Q u a torze a n os a trá s, o J ou rn a l of La tin Am e rica n Lore p u b licou u m e xte n-so a rt ig o d e Don a ld La th ra p , An g e lik a G e b h a rt -Sa ye r e An n M e ste r (1985) sobre a re la çã o d e g ru p os p a n o d a Alta Am azôn ia com u m a a risto-cra cia q u e ch u a .
Em m e io a u m a e n ciclo p é d ica e o u sa d a re c o n s t r u çã o d o p ro c e s s o h istórico p a n pa n o, a p e ça d e con vicçã o do a rtig o e ra u m a sé rie d e re l a -tos p rota g on iza d os p e lo In ca , ob tid a p or G e b h a rt-Sa ye r e n tr e os ín d ios d o Uca ya li. Sé cu los a n t e s d e su a in sta la çã o co m o s e n h ore s n os An d e s, a lg u n s g rup os q u e ch u a te riam e sta b e le cid o seu re ino na se lva , e a tra d i-çã o ora l con se rva ria p re ciosos d e ta lh e s d a q u e la é p oca .
As tra d içõe s re f e re nt e s a o In ca e n tre ín d ios d a Alta Am a zôn ia n ã o e ra m d e sconh e cid a s a n te s d e 1985. Long e d e se limita re m a os g ru p os flu -viais do Uca ya li (a fin a l, rela tiva m e n te p róxim os aos An d e s), e ste n d e m -se tam bém a g ru pos ma is orien ta is, esp ecialm en te os Ka xina wá. M as até e n t ã o o a ssu n to n ão p assa va d e u m a va g a cu riosida d e m itológ ica . A in te rp re t a -ção “ im e dia tista ” de u m a tra d içã o ora l, q ue dá o tom d o a rtig o, e n c o n t ro u m u ita re sistê ncia e n tre a n trop ólog os e h istoriad ore s - a rq u e ólog os, e ob ri-gou a u ma definiçã o de p osiçõe s. En tre re se n has críticas, re sp osta s e re d a r-gü ições, formou -se u m c o rp u s i m p o rta nte d e litera tura s o b re o “Inca P a n o ”1. Um re su m o, u m a a n á lise ou u m a con tin u açã o da p olê m ica d e m a n d a ria m de m asia do esp aço; basta rá in dica r as d u as linh as princip ais d e crítica .
A p rime ira p ostula q u e q u a lq u e r “m e mória ” d o In ca p od e ser re d u z i-d a a con te ú i-d os a tu a is. Esse s re la tos sob re u m In ca a m b íg u o — u m h e rói cu ltura l, orig em d e riq u eza s, m as ta mb é m um opressor me sq u inho — su g e -re m um a -refle xão sob -re o bra nco, e sob -re os ciclos d e a lian ça e g uerra q u e com e le ma ntive ra m d u ra n te sé culos os índios d o Uca ya li2. Inca s d e b atin a , ou forn e c e d o re s d e motore s, com o a lg u n s q u e a p a re cia m n o m a teria l shi-p ib o, con stituía m a shi-poios con vince n te s shi-p ara a su sshi-p e ita d e q u e d a d os e shi-pe r-sona g e ns h istóricos nã o eram ma is do q ue pe ça s na b ricola g em m itológ ica.
O I N CA PAN O: M I TO, H I STÓRI A E
M O DELO S ETN OLÓGI COS
O sca r C a la via S á e z
O u tra lin h a crít ica — com p a tíve l com a p rim e ira — in d ica va font e s a lte rn a tiva s p a ra a fig u ra d o In ca , fa ze n d o d e sn e ce ssá ria a te se d a m e m ória . O fa n ta sm a in ca ico, com o sa b e m os, te m sido u m a con sta n te n o m u n -d o a n-d in o e circu m -a n -d in o. O s a g e n t e s -d o im p é rio e sp a n hol q u e in corp ora ra m o m od o “ in ca ico” d e en ten d e r a se lva , os m ission á rios em corpe n h a -d os e m -difu n -d ir o q u e ch ua com o líng u a fra n ca, os lí-d e re s -de movim e n tos m e ssiâ n icos q u e a g ira m com o d e sce n d e n te s d o In ca e os a ra u tos d e a lg um a s va rie d a d e s d e n a cion a lisum os in d ia n ista s t êum a tu a liza d o con sta n te -m e nte , de sd e o sé cu lo XVI a té o p re se n te , u -m -m ito In ca3. A tese d e La th -ra p re ivin d ica a con sciê n cia h is tórica d os ín d io s a m a zôn ic os, m a s d e m od o sin g u larm e n te coe re n te com o p a ra d ig m a p rim itivista : e la se m a n i-fe sta ria n a le m b ra n ça p a ssiva d e u m a orig e m cu lt u ra l re m ota . M e lh or s e rviço se fa r ia à e tn oh is tória in d íg e n a d e m ostra n d o a ca p a cid a d e d o s “ h i s t o r i a d o r e s” ind íg e n a s d e a d ot a r e a d a p ta r in form a çõe s m a is re c e n tes. Pou cos a u tore s n eg aria m hoje a in ten sid ad e e a a n tig u id a d e d a com u -n ica çã o e -n tre a co rd ilh e ira e a flore sta . O s d ocu m e -n tos h is tóricos sã o ta xa tivos, a b u n d a nte s e re la tiva m e n te be m con h e cid os: só u m ce rto b i a s e volu cion ista te n d ia a fa ze r da s d u a s re g iõe s p ólos opostos n a tip ologia d a s cu ltu ra s a m e rica n a s.
Em p rin cíp io, a s d u a s cr ít ica s à te se d e La t h ra p , G e b h a rt- S a ye r e M e ste r sã o com p a tíve is com o re con h e cim e n to d e u m con ta to p rim itivo e n t re e lite s a n d in a s e p ovos a m a zôn icos. Fora m form u la d a s p or e sp e cia -lis ta s in te re ssa d o s n a e tn oh istór ia , isto é , a b e rto s à le g it im id a d e d a m e m ória in d íg e n a . Se tira rm os d e ce n a o fu n d a m e nta lism o inte rp re t a t i v o d e G e bh a rt - S a y e r, a p olê m ica e n colh e p a ra u m a d iscu ssã o d e d e ta lh e s. C om o u m tod o, foi útil p ara e xp or ou q u e stiona r e sse e volu cion ism o re s i-d u a l e m b u tii-d o e m b in ôm ios a n a lítico s com o te rra s a lta s/ b a ixa s e m e io f l u v i a l / i n t e rflu via l ou ce r ta s a ce p çõ e s su b sta n cia list a s d a h istó ria e d a id e ntid a d e é tn ica ; m a s a lg u m a s d e su a s con se q ü ê n cia s n ão fora m e xp lo-ra d a s. As crítica s, n o se u con ju n to, op ta lo-ra m pe la d issolu çã o: a p osta lo-ra m n a ca p a cid a d e d a cu ltu ra d e d ig e rir d a d os h istóricos, ou e m u m a e n xu rra d a d e in form a çõe s “ in ca ica s” q u e tirra ria d o In ca Pa n o qu a lq u e r r e l e -vâ n cia e sp ecífica . A p rop osta d e G eb h a rt-Sa ye r m a n té m , a p esar d e tu d o, o a tra tivo d e recon h e ce r u m e le m e n to h istórico irre d u tíve l — a lgo qu e a s a n á lise s se m â n tica s con se g u e m e lu d ir, m as n ã o in te gra r: por q u e, a fin a l, o In ca se m p re ? Por q u e nã o sim p le sm e n t e o m ito d o Bra n co qu e en con -tra m os e m ta n tos ou tros lu g a re s?
u m a d a s e tn ia s m a is n u m e rosa s d a Am a zôn ia — com u m a p op u la çã o a va -lia d a e m torn o d e 23.000 in d ivíd u os —, ocu pa m o ce n tro da q ue stã o inca i-ca . O s Ka xin a w á tê m su a s a ld e ia s n o cu rso a lto de vários rios d o siste m a J u ru á - P u ru s, m a s os d a d os ofere cid os aq u i p roce d e m , e m su a m a ior p a r-te , d e g ru p os situ a d os n o Alto Pu ru s. Eles fa ze m fre qü e n r-tes re fe rê n cias a o In ca n a su a m itolog ia , e m bora e m lu g a r m e n os ce n tra l q ue n o ca so s h i p i-b o. O s Ya m in a w a , e n fim , n ã o tê m re la tos soi-b re o In ca4, m a s e sta é u m a falta q u e p od e se r sig n ifica tiva . C om e fe ito, a s d ive rsa s crítica s à “ m e m ó-ria d o In ca ” e xp lica ó-ria m coe re n te m en te a p re se n ça d e sse p e rson a g e m n a tra d içã o ora l d e a lg u n s p ovos, m a s n ã o su a a u sê n cia sis te m á tica n a d e o u t ros q ue com p a rtilh a m com os p rim e ir os o m e sm o e sp a ço g e og rá fico e lin g ü ístico, o me sm o h istórico de re la çã o com os bra ncos, e n fim a m e sm a m i t o l o g i a5. O u t ros g ru p os p a n o, ou g ru pos a ra w a k vizin h os, p od e ria m se in te gra r e m u m a ve rsã o a m p lia d a d e ste te xto. M a s Sh ip ib o, Ka xin a w á e Ya m in a w a form a m u m con ju n to coe re n te d e sd e m uitos p on tos d e vista , d e n t re e le s o d a m itolog ia , con sid e ra ve lm e n te h om og ê n e a . A p re s e n ç a ou a u sê n cia d o In ca n o c o rp u s m í t ico m a rca d e fa t o u m con tra ste e sse n -cia l e n tre e le s, e g a n ha re levâ n -cia p a rticu la r n a com p a ra çã o e n tre Ya m i-n a w a e Ka xii-n a w á , q u e coi-n stitu irá o e ixo d a m ii-n h a a rg u m e i-n ta çã o6.
O Inca na mit ologia pano
C o m e ç a re i ofe re ce n d o u m re p e rtório a m p lo d os m itos qu e — e m b ora n ã o e xa u stivo — d e ixe cla ra a o m e n os a va rie d a d e in te rn a d o p e rson a g e m .
