UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA
PAOLO TARGIONI
LINHAS QUE SEPARAM, LINHAS QUE UNEM:
percepção da fronteira na cidade de Cáceres - MT
SÃO CARLOS -SP 2020
PAOLO TARGIONI
LINHAS QUE SEPARAM, LINHAS QUE UNEM: percepção da fronteira na cidade de Cáceres - MT
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia, ao Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos, para obtenção do título de doutor em Sociologia.
Orientador: Prof. Dr. Oswaldo Mário Serra Truzzi
São Carlos-SP 2020
AGRADECIMENTO
Ao Instituto Federal de Mato Grosso e à Universidade Federal de São Carlos por propiciar-me a possibilidade de fazer este doutorado.
Ao meu orientador Oswaldo que aceitou me orientar em uma temática nova e desafiadora.
A Sandro, meu co-orientador e companheiro de mesa nos restaurantes de Bolonha. Aos professores do PPGS da UFSCar, em especial aos que se aventuraram até Cáceres, foi um prazer estar com vocês todos.
Ao coordenador do Dinter, Paulo Alberto, sem o qual não haveria um Dinter.
Aos colegas do Dinter, em especial Agilson, Ariele e Ivone e aos meus “conterrâneos” do IFMT, Chris, Dora, Noemi e Giovana.
Aos colegas de Doutorado que frequentaram algum momento minha vida em São Carlos, com um carinho especial para João Paulo, Fabio, João Pedro, Milena e Monique.
Aos colegas e amigos que aceitaram serem minhas cobaias nas primeiras entrevistas exploratórias e aos alunos do IFMT que participaram das entrevistas e dos grupos focais.
Aos professores dos cursos de engenharia e “Bio” do IFMT que me cederam um tempo de suas aulas e aos que que me ajudaram a organizar as entrevistas, um obrigado especial para Gláucia.
A Priscilla e Suely pela ajuda, tanto em campo como fora.
Ao Campus Olegário Baldo do IFMT em Cáceres pelo apoio em todo momento, seria impossível nomear individualmente todo amigo que esteve comigo ao longo da tese. Ao meu “suporte técnico” Ryan, Hiago e Alexandre, fundamentais para a finalização da tese.
Aos meus amigos Joel e Giorgia, pelo apoio e pelos ótimos conselhos que me deram ao longo de todos estes anos.
A Silmara, que consegue organizar o funcionamento do departamento de maneira impecável.
À banca que avaliou meu trabalho: Sandro, Gustavo, Fabio e Gabriel. Terei lembranças de bons momentos junto com cada um de vocês além dos encontros oficiais.
Aos meus amigos de Cuiabá: Franthyesco, Leonardo, Devair, Rafael, sem os quais não teria avançado na pesquisa.
À Sofia e Mariana, que me deram a alegria que precisava para poder terminar meu trabalho.
À minha Irmã Giulia, que me acompanhou em vários momentos, sobretudo etílicos e gastronômicos, desta pesquisa.
A meu pai Giancarlo e minha mãe Claudia, que acompanharam meu percurso de estudos desde o começo e que sempre me apoiaram e suportaram em todas as minhas decisões, mesmo que às vezes tenha sido difícil.
RESUMO
O presente trabalho teve como objetivo investigar a percepção dos moradores de uma região fronteiriça entre o Brasil e a Bolívia sobre a própria fronteira física que separa os dois países, bem como de outras fronteiras que eventualmente possam existir. Inicialmente, foi realizado um levantamento teórico sobre a sociologia da fronteira com intuito de amparar a pesquisa empírica. Sucessivamente, foi construído um questionário aplicado em jovens estudantes de um campus universitário na cidade de Cáceres (Mato Grosso) e, em seguida, com os mesmos sujeitos, formados grupos focais a fim de aprofundar o entendimento acerca dos resultados obtidos. A cidade foi escolhida por sua particularidade geográfica: suficientemente próxima à fronteira, para que seus moradores possam conhecê-la, mas também longe, a ponto de haver pessoas que nunca tenham se aproximado dela. Esta característica fez com que a população fosse constituída de pessoas que conhecem muito bem a região da fronteira e outras que apenas têm uma vaga e remota ideia, fruto muitas vezes de preconceitos e estereótipos. Baseado nos escritos teóricos de Sandro Mezzadra, e outros autores tidos como referência acerca dos border studies, sobre a indeterminação da fronteira, objetiva-se melhor compreender se haveria diferença entre indivíduos que conhecem a fronteira física e não a conhece (na percepção desta e de outras fronteiras, como de gênero ou étnico-raciais), podendo eventualmente surgir no nosso cotidiano. Os resultados alcançados confirmaram a diferença na percepção da indeterminação da fronteira física entre os conhecedores da fronteira e os não conhecedores, bem como não forneceram dados significativos em relação à percepção de outras formas de fronteiras. Outra questão importante diz respeito a como se desenvolveria a relação entre os moradores autóctones e aqueles que vivem além da fronteira: os estrangeiros. É interessante compreender se é possível haver alguma diferença nesta relação com os estrangeiros, bem como entender se haveria diferença de percepção entre os moradores da zona urbana e rural. Estas hipóteses também foram testadas por meio das mesmas entrevistas, questionários e grupos focais. Os resultados finais, que confirmaram nossas hipóteses sobre a diferente relação com os estrangeiros entre moradores de zona rural e urbana, não mostraram diferenças substanciais na relação com os estrangeiros entre quem conhece e não conhece a fronteira.
ABSTRACT
The present study desires to investigate the perception that residents of a border region between Brazil and Bolivia have about the physical border that separates the two countries, as well as other borders that may possibly exist. Initially, in order to support empirical research, were analyzed the work of some of the most important border studies authors. Subsequently, we applied a questionnaire to young students from a university campus in the city of Cáceres (Mato Grosso - Brazil) and then, with the same corpus, were formed focus groups in order to deepen the understanding of the obtained results. The city has been chosen because of its geographical particularity: close enough to the border, so that its residents can get to know it, but also far, to the point that there are people living there who have never approached it. This characteristic meant that the population of the study was composed of people who know the border region very well and others who only have a vague and remote idea, often result of prejudices and stereotypes. Based on the theoretical writings of Sandro Mezzadra on the indeterminacy of the border as well as other authors considered as a reference on border studies, the objective was to better understand if there would be a difference between those who well experienced the physical border and those who do not know it, as in the perception of that, as well as in the perception of other borders (such as gender or ethnic-racial ones) that may eventually arise in our daily lives. The results achieved confirmed the difference in the perception of the indeterminacy of the physical boundary, between the familiar and the unfamiliar with the border, but did not provide significant data relatively the perception of other forms of boundaries. Another important question concerned how would develop the relationship between indigenous residents and those living across the border: foreigners. We were interested in understanding whether there was any difference in this relationship with foreigners between those who know and those who do not know the border, as well as between residents of an urban and a rural area. These hypotheses also were tested through the same interviews, questionnaires and focus groups. The final results, which showed no substantial differences in the relationship with foreigners between those who know and do not know the border, confirmed a different relationship between rural and urban residents.
