Daniel Celestino Leidens30 Letícia Gheller Zanatta Carrion31
RESUMO: Este estudo tem-se como objetivo analisar a heteronormatividade como cultura que impõe a limitação de manifestações sexuais e de gênero, assim como a ausência de dispositivo legal que ofereça proteção a população LGBTQIA+. Para isso, faz-se uma abordagem dos papeis de gênero e de fatores que naturalizaram imposições limitadoras em sociedade, além de investigar a atuação ativa do judiciário diante da omissão normativa e a medida da contribuição de uma legislação específica, para proteção dos direitos LGBTQIA+. Em relação à metodologia, esta pesquisa valeu-se do método de abordagem dedutivo e método de procedimento histórico e analítico, enquanto a técnica de pesquisa foi documental indireta.
Palavras-chave: Heteronormatividade. Identidade. Gênero. Sexualidade. Lgbtqia+.
INTRODUÇÃO
As constantes mudanças sociais, sobretudo no campo da diversidade de gênero e orientação sexual, têm despertado uma progressiva preocupação de parcela da sociedade, no sentido de ausência de proteção legislativa, que assegure a estes indivíduos o direito de poder exercer com liberdade sua própria condição sexual e de gênero.
Embora alguns avanços tenham sido alcançados no âmbito judicial, a identidade de gênero e sexual, é matéria escassa de legislação, não havendo na lei brasileira substratos específicos, positivados e vinculantes de proteção, mas, tão somente amplas e genéricas previsões, que dão margem à criação de barreiras jurídicas, sociais e ideológicas.
Por isso, a discussão da temática é matéria de grande relevância social, sobretudo pelo fato da sociedade atual carregar traços de padrões conservadores e heteronormativos, construídos por concepções fundamentalistas e religiosas, que estabelecem estruturas, visando a violência e a exclusão daqueles que não se enquadram nos modelos pré-estabelecidos.
Para tanto, este estudo está dividido em duas seções, valendo-se do método de abordagem dedutivo, método de procedimento histórico e analítico, e técnica de pesquisa documental indireta.
A primeira seção é dedicada à explanação e análise da cultura heteronormativa, que considera a heterossexualidade e a cisgeneridade como únicas e corretas manifestações de gênero e sexualidade, baseando-se na construção e naturalização de papeis de gênero, que dificultam a elaboração de legislações específica.
E a segunda seção, por sua vez, situa-se no estudo da importância do papel do judiciário frente à omissão legislativa nas questões LGBTQIA+ e a medida da contribuição de uma legislação específica, na proteção e representatividade da comunidade LGBTQIA+.
30 Pós-Graduando em Direito Civil e Empresarial pelo Instituto Damásio de Direito da Faculdade IBMEC - São Paulo, e Bacha- rel em Direito pela Unidade Central de Educação Fai Faculdades - UCEFF. E-mail: [email protected].
31 Doutoranda, e especialista em Direito Público, pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUI. Mestra em Direito pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - URI; Professora e Advogada
1 HETERNORMATIVIDADE COMO DECORRÊNCIA DA AUSÊNCIA LEGISLATIVA ESPECÍFICA Embora os direitos LGBTQIA+ estejam, no atual momento da história pouco mais visíveis aos olhos de parcela da sociedade, tais indivíduos, permanecem apresentando uma simbologia de identidade estigmatizada como pecadora e imoral, que atenta em desfavor a uma convicta regularidade de identidade de gênero e de orientação sexual, que não admite o reconhecimento de condições fora de padrões heterossexuais (ARAUJO, 2018).
A heteronormatividade, neste aspecto, é caracterizada por ser uma norma heterossexual, que regula os modos de vivência, os desejos corporais, sexualidades e a própria identidade de gênero, no intuito de estabelecer padrões sociais ligados à compreensão biologicista, dentro da qual só existem duas contingências de locação: a feminina e a masculina, heterossexual (SILVA, 2016).
As noções de certo ou errado, no âmbito das identidades de gênero e orientações sexuais, nesse sentido, se originaram justamente pela construção de valores culturais, provenientes quase sempre, de quem possui uma posição de poder, seja ela política, social ou religiosa, mas que torna os valores concernentes à heterossexualidade como superiores, compulsórios e mais dignos do que aqueles que não seguem as conjecturas heterotradicionais (BORGES, 2013).