C om e ce m os p e lo In ca d o Uca ya li. O re la to d e Ba rd a le s Rod r íg u e z (19 79) é e sp e cia lm e n te v a lios o a p e s a r o u p or ca u sa d a su a v on t a d e d e s i s t e m a7. Re su m e u m a p lu r a lid a d e d e In ca s — trê s — v in cu la d os com d ive rsos g r up os p a n o e a d istint os loca is . D o m a is sim p le s a o m a is com -p le xo (in ve rte n d o a ssim a ord e m d e e x-p osiçã o d e Ba rd a le s, q u e va i d o In ca ru im a o bom In ca ), te m os o C h a n e In ca, ou In ca Pá ssa ro, d os C on i-b o d e C u m a ria ; o Ch e sh e In ca, ou In ca N e g ro, d os Sh ip ii-b o d e Sa n ta Rosa ; e o Yoa xico In ca , o In ca Sovin a , d os Sh e te b o d e Tsoa ya .
O C h a n e In ca é u m h e rói cu ltu ra l q ue , ju nto com su a m u lhe r, e n sin a as a rtes — a pin tu ra, o tecid o, a ce râ mica — aos Con ibo. Ele con h ecia todos os lug a re s e viaja va lon g e com sua s g en tes à p rocu ra d e ma te ria is. De p ois, d e s a p a re ce u a trá s do rio Cu ma ria . Só n ão d isse aos Conib o o q ue fa ze r com o ouro, “p orq u e sa b ia q ue os e strang e iros viria m a esta com arca ” (1979:53). O In ca N e g ro d os Sh ip ib o é a p r es e n ta d o ta m b é m com o u m g ra n d e d o a d o r, m a s a s a rtes q u e e le outorg a sã o d e ou tra n a tu re za : b om ca ça dor
e b om con strutor d e ca sa s, e le e n sina os ín d ios a p re p a ra r ca içu m a , i.e ., a ce le b ra r fe sta s; a s p e sca ria s q u e e le ord e na p a ra e sta s fe sta s p r o d u z e m u m a p rod ig iosa q u a n tid a d e d e p e ixe e t a rt a ru g a . Esse p rove d or d e cid e u m be lo d ia ir e m b ora , m a s p a ra con sola r se u s se gu id ore s p rom e te tra ze r p a ra ele s u m a p la n ta (ra u , re m é d io); q u a n d o o Inca e s tá a u se n te p ro c u -ra n d o e sta p la n ta , e le s se e m b e b e d a m e m a ta m u m a ve lh a . Q u a n d o o In ca volta , ord e n a a os m a ta d ore s q u e com a m o ca d á ve r — “ o q u e se m a ta é p a ra com e r” (1979:50) — e os e n via a mora r n os rios Pa ch ite a e Ag u aytía , p a ssa n d o a se r ch a m a d os jon i p ia i (“ com e m g e n te ” ); d e le s d e sce n -d em os Ca sh ibo. O u tros sã o b a n h a -dos p elo In ca com a p la n ta , e e n via-d os a m ora r e m C u m a n ca y e n o rio M a ca n a r i; sã o ch a m a d os d e j i sh t im a b o, “ o s in visíve is ” . D e p ois, e le m e sm o va i rio a cim a , le va n d o a lg u n s filh os d e se u p ovo, cu jos fa m ilia re s o se g u e m p or isso; se g u e m se u ra stro m a s n ã o con se g u e m a lca n çá -lo, e d e siste m a o che g a r a “ u m g ra n d e sa lto d o rio” . Volta m a ssim a Sa n ta Rosa , e d e le s d e sce n d e m os a tu a is Sh ip ib o.
Q u a n to a o In ca Sovin a , o Yo a x ico In ca d os S h e te b o, a n a rra çã o d e B a rd a le s é u m a ve rd a d e ira sa g a d e cin co re la tos, d os q u a is os q u a tro prim e i ros con siste prim e prim e p isód ios p rota g on iza d os p or uprim prim e sprim o p e rson a -g e m , se m p re ca ra cte riza d o p e lo se u com p orta m e n to m e sq u in h o. N o p ri-m e iro, n a rra -se a ri-m orte d o Sovin a e ri-m ri-m ã os d e a n iri-m a is: o sa n g u e d o Sovin a tiSovin g e d ive rsa s a ve s. N o se g u Sovin do, e sp e cifica se a soviSovin ice d o p e rsoSovin a -g e m : d on o d e tod a s a s p la n ta s cu ltiva da s, ofe rece a os h om e n s o p ro d u t o d e su a s roça s, m a s ca d a p la n ta te m u m a n im a l p e çon h e n to com o g u a r-d iã o: a m a ca xe r a te m toca n r-d ira ; a b a n a n a , ve sp a s; o a n a n á s, cob ra s. O S ovin a é ta m b é m d on o d o fo g o, q u e son e g a a os h om e n s a té q u e Sh e ta (Pa p a g a io) con se gu e roub a r u ma b ra sa com se u b ico. N o te rc e i ro e qu a r-t o re la r-tos, o In ca e xe rcir-t a su a m a ld a d e com se u g e n ro: r-te n r-ta q u e im á -lo p on d o fog o n a d e rru b a d a q u a n d o e le e stá trab a lh a n d o n o m e io. O g e n ro co n se g u e e sca p a r, m a s d u a s ca la b a ça s q u e e le tin h a e s tou r a m ; o In ca , o u vin d o, p e n s a q u e se t ra ta d a ca b e ça e d a b a rrig a d o g e n ro, e se su p re e n d e q u a n d o o vê volta r sã o e sa lvo p a ra ca sa . Em ou tra oca siã o (q u a r-to re la t o) m a n d a o g e n ro com se u s sold a d os p e sca r com tim b ó. Q u a n d o tod os e stã o n o m e io d a la g oa , o In ca ch e g a e g rita q u e o J a sc a t a s h e os M a n sh a n t e o (du a s ave s a q u á tica s — Toyu yo e M an ch a co) es tã o a ca b an -d o com os p e ixe s. N e sse m om e n to, o g e n ro e os sol-d a -d os con ve rt e m - s e n a s d ita s a ve s.
Esse re la to com põe -se d e d ive rsos e pisód ios: o m a u tra to — ou o a ssa ssin a to
— d e u m m e n in o (q u e r e su lta se r o filh o d o In ca ) p or u m ín d io q u e in ve ja
su a sorte n a p e sca ; o re sg a te d o m e n in o p o r u m ou tro ín d io, e o a n ú n cio d e
u m d ilú vio p u n itivo d o q u a l a p e n a s o b om sa m a rita n o se sa lva rá , ju n to com
su a fa mília , su b in d o e m u m p é d e je n ip a p o; o d ilú vio, d u ra n te e d e p ois d o
q u a l o N oé P a n o é m ila g rosa m e n te p rovid o d e a lim e n t o; a re tira d a d a s
á gu a s, e a con ve rsã o d a m u lh e r e filh o d o h e rói e m u m cu pinze iro e u m p á
s-s a ro; a e s-scolh a e rr a d a d o h e rói, q u e , ve n d o a p a re ce r d u a s-s jove n s-s e m u m a
ca n oa , a g a rra a se rva e d e sp re za a filh a d o In ca , q u e e ste lh e d e stin a va com o
e sp osa ; e fin a lm e n te a p e rd a d a im orta lid a d e h u m a n a — d e n ovo p or cu lp a
d o torp e h e rói q u e , con tra os con se lh os d e su a m u lh e r, e sp ia o p a rto d e sta .
Os In ca s d e Ba rd a le s — q u e d ã o u m a id é ia ca ba l do tipo d e tra d içã o e m q u e G e b h a rt-S a ye r s e b a se ia — form a m u m con t ín u o q u e va i d a e x t re m a sovin ice d o Inca Sh e te b o (a n e g a çã o d os produ tos d e su b sistê n -cia) à extre m a g e n e rosid a d e d o Inca C on ib o (o d om da s a rte s su ntu ár ia s q u e co n stitu e m o sig n o d istin t ivo d a e tn ia ). O In ca N e g ro , e com e le o g ru p o sh ip ib o, ocu p a u m e sp a ço in te rm e d iá rio. Se u s d on s sã o os d e u m g ra n d e a n fitriã o: b e b id a , p e sca , ca sa , fe sta ... m a s vê m se m p re a com p a -nh a d os d e á rd u a s con se q ü ê n cia s: b e b e d e ira s, h om icíd ios, ca n ib a lism o. To d o o re la to con d u z à d isp e r sã o é tn ica : a s g e n t e s d o In c a N e g r o d ivi-d e m -se e m trê s (ivi-d e n ovo trê s) g ru p os.
O trin ita rism o d o a u tor força -o a a com od a r n o ca p ítu lo d o In ca Sovi-n a u m ou tro ISovi-n ca re coSovi-n h e cid a m e Sovi-n te d ife re Sovi-n te : a q u e le ISovi-n ca im p lícito — re p re se n ta d o p or se u filh o e su a filh a — d o re la to d o Dilú vio. A h e te ro-g e n e id a d e d e sse re la to é m e n or se con sid e ra rm os q u e a e scolh a m a tr i-m on ia l e rr a d a d o h e r ói é a p r e s e n t a d a coi-m o a o rig e i-m d a c a r ê n cia d e b e n s m a n u f a t u r a d o s .
Vo l t a re i com m a is va g a r sob re e ssa s n a rra tiva s. Por e n qu a n to, é p re -ciso a m p lia r o in ve n tá rio.
N ão é m e n or a com p le xid a d e d os In ca s k a xin a w á . N a cole tâ n ea de C a p istra n o d e Ab re u (1941:lin h a s 4996-5142) o ˜Ik á é prota gon ista de trê s e p isód ios. N o p rim e iro, ˜Ik á , ca racte riza d o com o u m g ra n d e d ia bo (m a w a i u x i b ó), con vid a os Kaxin a w á a b a la n ça rse e n q u a nto e le ca n ta su a s can tig a s; os q u e n ã o se b a la n ça m , e le m a ta e com e . In q u ie tos com e ssa s b rin -ca d e ira s, os Ka xin a w á d e cid e m ir e m b ora p a r a lon g e d e le . Em o u t ro m om e n to, ˜I k á convid a a a ra n h a a m ora r ju n to com e le e su a m u l h e r, e lh e d á os fra scos d o frio e d a n oite . Fin a lm e n te , a ssu m in d o a lg u m a s fe içõe s d o Sovina , n e g a a o Uru bu , q u e e stá com m u ito frio, o Sol qu e ele g u a rd a em ou tro fra sco. N ã o se tra ta d e s sa ve z d e u m a sovin ice in d ivid u a l: e m
con ve rsa s com ˜Ik á , o g a viã o p e g a -m a ca co (n a wa te te) re com e n d a -lh e n ã o c o m p a rt ilh a r o Sol com g e n t in h a . O Uru b u , p oré m , sa b e q u e o Sol e stá g u a rd a d o n o se u fra sco, e con se g u e rou b á -lo.