ABSTRACT
Il presente studio vuole indagare il tipo di percezione che i residenti di una regione di confine tra Brasile e Bolivia hanno del confine fisico che separa i due Paesi e se e come questo possa influenzare la percezione di altri tipi di ‘confini’, come le divisioni di genere, razza o altro. Si è partiti con una panoramica delle teorie legate alla sociologia della frontiera, su cui abbiamo strutturato la ricerca empirica. In un secondo momento, è stato somministrato un questionario ai giovani studenti di un campus universitario nella città di Cáceres (Mato Grosso - Brasile), che sono stati poi oggetto anche di focus group per approfondire la portata e il valore dei risultati ottenuti. La città di Cáceres è stata scelta per la sua particolare posizione geografica: è abbastanza vicina al confine da far sì che parte dei suoi abitanti lo conoscano bene, ma allo stesso tempo sufficientemente distante perché altri non l’abbiano mai visto. Tale caratteristica geografica ha permesso di costruire un corpus composto sia da persone che conoscono molto bene zona di confine sia da individui che ne hanno solo un'idea vaga, spesso risultato di pregiudizi e stereotipi. Basandoci sugli scritti teorici di Sandro Mezzadra relativi all’indeterminatezza del confine e integrando la nostra ricerca con alcuni dei principali autori di riferimento nei border studies, abbiamo cercato di capire se ci fosse una differenza tra gli individui che conoscono la frontiera e quelli che non la conoscono nella percezione del confine fisico e degli altri possibili confini legati alla vita quotidiana come ad esempio, quelli di genere ed etnico-razziali. I risultati ottenuti hanno confermato una differente percezione dell'indeterminatezza del confine fisico in relazione alla frequentazione o meno della frontiera, ma allo stesso tempo non hanno fornito dati significativi in merito alla percezione di altre forme di confine. Altro punto d’interesse della ricerca è stato il tipo di relazione tra i residenti della città oggetto della ricerca e coloro che abitano oltrefrontiera: gli stranieri. Volevamo capire se nel rapporto con gli stranieri esistesse una differenza in base alla conoscenza o meno del confine e in funzione alla diversa provenienza, urbana o rurale, dei soggetti intervistati. Anche queste ipotesi sono state testate per mezzo del precedente questionario, di interviste e di focus group. Il risultato finale non ha mostrato differenze sostanziali nel rapporto con gli stranieri in base alla conoscenza del confine, ma ha tuttavia confermato un diverso atteggiamento a seconda che i soggetti intervistati risiedessero in aree urbane o provenissero da zone rurali.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Relação entre a percepção e contato com a fronteira...104
Figura 2 - Relação entre percepção dos estrangeiros e variáveis influenciadoras....106
Figura 3 - Localização de Cáceres...108
Figura 4 - Mapa da BR 070...108
Figura 5 - Início da estrada partindo de Cáceres até a fronteira com a Bolívia...109
Figura 6 – Modelo multivariado para o questionário...129
Figura 7 - Descrição das respostas dos participantes e da população em geral em relação às características sociodemográficas: distribuição de gênero...136
Figura 8 - Descrição das respostas dos participantes em relação às características sociodemográficas: semestre letivo e vínculo com a universidade...137
Figura 9 - Descrição das respostas dos participantes em relação às características sociodemográficas: município de criação e zona de criação...138
Figura 10 - Descrição das respostas dos participantes em relação às características sociodemográficas: tempo de residência...139
Figura 11 - Descrição das respostas dos participantes em relação às características sociodemográficas: religião...140
Figura 12 - Descrição das respostas dos participantes em relação às características sociodemográficas: renda...141
Figura 13 - Descrição das respostas dos participantes em relação às características sociodemográficas: classe social...142
Figura 14 - Descrição das respostas dos participantes em relação às características sociodemográficas: tendência política...143
Figura 15 - Distribuição das respostas dos participantes sobre a frequência de leitura de notícias em meios digitais...144
Figura 16 - Descrição da frequência de respostas dos participantes de acordo com o acesso de notícias por meios de comunicação tradicionais: jornais impressos...145
Figura 17 - Descrição da frequência de respostas dos participantes de acordo com o acesso de notícias por meios de comunicação tradicionais: jornais online...145
Figura 18 - Descrição da frequência de respostas dos participantes de acordo com o acesso de notícias por meios de comunicação tradicionais: telejornais...146
Figura 19 - Frequência de respostas dos participantes em relação as questões sobre a percepção de fronteira entre Brasil e Bolívia: contato com a fronteira e com os estrangeiros em geral...147 Figura 20 - Frequência de respostas dos participantes em relação às questões sobre a percepção de fronteira entre Brasil e Bolívia: percepção de permeabilidade de pessoas ou mercadorias...148 Figura 21 - Frequência de respostas dos participantes em relação às questões sobre a percepção de fronteira entre Brasil e Bolívia: percepção de diferença entre os dois lados da fronteira e entre brasileiros e bolivianos...149 Figura 22 - Frequência de respostas dos participantes em relação às questões sobre a percepção de fronteira entre Brasil e Bolívia: conhecimento sobre crime em geral ou cometido por algum estrangeiro...150 Figura 23 - Frequência de respostas dos participantes em relação às questões sobre a percepção de fronteira entre Brasil e Bolívia: concordância em relação ao atendimento no Hospital Regional de Cáceres para bolivianos...152 Figura 24 - Frequência de respostas dos participantes em relação às questões sobre a percepção de outras fronteiras: diferença na vida das pessoas relacionadas à cor/etnia ou gênero...153
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Associação entre gênero e contato com estrangeiros...154 Tabela 2 - Associação entre gênero e contato com a fronteira entre Bolívia e Brasil...155 Tabela 3 - Associação entre gênero e frequência de visão de notícias: “Jornal Nacional”...156 Tabela 4 - Associação entre gênero e frequência de visão de notícias: “MTTV”...156 Tabela 5 - Associação entre gênero e percepção da diferença referente à cor e etnia na vida das pessoas em Cáceres...157 Tabela 6 - Associação entre gênero e percepção da diferença que o gênero faz na vida das pessoas em Cáceres...157 Tabela 7 - Associação entre a classe social dos participantes e o contato com a fronteira...158 Tabela 8 - Associação entre a classe social dos participantes e a frequência de leitura de notícias: “WhatsApp”...159 Tabela 9 - Associação entre a classe social dos participantes e percepção de diferença devido a etnia ou raça...159 Tabela 10 - Associação entre a classe social dos participantes e percepção de diferença devido a gênero...160 Tabela 11 - Associação entre o posicionamento político dos participantes e o município de criação...161 Tabela 12 - Associação entre o posicionamento político dos participantes e a zona de criação...161 Tabela 13 - Associação entre o posicionamento político dos participantes e o contato com estrangeiros...161 Tabela 14 - Associação entre o posicionamento político dos participantes e o contato com a fronteira...162 Tabela 15 - Associação entre o posicionamento político dos participantes e a concordância com o atendimento no hospital...163 Tabela 16 - Associação entre o posicionamento político dos participantes e a percepção de diferença devido a etnia ou raça...163 Tabela 17 - Associação entre o posicionamento político dos participantes e a percepção de diferença devido a gênero...164
