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5.3.3) Discussão encenada

No documento Tribuna ao vivo (páginas 196-199)

telespectadores. Porém, mesmo que não interpelem diretamente os telespectadores, isso não significa que os oradores não os levem em conta. Em outras palavras, o deputado não precisa se dirigir diretamente à plateia para atuar para ela, pois seus atos e discursos sempre são atravessados por esses múltiplos públicos.

Parlamentares que se concentram na discussão e demonstram argumentos inteligentes e persuasivos teriam mais chance de aparecer de forma positiva na cobertura ao vivo (MITCHELL, 1992, p. 87). A discussão ampla, focada em argumentos, baseada no contraditório, é valorizada e exaltada:

é disso que precisamos não apenas nesta Casa, mas em todas as casas parlamentares do Brasil, de um debate do mais alto nível, um debate talvez menos partidarizado e mais intelectualizado para que consigamos avançar (deputado João Vítor Xavier / PSDB, Plenário, 28/5/15).

Sob este ponto de vista, a encenação não é necessariamente incompatível com o ideal normativo da discussão. A discussão é justamente o motor que move, impulsiona e justifica as performances feitas em Plenário; e essas atuações, por sua vez, continuam alimentando e reforçando a legitimidade da discussão como meta a ser perseguida.

Obviamente, a discussão encenada tem regras próprias, que não necessariamente são as que regem os debates que os deputados e outros atores políticos travam fora das câmeras. Mas as discussões encenadas indicam que não basta forjar acordos a portas fechadas: é necessário defendê-los em público, muitas vezes suportando as críticas e ataques de uma minoria que sabe que será derrotada, mas preserva o seu direito de falar, de se posicionar, de questionar.

Esses debates circulam então por outros meios e redes, fundamentam ou embasam os argumentos de militantes, influenciam a opinião pública de forma geral, podem suscitar discussões fora do parlamento (dos políticos com os eleitores e também dos cidadãos entre si mesmos). Sob este ponto de vista, realmente há uma revalorização deste espaço em tempos de midiatização. Não é um retorno às origens ou a uma época dourada, não é da forma preconizada pelos ideais e relatos normativos, mas é uma outra discussão, com características, gramática e lógica próprias.

A discussão encenada deixa bem claro também como os endereçamentos aos públicos internos e externos se articulam. As trocas entre os pares têm como seu avesso a comunicação com o público externo. Neste sentido, os parlamentares atuam como equipes (em geral, com cooperação dentro do grupo e rivalidade entre os grupos) que buscam de alguma forma atingir, sensibilizar, conquistar ou fidelizar os eleitores. A fala para o colega quase nunca é (HAJER, 2009, p. 51). A sessão da Câmara dos Deputados que analisou a denúncia contra Michel Temer (no dia 2/8/17) é um exemplo claro de encenação questionada e, até mesmo execrada na mídia. Carlos Melo (2017) criticou o “triste desfile de aberrações políticas”, com “deputados folclóricos e provincianos, mal articulando um voto ou uma desculpa”: “na maioria dos casos, parlamentares constrangidos diante das câmeras agarravam-se aos microfones do Plenário para desfilar argumentos frouxos, desconectados da sociedade (...), a vergonha alheia, transmitida ao vivo, foi mais uma vez a estrela da sessão”. Felipe Betim (2017) criticou “os discursos vazios dos parlamentares” e “a bizarrice que tomou o Congresso Nacional”. E Juan Arias (2017) sugeriu que os deputados votassem em silêncio, “para nos poupar o constrangimento de seus votos criativos e iluminados”, “um novo vexame nacional”.

voltada exclusivamente para ele, mesmo nos momentos em que os parlamentares são mais espontâneos ou dominados pela emoção. O fato de que os discursos são amplificados e registrados torna a atuação inevitável e aumenta a chance de que os atos tenham repercussão junto à opinião pública e até mesmo consequências eleitorais. Ainda que tais impactos não sejam previstos ou calculados, eles sempre fazem parte do ambiente estratégico mais amplo em que os parlamentares se movem. Em outras palavras, eles não podem se dar ao luxo de simplesmente ignorar a presença das câmeras e a conexão que elas criam entre o Plenário e o público externo, pois seus atos e falas já não “pertencem” somente a eles quando são midiatizados.

6) A representação nos discursos em Plenário

As discussões entre os parlamentares consomem grande parte de seu tempo e esforços na tribuna. Porém, não explicam as motivações e lógicas que regem todos os pronunciamentos feitos em Plenário, especialmente aqueles mais voltados “para fora”, seja para o povo mineiro de forma geral ou para grupos mais restritos. Neste capítulo, proponho observar o uso da tribuna transmitida ao vivo como plataforma para a constituição dos deputados enquanto representantes. Eles não falam ali como pessoas privadas, mas como atores políticos que trazem para o parlamento as preocupações, visões, opiniões e interesses de outros, de quem se consideram vozes, mandatários ou procuradores. Esse status tem impactos sobre suas relações com os representados e, também, com os pares e outros membros do mundo político. À medida que destacam em Plenário pessoas, grupos, regiões, ideias e temas que dizem representar, os deputados também procuram valorizar suas próprias qualidades ou atributos pessoais, por um processo metonímico. Quanto mais expressivos seus representados – em termos numéricos, grau de interesse, mobilização, poder etc. – mais cacife os próprios parlamentares teriam para perseguir seus objetivos políticos (legislativos ou não).

Este capítulo é composto por quatro seções. Na primeira, observo um dos momentos em que os deputados têm mais oportunidades para se constituir como representantes (o Grande Expediente), a escolha de temas e a dinâmica de sucessão dos pronunciamentos nesta fase das reuniões. Em seguida, observo o processo mesmo de constituição da representação, a partir de uma discussão mais teórica, concentrada na abordagem construtivista. A terceira seção é mais empírica, dedicada a uma análise dos tipos de conexões com os eleitores que os deputados mineiros estabelecem e cultivam em Plenário. Na última, observo o avesso dessa relação: a maneira pela qual a evocação dos representados e as referências a sua força ou mera existência podem funcionar como pressão sobre os colegas. Tais pressões são feitas através de três “rotas” principais (apelos aos próprios parlamentares, circulação dos discursos em Plenário por outros meios e através da atuação das galerias).

No documento Tribuna ao vivo (páginas 196-199)