O Pe . Ta ste vin (1925:23-26) re f e re -se a d ois tip os d e n a r ra tiva sob re o In ca . De u m la d o, a s p rota g on iza d a s p e lo In ca Ya u ch ik u n a w a , o m e s-m o Sovin a q u e já con h e ce s-m os p e lo re la to d e Ba r d a le s e q u e a p a r e c e r á consta nt e m e n te n e sta s p á g in as . Don o d o fog o, d a m a n dioca , d o m ilh o e d e ou tros b e n s q u e se re cu sa a com p a rtilh a r com os h u m a n os, e sse In ca é vítim a d e su ce ssivos rou b os p or d ive rsos a n im a is. (Le m b re m os q u e n a ve rsã o u ca ya lin a o Sovin a é tru cid a d o e a se g u ir e sp olia d o.)
De ou tro la d o, o In ca a p a re ce ta m b é m com o o m e m b ro b ob o d e u m p a r d e h e róis cu ltu ra is. N a ve rsã o m a is rica8, o p a r In ca / Ku m a va i cria n -d o os e le m e n tos -d a d a q u oti-d ia n a , m a s In ca , e stúp i-d o, fa z tu -d o in -d e vi-d a m e n te , força n vi-d o Ku m a a tirá -lo vi-d e situ a çõe s in g lória s.
N a se g u n d a m e ta d e d o sé cu lo, o In ca k a xin a w á torn a -se u m cole tvo. Ke n sin g e r (1995:259- 263) a ssin a la q u e u m a q ua rta p a rte da s n a rr a t va s k a xin a w á se re f e re a e le . A d e sp e ito d e su a p lu ra lid a d e e a m b ig ü i-d a i-d e , a lg u n s ca ra cte re s se i-d e sta ca m : os In ca s m ora m e m b e la s a li-d eia s, u sa m rou p a s lon g a s q ue e scon d e m se u se xo e p ossu e m e xce le n te s ro ç a -d os . Sã o, n o e n ta n to, ca n ib a is, e e m b ora se ja m g e n e rosos q u a n to à su a c u ltu ra , in s tru in d o os Ka xin a w á e m su a s a rt e s e c u ltivo s, re lu ta m e m e n tre g a r su a s irm ã s e m troca d a s m u lh e re s tom a d a s d e ste s ú ltim os.
D’An s (1975) a p re se n ta os In ca s d o m e sm o m od o n o re la to d a s a ve n-tu ra s d e Ba sa b o; e m ou tra n a rra tiva (“ La In ve n ción d el Pa rto” ), os Inca s sã o p a rt e i ros c a n ib a is q u e d e v ora m su a s p r óp r ia s e sp os a s — e a s d o s Ka xin a w á — d e p ois d e a b ri-la s p a ra e xtra ir a s cria n ç a s, a té q u e o ra to e n sin a a s m u lh e re s a p a rir sozin h a s.
A m itolog ia in ca ica p a n o é u m a ob ra a b e rta : os In ca s a p a re ce m com o a fin s ce le stia is e m e tn og ra fia s m a is re ce n te s sob re os Ka xin a w á (M cC a l-lu m 1996; La g rou 1998); os te xtos e m e sp a n h ol in scritos n os q u a d ros d e Elia s Silva , p in tor sh ipib o m od e rn o, d em onstra m u m in te re sse p e lo te m a q u e p rova ve lm e n te a p rove ita a s in form a çõe s sob re o In ca d ivu lg a d a s p e la lite ra tu ra p op u la r e o siste m a e scola r p e ru a n os9.
-le za d e Ton q u in i. Ess a e ve n tua l cola b ora çã o e n tre os Piro e u m sobe ran o a n din o é a me sm a d escrita p e las fon te s e spa n h olas q u e tra tam d o Im p ério d e Vilca b a m b a . O s m itos p iro re f e re n te s à orig e m d os se u s d ive rsos s ub -g ru p os (Alva re z 1972:334-348) sã o, p elo con trá rio, va ria çõe s e m torn o d o te m a d a sovin ice . Assim , os N a ch in e ru s ã o “ os fa m in tos” , p orq u e o se u re i tin h a p or costu me se alime n ta r dos b rotos da s p la n ta s de cu ltivo. O re i d os Kosh ich in e ru , “ os p á ssa ros” , con se g u e fin a lm e n te a ca b a r com e le . O u t ros d ois re la tos (sobre a orig e m d os G a g a m leru e d os Ku irik u iri) con -ta m a s fa ça n h a s q u e ou t ros Piro d e ve m r ea liza r p a ra cas ar com a s filh a s d e u m se n h or p od e ros o ou c om a s m u lh e re s d e u m a trib o d e “ t i g re s ” e sp e cia lm e n te ciu m e n to s. As p e rip é cia s r e p e t e m e m b oa p a rte a s d o e sfor ça d o g e n ro d o In ca Sov in a d os Sh e te b o. Re su lta n ot á ve l q u e e ssa a p roxim a çã o a o m od e lo “ in ca ico” — com a p re se nça m e sm o desse s e stra nh os “ reis” a m a zôn icos — a p are ça se m um i n t e re sse corre la to p or a g ru -p a r tod o o com -p le xo e m torn o de u m m es m o -p rota g on ista : u m a con du ta , dig a m os, in ve r sa à re p re se n ta d a p e lo C on ibo B a rd a le s, e m p e n h a d o e m atribu ir a u m m esmo p erson age m fe itos m u ito h e te rog ê n e os.
O sovina e os animais
Um a le itu ra su p e rficia l d o a ce rvo m ítico Ya m in a w a cole ta d o d u ra n te a m in ha p e sq u isa é suficie n te p ara recon h e ce r os p rota g onista s, os motivos e as tram as da mitologia “ in ca ica ”, d esd e o rela to de Yura pibe (“ com ed or d e ge nte ” ), até o d o me nino cujo afog a me n to g e ra as ch u vas torren cia is, c o m o a m orte d o filh o d o In ca n o re la to ship ibo — p a ra d a r só d ois e xe m p los.
N esta b re ve a n á lise se ria d ifícil in te g ra r e sse s e le m e n tos, d o m e sm o m odo que mu itos ou tros aspe ctos d os m itos ka xina wá e shipib o. M as é p os-síve l re con h e ce r u m e ixo q u e u n e os d ois con ju n tos d e re la tos e p e rm i t e um a com p a ra çã o siste má tica : o do Sovin a . H á u m con ju nto d e mitos Ya m n a w a — q u e pa rcia lm e n te se su p e rp õe m , su g e rin d o o e n con tro d e tra d i-çõe s ora is d e d istin tos s ub g ru p os n a w a — q u e tra ta d a con q u ista d e u m a sé rie de be n s, e sp e cia lm e n te as p lan tas cu ltiva d a s e o fog o, n a lu ta con tra u m a çam ba rca d or m ítico q u e p rivava os ou tros de ssas b e n e sses. O p e rso-n a g e m corre sp orso-n d e com e xa tid ã o a o Irso-n ca Sovirso-n a d os Sh e te b o e ao Sovirso-n a de scrito p or Ta ste vin , e re colh i q u a tro n a rra tivas re f e re n te s a e le : n a p ri-m e ira , é o d on o d os b e n s a g rícola s, g u a rd ad os por a n iri-m a is p e çon h e n tos, q u e e le só de ixa ch e g a r à s m ã os d e ou tros h om e ns já sa p e ca d os ou in ca -pa ze s d e g er m i n a r. O s h om en s jun ta m -se p a ra m a tá -lo e se p in ta r com o se u san g u e e a s su a s vísce ra s, transform an do-se em p á ssaros. N a se g und a ,
n ã o se trata d e u m a va ro, m a s d e u m fe itice iro p e rig oso, q ue m e sm o a g o-n iza o-n d o coo-n ve rte e m a o-n im a is os se us a g re s s o re s. A se g uo-n d a e a te rc e i r a h istórias volta m à sovinice , e na rra m os tru qu e s de que se se rvira m a an do-rinh a e o p apa g aio p ara ro u b a r, respectiva me nte, o m ilh o e o fogo.
A corre sp on d ê n cia é e stre ita , in clu ind o a s d u a s a lte rn a tivas Sh e te -b o/ Ka xin a w á p a ra o fin a l: a d o sovin a tru cid a d o e a d o sovin a rou -b a d o.
O Sovin a Ya m in aw a te m d u as ca ra s: e le a cu mu la be n s in é d itos, ma s p or isso m e sm o o se u d e stin o é se con ve rt e r, e sp on ta n e a m e n te ou à for-ça , e m e sp lê n d id o d oa d or.
É a m e sm a a m b iva lê n cia do In ca . Ap e sa r d o g ra d ie n te d e Ba rd a l e s , é fá cil ve r q u e tod os os se u s In ca s sã o g e n e rosos e sovin a s a o m e sm o te m p o. O m a is be n é fico d os In cas, e sse Sha n e In ca fu n d a d or da s a rte s, son e -g a o d om ín io d o ou ro. O ú n ico In ca in te ira m e n te d e sp rovid o d e m e sq u i-n h a ria — o p rom otor d o Dilú vio — é a q u e le cu jos d oi-n s o h om e m i-n ã o sa b e a p ro v e i t a r. N ã o é p o r a ca s o q u e o a u tor o in sta lou n o ca p ítu lo d o m a is m esq u in h o d os In ca s — a q ue le cu jos b e n s o hom em con se g u e e xp ro p r i a r m e sm o con tra a von ta d e d o d on o.
N ã o é e stra n h o q u e a lg u n s a u tore s q u e ira m id e n tifica r e sse In ca com o s m ission á r ios ou com os b ra n cos e m g e ra l. Do n os d e in e xp licá ve is riq u e za s, e p or isso m e sm o tã o sovin a s q u an to g en e rosos — com o de ter -m in a r o li-m ite d e a -m b a s a s a t it u d e s? —, os re la tos sob r e o In ca p od e -m m uito b e m re tra tá -los: m ostra m a fin al u m a e vid e n te p re ocu p a çã o com a orig e m da s m e rca d oria s e d e su a d istrib u içã o, re c o rre n te n esse s m itos d e orig e m d o h om e m b ra n co q u e e n con tra m os a o lon g o d a s Am é rica s.