Tabela 18 - Contato com a fronteira e sua influência sob a percepção de controle de passagem de pessoas na fronteira...165 Tabela 19 - Contato com a fronteira e sua influência sob a percepção de controle de passagem de mercadorias na fronteira...166 Tabela 20 - Município de criação e sua influência sob a percepção de controle de passagem de pessoas na fronteira...167 Tabela 21 - Contato com a fronteira e sua influência sob a percepção de controle de passagem de mercadorias na fronteira...167 Tabela 22 - Zona de criação e sua influência sob a percepção de controle de passagem de pessoas na fronteira...168 Tabela 23 - Zona de criação e sua influência sob a percepção de controle de passagem de pessoas na fronteira...168 Tabela 24 - Tempo de residência e sua influência sob a percepção de controle de passagem de pessoas na fronteira...169 Tabela 25 - Zona de criação e sua influência sob a percepção de controle de passagem de mercadorias na fronteira...169 Tabela 26 - Associação entre o contato com a fronteira e a percepção da diferença entre os lados desta...170 Tabela 27 - Associação entre a zona de criação e a percepção da diferença entre os lados da fronteira...171 Tabela 28 - Associação entre o tempo de residência e percepção da diferença entre os lados da fronteira...171 Tabela 29 - Associação entre o contato com a fronteira e a percepção de diferença em aspectos físicos e culturais entre bolivianos e brasileiros...172 Tabela 30 - Associação entre a zona de criação e a percepção de diferença em aspectos físicos e culturais entre bolivianos e brasileiros...172 Tabela 31 - Associação entre o tempo de residência e a percepção de diferença em aspectos físicos e culturais entre bolivianos e brasileiros...173 Tabela 32 - Associação entre a zona de criação e a concordância com o atendimento aos bolivianos no hospital de Cáceres...173 Tabela 33 - Associação entre o contato com a fronteira e a concordância com o atendimento aos bolivianos no hospital de Cáceres...175 Tabela 34 - Associação entre o município de criação e a concordância com o atendimento aos bolivianos no hospital de Cáceres...175
Tabela 35 - Associação entre o tempo de residência e a concordância com o atendimento aos bolivianos no hospital de Cáceres...175 Tabela 36 - Associação entre o tempo de residência e a percepção de diferença devido a gênero...176 Tabela 37 - Associação entre a zona de criação e a percepção de diferença devido a gênero...177 Tabela 38 - Associação entre o contato com a fronteira e a percepção de diferença devido a gênero...177 Tabela 39 - Associação entre o município de criação e a percepção de diferença devido a gênero...178 Tabela 40 - Associação entre o tempo de residência e a percepção de diferença devido a cor ou etnia...178 Tabela 41 - Associação entre o contato com a fronteira e a percepção de diferença devido a cor ou etnia...179 Tabela 42 - Associação entre o município de criação e a percepção de diferença devido a cor ou etnia...179 Tabela 43 - Associação entre a zona de criação e a percepção de diferença devido a cor ou etnia...179
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Propriedades individuais e contextuais dos entrevistados e percepção da fronteira e dos estrangeiros...130
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO...19
2 CAPÍTULO 1: POR UMA ONTOLOGIA DA FRONTEIRA...23
2.1 A ORIGEM DA NOÇÃO DE FRONTEIRA NO OCIDENTE...23
2.2 AS FRONTEIRAS NA HISTÓRIA...24
2.3 AS POLÍTICAS MIGRATÓRIAS COMO FORMA DE FORTALECER AS FRONTEIRAS...26
2.3.1 Os tratados como início do problema...27
2.3.2 Aux armes, citoyens...28
2.3.3 Após a revolução: o que fazer?...29
2.3.4 Muros e mais muros...31
2.3.5 E no Brasil?...33
2.3.6 Estados e identidade...36
2.4 A FRONTEIRA COMO MITO: JOHN WAYNE E OS APACHES...38
2.5 A FRONTEIRA NO IMAGINÁRIO FICCIONAL: DO TENENTE DROGO A JON SNOW...39
3 CAPÍTULO 2: POR UMA SOCIOLOGIA DA FRONTEIRA...42
3.1 SOCIOLOGIA DA FRONTEIRA: OS CLÁSSICOS...43
3.1.1 Simmel e a fronteira como fato sociológico...43
3.1.2 Fredrik Barth: a inversão da fronteira...48
3.1.3 Pierre Bourdieu: a luta simbólica na criação das fronteiras...53
3.1.4 Elias: uma fronteira em processo...57
3.1.4.1 Processo civilizador e fronteiras...58
3.2 OS NOVOS ESTUDOS SOBRE A FRONTEIRA...61
3.2.1 As fronteiras internas: Zygmunt Bauman...62
3.2.1.1 Modernidade sólida vs modernidade líquida...63
3.2.1.2 Fronteiras urbanas...64
3.2.1.3 Novos muros para velhos problemas...66
3.2.2 O funcionamento diferencial da fronteira: Étienne Balibar...69
3.2.3 A fronteira como método: Sandro Mezzadra...73
3.2.3.1 Border as method……….………77
3.2.3.2 Fronteiras do capital...82
3.3.1 Um olhar pós-colonial...86
3.3.2 As fronteiras no pensamento pós-colonial...88
3.3.3 Outras fronteiras...90
4 CAPÍTULO 3: O DESENHO DA PESQUISA...94
4.1 A RELEVÂNCIA INTELECTUAL DA PROBLEMÁTICA...94
4.1.1 Étienne Balibar: a sobredeterminação da fronteira...95
4.1.2 Sandro Mezzadra e Brett Neilson: uma nova maneira de entender as fronteiras...97
4.1.3 Zygmunt Bauman: relações com os estrangeiros na sociedade líquida...99
4.1.4 Margaret Mary Wood: relações entre estrangeiros e grupos integrados...102
4.2 A CONSTRUÇÃO DAS HIPÓTESES...103
4.3 A ESCOLHA DA POPULAÇÃO...105
4.3.1 O IFMT...106
4.3.2 Fronteira, mas não muito. Urbano, mas rural também...107
4.3.3 Municípios limítrofes...109
4.3.4 O IFMT Cáceres e sua relação com a fronteira...110
4.3.5 Importância do contexto socio-ambiental da pesquisa...110
4.3.6 Importância da escola como ambiente homogêneo...111
4.3.7 A escolha da população/amostra...111
4.3.8 Motivo da escolha de jovens estudantes...112
4.4 O MODELO DE ANÁLISE...113
4.4.1 Entrevistas exploratórias: construir um questionário partindo dos dados...113
4.4.2 Quem foram os entrevistados...115
4.4.2.1 Entrevistada 1: 36 anos, professora...115
4.4.2.2 Entrevistada 2: 19 anos, estudante...116
4.4.2.3 Entrevistado 3: 21 anos, estudante...117
4.4.2.4 Entrevistado 4: 21 anos, estudante...118
4.4.2.5 Entrevistado 5: 21 anos, estudante...119
4.4.2.6 Entrevistado 6: 43 anos, servidor público...119
4.4.2.7 Entrevistado 7: 29 anos, autônomo...121
4.4.2.9 Entrevistado 9: 36 anos, engenheiro agrônomo...124
4.4.2.10 Entrevistada 10: 26 anos, interprete de libras...125
4.4.2.11 Entrevistada 11: 24 anos, servidora pública...125
4.4.2.12 Entrevistado 12: 44 anos, veterinário...126
4.4.2.13 Entrevistado 13: 43 anos, escritor...126
4.4.3 A confirmação inicial das hipóteses...127
4.4.4 A construção do questionário...128
4.4.5 Os grupos focais...132
5 CAPÍTULO 4: RESULTADOS...135
5.1 ANÁLISE DOS DADOS...135
5.1.1 Análise estatística: um perfil geral dos entrevistados...135
5.1.2 O cruzamento das variáveis...154
5.1.2.1 O perfil de gênero...154
5.1.2.2 O perfil de classe...158
5.1.2.3 O perfil político...160
5.1.3 A percepção da fronteira...164
5.1.3.1 Relação entre tipo de socialização/conhecimento de fronteira e percepção desta quanto à passagem de pessoas e de mercadorias: a fronteira é aberta ou não?...165
5.1.3.2 Atendimento a bolivianos no Hospital Regional de Cáceres: quando o outro é estrangeiro...173
5.1.3.3 Um corolário: percepção de diferença devido a cor, etnia e gênero...176
5.2 OS GRUPOS FOCAIS...180
5.2.1 Conheço a fronteira...181
5.2.2 Não conheço a fronteira...186
6 CONCLUSÕES...190
REFERÊNCIAS...192
APÊNDICE A – Questionário...197
APÊNDICE B – Code Book……….….203
APÊNDICE C - Tabelas de análises estatísticas...212
APÊNDICE D - Roteiros para os grupos focais...215
1 INTRODUÇÃO
O conceito de fronteira é plural e pode ser entendido de inúmeras maneiras, servindo para definir vários âmbitos do nosso cotidiano. A primeira função aprendida atribuída às fronteiras é a de separação (separação entre estados, mais especificamente): os mapas geográficos comumente vistos em livros escolares são o primeiro contato com a noção da fronteira. Linhas negras que dividem espaços com cores distintas é a imagem vista ao focar a representação do lugar no qual se vive. Imagina-se o controle feito por policiais para que estas linhas não sejam ultrapassadas e, assim, acredita-se que seja o mundo: um lugar dividido em compartimentos separados por uma fronteira no qual o contato é mínimo.
As palavras “fronteira” e “divisa” evocam imediatamente imagens de policiais e de arame farpado, de rígidas delimitações territoriais, de mapa-múndi nos quais cada país tem uma cor diferente e nos quais linhas pretas separam um estado do outro1 (CUTITTA, 2007, p. 17).
Nunca na história o conceito de fronteira foi tanto posto em discussão como nos dias atuais: a globalização fez crer que aquelas linhas negras haviam desaparecido e se tornado algo simbólico, sem função real, uma velha lembrança do período escolar. Na realidade, percebe-se que as famosas linhas pretas ao invés de desaparecer, multiplicaram-se e se deslocaram a lugares cada vez mais distantes daqueles nos quais estava-se acostumado a vê-las. Elas não estão mais nas fronteiras propriamente ditas, mas “em outros lugares, em qualquer lugar no qual se exercitem controles seletivos”2 (BALIBAR, 2001, p. 211).