Todavia, fato é que desde os primórdios da humanidade, as práticas sexuais e modos de vivências não condizentes com as heterossexuais, já existiam, e, para tanto, eram, inclusive, consideradas naturais dentro de uma comunidade (DIETER, 2012).
Ocorre que, com a evolução social e o surgimento de figuras possuidoras de poder e de grande influência, os sujeitos LGBTQIA+ passaram, aos poucos, a serem observados como seres diferentes, sobre os quais começaram a recair desconfianças, tão só pelo fato de não enquadrarem-se dentro daquilo que era considerado como padrão sexual (BPRGES, 2013).
Na intenção de fortalecer a norma heterossexual, juízos morais, principalmente advindos das igrejas propagavam que as sexualidade e identidades de gênero “diferentes”, eram passíveis de converter ou perverter a ordem social, heterossexual, convencionada até então (BORGES, 2013).
Desta forma, as sexualidades e identidades de gênero discordantes das heterônomas passaram a sofrer a imposição da heterossexualidade, visto que, a influência religiosa não permitia a existência de outra sexualidade e identidade, senão a heterossexual, pois em suas concepções os textos bíblicos entendiam que as práticas homogenitais não eram naturais, comuns, ou que eram impuras e contrárias a Deus (HAHN, 2010).
Contudo, a contra-senso das posições religiosas, atos homogenitais, por ocasião, não possuem o mesmo significado de orientação sexual ou identidade de gênero, de modo que, o que a bíblia condenava, em verdade, não era a homossexualidade, bissexualidade, transexualidade, tampouco as identidades de gênero, mas as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo, que eram associadas à idolatria, atividades pagãs e à identidade gentia, de maneira que questão principal não era sexual, mas pura a simplesmente religiosa (HAHN, 2010).
Por isso, a partir dessas equivocadas interpretações bíblicas/religiosas, é que se deu início a cultura heteronormativa que, nos ensinamentos de Foucault, induziu a sociedade a convenciona- se, pela necessidade de disciplinar sujeitos, para que fossem heterossexuais e para que, assim, difundissem seus valores (FOULCAULT, 2005).
No entanto, a percepção da heteronormatividade que se tinha naquela época, por mais absurda que pudesse ser, passou a sofrer constantes transformação e reconstruções com o passar dos anos, ao passo de que no atual momento da história, reforça, inclusive, discursos de ódio e violência à comunidade, configurando o que se compreende por LGBTQIA+fobia (LOURO, 2009).
Por isso, a vista destas questões, faz-se necessária uma breve abordagem acerca das discussões e prerrogativas que moldaram a heteronormatividade e que a impuseram na sociedade, contribuindo à inexistência legislativa de proteção de direitos e reconhecimento, por meio dos padrões de gênero.
Logo, ao analisar as questões que adentram ao gênero, denota-se, que as construções de papéis sociais estão diretamente relacionadas a este, que, em seu conceito, abarca relações de poder sobre o corpo sexuado, sobre o qual são impostas regras, de modo a submetê-lo a portar-se de acordo com elas, sob pena de ser visto como figura “desviada” (SCOTT, 2005).
Os papeis de gênero são concebidos a partir de uma estereotipagem de como deve ser o
feminino e o masculino, encaixando os individuos, a depender de seu sexo, dentro de uma concepção introduzida pela sociedade como regra, induzindo-os e orientando-os a seguirem suas vidas dentro de padrões de comportamentos considerados adequados (SANTOS, 2013).
Tais padrões de comportamento, circundam pelas maneiras de se portar, de falar, pela forma de se vestir, de realizar tarefas domésticas, na divisão do trabalho e profissões exercidas por homens e mulheres, além de padrões sexuais e de identidade. Reconhece-se, neste ponto, que normas são importantes à convivência em comunidade, porém, o que se deve refletir, são seus limites ao bom funcionamento social (STUDAR, 1980).
Por outro lado, no que concerne aos comportamentos sexuais e de gênero, é incontroverso o fato de que normas sociais extrapolam limites, visto que a imposição de um comportamento “padrão”, como ocorre sob as orientações sexuais e identidades de gênero, afrontam claramente a dignidade da pessoa humana, por violar a subjetivação do comportamento individual, cerceando a livre autonomia pessoal e personalidade sexual e de gênero de cada indivíduo (SCOTT, 2005).