D e s o rdem narrativa, desordem social
À m a rg e m d o e ixo d a sov in ic e , co m u m à m a ior p a rt e d a s n a rra tiva s, o In ca p a re ce se r u m e n u n cia d o vin cu la d o a sig n ifica d os m u ito d ive rsos. N o e xtre m o, d iga m os, “ In ca ” n ã o é n a d a a lé m d e u m n om e , q u e a o lon -g o d e ste sé cu lo te n ta se con ju -g a r d o m e lh or m od o p ossíve l a u m a s é rie d e te m a s m íticos.
O n om e pod e se r a b a se d e um a b oa org a n iza çã o. A m itolog ia ya mi-n aw a , q ue re ú mi-ne a tota lid ad e dos e le m emi-n tos q u e a p arece m mi-n a s m itolog i a s vizin ha s, ca re ce de p e rson a g e n s e stá ve is q u e a rticu le m a s d ive rsa s n a r-ra tivas, com o o Ba sa b o ou o Rom u e koin d os Ka xin a w á (ou como o p róp r i o Inca ), prova ve lme n te p orqu e a socie d a de ya m in aw a nã o te m m itóg ra fos10.
qu e pr e sid e ou tr a s m a n ife sta çõe s d a vid a ya m in a w a . O s Ya m in a w a sã o a p a re n te m e n te u m b om e xe m p lo d a e n trop ia cu lt u ra l e m q u e o con ta to com o Bra n co m e rgu lh ou os g ru p os in díg e n a s. A op in iã o com u m d e in d ige n ista s e d e ou tros ín d ios d o Acre fa z d ele s a o m e sm o te m p o d e sre g r a d os e d e sa g re g a d os — d e ficitá rios q u a n to à cu ltu ra e q u an to à org a n i z a -çã o socia l. N a te se q u e de d ica a os Ya m in a w a p e ru a nos, G ra h a m To w n sle y (1988) a n a lisa o e sfa ce la m e n to d e a lg u m a s d e su as in stitu içõe s ce n -tra is e su a a -tra çã o p e la s ofe rta s d o Bra n co. En fim , o con fu so conju n to d e e tn ôn im os e m qu e ap a re ce e n volvid a q u a lq u e r notícia sob re e le s, e me s-m o o s-m od o u s-m ta n to p a ra d oxa l cos-m q u e d e fin e s-m su a id e n t id a d e os fa z p a re ce r com o d e sa fe tos à ord e m , se ja e sta cívica ou lóg ica .
N a m in ha a n á lise d o se u sis te m a d e p a re n te sco (C a la via Sá e z 1995, cap . 2) te n te i re d e fin ir e sse “ ca os” . Long e d e se a ssocia r a um e m p ob re -cim e n to d a org a n iza çã o socia l, o ca os ya m in a w a d á lu g a r à con vivê n cia d e t e rm in olo g ia s d e p a re n te sco e re g r a s d e ca sa m e n to a p a re n t e m e n t e con tra d itória s. Pa ra limita r e ste re su m o a os a sp e ctos m ais m a rca n te s d e s-sa situ a çã o, d ire i q u e a socie d a d e ya m in a w a é co n ce it u a d a p e lo s se u s m e m b ros se ja com o u m a socie d a d e cogn á tica n a q u a l p od em d istin gu ir-se m e ta d e s e xog â m ica s (isto é , u m a va ria n t e d o m od e lo d ra vid ia n o a m p la m e n te distrib u íd o n a Am a zôn ia ), se ja com o u m a socied a d e form a da pe la som a d e “ clã s” p a trilin e a re s com u ma n orm a c o m p l e x a d e a lia n -ça (isto é , u m siste m a d e tip o d a kota-iroqu ê s). As d u a s visõe s, é cla ro, n ã o sã o in d is tin ta m e nte vá lid a s. A p rim e ira p re d om ina q u a n d o se con sid e ra o co n ju n to ya m in a w a d e sd e o g ru p o d om é s tico , e é p or isso u m a visã o m a is com u m e n te e xp licita d a p or m u lh e re s. A se g u n d a p r e d om in a n o s d iscu rsos h istórico e p olítico, e é m a is fa cilm e n te ou vid a d os h om e n s11.
N o m e io d e a m b a s a s ve rsõe s acom od a -se a m b ig u a m e n te a a lia n ça . Os Ya m in a w a possu e m u m con jun to com p leto d e te rm os e sp e cíficos p a ra d e s ig n a r os a lia d os e m p a ra le lo co m u m a n om e n cla tu ra d ra vid ia n a d e tip o m a is clá ssico, e m q u e p or p rin cíp io os te rm os q u e d e sig n a m os p a re n -te s in clue m ta m b é m os a liad os (a ssim , p or e xe m p lo, o sogr o se rá “ tio” , e a m u lh e r “ p rim a ” ). M a s e is q u e e ssa con ota çã o d e a lia n ça n o se g u n d o con ju n to d e te rm os se m a n té m de m od o p a ra d oxa l: em lu g ar d e p a ssa r a d e sig n a r p a re n te s “ se m m a is” , te rm os com o b i b ik i (q u e d e sig n a o p ri-m o/ a -e sp oso/ a ) sofre ri-m u ri-m a e sp é cie d e ta b u d e e n u n cia çã o, cori-m o se o p e rig o q u e se m p re r od e ia a a lia n ça m a trim on ia l con tin u a sse p e sa n d o s o b re e le s . Só n os m itos a p a la v ra b i b ik i é p ron u n cia d a livre m e n te . O m od e lo d a k ota e o d ra vid ia n o se d e sa fia m con sta n te m e n te n o d ia -a -d ia .
A re g ra d e ca sa m e n to e n tre os Ya m in a w a p a re ce es ta r e n volta e m ret icê n cia s m u ito se m e lh a n te s. A ú n ica n orm a cla ra é d e tip o com p le xo:
a p roib içã o d e ca sa r com p a re n te s p róxim os , o q u e in clu i p ra tica m e n te tod o s a q u e le s a os q u a is se a p lica u m d o s t e r m os d o siste m a “ d ra vid ia -n o” , e m ou tra s p ala vra s, p ra tica m e -n te a tota lida d e d os qu e m ora m p e rt o . N ã o sã o r a ra s a s a cu sa çõe s d e in ce st o e xp re s sa s con tra in d ivíd u os q u e te ria m ca sad o com su a s b i b ik i. É e ste p re cisa m en te o ca sa m e n to pre s c r i-to e m g ru p os p a n o vizin h os — in clu in d o os Ya m in a w a p e ru a n os — e im p lícito n a p róp ria te rm in olog ia : os Ya m in a w a tra du ze m b i b ik i i n d i s t i n -ta m e n te com o “ p rima ” e “ e sp osa ” . Tu d o p a re ce ria in d ica r um a re o rg a n i-za çã o re ce n te da org an ii-za çã o socia l d os Ya m ina w a n o Bra sil, q u e e n fa ti-za ria a s fron te ira s p olítica s e n tre as d istin ta s com u n id a d e s/ e tn ôn im os e , e m c on se q ü ê n cia , a te n d ê n cia a ca sa r co m m u lh e r e s d e ou tros g r u p o s “ n a w a ” (Ba sh on a w a , Ya w a n a w a e tc.), fra çõe s d issid e n te s se p a ra d a s a p ós con flitos violen tos . O s e los g e n e a lóg icos d e ixa ria m d e se r re c o n h e c i d o s q u a n d o n ã o a com p an h a d os d e co-resid ê n cia , e isso ma rca ria a pa ssag e m d e u m a n orm a d e ca sa m e n to e le m e n ta r p a ra u m a ou tra com p le xa .
Em su m a , o q u e u m a a n á lise cu id a d osa d e sve n da p or trá s d a d e sor-d e m ya m in a w a é u m a sor-d e lica sor-d a a rticu la çã o sor-d e orsor-d e n s virtu a is, q ue p osor-d e se r n e ce ssá ria pa ra a via bilid a d e d e u m a h istória d ifícil. Long e d a e q u a -çã o p rim itivista e n tre u m p ovo e u m siste m a d e p a re n te sco, te ría m os a q u i a a lte rn â n cia e o con flito e n tre vá rios m od os d e se org a n iza r con ce itu a l-m e n te u l-m a l-m e sl-m a socie d a d e. Esse p lu ra lisl-m o il-m p lícito, b e l-m e n te n d id o, n ã o se lim ita ria a os Ya m in a w a : os te rm os e sp e cíficos p a ra a lia d os, e m b o-ra o-ra o-ra s ve ze s in t e g o-ra d os n o m od e lo, e n con t o-ra m -se e m q u a se tod a s a s e t nog ra fia s p a n o. Se u e sca sso re n d im e n to b e m p od e se r u m vié s n a tivo im p osto à a n á lise .
soli-O I N C A PA N soli-O 1 7
da rie d a d e intensa e ntre con sa n g uíne os de g e ra çõe s a ltern as port a d o re s do me sm o n om e . Um re fin ad o siste m a d e cla ssifica çã o d istin gu e , n a socie da -de e n a cu ltu ra , o q u e é p róp rio e o q u e é a lh e io, e e n tre am b os os p ólos in sta la um a a lte rid ad e m e n or, “ in te rn a ” — “l’au tre d e d e d a ns” d e De sh a -ye s e Ke ife n he im (1982) —, q ue serve de a ntepa ro e ntre a mb os.
Pa ra fa ze r u m re su m o nã o esp e cia liza d o, d ig a m os q u e os Ka xin a w á a p re se nt a m u m siste m a d u a lista sofistica d o q u e u n e id e olog ia e fu n çã o: a s m e ta d e s socia is q u e org a n iza m ide olog ica m e n te o m u n d o sã o ta m b é m a s u n id a d e s e xog â m ica s e m cu ja in te ra çã o se fu n d a a re p rod u çã o socia l12. Boa p a rte d a e tn olog ia p a n o gra vita e m torn o d e sse “ m od e lo k a xin a w á ” cuja vig ê n cia d e ve ria cre d i t a r-se a o crite rioso con se rva d orism o d o g ru p o , p ru d e n te o b a sta n te p a ra e vita r a d e sord e m cu ltu ra l tra zid a p e lo Bra n co.