Deslocada de seu lugar inicial, aparentemente borrada pela globalização e pelos grandes movimentos migratórios contemporâneos, destituída de sentido devido à crise do Estado-nação, a fronteira é algo extremamente interessante que deve ser estudada com muita atenção e propriedade, exatamente devido ao fato de não ter desaparecido. Todos estes fatores citados, pelo contrário, a ressignificam e a deslocaram para lugares novos, muitas vezes sobreterritoriais e imateriais, aos quais
1 “Le parole ‘confine’ e ‘frontiera’ evocano immediatamente immagini di doganieri e di filo spinato, di rigide
delimitazioni territoriali, di mappamondi in cui ogni paese ha un colore diverso e in cui linee nere separano uno stato dall’altro” (tradução nossa).
ela não pertencia e que agora, obrigando a repensar a percepção e o sentido que se dá à palavra fronteira.
O interesse nessa temática surgiu do desejo em entender como a experiência maior ou menor em relação à fronteira possa ser um discriminante no conhecimento da mesma: ontologicamente definida como algo insuperável, sabe-se que em realidade se trata de algo mais complexo que um simples muro divisor de dois territórios. Para entender como se dá a percepção desta divisa a partir da própria experiência empírica, foi iniciada a observação de um contexto específico: uma região fronteiriça entre o Brasil e a Bolívia, na qual encontram-se pessoas que têm contato e outras que não têm contato com a fronteira. A percepção de como é e como funciona um lugar específico é construída a partir de vários fatores, sendo mais importante, talvez, a experiência direta. Partindo desta concepção, imagina-se que possa haver uma diferença no entendimento do que é uma fronteira, do que ela representa e como ela funciona, a partir do conhecimento ou desconhecimento deste lugar específico. A escolha de uma população que se posiciona heterogeneamente ao longo do continuum – conhecedor/não conhecedor – foi o que ajudou a entender como se dá esta distinta percepção, conforme muda o nível de conhecimento.
Especificamente, a presente pesquisa objetiva entender, a partir da teoria sociológica sobre a fronteira – os modernos border studies – como (e se) a população-alvo percebe a indeterminação da própria fronteira contemporânea. Qual é a imagem que ela tem desta divisa é o foco abordado ao longo de toda a tese, mais especificamente, se há diferença nesta percepção entre quem conhece e quem não conhece a fronteira física na região pesquisada. Outro objetivo da pesquisa é entender se este conhecimento da fronteira pode gerar percepções diferentes (ou mesmo um distinto modo de agir) em outros ambientes e em outras situações. Para isso, é preciso compreender se há alguma relação entre o conhecimento da fronteira física e a percepção de outras fronteiras que eventualmente possam surgir no nosso dia a dia (gênero, étnico-raciais) e se poderia haver diferença na relação com os que vivem além da fronteira: os estrangeiros. Finalmente, visto a extrema heterogeneidade da população, pretende-se tentar esclarecer outra questão interessante: se na relação com estes moradores que vivem além da fronteira - os estrangeiros - poderia haver diferenças baseadas em distintos fatores, como por exemplo, de socialização.
No primeiro capítulo, a intenção é apresentar a noção de fronteira conforme seu desenvolvimento no Ocidente ao longo dos séculos. Ela foi tratada tanto em sua concepção do ponto de vista histórico, bem como sua construção em consequência das políticas migratórias adotadas por distintos Estados em diferentes momentos. Além disso, foi apresentada uma visão da fronteira que permanece no imaginário a partir da fantasia que foi criada em relação à fronteira mais famosa da história – a fronteira dos filmes de faroeste – bem como em relação a um imaginário ficcional mais geral sobre o tema. Para este fim, é apresentado brevemente a ideia da fronteira tanto ao longo da história bem como sua construção derivada de políticas migratórias específicas. Outros meios utilizados para entender a percepção da fronteira são tanto séries e filmes, bem como obras literárias consagradas: a clássica imagem da fronteira como território inexplorado, repleto de índios cruéis, a ser conquistado pelo cowboy, também faz parte de um imaginário construído que se cristalizou na memória de muitas pessoas.
No segundo capítulo – por uma sociologia da fronteira – apresenta-se as distintas visões que a sociologia tem sobre o tema escolhido. Inicialmente foi feito um panorama histórico sobre a percepção da fronteira em autores mais tradicionais da sociologia, tanto clássica como moderna. Partindo de Simmel, passando pela clássica obra de Barth, chega-se a Bourdieu e Elias e suas visões sobre a fronteira. Em um segundo momento, a análise foca nos estudos que se desenvolveram nos últimos anos sobre o tema: Zygmunt Bauman, o filosofo francês Balibar, e o italiano Sandro Mezzadra foram os representantes dos modernos border studies, escolhidos para guiar ao longo do caminho a ser trilhado para entender melhor o que pensa hoje a sociologia sobre o tema da fronteira. As ideias de inclusão diferencial, heterogeneidade e polissemia da fronteira são as linhas guias seguidas para construir a visão sobre o tema escolhido.
Em um segundo momento, foi decidido enfrentar a temática de outras fronteiras que podem surgir no nosso dia a dia. As fronteiras de gênero e as fronteiras étnico-raciais são lidas a partir de um olhar mais específico: o feminismo pós-colonial indiano e as leituras de Du Bois e Fanon sobre raça e etnia são fundamentais para entender como estas fronteiras outras se constroem e se desenvolvem, muitas vezes imperceptivelmente, no nosso cotidiano.
No terceiro capítulo é mostrado o caminho percorrido para o desenvolvimento da pesquisa, bem como a escolha e construção das ferramentas que foram utilizadas
para ouvir a população alvo e analisar os dados. Inicia-se com a apresentação da relevância intelectual da problemática, mostrando como os autores escolhidos dialogariam com esta pesquisa e sustentariam as hipóteses apresentadas logo em seguida. Sucessivamente, apresenta-se a população escolhida, bem como os motivos pelos quais foi feita esta escolha: uma região de fronteira em que parte da população desconhece totalmente esta última, oferece uma oportunidade única de conseguir uma heterogeneidade importantíssima para demonstrar a validade das hipóteses do presente estudo. Em seguida, mostra-se como se deu a construção do modelo de análise: inicialmente foram realizadas entrevistas exploratórias, para assim poder ter uma noção mais clara de quais poderiam ser as tendências dos resultados no momento em que o questionário for aplicado. Em um segundo momento, é apresentada a forma escolhida para construir o questionário aplicado e, finalmente, a última parte mostra como se deu a criação e operacionalização dos grupos focais que complementaram o questionário e foram fundamentais para a confirmação de nossas hipóteses.
O quarto e último capítulo demonstra a análise dos dados coletados e os resultados obtidos. Foi traçado inicialmente um perfil geral dos entrevistados, fundamental para entender as características da amostra, para depois, por meio do cruzamento de algumas variáveis, traçar perfis mais específicos em relação ao gênero, classe e posicionamento político. Finalmente, tem-se à análise mais importante, que serve para entender se as hipóteses criadas se confirmam ou não: a análise dos resultados sobre a percepção de fronteira e da relação com os estrangeiros. Os grupos focais apresentados no final do capítulo são o complemento final da pesquisa e servem para esclarecer as dúvidas que podem surgir após a análise do questionário.
2 CAPÍTULO 1: POR UMA ONTOLOGIA DA FRONTEIRA 2.1 A ORIGEM DA NOÇÃO DE FRONTEIRA NO OCIDENTE
A palavra “fronteira” deriva do antigo provençal frontiére, que por sua vez vem do latim frons-frontis: aquilo que está à frente, parte mais à frente (por derivação da parte mais avançada de um exército, portanto o limite, o ponto de contato entre dois exércitos). A fronteira pode ser vista como a divisa entre dois Estados, mas também como o limite entre áreas científicas, como separação entre grupos sociais, entre homens e mulheres, ricos e pobres, brancos e negros, entre estudantes e professores, como uma maneira de distinguir dois lados políticos, separar dois biomas e duas bacias hidrográficas. Enfim, pensar em fronteira é, aparentemente, pensar em diferença e separação.
