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3.1) Escolhas estratégicas

No documento Tribuna ao vivo (páginas 103-106)

3) A tribuna e a visibilidade midiática

A tribuna é um dos meus instrumentos de trabalho, (...) para o convencimento, para o debate, para propor soluções, para apontar caminhos. Ela é um dos instrumentos, como são os projetos de lei, os requerimentos. (...) A tribuna tem que ser usada sempre, as ideias têm que ser (...) defendidas com consistência. (...) É uma arma de trabalho (...) indispensável (deputado Felipe Attiê / PP)

Este capítulo se debruça sobre os dados quantitativos de pronunciamentos em Plenário e sobre alguns pontos das entrevistas dos parlamentares, buscando identificar se existem padrões para a ocupação da tribuna. O Plenário é um espaço cobiçado e disputado? Todos os deputados desejam ocupar este fórum? A distribuição bastante desigual dos pronunciamentos sugere que dedicar tempo e energia ao Plenário é uma escolha intencional e estratégica de alguns deputados, para quem parece ser um recurso valioso. Frente a esta constatação, busco identificar variáveis individuais e institucionais relacionadas a esse comportamento. Com relação às motivações, as respostas dos parlamentares indicam que, para alguns, a possibilidade de se comunicar com os eleitores através da TV é valiosa, enquanto outros consideram que esta exposição é dispensável, pois não traz retornos nas urnas.

Neste processo, definem também os momentos e fóruns em que preferem não atuar, poupando recursos para investir em outras frentes – assim se constroem os padrões de atividade e abdicação que ilustram a natureza seletiva da participação legislativa. As escolhas sobre quando, de que forma e com que intensidade participar são contínuas, à medida que surgem novas demandas e oportunidades (HALL, 1996, p. 9). No seu conjunto, tais escolham afetam a consecução dos objetivos dos parlamentares dentro e fora da instituição.

Dizer que os parlamentares escolhem estrategicamente como agir não significa, de maneira alguma, ignorar que estão sujeitos a diversos tipos de constrangimentos – como os direcionamentos de líderes de coalizões ou a antecipação das ações dos cidadãos nas eleições futuras (ARNOLD, 1990, p. 5), além de considerações suscitadas pelo contexto político (HALL, 1996, p. 13) – mas apenas reconhecer que existe também liberdade para opções individuais. Mesmo quando têm pouco controle sobre as posições de seu partido, eles possuem certa autonomia com relação a suas próprias atitudes (ARNOLD, 1990, p. 62; MAYHEW, 2004, p. 99). É importante, porém, destacar que a capacidade de ação dos parlamentares varia, pois alguns começam com vantagens pessoais (experiência política, expertise, linhas de comunicação bem desenvolvidas) ou institucionais (cargos, equipe, prerrogativas regimentais) que ampliam sua possibilidade de bancar os custos de informação e transação colocados pela participação significativa (HALL, 1996, p. 13).

As diferentes relações dos parlamentares com a tribuna sugerem que seus interesses são distintos. Ou, para colocar em termos mais precisos, seus objetivos podem até ser similares (reeleição, aprovação de projetos, resultados em termos de políticas públicas), mas variam as estratégias que parecem mais vantajosas para alcançá-los. Por que isso acontece? Uma forma de encarar esta questão é considerando que os deputados estão envolvidos simultaneamente em diversos jogos, em especial o legislativo e o eleitoral (TSEBELIS, 1990, p. 4). Logo, precisamos levar em conta esta rede de jogos em múltiplas arenas, que se afetam mutuamente, para compreender suas motivações e comportamento. Nestes jogos aninhados, os pagamentos na arena principal são variáveis, dependendo de fatores contextuais e de eventos nas demais arenas (TSEBELIS, 1990, p. 10). Ou seja, o retorno de uma mesma ação é diferente para cada ator, o que leva à escolha de diferentes estratégias (TSEBELIS, 1990, p. 9). Isso significa que alguns podem ter incentivos e retornos maiores para participar dos debates em Plenário e para aproveitar a visibilidade midiática que conquistam desta maneira; enquanto outros podem considerar que o retorno não justifica o investimento nestas atividades.

A conexão estabelecida institucionalmente entre a publicidade dos debates parlamentares e eleições em intervalos regulares busca, justamente, conectar o jogo legislativo ao eleitoral e assegurar estruturalmente que as opiniões e interesses do público e de diferentes grupos de pressão

sejam levados em conta pelos legisladores (TSEBELIS, 1990, p. 5). Coloca-se em primeiro plano, assim, a necessidade de considerar as possíveis preferências dos eleitores no momento de decidir como agir dentro do próprio parlamento. Afinal, a conquista de seus votos pode ser vista como objetivo ou interesse primordial a guiar as escolhas dos parlamentares. Muitos desejam seguir uma carreira dentro do legislativo (ou possuem uma “ambição progressiva” por cargos eleitorais mais altos) e dependem, portanto, de repetidos sucessos nas urnas66 (MAYHEW, 2004, p. 15; ARNOLD, 1990, p. 5)67. Mesmo tendo em vista outras metas – como influência dentro da assembleia ou boas políticas públicas – os parlamentares precisam se preocupar com a reeleição: é o objetivo mais imediato, que perpassa os demais e precisa ser continuamente conquistado para possibilitar que os outros sejam perseguidos (MAYHEW, 2004, p. 16).