Q u a n to aos Sh ip ib o, p od e m os d ize r q u e o pa re n te sco te m jog a d o u m p a p e l m u ito m e n os ce n tra l n a lite ra tura a se u re sp e ito. De u m la d o, estã o mu ito lon g e da org an iza çã o “ crista lina ” dos Ka xin a wá . A g ra n d e a u ton o-mia d a s u n id ad e s dom é sticas, a re s e rva n o tra to e ntre e la s e a te n d ê ncia a p rocurar ma trim ônio com p a re n te s extrem a me nte d ista n te s1 3im plicam e los socia is m u ito frou xos n o p lan o loca l, e u m a socie d a d e com u m a d ose de in te ra çã o b e m m e n or q u e a d os próp rios Ya m in aw a . N o e nta n to, é in te re s-sa n te n ota r qu e ne sse ca so n ã o p a re ce h a ver u m in te resse d os e stud iosos e m m a rca r u m a de sa g re g a çã o — à qu a l a s te rríve is e xp e riên cia s d a ép oca d a b orra ch a d a ria m ra zõe s de sob ra . Isso se d eve , se m d úvid a , a o fa scín io im p osto p e la s sua s a rte s p lá stica s: u m grafism o a lta m e n te sofistica do q ue os Sh ip ib o com p a r tilh a m g rosso m od o com os Ka xin a w á e os Piro — m a s nã o, sign ifica tiva m ente , com os Ya min aw a. A riq u e za d a s forma s te m fe ito, lite ralm e nte , e sq u e ce r a in forma lid ad e d a socie d ad e do Uca yali.
De fa to, p a re ce q u e a a rte re força m u ito e ficie n te m e n te os e los d e p a re n te sco q u a n d o se tra ta d e cria r u n id a d e s é tn ica s n o Uca ya li. O us o e a p rod u çã o d a a rte ou torg a m u m se n tid o d e com u n id a d e a u m a d a s e tn ia s m a is n u m e rosa s d a Am a zôn ia : a tu a n o m e sm o se n tid o q u e a p re s c r i ç ã o d e ca sa r lon g e , g e ra n d o u m a e sp é cie d e “n a cion alid a de ” , a tom iza d a n a su a b a se socia l e u n id a e m torn o de sím b olos visu a is. M a s a e ste a ssu n to d e ve re m os volta r m a is a d ia n te .
O Inca como af im impossível
q u e e ssa m e sm a d im e n sã o p od e siste m a tiza r ta m b é m o con tra st e e n tre m itolog ia s com ou se m In ca .
Re visa n d o a m itolog ia a cim a re su m id a , ve m os q u e a so vin ice d o In c a , e m b o ra se e xe r ça e m p rim e iro lu g a r s ob re a s p la n ta s cu ltiva d a s, te m ta m b é m su a s m a n ife sta çõe s n os d om ín ios d o cosm os e d o p a re n t e s-co: n e g a o sol a o Uru b u , fru stra a re p rodu çã o d os Ka xin a w á, e ta m b é m a p róp ria , p or ca u sa d e ste q u e p od e ría m os ch a m a r d e “ can ib a lism o ob sté -trico” . N ã o é , a fin a l, e stra n h o q u e d e vore su a s p róp ria s m u lhe r es q u e m n ã o é ca p a z d e d á -la s a ou tros e m m a trim ôn io — o in ce sto e o ca n ib a lis-m o, colis-m o sa b e lis-m os, a p a re ce lis-m co lis-m fre q ü ê n cia a ssocia d os colis-m o lis-m od o s d ife re n te s d e “ com e r a p róp ria ca rn e ” .
A sovin ice fu n d a m e n ta l d o In ca é a q u e e le a p lica à s su a s m u lh e re s : con se gu e u n ir tod os os Inca s, se ja m m e sq u in h os ou g e n e rosos. A m u lh e r In ca é in a ce ss íve l, m e sm o q u a n d o e stá a p a ixon a d a — com o n o ca so d e Ba sa b o — ou q u a n d o o In ca , e m u m m om e n to d e b e n e volê n cia , e n via su a p róp ria filh a p a ra ca sa r com u m sim p le s m orta l: e ste e scolh e rá a m u lh e r e rr a d a . M e sm o q u a n d o a p a r e ce m com o p ród ig os d oa d ore s, in ve n t ore s d as a rte s e d a s fe sta s e fu n da d ore s de e tn ia s, os In ca s n ã o e n tra m n a tro-c a m a tr im on ia l1 4. S u a socie d a d e é e sté ril: os Ka xin a w á im a g in a m -n o s d e vora n d o a s p a rt u r ie n te s ou m e sm o os re cé m - n a scid os, e q u a n d o n a s v e rsõe s Sh ip ib o a p a re ce m filh os d o In ca , é só p a ra se re m in fe lizm e n te sa crifica dos ou re p u dia d os p e lo h ome m com u m . O s Inca s n ão p art i c i p a m a s sim n a e la b or a çã o “ ca r n a l” d a socie d a d e — t ã o im p or ta n te n a com -p r e e n sã o -p a n o d o so cia l —, e m b ora se ja m m e stre s n a su a e la b ora çã o “ form a l” p or m e io d a ta tu a g e m e d o ritu a l.
O s m itos d o In ca sã o cap a ze s d e e xp or, e m su m a , tod a u m a filosofia d a sovin ice . Es ta , e m p rim e iro lu g a r, tra n sb ord a os lim ite s d a a va r e z a “m a te ria l” pa ra form ar tod o u m e th os “ i n t ro v e rtid o” . N a a n álise , este e t h o s a ssum e u m a n a tu re za a mb iva len te : d e strutiva , ma s tam b é m e stra n ha m en -te con stru tiva , g era d ora d e u m a e xp re ssã o socia l b rilha n -te — le m b re m o s a s b e la s e g ra n d es a lde ia s d os ca nib a is in caicos com b atid os por Ba sa bo.
O In ca , e n t re os Ka xin a w á e o s Sh ip ib o, siste m a t iza u m a sé rie d e te m a s cu jo ce n t ro é e s sa a lte rn a tiva e n tre d oa çã o e r e te n çã o, ca p a z d e e xp re ssa r o con ju n to d a s re la çõe s e n tre u m a socie d a d e e se u s ou tros.
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ín d ios; nu n ca , de ou tro la d o, ch e g a a pratica r o ca n ib a lism o. É, em ou tra s p a la vra s, u m p e rson a g e m m u ito m e n or q u e o In ca . Pa ra com p le ta r se u s a tr ib u tos, d e ve m os re c o rre r a u m a p lu ra lid a de d e p e rson a g e n s ya m in a -w a . N o la d o ca n ib a l, te m os o sin istro A-w i Pid e , q u e a ca b a com en d o su a p róp ria ca rn e , de p ois d e d e vora r e sp osa e filho n eon a to; te m os u m p a rt e i-ro m on stru oso q u e , com o os In cas Kaxin a w á , d evora a p a rtu rie n te d e p o i s d e e xtra ir a cria n ça, ou u ma fa m ília ca nib a l q u e re p rod uz os me sm os cos-tum es a n trop ofá g icos d a qu e le s. Do la d o “ d oa dor”, tem os os an im a is.
Sã o os a n im a is — e sp e cia lm e n te p á ssa ros — q u e a rra n ca m os b e n s d o Sov in a , com o vim os n os m itos co rre sp on d e n te s. Ta m b é m n os m ito s p i ro e ssa luta con tra o Sovin a fica e m g e ra l a ca rg o d e pe rson a g e n p á ss a ross ou a ssssim ila d oss a p á ssssa ross. Va le a p e n a d essta ca r q u e ssã o e ssssess re l a tos d o m a ssa cre d o Sovina qu e tê m p a ra le lo m a is e stre ito com os e q u iva -le n te s sh ip ib o e k a xin a w á15.
M a s e m ou tra s oca siõe s os a n im a is m ostra m su a g e n e rosid a de com se u p róp rio p a trim ôn io: os conh e cim e n tos a g rícola s com q ue Ka p a , o coa -t i p u ru , be n e ficia os hu ma n os1 6; os sab e re s fa rma cológ icos e xam a nísticos e a s m e rca d oria s m a n u fa tu ra d a s ob tid a s d a s cob ra s d ’á g ua1 7. E ma is a in da : as a rte s d o p a rto e os cu id ad os das cria nça s d o ra to ou o s a v o i r- f a i re s e x u a l do m acaco-pre go qu e , com igu a l d ire ito, salva m os Yam in aw a da e x t i n ç ã o . O s Yaminaw a — qu e, dig a-se d e passa g em, n ão a cre dita m no bom sel-v a g e m — sã o p a rtid á rios con sel-victos d o b om an ima l: a lg o q u e con tra sta com o caráter h um an o dos vilões da mitologia e — p ior — com a re tribu ição que os hu m a n os d ã o n os m itos a os se u s b e n fe itore s. A ge n e rosid a d e dos a n i-ma is é u m tóp ico d a tra d içã o ora l p a n o: u m d os in form a n te s ka xin a wá d e Ca p istran o (Abreu 1941:309) elab ora mesm o u ma lista dos dons d evidos aos an im ais. Ma s o mais extraord in ário, no ca so ya mina wa, é que esses a n ima is e ste ja m se m pr e d isp ostos a c a s a r — m a ch os ou fê m e a s — com os h u m a -n os, a lg o q u e com o vim os -n em o m e lh or dos I-n ca s ti-n h a ch e g a d o a fa ze r.
Ve m a q u i à ton a a s re fe rê n cia s a n te riore s à a m b íg u a form u la çã o q u e os Ya m in a w a fa ze m d a a fin id a d e . O s te rm os q ue se re la cion a m com e la , ou a s p rópr ia s re g ra s d e cas am e n to, sã o u m te rre n o de e q u ívocos e re t i-cê n cia s. Sã o os an im a is os ú n icos qu e , n os m itos, e se m circu n lóqu ios, se dirig e m a q ue m for p re cis o com o b i b ik i (p r im a -e sp os a ); sã o e le s os ú n i-cos q u e con se g u e m u tiliza r e sse s te rm os “d ra vid ia n os” q u e e xp re s s a m , sim u lta ne a m e n te , a p roxim id a d e e a d ife re n ça q u e d e ver ia m re in ar n a s re la çõe s e n tre a lia d os.
q u e te m su a con tra p a rte “ totêm ica ” n a m u ltip licid a d e d e e tn ôn im os q u e a com p a nh a a e xtre m a fra g m e n ta çã o d os g ru p os. O s e t nôn im os ya m in a -w a , cu jo con ju n to (a p e sar d o tra ta m e n to a n e d ótico q ue os e stu d iosos e m g e ra l lh e re s e rva m ) con stitu i a cla ssifica çã o m a is eficie n te n a ad m in istra -çã o do se u siste m a socia l, form a m -se , via d e re g ra , a p a rtir de n om e s d e a n im a is. E com p a rtilh a m a m e sm a sin a d e g u e rra con st a n te q u e a m ito-log ia ya m in a w a a trib u i a o m u n d o a n im a l.