Desde a antiguidade, a fronteira sempre foi algo muito importante e até sagrado na cultura humana. Basta pensar nos Kudurru3 mesopotâmicos ou os
romanos, nos chamados terminalia4, as festas relacionadas ao culto do deus
Terminus, um deus tão importante no Pantheon romano que era o único cujo culto teve o direito de permanecer no templo de Júpiter Ótimo Máximo, o maior e mais importante templo da Roma antiga.
Considerando a própria fundação da cidade de Roma, conforme a lenda, retorna mais uma vez a questão da fronteira para mostrar o quão importante era para esta civilização. Rômulo e Remo, os dois irmãos filhos de Rea Silvia e do deus Marte, após uma longa narrativa que não será relatada aqui, decidem fundar uma nova cidade na beira do rio Tibre (a futura Roma). Assim, cada um sobe num cole (Romulo no Palatino e Remo no Aventino), pois conforme a indicação de um sacerdote, quem avistasse mais abutres seria o escolhido para a fundação. Romulo sai vencedor, dado que avista doze abutres, enquanto Remo apenas seis. O ganhador pega um arado e começa a traçar o sulco daquele que os romanos chamavam de pomerium5, o sulco
sagrado, a delimitação da futura cidade, a fronteira entre a Urbe6 e o campo. Remo,
insatisfeito com o resultado e com ciúmes do irmão (sempre mais valoroso que ele),
3 Pedras com inscrições variadas que fixavam as concessões de terra aos vassalos e que permaneciam em
templos, enquanto cópias em barro deviam ser postas nos limites das propriedades das terras concedidas.
4 Festividade que acontecia no final do mês de fevereiro, criada pelo segundo rei de Roma Numa Pompilio, assim
que definiu as fronteiras entre as terras dos cidadãos romanos, a fim de sacralizá-las.
5 Fronteira sagrada e inviolável de uma cidade romana.
decide não aceitar o resultado e atravessa o sulco que Romulo acabara de traçar. Este, com fúria e ímpeto, pega uma espada, traspassa o irmão e pronuncia a famosa frase – reportada em Tito Lívio – “sic deinde, cuicumque alius transiliet moenia mea”7.
A defesa de suas fronteiras é a base sobre a qual Roma funda sua origem, nem laços de sangue fraternos poderiam superar a importância que os romanos deram às delimitações sagradas de sua cidade. A civilização que conquistou a bacia do Mediterrâneo na antiguidade acabara de nascer marcando, por meio de um fratricídio, suas fronteiras.
2.2 AS FRONTEIRAS NA HISTÓRIA
Como observado no texto clássico de Martin (1994), a noção de fronteira é um conceito histórico que muda ao longo do tempo. Para pensar num percurso histórico da noção de fronteira, devemos seguir o geógrafo paulista e iniciar prioritariamente pelos grandes impérios da antiguidade: China, Império Romano e Civilização Inca.
Em relação à China antiga, não passa desapercebido que nela tem-se o maior símbolo de uma fronteira entendida como separação: a grande muralha, a maior fronteira artificial construída pelos seres humanos, defendendo os chineses dos invasores que vinham do Norte. Trata-se de uma construção incrível, repleta de torres, fortins e portões que se estendiam do mar até a Ásia central, confundindo-se com a própria noção de fronteira como espaço físico de separação entre povos e nações.
Outro império da antiguidade que fez uso de fortificações para separar suas fronteiras foi o Império Romano. Este império costumava usar os limites naturais8
como fronteiras para proteger seus territórios, porém, o limes romano teve também casos frequentes de barreiras artificiais construídas para impedir invasões de populações externas ao império. O caso mais famoso são as duas muralhas (de Antonino e Adriano) que protegiam a província romana de Britânia da invasão dos pictos e dos escotos. Se constituíam em duas linhas de fortificações situadas no Norte da Inglaterra, projetando-se de mar a mar nos dois locais mais estreitos da ilha
7 Tito Livio (1982) “Ab urbe condita” 1,7 - “assim, portanto, será para qualquer outro que passe meus muros”
(tradução nossa).
8 A fronteira romana, ou limes, como era conhecida, consistia em uma série de barreiras físicas que protegiam
as fronteiras do império. Este limes podia ser um rio, como no caso do Reno na atual Alemanha, montanhas, como no caso dos Cárpatos, ou um deserto, como no caso do Sul do Egito.
britânica, e que consistiam de muros e fortalezas em pedra. O valo Adriano, bem melhor conservado que o valo Antonino, mostra uma série de fortificações em lugares estratégicos que formam um continuum ao longo da divisa, assemelhando-se em muitos aspectos à grande muralha chinesa.
Observando outro continente, podemos perceber como a noção de fronteira entendida como fortificação, para defender os territórios das invasões externas, se repete. Os incas, segundo Martin (1994), são mais um exemplo de império que criava fronteiras estáticas e defensivas por meio de trincheiras e outras fortificações. Estas fronteiras, seguras e fixas, acabam criando uma contradição: se as fronteiras rígidas e fechadas ajudavam no desenvolvimento da sociedade, tanto do ponto de vista de aumento de produção agrícola como também em relação ao aumento populacional, este mesmo crescimento populacional se tornava um problema devido à rigidez destas barreiras que limitavam a circulação de pessoas e restringiam a possibilidade de saída de um território fisicamente limitado.
Se pensarmos nas fronteiras durante a idade média (na Europa Ocidental, mais especificadamente), percebemos claramente que estas não são mais tão rígidas como na época do Império Romano, uma vez que com a dissolução deste último, com a fragmentação do continente em microestados e com a pulverização da economia, o único fator que mantinha uma unidade era a religião cristã. Pode-se, de qualquer forma, pensar em três macrorregiões europeias separadas pela maior ou menor influência romana (desde o Sul da Europa, onde há uma influência maior para chegar ao Norte, onde esta influência é quase mínima).
O mais interessante a ser notado neste período era a quase total leveza e fragilidade das fronteiras. Como observado no momento da morte do Imperador Luís, o Piedoso (filho de Carlos Magno), ao dividir o império entre seus três filhos (Lotário, Luís, o Germânico, e Carlos, o Calvo) na hora do tratado de Verdun, em 843, os dignitários lá presentes perceberam a existência de um quase total desconhecimento, tanto cartográfico como geográfico para definir detalhadamente, e com a devida precisão, as fronteiras entre os três reinos. Diferentemente da época romana, as fronteiras na idade média não passavam, portanto, de uma mera obra de ficção. Vários fatores modificaram esta situação: em primeiro lugar, a necessidade de regularização da propriedade da terra, ligada ao novo modo de produção mercantil que estava surgindo e que permitiria alcançar uma maior precisão na delimitação dos confins. Como é sabido, nesta época houve grandes mudanças nos sistemas, tanto
econômico como político. A dispersão da produção respondeu à centralização da política. Tornou-se mandatório, portanto, criar um elemento que unisse estas duas partes. Assim, graças à esta mudança e ao crescimento científico, foi impulsionado o desenvolvimento da cartografia (Martin, 1994). De qualquer forma, foi o Tratado de Westfalia (1648) que, devido à inauguração de um novo sistema moderno de divisões, pode ser considerado o marco do nascimento da moderna noção de fronteira na Europa Ocidental (informações detalhadas adiante).
O problema das fronteiras, portanto, começa a se confundir com a questão das nacionalidades, das políticas dos Estados modernos, e se estrutura conforme avançam as ciências ligadas à cartografia (matemática, astronomia, entre outras). A partir deste momento, as fronteiras não são mais imaginadas e nebulosas como eram anteriormente, mas podem ser projetadas e criadas (como o Tratado de Tordesilhas, por exemplo). É possível afirmar, portanto, que o surgimento do Estado nacional moderno é o responsável pelo estabelecimento de limites rígidos e precisos e, sobretudo, de políticas ligadas ao atravessamento destes limites: as políticas migratórias, que serão analisadas mais detalhadamente a seguir, com objetivo de melhor entender os fluxos fronteiriços.