Santos, bem esclarece:
Os papéis de gênero, […] são definidos como aquelas expectativas partilhadas acerca das qualidades e comportamentos apropriados aos indivíduos, em função do gênero socialmente definido. Ou seja, cada indivíduo tem um papél socialmente aceito - definido através do processo de socialização que indica como se deve ou como se deveria se comportar - e também papéis de gênero, nos quais são definidos os comportamentos socialmente esperados para mulheres e para homens. Esta definição, considera que os papéis de gênero são padrões de comportamento que a cultura define como sendo adequada para cada gênero (SANTOS, 2013, p. 262).
Nessas definições, Santos deixa claro que a imposição dos papéis sociais, influi diretamente na aceitação dos indivíduos, essencialmente os LGBTQIA+, que não seguem a orientação heterossexual.
Além disso, sabe-se que todos os indivíduos sociais, são criados dentro de uma instituição heterônoma, a qual, giza-se, os ensina a seguir padrões heterossexuais, à exemplo de atrair-se física e emocionalmente por homens, quando mulheres, e por mulheres, quando homens.
Entende-se, neste aspecto, que a imposição de um comportamento padrão pode acarretar consequências extremas, ao ponto de conceber desigualdades sociais, como ocorre com os LGBTQIA+.
A construção social de papéis de gênero produz pressão sobre as mulheres e homens quando se desviam deste padrão arbitrário, sejam por atos, comportamentos, vestimentas e estereótipos heteronormativos mas, sobretudo, quando se tratam de questões sexuais (AMÂNCIO, 2001).
Assim, os papeis de gênero nada mais são do que construções sociais que, dificultam e diminuem a liberdade individual, a autopercepção e o autoconhecimento de cada indivíduo, sobretudo pelo fato de já serem impostos antes do próprio nascimento, quando do descobrimento da genitália da criança (SANTO, 2013).Ou seja, a sociedade define o que seus indivíduos irão ser, como se portarão, de quem gostarão, em termos de gênero e orientação sexual, desde a descoberta de seu órgão sexual.
Portanto, nota-se que os papéis de gênero não afetam somente o feminino e o masculino heterossexual, mas, sobremaneira às identidades LGBTQIA+, que não seguem o padrão pré-estabelecido pela sociedade, de masculinidade e feminilidade, de modo que quando mais imposições de padrões existem, mais corrobora-se a tese de que tudo que é diferente dos padrões heterossexuais, não é merecedor de direito, nem mesmo de respeito dentro de uma sociedade.
Inobstante a isso, o estudo dos conceitos de papéis de gênero, são necessário à compreensão, também dos conceitos e aspectos que dificultam a desconstrução da heteronormatividade, bem como o entendimento da naturalização destes comportamentos.
A naturalização da heteronormatividade, nesse sentido, se deu a partir da organização familiar em que mulheres e homens detinham distintas atribuições. As mulheres eram consideradas frágeis, do lar, mães de família, verdadeiros objetos de cama e mesa, ao passo de que os homens eram viris, fortes, agressivos, e concentravam suas atribuições baseadas no sustento familiar, como chefes de família (STUDART, 1980).
Nada obstante, dentro desta lógica, cada qual, ao se desviar destas atribuições e modos de ser, não haveria de ser digno de compor o grupo familiar. O homem, por exemplo, quando demonstrasse fragilidade ou algum traço de feminilidade, era visto com outros olhos. Contudo, até então não havia a construção de
denominações como homo, bi, trans, mas certamente já existente, porém de forma camuflada, uma vez que o homem, não poderia demonstrar qualquer traço inerente à mulher (CHOERI, 2004).
Embora não se possa estipular uma data para o início do processo de naturalização heteronormativa, esta foi ficando mais forte, como já dito, a partir da influência religiosa e da maior visibilidade da figura do inadaptado em sociedade, que facilitou seu enquadramento patologizante, no caso dos LGBTQIA+ (LOURO, 2009).
Dentro desta perspectiva, a inadaptação do sujeito em sociedade é obviamente característica inerente a ela. Entretanto, falando de questões sexuais e de gênero, o inadaptado é caracterizado pelo desvio da conduta heterossexual, vivenciando uma forma de sexualidade percebida como “ilegítima”, dentro da qual, enquadravam-se as relações LGBTQIA+, bem como a prostituição e o adultério (LOURO, 2009).