Um mundo de cunhados
N a e le g a nte con clu sã o d o se u a rtig o d e 1992, Bá rb a ra Ke ife n he im sinte tiza a op osiçã o e n tre a filosofia social d os Ka xin a w á e a d o h om e m b ra n co qu e os a sse d ia : “ A me n sa g e m ‘tod os os h om e n s sã o irm ã os’ e n con tra -v a u m m u n d o on d e a e x p re ssã o m a is n ob r e d a s re la çõe s h u m a n a s é a re la çã o d e cu n h a d os!”
O te xto e stá p re n h e d e su g e stõe s. Essa op osiçã o e n tre os “ irm ã os” e os “ cu n h a d os” e coa a lg u n s tóp icos lé vi-stra u ssia n os, e n ing u é m n e g a ria qu e a s cu ltura s d o N ovo M und o se ocup a m m u ito m a is dos cunh a dos — ou d os afin s e m g e ra l — q ue a s d o Velh o. M a s n a com p a ra çã o d e Ke ifen he im d e veríam os in cluir um a ou tra torçã o: o q ue gove rn a esse mu n do d os cun ha -d os nã o é , n e ce ssa ria m e n te , u m a m or u n ive rsa l com o o q u e se e sp e ra -da f r a t e rn id a d e cristã . Lon g e d isso, s e a s sociolog ia s am e rínd ia s se ocup a m ta n to d a a fin id a d e é , e m b oa m e did a , p a ra su b lin h ar su a p e sa d a a m b iva -lê n cia . C a sa r é n e ce ssá rio p ar a fu n d a r u m a socie d a d e , m a s é a o m e sm o te m p o u m a cond e n a çã o a vive r p e rp e tu a m e n te “ n o m e io d os ou tros” . A a fin id a d e in icia um a socie da d e q u e te m e se u p róp rio fu n d a m e n to e te nd e a postu la r um id eal en d ógam o, seja com o ide olog ia se ja como u top ia. Estou a q u i re su m in d o a filosofia p rop osta p or J oa n n a O ve rin g (1984) b as e a d a fu n d a m e nta lm en te e m u m a e xpe riê n cia d e ca m p o n a s G u ia n a s, on de sã o com un s os a rtifícios pa ra conve rte r o afim e m consa n g ü ín e o, ou o cu n had o e m irm ã o. A p a rtir d a í, a lite ratura sob re p a re n te sco sula m e rica n o d e se n -volve -se ora su b lin h a n do e ssa p rod u ção q u otid ia n a d o s o c i u s ( M c C a l l u m 1998), ora in sistin d o (Vi v e i ros d e C a stro 1993) n o e n g lob a m e nto d a con -sa n g ü in id a d e p e la a fin id a d e — u m a a fin id a d e , p or é m , cu ja s fro n t e i r a s com a a lte rida d e tout cou rt e stão se m p re e m ab ert o .
O I N C A PA N O 2 1
Ka p la n (1975). Um a socie d a d e id ea l, p u rificad a da s intru sões d a a fin ida -d e — m a s por isso m esm o e sta g n a -d a, im óve l, m orta em su ma —, op õe -se à vid a re a l, tra n sb ord a n te d e su b stâ n cia, m as a b e rta se m pre a o e stran h o e p o rta n to a ssom b ra d a p o r p e rtu rb a çõe s q u e v ã o d o m ole st o a o a tr o z . De ssa sociolog ia p e n sa d a à s ave ssa s p or m e io d a e scatolog ia p a rt i c i p a m , e m ce rta m e d id a , os Piro e , se m d ú vid a , os Ya m in a w a , q u e se m m e ia s tin -ta s e q u a cion a m os in ce stu osos a e sp íritos d e m ortos.
O com e n tá rio d e Ke ife n h e im , e m su m a , n ã o é tr ivia l. A a b e rtu ra à alia n ça q u e , se g u n d o o te xto cita d o, ca ra cte riza ria o m u n d o Ka xin a w á , ca sa , se g u n d o os da d os d a m e sm a a u tora , com u m cu ida d oso siste m a d e d e fin içã o d e id e n tid a d e , q u e te n d e a m a n te r a a u ton om ia d o g ru p o1 8e , e m re su m o, f o m e n ta d e cid id a m e n te a e n d og a m ia . O ca so Ka xin a w á pod e ria ofe re ce r u m a b oa ilustra çã o d e com o (n os te rm os d e Vi v e i ros d e C a s t ro e Fa u sto 1993) a troca re strita p od e se rvir n ã o ta nto à con stitu içã o d o sociu s, m a s a o fe ch a m e n to d os n e xos e n d og â m icos loca is, d a n d o a ssim à a lia n ça u m va lor m a is id e ológ ico q u e sociológ ico.
O “m ode lo” Ya min a w a ofe re ce u m â ng u lo mu ito d ife re n te : u m a e xo-g am ia in te n sa e stá u nid a a um a visão somb ria d e ssa m esma e xoxo-g am ia. O s próp rios grup os qu e re a liza m troca s m a trim on ia is sã o d e finid os p or confli-tos e qu e b ra s d e gru p os an te riore s. A p re se n ça d os a fin s d e n tro d o g ru p o d om é stico é d issim u la d a , u m p ou co a o m od o g u ia n e n se , m e d ia n te a te c-non ímia e o uso de ca te g orias con sang ü iniza n te s. O s term os “ d ra vid i a n o s ” p a ra a fin s, q u e sã o e vita d os n a con vivê n cia q u otid ia n a , r e a p a re ce m n a m itolog ia , n a voz d e a n im a is q u e se m p re p e rson ifica m o a fim p e rfe ito. A a fin id a d e a p a re ce, e m su m a , e m p urra d a p a ra o la d o d a a lte rid a de , com o u m su b con jun to d a p re d açã o; n ã o ra ro os a n im a is q u e ca sa m com h u m a -nos -nos m itos a cab am sen d o trata dos como excele ntes p e ça s de ca rn e .
Ne ssa sociovisã o ya m in a w a , e m su m a , a p a re ce m tem a s tã o disse m i-n a d os q u a i-n to a i-n tig os i-n o ca m p o a m e r íi-n d io; i-n ã o h á ra zõ e s , com o já foi d ito, p a ra re d u zi-los a re su lta do d o d e sa stroso con ta t o com o m u n do d os b ra n cos. A d e sa gre g a çã o e o con flito con ta m ta m b é m com o p re stíg io d a tra d içã o.
Ref orma da ident idade, reinvenção da cult ura
Em p rim e iro lu ga r, o com p le xo d o In ca Pa n o é fie l a o ca rá ter d ia lé ti-co d a s ide n tid a d e s a m e rín d ia s, q u e tê m u m a form u laçã o e sp e cia lm e n te a gu d a n a cu ltu ra p a n o: o Eu só p od e se r conse q ü ê n cia d e u m O u tro, n ã o h á lu ga r p a ra o m on ism o. Atrib u in d o se u s sig n os d istin tivos e su a s tra d çõe s m a is ca ra s — ta tu a g e m e pin tu ra , e sp e cia lm e n te — a u m e stra n g e i-ro ou a u m in im ig o, Sh ip ib o e Ka xin a w á sã o sim p le sm e n te coe re n te s com a tra d içã o.
M a s a s ra zõe s d e sse In ca g a n h a m re le vo q u a n d o a p re cia m os a s d ife -re n ças e n t-re sua s ve rsõe s k a xin a w á e sh ip ib o. Os Ka xin aw á , seg u n d o a s d e scrições vig e n te s, b a se ia m su a orga n iza ção e m u ma a lia n ça ob se rv a d a n a p rá tica (com a troca re strita ) e id e olog ica m e n te ce le b ra d a (e m u m d u a -lism o in te g ra d or). Para con se gu ir e sse e n ca ixe p e rfe ito é n e ce ssá rio re s-tr in g ir a in te ra çã o so cia l a u m a c om u n id a d e e n d ó g a m a , q u e p re e n c h e sa tisfa toria me nte os re qu isitos da verdad e ira h u m a n id a d e : m od os corre t o s d e ca sa me n to, d e re laçã o en tre g ru p os, d e g ra fism o corp oral. N ão pod e se r m a ior o con tra ste com os Yam ina w a — p a ra os q ua is a a lia n ça é esse ncia l-m e n te u l-ma re la ção trá g ica col-m a a lte rida d e — q u e e nfatizal-m a e xtro v e r-sã o e , p or isso m e sm o, p õe m e n tre p a rê n te se s o a sp e cto “ in te rn o” d e su a s p rá tica s d e ca sa m e n to, d issim u la n d o o u so d a te rm in olog ia d ra vid ia n a .
É comp re e n síve l a ssim o p a p e l q u e os Ka xina w á d ã o a o In ca : e le é o e s t r a n g e i ro ca n ib al q u e se n e g a à a lia n ça e qu e , p orta n to, im p õe lim ite s à g e ne rosid a d e e xig id a p e la ide olog ia k a xin a w á d o p a re n te sco. Ele mos-tra a n e ce ssid a d e d e m a rca r lim ite s, e o m od o — a ta tu a g e m — de re c o-n h e ce r os p róp rios. Pa ra os Ya m io-n a w a , o a o-n im a l g e o-n e roso ocu p a o m e s-m o lu g a r d o In ca, s-m as e s-m us-m a rg u s-m e n to d e sig n o op osto: ofe re ce -se e s-m lu g a r d e se g u a r d a r, é d e v ora d o e n ã o d e vora q u a n d o é a su a ve z . U m c o m p o rt a m e n to in ve r ossím il q u e con sa g ra a a b e r tu ra im p ru d e n te d o s Ya m in a w a a u m m u n d o on d e o h om e m é lob o p a ra o h om e m , m a s on d e h om e m e lob o costu m a m a n d a r com p e le s troca d a s.
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m u it os ou tros ve lh os g ru p os d o Uca ya li, com o Re m o e Iscon a h u a , e e stá e m p roce sso d e a ssim ila r — com a e xte n sã o d e su a s a rte s g rá fica s — cole tivos tã o in im ig os q u a n to os C a sh ib o. Sh ip ib o é u m n om e te n d e n cia lm e n -te “ n a cion a l” , q u e e n g lob a d ive rsa s e tn ia s.