Hall (1996, p. 56-74) sugere um modelo multidimensional de motivações, composto por três tipos de interesses que todos parlamentares provavelmente perseguem, ainda que em proporções variáveis: (1) ampliar sua possibilidade de reeleição e atender às demandas dos eleitores; (2) perseguir preferências pessoais em termos de políticas públicas e de perspectivas ideológicas; e (3) contribuir para a consecução da agenda do Executivo (no caso de parlamentares da base). Considero que todos estes tipos de interesses podem levar um parlamentar se pronunciar em Plenário, porém, a possibilidade de se comunicar via televisão diretamente com seus eleitores parece ser mais saliente para a busca de reeleição.

Pesquisas sobre os discursos parlamentares (PROKSCH e SLAPIN, 2012, p. 520; HILL e HURLEY, 2002, p. 230; MÁXIMO, 2013, p. 81) reforçam o argumento desenvolvido até aqui, considerando-os como resultado de escolhas estratégicas dos políticos. Proksch e Slapin (2012, p. 522) defendem que a melhor forma de explicar os debates legislativos é através de

66 Não há um consenso sobre o tipo de ambição predominante entre os deputados brasileiros. Alguns destacam o dinamismo: “Em contraste com os colegas norte-americanos, cuja principal meta é a reeleição, a ambição dos parlamentares brasileiros é mais dinâmica, envolvendo diferentes percursos e trajetos que têm por fim maximizar as chances de sucesso político, ainda que em diferentes arenas (legislativa e executiva) ou em diferentes cargos (eletivos e não eletivos)” (CASTRO et al., 2009, p. 964). Outros apontam que predomina a ambição estática: “Nas últimas quinze eleições para a Câmara dos Deputados no Brasil a maioria dos parlamentares se candidatou à reeleição, uma média de 68%” (PEREIRA e RENNÓ, 2007, p. 666). Com relação especificamente ao cargo de deputado estadual, Corrêa (2016, p. 24) aponta que a hipótese mais recorrente na literatura sobre carreiras legislativas é a primazia da ambição progressiva. Porém, ainda segundo ele, os dados destacam “a predominância de uma trajetória estática, ou seja, de renovação do cargo de deputado estadual” (CORRÊA, 2016, p. 133). Os dados apurados por Corrêa (2016, p. 147) a respeito dos deputados estaduais mineiros eleitos em 2010 são: ambição progressiva nacional = 6,5%; progressiva estadual = 0; estática = 67,5%; pseudo-estática = 10,4%; progressiva local = 3,9%; discreta = 11,7%.

67 Em nome da parcimônia de seus modelos, tanto Mayhew quanto Arnold colocam o incentivo eleitoral bastante acima de outras metas, praticamente como única motivação dos parlamentares. Porém, reconhecem que esta é uma

“caricatura intencional”, que visa levar um argumento simples até seu limite (MAYHEW, 2004, p. xiv), ou uma

“premissa artificial”, pois existem legisladores dispostos a sofrer derrotas eleitorais em nome de outras metas (ARNOLD, 1990, p. 5). Outros, como Hall (1996, p. 13), também se baseiam na premissa de que legisladores são atores que agem com objetivos bem definidos (purposive actors), mas procuram construir uma abordagem mais ampla sobre os tipos de motivos e cálculos de interesses, não considerando-os como estáveis ou fixamente ordenados.

um modelo estratégico de tomada de posições, estruturado por considerações partidárias e eleitorais. Por meio da ocupação da tribuna, o parlamentar pode: atrair atenção da mídia e vender uma posição individual para o público; enfatizar assuntos simbólicos e sociais;

diferenciar suas posições daquelas dos parceiros de coalizão; garantir apoio pessoal (e não só partidário) nas urnas (PROKSCH e SLAPIN, 2012, p. 521). De forma resumida, afirmam que a participação no Plenário é potencialmente importante para o sucesso partidário e as chances de reeleição dos parlamentares individualmente (PROKSCH e SLAPIN, 2012, p. 528).

Porém, a justificativa de motivação eleitoral não convence todos os pesquisadores que se debruçam sobre os discursos em Plenário. Nas palavras de Silva (2012, p. 151-152):

os deputados não parecem inclinados a usar a tribuna do plenário e o período das reuniões de comissões para vocalizar e fazer prevalecer seus atributos pessoais. [Os resultados] contrariam o senso comum de que em toda e qualquer oportunidade os legisladores vão tentar potencializar seus atributos pessoais para obter vantagens, entre elas, as eleitorais.

Também para Forrest Maltzman e Lee Sigelman (1996, p. 827), as motivações eleitorais – oportunidades de marcar posição, fazer propaganda, requerer crédito por ações – não são essenciais na decisão de participar ou não em Plenário nem capazes de explicar a ocupação da tribuna. Apresento agora os dados quantitativos referentes aos pronunciamentos na ALMG para, em seguida, explorar as variáveis que podem ajudar a esclarecer os padrões encontrados e, depois, discutir as motivações apontadas pelos deputados mineiros para o uso da tribuna.

No documento Tribuna ao vivo (páginas 103-106)