O entendimento de tal aspecto é necessário à compreensão de que foi a partir da dificuldade de enquadramento nas imposições, que as sexualidades discordantes da hétero passaram a ser patologizadas, tal como sucedeu com a homossexualidade até os anos 90 e com a transexualidade até pouco tempo. Essa patologização, auxiliou ainda mais na naturalização da heteronormatividade, tendo como premissa maior a heterossexualidade como única sexualidade natural e a antinaturalidade de todas as demais (LOURO, 2010).
Entretanto, o discurso de que a heterossexualidade é fenômeno único de naturalidade, é perceptivelmente falacioso, uma vez que se estrutura sob clara imposição heterônoma, patriarcal e heterossexista, que retira qualquer forma de espontaneidade que o sujeito pode ter com sua sexualidade (LOURO, 2010).
Outro aspecto importante, está inserido nas concepções religiosas, pois a igreja sustenta, ainda hoje, uma tradição de condenação às experiências LGBTQIA+, devido à cultura patriarcal, a qual exige a cura e conversão destes à heterossexualidade. Nesse sentido, a exemplo do homem gay, o qual apresenta um novo modelo de homem, a mulher lésbica apresenta um novo modelo de mulher, ambos não condizentes com as estruturas patriarcais, essencialmente por seus estilos de vida serem subversivos (HAHN, 2010).
Nas igrejas, sustenta-se a condenação dos sujeitos LGBTQIA+ por meio dos textos bíblicos, ou melhor, a partir da interpretação destes que, no mais das vezes, e de forma equivocada, se mostram ausentes de uma real interpretação e de um contexto lógico temporal. A teologia classifica estas expressão da sexualidade, dentre outras, como pecadoras, por se afastarem do seu fim que é a continuação da espécie pela reprodução humana, associando a homossexualidade, por exemplo, ao ato sexual pecaminoso (HAHN, 2010).
Portanto, a heteronormatividade instalou-se sobre uma perspectiva muito forte, sobretudo na questão religiosa, haja vista tocar em uma das esferas mais íntimas dos seres humanos, a crença. A partir da interpretação errônea da bíblia e do seguimento das convicções tradicionais e patriarcalistas se constrói na mente, daqueles que acreditam nas forças divinas, que somente a heterossexualidade seria a sexualidade abençoada por Deus.
2 NORMATIZAR PARA DAR REPRESENTATIVIDADE
No que tange à legislação, a lei brasileira pouco aborda a identidade humana, tampouco a de gênero e a orientação sexual. As referências, em sua maioria, tratam-nas como meras peculiaridades, no sentido de individualização dos sujeitos. Segundo Raul Choeri, o legislador parece não ter incorporado a temática, deixando de atribuir dimensão e importância a estes institutos (CHOERI, 2004).
O Código Civil de 2002, do qual esperava-se uma devida regulamentação acerca do tema, ou, pelo menos, uma breve abordagem, omitiu-se quanto ao instituto da identidade sexual e de gênero, porém, progrediu, no tocante aos direitos de personalidade. Neste ínterim, dispôs implicitamente sobre a identidade humana, quando refere ao direito de nome e a imagem (CHOERI, 2004).
Maria Berenice Dias, sustenta que a Constituição Federal, também nada dispõe, especificamente, sobre o direito à livre identidade de gênero e orientação sexual. Explica, que isso se dá pela resistência dos representantes do povo em aprovar uma proposta de emenda constitucional, ou mesmo um projeto de lei que venha atender às necessidades da população LGBTQIA+ (DIAS, 2011).
Apesar das muitas repercussões midiáticas dos direitos LGBTQIA+, até o momento nenhuma legislação acerca do reconhecimento da livre identidade de gênero e orientação sexual dos sujeitos LGBTQIA+, foram aprovadas no Brasil. Isso ocorre, sem dúvida, pelo fato do Congresso Nacional ser composto por bancadas evangélicas e católicas (heteronormativas), que atuam relativamente na mesma direção quando se tratam de direitos LGBTQIA+ (CARRARA, 2010).
Nesse ponto, oportuno mencionar as diversas tentativas dos movimentos ativistas LGBTQIA+ no intuito de criminalizar a homofobia, mediante a formulação de legislação específica, transformando a discriminação baseada na identidade de gênero e orientação sexual, em delito penalizado pela legislação penal. Todavia, os argumentos utilizados pelas bancadas religiosas do Congresso, são sempre as mesma, no sentido de que a partir da criminalização, haveria cerceamento da liberdade de opinião daqueles que, com base na bíblia, acreditam poder condenar a sexualidade diversa da heterossexual (CARRARA, 2010).