O s In ca s d o Uca ya li fa ze m d a n e g a çã o (re la tiva ) d a a lia n ça u m ca so me nor d o te m a s o v in ic e / d o a ç ã o: o p re te n d en te d a filh a d o In ca vê -se for-ça d o a su p e ra r p rova s d ifíce is im p osta s p or u m so g ro ciu m e n to, p oré m m a is ciu m e n to d os se u s te sou ros q u e d e su a filh a . O ca so k a xin a w á é o in ve rso: os b e n s cu ltu ra is sã o o prêm io d e con sola çã o p or um a lu ta in gló-ria p a ra con seg u ir a m u lhe r d o ou tro, e a n e g a çã o d a a lia n ça , a q u i a b so-lu ta , e n g lob a o con ju n to.
De n ovo u m con tra ste a g ud o com os Ya m in a w a , qu e ca re ce m d e ssa brilh a n te a rte , p re se n te d o In ca , q u e distin g u e ou tros Pa n o. Se os Sh ip i-b o te n ta m a firm a r com o ca sa m e n to d ista n te os la ços d e n tro d e u m a e tn ia cu jos lim ite s sã o m a rca d os p or sig n os e xte rn os (a p in tu ra e o a rt e s a n a t o ) , os Ya m in a w a e sforça m -se em ma rca r a d istâ n cia e n tre seu s g ru pos — tão p róxim os n o p a re n te sco e n o e sp a ço —, e vit a n d o os sig n os e xte rn os d e id e n tid a d e (é a ra zã o d e p e rd e re m com ta n ta fa c ilid a d e su a “ cu lt u r a ” e n te n d id a e m se n tid o folclórico) q u e lh e s forn e ce ria m u m a fron te ira e xte -r i o -r. Vi -rt u a lm e n te , tod a a h u m a n id a d e — in clu sive a d o p e sq u isa d o-r — p od e ria se r in clu íd a e m u m con ju n to in fin ito d e g ru p os -n a wa .
a q u alq u e r a lian ça , te m os u m con sa n g üín e o q u e é le va do a a b usar d e su a p roxim id a d e , m a s q u e com p e n sa o fato com su a g e n e rosid a d e. O s Ya m i-n a w a , tã o ob ce ca d os p e la cu lt u ra d o Bra i-n co, i-n ã o tê m m ito a lg u m a se u re s p e i t o .
Re ca p itu la n d o, p od e m os d e fin ir trê s situ a çõe s a p ta s p a ra com p a ra çã o: a qu e la e m qu e existem m itos a re sp e ito d o In ca e a re spe ito d o Bra n -co; a q u e la e m q u e o m ito d o Bra n co é p a rte d o m ito d o In ca ; e a q u e la e m q u e n e m o In ca n e m o Bra n co sã o p rota g on ista s d e m itos . E m te r m o s ge rais, trata se d a s situ açõe s k axin a w á , sh ip ib o e ya min a w a . Essa com p a -ra çã o lid a com trê s “ e tn ia s” h e te rog ê n e a s. Sa b e m os q u e os Sh ip ib o sã o u m a g re g a d o de p ovos consolid ad o e m fu n çã o d e a lg un s sig n os com u n s, com o a a rte e o In ca q u e a in ve n tou . Sa b e m os q u e “ Ya m in a w a ” d e n ota a l t e r n a tiva m e n te u m n ós e xclu sivo (u m g ru p o a ssim d e n om in a d o), u m o u t r o e xclu íd o (u m tip o d e ín d io se lva g e m e e n t róp ico) e u m , d ig a m os , “ o u t ro in clu sivo” (tod os os h u m a n os e os a n im a is, virtu alm e n te cla ssificá -ve is e m u m a g ra d e d e ca te g oria s “ n a w a ” ). O te rm o k a xin a w á n ã o te m sid o su b me tid o a u m a re visã o d e sse tip o, e a lite ra tu ra e sp e cia liza d a con ce d e lhe um a id en tid a d e d iscre ta — é tn ica, lin gü ística e cultural — e d ota d a d e profu nd id a de histórica . Nã o por a ca so sã o e le s os ú n icos n o conju n -to a q u i t ra ta d o q u e cons a g ra r a m e n tre vizin h os e a n trop ólog os o u so d e u m a a u tod e n om in a çã o, H u n i Ku in . Re su m in d o e m u m q u ad ro p a rte d os con tra stes q u e fora m a qu i p a ssa d os em re vista , te ría m os o se g u in te :
Shipibo-Conibo Kaxinawá Yaminawa
e xte nsã o d e u m consa g ra çã o exte rna d e p lu ra lid a de d e etn ôn im os
e tn ôn im o p a rticu la r u m a a u tod e n om in a çã o “ totê m icos”
(H u n i Ku in )
In ca fu n d a d or In ca ca n ib a l/ ce le ste a fin s a n im a is
ca sa m e n to a lon g a e xog a m ia d e m e ta d e s, con flitos in te rn os d ã o d istâ n cia , m a s d e n tro d o e n d og a m ia d e a ld e ia lu g a r a u n id a d e s
con ju n to sh ip ib o-con ib o e xog â m ica s
n o m ito, o Bra n co é u m a h á u m m ito d e orig e m n ã o h á u m m ito d e cria çã o im p e rfe ita d o In ca d o Bra n co: e le é u m orig e m d o Bra n co:
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O “ In ca ” ilu stra -n os sob re a s u tilid a d e s d e u m n om e e m u m a t e rr a o rg a n iza d a p or p ron om e s s o c i o l ó g i c o s1 9. N o ca so sh ip ib o (u m te rm o q u e p od e ria a la rg a r-se e m S h ip ib o-C on ib o-Sh e te b o- Iscon a h u a -Re m o e a lé m ...), a g lu tin a m itos e p opu la ções e m um a n a ç ã o d e ta ma nh o con sid e -rá ve l p a ra os p a d rõe s a m a zôn icos a t u a is2 0. N o ca so k a xin a w á , fixa u m o u t ro a ve ss o à tr oca m a trim on ia l, fa ze n d o d a p rim e ira p e ss oa d o p lu ra l — H u n i Ku in — u m a e n tid a d e d iscr e t a e su b sta n cia l n ã o q u e st io n a d a pe la s troca s e xte rn a s. N o ca so ya m in aw a a “ op çã o n om e ” m a n ife sta - se em ou tro â m b ito, fa zen d o d os e t nôn im os um a re d e totêm ica (os p se u d o-clã s n a w a ) q u e ocu p a o p la n o m a is visíve l d a e stru tu ra socia l.
O s Sh ip ib o-C on ib o, p a ra e xp re ssá -lo d e ou tro m od o, e xiste m d o p on-to d e vista d o In ca ; os Ya m in a w a , d o p on on-to d e vist a d os ou tros Pa n o; os Ka xin a w á , d o se u p róp rio p on to d e vista , com a a ju d a d e u m e sp e lh o in ca e u m ou tro Bra n co.
N e sta visão, o p on to estra té g ico d a s e strutu ra s socia is d e sloca-se d o c e n t ro — tra d içõe s, te rm in ologia s ou re g ra s d e a lia nça — p a ra a s fro n t e i-ra s, p a i-ra a d e lim ita çã o d e ide n tid a d e s; é m a is u m m od o d e d ize r q u e e la s sã o p rodu to d a h istória ou m a is con cre tam e n te d os h istoria d ore s ou m itó-g ra fos n a tivos.
Epílogo: sobre a ant iguidade dos modelos
Ao d e scre ve r o m od e lo k a xin a w á , Ke n sin g e r d e u e sp a ço à e sp e cu la ção h istórica . O m od elo k a xin aw á se ria a ve r sã o a tu a l m a is com p le ta d e u m m od e lo p rot op a n o q u e ou tros g ru pos p róxim os n a g e ogr afia e n a lín g u a — com o os p róp rios Ya m in aw a — con se rva ria m e m ve rsõe s m a is im p e r-fe ita s. As teses d e Ke ir-fen h e im — im p orta n te s ta m b é m n a con sa g ra çã o d o m od e lo — e vita m u m te rm o a rrisca d o (“ p rotop a n o” ), m a s a ssu m e m se m p e jo su a s c on se q ü ê n cia s. As ca te g or ia s so ciog ê n ica s d o Uca y a li e d o s g ru pos - n a w a sã o ve rsõe s p ro g re ssiva m e n te “ b orra d a s” d o câ n on e k a xi-n a w á , cu ja p otê xi-n cia p a re ce a ssocia d a a se u m a ior coxi-n se rva d orism o.
N u n ca é d e m a is, q u a n d o se q u e r fa ze r in fe rê n cias sob re o p a ssa d o, e xa m in a r com cu ida d o a s fon te s m a is a n tiga s d e q u e d isp om os. N o ca so k a xin a w á e st a s sã o, c om o sa b e m os, d e e xce le n te q u a lid a d e . Um te x to d ita d o a C a p istra n o d e Ab re u p or Borô (Abreu 1941:5722-5804; cf. a g lo-sa e m Ab re u 1 938:341-34 5) g u a rd a a lg u m a s e sp e cu la çõe s k a xin a w á s o b re o pa ssad o, e xpre ssa s d u ra n te o au g e m esm o d o b o o m d a borr a c h a . O t e xto n a rra a d is p e rs ã o d os H u n i Ku in a p a rtir d e u m p rim e iro la r, à b e ira d o “ rio Z a n g a d o” (h ön ö cin a ta p a ). Lá vive ria m d ois a n ce st ra is: H a ru k u m (o p rim e iro) e Ap ó, con ce b id o d e p ois. C a d a u m d e le s g e ra seu p ovo “ e n ca n ta n d o” (d a m iwa n i kia ki) u m a fru ta d o m a to, ku ta (ja ci) e xe b ó (u ricu ri), re sp e ctiva m e n te . H a ru k u m tem m u lh e r, m u ito b on ita; Ap ó n ão t e m e se a p a ixo n a p e la d e H a ru k u m . N a b rig a con se q ü e n te , H a r u k u m re crim in a a Ap ó p or n ã o te r se ca sa d o, te n d o m u ita s m u lh e re s d e su a g e n te , e d e se ja r log o a su a ; a m e a ça , e n fim , a p od e ra rse d a s m u lh e re s d o g ru p o d e Ap ó. N a lu ta , H a ru k u m m orre , os g ru p os d e a m b os os ch e fe s p e le -ja m e se d isp e r sa m , su b in d o u m a m u lt ip licid a d e d e rio s: o J u ru á , o Ta ra u a cá , o En vira , o M u ru , o M oron a l, o Taw a ya , o Ib u a çú , o H u m a itá , o C olom b o, o Pu ru s e o Acre (Ab re u 1938). O re la to a ca b a com u m la m e n -to: n ã o tive s se sid o e ssa m orte , e a in d a vive ría m o s e m a ld e ia s d ire i t a s (m a e ka ya ) à b e ira d o rio Za n g a d o.