2.3 AS POLÍTICAS MIGRATÓRIAS COMO FORMA DE FORTALECER AS FRONTEIRAS
As políticas migratórias caracterizam a maneira que os Estados modernos têm de regulamentar o fluxo de cidadãos que podem ou não cruzar suas fronteiras. Refletindo melhor, representam algo a mais: são as políticas que fazem com que uma pessoa que vive entre estas fronteiras seja um cidadão pleno, com seus direitos e deveres, e de outra pessoa, um indesejado que não possui tais direitos e, consequentemente, tampouco os deveres.
Estas políticas não são uma invenção moderna. Apesar de serem altamente utilizadas nos modernos Estados nações, foi na modernidade que elas tiveram seu pleno desenvolvimento e aplicação, com todos os problemas que isto gerou. Para tentar entender estas políticas, vamos dá-se um salto para trás de quatro/cinco séculos e volta-se sucessivamente aos dias de hoje, guiando-se neste percurso pelo texto de Sciortino (2017).
2.3.1 Os tratados como início do problema
O grande problema das fronteiras e, portanto, de suas regulamentações, começou aparentemente com os conflitos que seguiram à reforma protestante iniciada por Lutero. Formou-se neste momento, na Alemanha de Carlos V (na cidade de Esmalcalda), uma liga defensiva de príncipes que logo se tornou referência para a liberdade da confissão da religião protestante. Esta liga criou problemas ao soberano Habsburgo ao longo dos anos em que foi ativa e, mesmo derrotada, conseguiu alcançar um importante feito na história religiosa - e não só - do país.
No ano de 1555, na cidade hoje alemã de Augsburg, se reuniram soberanos e embaixadores de vários países para tentar solucionar algumas das grandes questões geradas pela reforma protestante na Alemanha. O resultado mais famoso deste tratado é o princípio cuius regio, eius religio9, que implicava a liberdade religiosa e
dividiu o país entre católicos e protestantes (divisão que permanece ainda hoje, em maior ou menor escala). Porém, o grande legado deste tratado são alguns direitos que ainda hoje são reconhecidos internacionalmente.
Os dignitários lá reunidos debateram e regulamentaram o ius reformandi, ou seja, presentearam o monarca, que já tinha direito de intervir sobre o corpo do súdito (coisa corriqueira e abertamente consolidada naqueles dias), também com o novo direito de intervir sobre a mente destes, para deixar esta mais próxima (do ponto de vista religioso) à do chefe da região. Ao mesmo tempo, garantiram para quem não quisesse se tornar religiosamente tão parecido ao monarca, do lugar onde morasse, a possibilidade e o direito de se deslocar rumo a outras terras: o ius emigrandi. Tratava-se basicamente do núcleo inicial, de um embrião de liberdade de consciência com a consequência de todas as liberdades civis que desta derivam. Quem quisesse praticar uma religião diferente daquela praticada pelo soberano poderia deixar o território, cruzar sua fronteira, mesmo por um breve tempo, e não perderia suas propriedades nem seus direitos. Aproximadamente um século depois, o Tratado de Osnabruque (documento fundamental para a paz de Westfalia, que em 1648 acabou com a guerra dos trinta anos) ratificou definitivamente estas regras: os signatários
9 Ao pé da letra: de quem é da região, a sua religião, é um princípio que concedia às autoridades locais o direito
de estabelecer a religião oficial daquele Estado sobre o qual detinham poder político. Foi aplicado após o Tratado de Augsburg para, finalmente, pôr fim a problemas religiosos que vinham se arrastando ao longo dos anos.
garantiram o direito de emigração para quem praticasse uma religião diferente, caso o soberano fosse zeloso demais na aplicação do ius reformandi.
Nesta garantia e nestes dois tratados encontram-se as sementes das políticas migratórias e, também, dos problemas que hoje são enfrentados pelos países que recebem imigrantes. Tudo isto não devido ao que neles foi escrito, mas exatamente àquilo que foi deixado de escrever, pois ninguém pensou, no momento em que estava sendo regulamentado o ius emigrandi, que seria interessante regulamentar também o ius immigrandi. Os soberanos eram obrigados a aceitar a decisão dos súditos que queriam sair dos seus territórios, mas não eram obrigados a aceitar a chegada dos súditos que abandonavam os territórios dos outros. Neste exato momento, o mundo no qual vive-se hoje tinha sido criado. Migrantes regulares e irregulares, refugiados e outras categorias, todos têm uma coisa em comum: precisam, em algum momento, da autorização do país receptor. Esta situação, inconscientemente criada pelos signatários dos dois tratados, é a normalidade na migração moderna e contemporânea, quer se trate de filas imensas para entrar em Ellis Island, no século passado, quer se trate da chegada em barcos nas praias italianas ou a travessia do deserto mexicano nos dias atuais. Tudo isto é consequência de algo que aconteceu (ou melhor, não aconteceu) naquele momento.
A intenção deste texto não é debater sobre a falta de regulamentação do ius immigrandi. Contudo, é preciso trazer aqui uma nota explicativa, mesmo que simples, para este fato. Existiam razões importantes para não regulamentar o ius immigrandi, sendo a principal o fato que todos os senhores precisavam de mais súditos. Vivia-se num mundo escassamente povoado, sendo necessário ter mais pessoas nos feudos para ter mais terras cultivadas e mais pessoas para pagar impostos. Neste sentido, a mão de obra não especializada era bem recebida em qualquer lugar. Isto tudo ficou mais claro depois das migrações Huguenotes, que ao longo de todo o século XVI levaram, da França para a Holanda, por exemplo, além de mais pessoas, novas tecnologias, fluxo de capitais privados e novas visões de mundo, enriquecendo o país receptor.
2.3.2 Aux armes, citoyens
A época das revoluções e a aventura napoleônica ajudaram a moldar ainda mais o mundo como o conhecemos hoje. O governo francês, na época napoleônica,
pediu a seus prefeitos um censo da população presente em seus respectivos territórios, com intuito de saber basicamente quantos cidadãos poderiam ser alistados para o exército (agora não mais profissional, mas formado por cidadãos comuns). Em menos de um século, desde este primeiro censo, o controle sobre a população foi muito parecido àquele conhecido hoje: um controle da mobilidade interfronteiriça estritamente ligado à ideia de soberania nacional.
Outro efeito importante da revolução, com o qual deve-se dialogar ainda hoje, é a noção de cidadão, pois ao criar a figura do cidadão pleno, detentor de direitos, a constituição revolucionária criou, por oposição, seu contrário: o não cidadão, o que não tem direitos. A criação do cidadão como figura abstrata foi um grande avanço na direção da homogeneidade da cidadania, agora não mais reservada apenas a alguns por capricho de um rei ou por costumes históricos, mas finalmente concedida irrestritamente e abstratamente àqueles que tivessem nascido em determinado lugar. Surge com isto uma questão: assim como nasce uma categoria plena, abstrata e homogênea de inclusos, ao mesmo tempo nasce, por oposição, uma mesma categoria plena, abstrata e homogênea de exclusos. Ao criar o moderno cidadão, a revolução francesa cria o moderno estrangeiro, definido em negativo como externo à comunidade nacional.
O problema principal desta lógica, que ainda hoje rege o princípio da cidadania, é que os cidadãos das democracias liberais, como tais, têm direitos e ao mesmo tempo deveres. Surge, portanto, uma questão política: se o Estado moderno pretende dos seus cidadãos obediência total e lealdade plena, como ele poderia em troca oferecer os mesmos direitos que oferece a todos, cidadãos ou não cidadãos imigrados? Dar importância à cidadania significa, assim, criar um sistema de circuitos redistributivos que privilegiem os cidadãos em detrimento dos estrangeiros.
2.3.3 Após a revolução: o que fazer?
A mudança drástica que seguiu a Revolução Francesa e a epopeia napoleônica gerou um momento histórico sem iguais que acabou influenciando a nova organização do Estado: cada vez mais presente, cada vez mais organizado administrativamente e distante da sociedade civil. As mudanças do século XIX foram, pelo menos na Europa, mais dinâmicas do que eram antigamente. Um novo mundo estava se criando rapidamente e mudanças estruturais que normalmente
demandariam longos períodos agora eram mais repentinas. Um novo sistema produtivo, a fuga do campo rumo à cidade, passagem da manufatura para a indústria e descobertas científicas vieram acompanhadas de uma nova visão de Estado. Esta nova entidade, mais racional administrativamente, com nova organização, novas constituições, departamentos e ministérios e uma nova linguagem administrativa que se distancia da linguagem coloquial, acaba se afastando cada vez mais da sociedade civil. Assim, o Estado e sociedade civil criam cada um seu espaço autônomo.