Importante mencionar, nesse ponto, que apesar de grande parte da legislação não mais penalizar as práticas LGBTQIA+, a homossexualidade ainda é contemplada pelo Código Penal Militar como prática criminosa entre militares, ou, com eles, em lugares sujeitos à administração militar. O dispositivo legal, por óbvio, é inconstitucional, porém até o momento não foi assim declarado, nem revogado (DIAS, 2011).
Diante dos comandos constitucionais, enquanto ordens supremas que consagram a dignidade da pessoa humana e zelam por uma sociedade não discriminatória, é difícil compreender a inércia do Poder Legislativo na codificação da proteção legal de diferentes identidades sexuais e de gênero.
Incontáveis projetos de lei já foram apresentados, contudo, arquivados, apensados, configurando um constante ir e vir, sem resultado algum (DIAS, 2011).
Portanto, são notáveis os traços heteronormativos e patriarcais que insistem em permanecer após tantas décadas de luta pela abolição da discriminação baseada na diferença de gênero e sexualidade.
É absolutamente discriminatório o ato de afastar, por qualquer justificativa, a possibilidade de reconhecimento dos direitos LGBTQIA+ como direitos fundamentais ao livre desenvolvimento da pessoa humana que, pela ordem jurisdicional, goza de todas as benesses do direito à cidadania.
De outro norte, diante dos preceitos heteronormativos que dificultam a regulamentação de leis específicas atinentes à matéria, a exemplo da criminalização da homofobia, a justiça se utiliza de outros meios (mecanismos de oxidação ao ordenamento jurídico), por vezes não tão eficazes à resolução destas questões, à exemplo das regras principiológicas do direito constitucional.
À vista da ausência legislativa e da necessidade de soluções que atendessem à comunidade LGBTQIA+, o Poder Judiciário atribuiu a si, na pessoa de seus magistrados, uma postura ativa na busca por uma hermenêutica jurídica mais ampla, cujo propósito valeu-se a garantir o direito da(s) parte(s), diante da lentidão e omissão legislativa. Isto se justifica na preponderância do princípio da supremacia do interesse público que, de modo contrário, denega o direito fundamental à justiça (SOUZA, 2013).
O legislador, como dito, quase sempre foi omisso, inerte e precário na implementação de fatores que consubstanciem o princípio da igualdade, tratando os desiguais na exata medida de suas desigualdades, sobretudo nas questões sexuais e de gênero, as quais demandam especial atenção por configurarem direitos de minoria.
Por oportuno, frisa-se, que a atuação ativa do judiciário diante da falta de lei não configura qualquer vantagem aos LGBTQIA+, mas, tão somente, a observância de suas necessidades, suprimidas por um grupo dominante e conservador, como é o heterossexual (REIS, 2018).
Para melhor compreender:
[…] com a omissão legislativa em regulamentar essas políticas e preceitos de afirmação para as categorias socialmente fragilizadas e enfraquecidas, amparados no princípio da inafastabilidade de jurisdição e no acesso à justiça e de que a lei não poderia excluir ou afastar da análise do Poder Judiciário qualquer violação, descumprimento ou ameaça de violação a direitos é que, os juízes e tribunais, vestem-se de nova função de concretização de direitos e passam a determinar, em suas sentenças, decisões e acórdãos, a efetivação desses direitos negados pelo Executivo, substituindo-se a vontade política dessas instituições, pela sua soberania das decisões, e assim, passam a determinar através de liminares, condenações e aplicações de multa a efetivação desses direitos para aquele que, em demandas judiciais, sentiram-se lesados e prejudicados. É, portanto, o Judiciário agindo no lugar daquele que, constitucionalmente, deveria agir e se fez ausente numa
Nesse contexto, infere lembrar, que, nas últimas décadas, o judiciário tomou posse de várias demandas concernentes às questões homossexuais, casamento homoafetivo, identidades de gênero, e recentemente sobre a criminalização de condutas discriminatórias de gênero e sexualidade.
