políticos de outros estados, a um partido de forma geral. O embate político de fundo eleitoral norteia a fiscalização e também a discussão de projetos, como fica patente durante a obstrução.
utilizada para potencializar os efeitos protelatórios provocados por rodadas adicionais de votação acarretadas pela utilização dos procedimentos regimentais (INÁCIO, 2009, p. 371).
A obstrução ressalta o papel regimental e constitucional do Plenário, como fórum e momento necessário na aprovação das propostas, deixando claro que não é um espaço meramente cerimonial e homologatório (ainda que o seja na maior parte das vezes).
No âmbito deste capítulo, interessam-me especificamente as táticas ostensivas de ocupação da tribuna como forma de obstruir os trabalhos. Essas iniciativas cumprem um duplo papel: por um lado, atrasam literalmente a tramitação; por outro, criam oportunidades para que os opositores possam externar suas opiniões, criticar as propostas em tela, tentar sensibilizar a opinião pública e os próprios pares (tanto diretamente, por meio de seus argumentos, como indiretamente, por pressão dos eleitores). O deputado Duarte Bechir (PSD) explica: “eles têm muito [voto], eles vão vencer. O espaço que tem a oposição é de discutir, falar os pontos negativos e a visão da oposição. Aí vem e vota”.
Quando há obstrução, a maioria tem mais dificuldade de conquistar seus objetivos e pode ter que aceitar mudanças e acordos demandados pela oposição (BINDER, 1997, p. 22).
As pressões e o tempo de negociação ampliado podem forçar alterações no desenho das propostas (MÁXIMO, 2013, p. 135) ou, no mínimo, elevar o custo do apoio ao governo e desgastar a base, ao “forçar o posicionamento público dos parlamentares e instigar os eleitores contra eles” (INÁCIO, 2009, p. 356). A base se vê em uma encruzilhada: pode tentar não atrasar ainda mais a tramitação, evitando subir à tribuna; ou pode tentar rebater as críticas recebidas, gastando mais tempo e suscitando novos ataques, especialmente no caso de projetos impopulares.
E os parlamentares [da base] até ficavam dizendo para nós, da oposição, não ficar assim, estendendo aquela agonia. O que a gente queria era discutir, debater e claro (...) colocar o que estava sendo votado bem esmiuçado. (...) E eles não: eles queriam se esconder debaixo da mesa. (...) E, mesmo sendo uma decisão difícil e impopular, a base do governo engoliu o sapo e votou. Quem teve que fazer a defesa, ao vivo, oral, da proposta que era ruim, fez debaixo de vaia, debaixo de apupos (deputado Pompílio Canavez / PT).
a gente [da base] utiliza a tribuna para fazer propostas, para polemizar também como oposição. Mas, o sentido é de, em geral, apressar as votações, especialmente aquelas que advém do governo. Então, tem diferença [na forma de utilizar a tribuna], sim, claro (deputado Rogério Correia / PT).
Como já dito, as reuniões formais são espaços onde o direito das minorias de ser ouvido é garantido regimentalmente, o que dá à oposição oportunidade para marcar discursivamente suas posições, mostrar que está defendendo boas causas e projetos ou tentando fazer o que prometeu a seus eleitores. Nas entrevistas, os deputados mineiros demonstraram ter plena
consciência da importância do Plenário como “registro público de posicionamento” (Paulo Lamac / PT). “Quando o deputado exterioriza o debate público gravado, na verdade ele quer demonstrar o seu posicionamento, ele quer demonstrar as suas atitudes. E isso é muito cobrado”, explica (Deiró Marra / PR). O Plenário é local para “as defesas de temas que são importantes para a sociedade” (Rosângela Reis / PROS), mesmo perante a iminência de derrotas nas votações:
ele já sabe que ele vai ser vencido, então, ele manifesta sua posição contrária. Ele coloca o seu ponto de vista, mas já sabendo que, no processo, na hora de votar, um lado vai ser mais forte do que o outro (deputado Sargento Rodrigues / PDT).