Estas mudanças estruturais acompanham também mudanças na mobilidade em todas suas formas conhecidas. Do campo para a cidade, de uma cidade para outra cidade, de um país para outro, de um continente para outro, os sistemas migratórios têm um impulso como nunca antes. Os viajantes individuais se tornam os heróis desta época e os migrantes a normalidade. Surgiu o que parece ser um paradoxo durante o século da consolidação dos estados-nação. Desapareceram as proibições de saída (como observado previamente), porém, ainda não havia regulamentação para a entrada (situação na qual uma pessoa se encaixava caso fosse branco, importante ressaltar). Isto gerou uma mobilidade sem precedentes ao longo de um século, mas as primeiras tentativas de regulamentação estadual dos movimentos de seus cidadãos não tardaram a aparecer.
Quem ajuda a fomentar o desenvolvimento de uma noção de maior presença e atuação do Estado sobre seus cidadãos e, por consequência, também da legislação restritiva em relação à migração, oferecendo para isto suas ferramentas filosóficas, é o alemão Immanuel Kant. Pensador extremamente influente, suas bases teóricas serão utilizadas para contribuir com o desenvolvimento do pensamento liberal que se consolidará ao longo do século XIX.
Pode-se resumir a proposta filosófica de Kant como uma tentativa de apontar a razão como último juiz de todas as coisas. A razão é o metro por meio do qual posso medir todas minhas ações e a luz que preciso seguir para que minha vida em sociedade aconteça da melhor forma possível. O fio condutor do pensamento deste autor é que somos humanos porque somos sujeitos de razão e, portanto, é diante desta razão que tudo o que merece existir deve se espelhar. Assim fazendo, o autor coloca o ser humano, entendido como indivíduo, em primeiro lugar em relação às temáticas políticas e, dessa maneira, vincula entre si autonomia, razão e liberdade individual. O grande limite desta razão, como sucessivamente apontará Hegel, é que ela tem natureza totalmente abstrata, não concretizável e plenamente desancorada
do seu tempo e do mundo real.
A noção de imperativo categórico criada por Kant é importante pois é necessária para dirimir os conflitos morais internos ao indivíduo que eventualmente podem aparecer. Já em relação aos conflitos externos (interindividuais), o autor pensa que a lei que deve presidir as ações tomadas em sua exterioridade é a lei jurídica, o direito como o conhecemos. Esta lei prescreve deveres externos e se faz obedecer por motivos empíricos e coercitivos, não simplesmente porque deve ser moralmente cumprida. O caráter de coerção da lei é fundamental para a convivência, pois assegura a observação da mesma por parte também daqueles que não seguiriam a obrigação moral categórica e, assim, disciplinando as livres vontades, consente a convivência pacífica das vontades individuais.
Ainda, Kant escreve que o direito é “o conjunto das condições para as quais o arbítrio de cada um (a vontade de cada um) pode se acordar com o arbítrio dos outros, segundo uma lei universal de liberdade”10 (KANT, 1784 apud COLLINA; BONAIUTI,
2010, p. 123-4). Passamos assim do direito para a liberdade, uma liberdade dentro da qual as ações convivem pacificamente com as ações dos outros: a liberdade de cada um é assim coordenada pelo direito para não ferir a liberdade dos demais.
Percebe-se claramente que Kant é um teórico do estado de direito que propõe como fim último do Estado, não diretamente a felicidade coletiva (como vários iluministas da sua época pensavam), mas a liberdade individual. Pode-se, portanto, inferir que cabe ao Estado regulamentar as vontades individuais para garantir uma liberdade coletiva que derive da ausência de abuso das liberdades individuais. Também, o direito individual à migração deve, necessariamente, ser moderado pela lei jurídica a fim de não ferir a liberdade dos cidadãos dos Estados receptores. Mas como se efetivou na prática esta regulamentação?
2.3.4 Muros e mais muros
“Há momentos em que, quando olho para as regulamentações dos países do mundo que afetam os imigrantes, vejo em meus olhos a construção de países
10 “L’insieme delle condizioni per le quali l’arbitrio di ognuno (la volontà di ognuno) può accordarsi con l’arbitrio
cercados por muros, como as cidades cercadas por muros do período”11 (FIELDS,
1938 apud ZOLBERG. 1999, p. 71), escrevia Harold Fields há quase cem anos, no auge da primeira crise de imigração que envolveu os Estados Unidos. Assim também poderia escrever qualquer pessoa nos dias de hoje, sem parecer anacrônico. Uma constatação fundamental que devemos fazer ao tentar entender as migrações, é que elas dependem de inúmeros fatores: riqueza do país receptor, pobreza no país de origem, desejo daqueles que migram, maior ou menor facilidade de chegada no novo lugar. No entanto, às vezes há algo que esquecemos e que possui um peso considerável na decisão tomada por alguém ao mudar de lugar: a política migratória e a legislação que desta diretamente deriva. É fundamental não se ater apenas à política migratória do país receptor, mas pensar na do país de origem também, ressaltando que até 30 anos atrás quase metade do mundo (a metade ao Leste da cortina de ferro, principalmente) não podia mudar de país com tanta facilidade devido às leis extremamente restritivas que existiam naqueles lugares. Salienta-se também a Inglaterra da época Elisabetana, que restringia as migrações internas em direção à capital. Com certeza estas políticas influenciaram os fluxos migratórios de vários lugares do mundo, embora a possibilidade de sair tenha sido sempre relativamente facilitada, podendo-se deixar de lado, neste texto específico, a política emigratória. Nesse sentido, concentra-se nas políticas imigratórias que os Estados receptores adotaram ao longo de sua história recente, ainda mais porque as políticas migratórias restritivas em relação à saída são extremamente complexas de serem estudadas e um texto com este teor apenas introdutório não seria suficiente para a compreensão de um tema tão variado.
Ao analisar as políticas migratórias em um dos países que mais recebeu imigrantes ao longo da história, os Estados Unidos, pode-se perceber que a política do laissez-faire, pela qual esta nação ficou famosa, foi deixada de lado em inúmeras ocasiões ao tratar das migrações, dando lugar a medidas restritivas e regulamentações (e.g., em 1875, para evitar o crescimento da comunidade oriental, foi proibida a entrada de mulheres chinesas; em 1882, foi proibida a entrada de trabalhadores chineses; em 1885, houve uma proposta, que se tornou lei em 1917,
11 “There are times when, as I look at the regulations of the countries of the world affecting immigrants, I see in
my mind’s eye the building up of walled-in countries, much like the wall-encircled towns of the medieval period”
exigindo que os trabalhadores que quisessem imigrar para os Estados Unidos soubessem ler). De qualquer forma, a maior pedra do muro americano contra a imigração foi colocada no período entre 1896 e 1924, quando foram criados impostos sobre a imigração, regras e restrições baseadas em critérios políticos, critérios sanitários, restrições ligadas ao analfabetismo, proibição de imigração chinesa, entre outros. Se tratava claramente de uma política migratória com interesse principal em manter uma nação WASP12. De qualquer forma, a criação de leis que proíbem a
imigração não as torna necessariamente eficazes. Na opinião de vários teóricos das migrações, deixar de lado as regulamentações migratórias incidentes em vários Estados significa estar fadado à criação de uma análise fraca. O próprio Ravenstein, considerado por muitos o pai-fundador das teorias migratórias modernas, relatava que “correntes migratórias que vão naturalmente em determinada direção [...] podem [...] ser desviadas, ou até paralisadas, por atos legislativos”13 (RAVENSTEIN, 1889,
apud ZOLBERG, 1999, p. 73).
2.3.5 E no Brasil?
O Brasil é considerado um país de alta imigração. Mesmo não alcançando os números estratosféricos de migrantes que os Estados Unidos receberam, o país fez sua parte ao receber pessoas de todos os lados do globo.