Pode-se afirmar, tendo em vista a conquista de alguns direitos logrados pela comunidade LGB- TQIA+ e a efetivação daqueles já adquiridos, que o Poder Judiciário aparece em primeiro lugar entre as esferas que legitimam a existência e proteção de direitos ao grupo. Não obstante, contribui à desconstrução de uma cultura sedimentada de preconceitos e discriminações, garantindo acesso à cidadania e à desconstituição de relações odiosas, mesmo com a resistência de grupos conservadores que acabam acentuando conflitos (ALBERNAZ, 2015).
É de se reconhecer o progresso dos Tribunais na interpretação e reconhecimento jurídico de certos aspectos da realidade LGBT+. Percebe-se a antecipação do poder jurisdicional, frente à omissão de legalidade o que, por sua vez, configura uma importante arma na concretização dos direitos LGBTQIA+, pois sem a força do judiciário tais questões permaneceriam apenas no papel, razão pela qual sua postura é, sem dúvida, um importante ganho na efetivação das condições sociais e pessoais de cada ser humano (ALBERNAZ, 2015).
Neste contexto, a atuação do Poder Judiciário, enquanto figura essencial para assegurar direitos mínimos e fundamentais é, sobretudo, uma forma de não relegar parcela da sociedade que, a décadas, luta pelo reconhecimento e visibilidade em meio a uma sociedade impregnada de pré-conceitos estruturais, que buscam impor uma cultura que nem a todos identifica.
Assim, utilizando-se de uma postura ativa na concretização dos direitos LGBTQIA+, dentre outras questões como as referidas acima, o Supremo Tribunal Federal julgou recentemente duas ações que, neste ponto, merecem atenção.
Uma delas, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 4275, que, discutiu a possibilidade de substituição do prenome, bem como do sexo, diretamente no Registro Civil, possibilitando o reconhecimento da identidade de gênero a pessoa transexual (BRASIL, 2018). E a outra, Ação Declaratória de Omissão (ADO), nº 26, em conjunto ao Mandado de Injunção nº 4733, cujo desenrolar da discussão, criminalizou a LGBTQI+fobia, equiparando-a ao delito de racismo (BRASIL, 2019).
A rigor, quando da análise dos citados casos, denota-se que o órgão julgador utilizou-se, tão somente de princípios constitucionais e seus desdobramentos para conferir proteção aos LGBTQIA+, o que é possível pela utilização da técnica hermenêutica do pós-positivismo, que considera possível, também a utilização de princípios na resolução de questões de difícil resolução.
Todavia, nas palavras de José Afonso da Silva, os princípios e garantias fundamentais, individuais constitucionais, de liberdade, igualdade e dignidade, tem aplicação imediata por se concretizarem como direitos de primeira dimensão, mas alerta que em termos constitucionais “aplicação” não pode ser confundida com “aplicabilidade, na medida em que os princípios nem sempre são auto-aplicáveis”
(SILVA, 2004), a exemplo do presente caso.
Assim, importante compreender que a aplicabilidade das normas se divide em plena, contida e limitada, ao passo de que as primeiras possuem aplicabilidade direta e imediata, enquanto a última tem aplicabilidade mediata e indireta. Já em relação à “aplicação”, quando imediata, significa que a própria norma possui força necessária e incidência aos fatos, o que certamente não se encaixa à proteção da identidade de gênero pela principiologia constitucional (LENZA, 2017).
Nessa proporção, no entendimento de Maria Berenice Dias, os princípios se apresentam como não-autoaplicáveis, pois necessitam ser invocados para que o Estado cumpra com seu dever de assegurar o direito de quem está condenado à invisibilidade social, pela própria condição. Assim, a aplicação dos princípios aproxima-se da aplicabilidade limitada, de onde surgem as normas programáticas que ditam valores e princípios e que necessitam de norma regulamentadora para ter sua plena aplicabilidade (DIAS, 2011).
Por isso, conclui-se que uma vez invocados os princípios constitucionais de liberdade, igualdade e dignidade, em conjunto aos preceitos de personalidade, dentro de uma decisão judicial, não há dúvida quanto à proteção da livre identidade de gênero e orientação sexual. Todavia, os princípios de per si, diante da omissão do legislador acerca da matéria, não são autoaplicáveis, ao ponto de dispor de representatividade e visibilidade que a norma regulamentadora lhes conferiria.
Reconhece-se que o Brasil já possui uma das legislações mais complexas e de difícil interpretação