Nos períodos analisados por esta tese, o exemplo mais contundente de obstrução foi durante a tramitação do PL 2.173/15, que autoriza o uso pelo Estado de recursos provenientes de depósitos judiciais e foi apelidado pela oposição de “projeto do confisco”. Entre os dias 7 e 10 de julho de 2015, foram feitos os dois turnos de discussão e votação no Plenário, frente a um declarado processo de obstrução do bloco Verdade e Coerência: houve requerimentos diversos; pedidos de inversão de pauta, de vista, de adiamento de votação; inscrições de oradores nas diversas fases da reunião, inclusive durante a apreciação de outros projetos. As falas foram contundentes e didáticas:
estamos em processo de obstrução em defesa dos interesses da população de Minas Gerais. Por essa única e exclusiva razão, atrasaremos o almoço, o café da tarde e o jantar de V. Exas. (...) obstruiremos com todas as armas que temos, pois não podemos deixar que esse projeto, que confisca o dinheiro de particulares, seja aprovado (deputado Gustavo Valadares / PSDB, Plenário, 8/7/15).
[o requerimento] está possibilitando que, regimentalmente, encaremos a população olho no olho, alertando-a sobre o que se pretende fazer aqui (...) É isso o que estamos fazendo, obstrução para tentar impedir que se aprove essa violência. (...) Permaneceremos valentes até o último minuto, discutindo, encaminhando, protestando, mostrando ilegalidades, violências e atrocidades que pretendem fazer contra o cidadão, tentando meter a mão no dinheiro do cidadão, dos particulares (deputado Lafayette de Andrada / PSDB, Plenário, 7/7/15).
Apesar de ter consciência de que não conseguiriam “obstruir a ponto de não permitir votação”, como colocou Sargento Rodrigues, do PDT (Plenário, 10/7/15), os deputados se revezaram na tribuna para demarcar sua posição, criticar o projeto, o Governo e os colegas da base, fazer barulho e pressão. Como esperado, o PL foi aprovado com ampla maioria – 50 deputados a favor e apenas oito contra, na votação em segundo turno, no dia 10/7/15 –, mas depois de muito barulho da oposição. O tom dos discursos deixou claro que seu objetivo não era convencer os colegas, mas tornar pública a divergência quanto aos rumos do Governo. Os deputados sugeriram, em suas falas, que essa posição minoritária no Parlamento seria a da maioria da população. Colocam-se, assim, as funções de expressar a opinião pública e de assegurar que os sentimentos dos eleitores ecoem no parlamento (MAYHEW, 2004, p. 106):
Iniciamos a nossa fala agradecendo a presença das cidadãs e dos cidadãos de Minas Gerais que vieram aqui se manifestar, dizer para os seus representantes como querem que seja votado esse projeto (deputado João Leite / PSDB, Plenário, 8/7/15).
É justamente esta conexão com o público externo – amplificada pela transmissão ao vivo dos trabalhos – que explica em grande parte a motivação dos deputados para ocupar a tribuna mesmo quando sabem que não podem fazer algo mais efetivo a respeito das propostas em tela. E, realmente, os estudos sobre TVs legislativas mostram que os parlamentares tentam maximizar os benefícios da cobertura, por exemplo, através da “obstrução persuasiva”
(voltada para impressionar o público) (MIXON JR, 2002, p. 125): quando as sessões são televisionadas, os parlamentares obstruem com mais frequência, pois conseguem alavancar campanhas bastante visíveis sobre o assunto e se beneficiar da exposição televisiva intensa (mesmo que esta não se reverta em sucesso em termos de políticas públicas) (MIXON JR et al., 2003, p. 147).
As câmeras ajudam a explicar também a preferência da oposição pela ocupação da tribuna, uma forma bem aparente de obstrução. Quando a base está dividida ou tem dificuldades de mobilizar seus deputados para votar, a oposição poderia simplesmente negar quórum às reuniões, impedindo a abertura das sessões, a discussão ou a votação das proposições. No entanto, em muitos casos, prefere garantir o quórum e ter a chance de ocupar este palco altamente visível – para os parâmetros do legislativo – que é o Plenário. Se não há reunião, perdem a chance de atuar para seus públicos, sejam eles internos ou externos ao campo político. O embate é um tipo específico de encenação, com mais ataques, defesas, emoção, lutas por objetivos que parecem impossíveis, apresentação de acusações e provas. O caráter teatral das atuações em Plenário fica evidente nesses momentos, mas perpassa todas as demais ações dos deputados ali. Este é o tema da próxima e última seção deste capítulo.