Como é de comum conhecimento, o Brasil incentivou por vários motivos a migração ao longo do século entre meados de 1800 a meados de 1900, destacando-se o chamado projeto civilizatório (SEYFERTH, 2002). Segundo este, dever-destacando-se-ia privilegiar a entrada de imigrantes brancos, cultos e aptos para o trabalho. O primeiro estímulo (subsidiado pelo governo português) para a chegada de migrantes aconteceu em 1815 com uma colônia de suíços instalada na atual Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, já abrangendo o objetivo “embranquecedor” do projeto. Esta empreitada não teve o sucesso esperado devido a problemas logísticos14. Ao
12 Acrônimo para White Anglo-Saxon Protestant – brancos de origem anglo-saxã que professam a religião
protestante.
13 “Currents of migrations which would flow naturally in a certain direction (…) may (…) be diverted, or stopped
altogether, by legislative enactments” (tradução nossa).
14 “Vários problemas inviabilizaram a colonização de Nova Friburgo: o alto custo do agenciamento e da
manutenção do núcleo colonial, as altíssimas taxas de mortalidade na viagem e nos primeiros meses após a acomodação, a má qualidade das terras, o isolamento (apesar da proximidade de Cantagalo e suas grandes propriedades cafeeiras) (NICOULIN, 1981 apud SEYFERTH, 2002). O empreendimento perdeu a maior parte dos
contrário, conforme relata Geralda Seyferth (2002), o projeto apresentou resultados efêmeros. No entanto, apesar dos resultados desencorajadores, abriu-se o caminho para que, dez anos mais tarde, num Brasil finalmente independente, houvesse a retomada deste modelo de projeto.
Foi assim subsidiada novamente, a partir de 1824, a vinda de migrantes (principalmente alemães) que se estabeleceram nas colónias do Sul do país. Naquele momento, o Brasil objetivava principalmente com a migração a ocupação do território nacional e, ao mesmo tempo, caminhar rumo à civilização. É interessante notar os vários fatores que impulsionaram a migração de alemães, destacando o fato de serem considerados agricultores eficientes, seguindo uma linha que foi marcada na legislação migratória direcionada à colonização da época: “nas regras de admissão de estrangeiros, o imigrante ideal, o único merecedor de subsídios, é o agricultor; mais do que isso, um agricultor branco que emigra em família” (SEYFERTH, 2002, p. 119). Contudo, a migração teve uma forte redução quando, em 1830, foi aprovada uma lei que proibia gastos com migração, e assim, impedia na prática a migração subsidiada. Desta forma, por um longo período, o fluxo migratório foi extremamente reduzido até que, já às vésperas da abolição da escravatura, o país voltou a ter interesse pelas questões migratórias devido à necessidade iminente de mão de obra livre para suas lavouras de café, em plena expansão à época. Foi retomado o subsidio à migração e, em pouco menos de cinquenta anos, houve entrada de milhões de alemães, poloneses, italianos, portugueses (estes, aliás, foram os únicos que sempre tiveram as portas abertas), espanhóis, japoneses, sírio-libaneses, entre outros (OLIVEIRA, 2015).
Estes distintos grupos de migrantes chegaram aqui em consequência de acordos estipulados entre os países de saída e o Brasil. Não se exagera ao afirmar que as políticas migratórias eram criadas basicamente pelo país de saída do migrante, pois o Brasil neste momento precisava de mão de obra e, portanto, salvo algumas exceções, não apresentava política restritivas. Não se chegava ao paradoxo citado aqui anteriormente, relatando sobre a migração interna ao continente europeu (LUCASSEN; LUCASSEN, 2009; SCIORTINO, 2017), uma vez que no Brasil havia restrições para a migração tanto de natureza política como ideológica, além de outras
colonos suíços (muitos retornaram à Europa) e só não desapareceu porque após a independência foram para lá encaminhados imigrantes alemães” (SEYFERTH, 2002, p. 193).
relacionadas a doenças e à idade (embora exagera-se um pouco ao afirmar que vivia-se num momento em que não haviam restrições para sair e quavivia-se não haviam regulamentações para entrar).
As primeiras restrições à entrada de estrangeiros aparecem durante a ditadura de Getúlio Vargas. Após a crise de 1929, há uma queda geral da migração para a América do Sul e, em especial, no Brasil. O fator que mais contribuiu para este declínio foi a lei dos 2/315 (1931), que regulava a contratação de estrangeiros em
estabelecimentos comerciais e a lei de cotas16 (1934), que restringia a entrada de
estrangeiros no país (com exceção de portugueses). Tratava-se de uma legislação precedida de intensos debates, e que tinha como finalidade, entre outras, ajudar a alcançar o objetivo de fiscalizar e nacionalizar as numerosas comunidades migrantes – seus núcleos de imprensa, suas escolas – presentes no Brasil, além de regular a migração futura (GERALDO, 2009). É interessante ver, no caso do segundo decreto, como as emendas colocadas pelos parlamentares tentam, mais uma vez, manter um padrão de migração para o Brasil, restringindo ao máximo a migração da África, limitando – ou proibindo totalmente – a da Ásia, impedindo a entrada de anarquistas, de doentes (tanto físicos como mentais), e tentando explicar cientificamente os motivos de preferirem brancos indo-europeus do que outras etnias.
O governo Vargas não parou de definir sua política migratória com esta lei (embora não serão abordados aqui todas as medidas tomadas durante este período). Atem-se à lei de cotas como a primeira de uma série de leis que miraram alcançar este objetivo e que teve como efeito a regulamentação da migração. Regulamentação esta que chegou a ser revista, após a era Vargas, durante a ditadura militar que, em 1980, criou a lei nº 6815, conhecida como “estatuto do estrangeiro”.
O “estatuto do estrangeiro” é uma lei em consonância com o período político em que foi criada e que tinha como caraterística principal uma visão do estrangeiro migrante como uma ameaça à soberania nacional. Além de dificultar enormemente a entrada, era vedado aos estrangeiros residentes se reunirem em associações, exercer cargos de líderes sindicais, entre outras proibições. Esta regulamentação, altamente limitadora da mobilidade internacional, esteve vigente até pouco tempo
15 Decreto 20.291, de 12 de agosto de 1931. 16 Decreto 24.215, de 9 de maio de 1934.
atrás17, regulando a entrada e permanência de estrangeiros no país.
2.3.6 Estados e identidade
Para melhor entender as políticas migratórias no âmbito global, é fundamental começar compreendendo que estas não entram no “jogo” apenas como outsiders numa partida disputada somente entre fatores sociais e econômicos, mas sim como elementos constitutivos dos fluxos migratórios. As migrações internacionais são os efeitos – também – de processos políticos que acontecem em um mundo feito de Estados nacionais mutuamente exclusivos. Se trata, conforme mencionado anteriormente, de leis e regulamentações que variam dependendo da época histórica ou do país envolvido, não sendo possível encontrar, portanto, um padrão de comportamento único.
As migrações envolvem basicamente três atores: os que enviam, os que se movimentam e os que recebem. Normalmente, o primeiro e o terceiro componentes desta tríade são os Estados nacionais, para os quais, como dizia Hannah Arendt, “em questões de emigração, naturalização, nacionalidade e expulsão a soberania é mais absoluta” (ARENDT, 2012, p. 382). Desta noção deriva um problema de soberania, uma vez que se qualquer Estado tiver o direito de aplicar políticas migratórias para o próprio território-nação, é preciso que haja um consenso e uma relativa pacífica convivência internacional. Este consenso/convivência deve ir além das fronteiras para garantir que cada um não abuse da própria soberania em detrimento de outros Estados, já que é importante a existência de um equilíbrio entre estes, para frear os abusos, e que este equilíbrio se origine de interesses recíprocos.
Os interesses que com frequência direcionaram as políticas migratórias ao longo da história foram basicamente de ordem econômica. Podemos tranquilamente dizer que estas políticas responderam sobretudo às necessidades tecnológicas e econômicas dos Estados receptores. Os migrantes, por causa disto, são vistos até hoje como simples mão de obra, como trabalhadores e nada mais. Sua recepção também reflete esta visão. Em linha de princípio a chegada de imigrantes é bem vista, por exemplo, por empresários - já que costumam ser mão de obra mais barata -
17 Em 24/05/2017 foi sancionada a lei 13.445 mais conhecida como lei de migração, mais aberta que a anterior