O in te re sse d e sse te xto é m últip lo. De u m la d o, o e sq u e m a socia l q u e o re la to n os a p re se n ta com b in a e le m e n tos q u e a p a re ce ra m e m d istin tos p on tos d a n ossa a n á lise (a e n d og a m ia , a re cus a d a a lia n ça , a fra g m e n ta -çã o dos g ru pos), m a s n ã o correspon d e a n e n h um a d a s m orfolog ia s socia is d iscut id a s n e sta s p á g in a s. De out ro la d o, a p re se n ta os Ka xin a w á já sa u d osos d e um a ord e m p rim ord ia l, q u e t e ria se q u e b ra d o e m te m p os a n te r i o re s à che g a d a d os se rin g u eiros, e m u m p roce sso in te rno. Borô con te m p la a socie d a d e k a xin a w á com o o fru to d e u m a qu e d a , su postam e nte a n te -rior e a lhe ia a os Bra n cos.
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um a re la çã o sig n ifica tiva e n tre irm ã os. A criaçã o de se u s p ovos n ã o só p re s c i n d e d a troca m a trim on ia l, m a s m e sm o d a se xu a l: os h e róis form a m n os “ e n ca n -ta n do” d u a s esp é cie s d e fru -ta s silve stre s2 2. A se g u ir, a d ota m u m a con d uta cla -ra me n te en d óg a m a : o p eca d o d e Ap ó, q u e p õe fim a e ssa ida d e d e ou ro, é a sp i-ra r à troca m a trim on ia l, u m p e ca d o in com p re e n síve l n os te rm os d o m od e lo k a xi-n a w á , m a s q u e g a r a xi-n t iu a Ap ó u m a d u ra d ou ra fa m a d e vilã o. Ra fa e l G ira r d , qu e visitou os Ka xin a w á n os a n os 50 e d e scre ve cla ra m e n te o m od e lo ta l com o a g ora o con h ece m os, cita a in d a Ap ó (1958:228) com o p rota g on ista n e fa n d o — Ap ó é Lu a , o in cestu os o. Se G ira rd n ã o ou viu m a l, a m ora l d os m itos k a xin a w á m u d ou n ota ve lm e n te e m q u a re n ta a n os.
Se vira rm os a lu p a p a ra os Ship ibo, re le n d o a p olê m ica sobre os Inca s, n os d e p a r a re m os com d úvid a s se m e lh a n te s. Assim , o a rtig o d e De Boe r e Ra ym on d (1987) in d ica n a d a h ave r n a ob ra , curiosa e p rofu sa m e n te ilu stra d a , d o viaja n te M a rcoy (q u e sin g rou o Uca yali p ou co a n te s d e 1850) q ue nos le mb re a m a gn ífi-ca ce râ m iífi-ca sh ip ib o a tu a l. De fato, a s p rim e ira s a m ostra s p le n a s d e ssa a rte n ã o su rg e m a n te s d a se g u n d a m e ta d e d o sé cu lo XIX — e m cole çõe s com o a d e C oli-n i (1883; 1884).
N ã o re c o rd o, a cre sce nt o, re fe rê n cia s a o In ca Sh ip ib o-C on ib o a n te riore s à d o p róp rio C olin i (1884:531). Se rá q u e os m ission á rios cas te lh a n os, q u e tre z e n -tos a n os a n te s via m In ca s p or t od a p a r te , tin h a m p e rd id o e ssa se n sib ilid a d e ? O u se rá q u e os ín d ios e scond ia m d e le s u m a cre n ça q u e , se g u n d o a in te rp re t a -çã o d e H a rn e r (1993), t in h a con ota çõe s su b ve rsiva s? E n e sse ca s o, p or q u e a con fia ra m a u m p a trã o p ode roso — e a lia d o d os m ission á rios —, com o M á xim o Rod ríg u e z, p a ra q u e e ste a tra n sm itisse a Fa ra b e e (1922) p or volta d e 1907? N ã o n os d e p a ra m os com u m silê n cio d ocum e n ta l, m a s com u m con ju n to s ig n ifica ti-vo d e silê n cios docu m e n ta is. N ã o h á re g i s t ro, a té q u a se a vira d a d o sé cu lo, d e In ca s Pa no ou d e sse e stilo tra dicion a l Sh ip ib o-C onib o; d e ve re m os e sp e ra r m a is u n s d e cê n ios p a ra sa b e r d os Ka xin a w á “ crista lin os” e d o se u In ca C a n ib a l.
d e e ve n to. N ão m e ocu p o a q ui de povos qu e le m b re m u m a fig u ra históri-ca ou q u e e xpresse m se ja o qu e for m ed ia n te u m símb olo, ma s d e u m m ito (lig a d o a u m mod e lo) cu jo e sta b e le cime n to tem cola b ora do d ecisiva m e n te n a con fig u ra çã o a tu a l d e d e t e rm in a d os p ovos. O a sp e ct o se m â n tico d os sím b olos é u m tóp ico m a is com u m q ue a su a e ficá cia h istórica ; o ca so d o In ca é um b om exe m p lo d e sta últim a2 4. A h istoriog ra fia re ce n te su b lin ha a ca p a cid a d e d e as cu ltu ra s in d íg e n a s r e e l a b o r a re m su a s e stru tu ra s e m fu n çã o d a e xpe riê n cia h istórica ; m a s, d esse m od o, ain d a su b ord in a a s p ri-m e ira s à se g un d a , e a s d istin g u e d ela . As tran sforri-ma çõe s d e u ri-m con ju n to m ítico — ou d e u m m od e lo socia l — são fa tos históricos, e nã o só i n t e rp re -t a ç õ e s d e fa-tos h is-tóricos; p ode m e s-ta r n a b a se ou à fre n -te d e ou -tros fa -tos, e n ã o som e n te a t r á s d e le s. Isto su p õe q u e e le s m ud a m m a is d e p re ssa d o q u e g osta m os de ad m itir, p ois toma m os a lon g a d u ra çã o d os e le m e n tos d o m ito p or u ma lon g a d ura ção d os mitos e nq u a n to siste m as. Su p õe ta mb é m q u e a va ria b ilid a d e d as e strutu ra s con stitu i su a força , e n ã o o sig n o d e su a fa lê n cia — u m p rin cíp io es tru tu ra lista a m p la m e n te a ce ito com o e n un cia -d o te órico, m as ra ram e n te a p lica -d o n a -d e scrição.
O q u e d e te rm inou a ce nt ra lid a d e d o In ca e n te os Pa n o? O b o o m d a b o rra ch a , o in gresso m a ssivo d os b ra n cos no un ive rso in d íg e n a sã o con ju -ros b r avos o su ficie n te , n ã o h á com o d u vid a r, p a ra fa ze r a p ar e ce r n ovos de u se s ou he róis fu n da d ore s, e p a ra força r red efin ições d a s fronteiras é tn ica s. Até a q ui, m e u a rg u m e n to eq u ivale a o de H a rn e r (1993), q u e con sid e -ra o In ca o ce n tro d e u m ce rto m e ssia n ism o u ca ya lin o. A d ife re n ca e stá e m q u e p a ra H a rne r e sse m ito e xp lica ria a pa ssivid a de , a o me n os te m p o-rá ria , d os ín d ios d o Uca ya li p e ra n te a s e xa çõe s d os b ra n cos: se ria m a is u ma ve z u m a má q u in a a n ti-h istórica . Pa ra m im , con sta m mod ifica çõe s d e fa to, e sse n cia is e im p ulsion a da s p or e sse m ito, qu e a liá s tem m e n os a ve r com o Bra n co q u e com a org an iza çã o in te rn a do con ju n to p a n o.
N ã o d e ve m os su p or q u e a h istória “p rim itiva ” p re cise d e e p isód ios e xtra ord in á rios p a ra se m ove r. Pod e -se e n te n d e r m e lh or a s re la çõe s e n tre os m ode los p a n o su p on d o q u e é d a n a tu re za d e sse s m ode los m u d a r se m -p re , a o lon g o d e u m a h istória com In ca s e Bra n cos, m a s q u e n ã o te m n e le s n e ce ssa ria m e n te se u in ício ou se u fin a l.
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N o t a s
1 Um a b oa p a rte d e ssa p olê m ica e n co n trou lu g a r n a s p á g in a s d o m e sm o
J L A L: a ssim , a crítica in icia l d e De Boe r e Ra ym on d (1987), a re sp osta d e La th ra p e t a lii (1987) e a crítica m a is p a rticu la riza d a d e Erik son (1990). O u tros e xe m p los se rã o citad os ao lon g o do texto. Um a contribu ição pa ra lela, m as a fin ad a com a ca usa de La thra p e tc., foi a d e H a rn er (1993). Sob re e sta última voltarei n o fin al d o te xto.
2 Um b om e xe mp lo d e ssa crítica p od e se r Roe (1988). C f., ta m b é m , M cC a
l-lu m ( 1 9 8 9 a ) .
3 C f. o e p ílo g o d e Re n a rd -C a se vitz, Sa ig n e s e Ta ylor (1989) e a a n á lise d e
Erik son (1992:245-246).
4 N e m e le s, n e m ou tros p ovos d a á re a q u e p od e ria m se r in clu íd os sob e sse
e tn ôn im o. P e n so con ta r com e ssa “ ce rtid ã o n e g a tiva ” p a ra os Ya m in a w a p e ru a -nos (Town sley 1988), p a ra os Sh a ra n a h ua d o Pu ru s (Sisk in d 1973 e To rra lb a 1986) e p a ra os Ya w a n a w a d o rio G re g ório (Lú cia Sm re cza n yi e m 199 1, com u n ica çã o p e ssoa l, e La u ra Pé re z e M ig u e l C a rid e m 1998, com u n ica çã o p e ssoa l).
5 Estou m e re fe rin d o e sse n cia lm e n te aos Ya m in a w a d o rio Acre (Bra sil), q u e
p e sq u ise i e n tre 1991 e 1993 (C a la via Sá e z 1995). O q u e se rá d ito a se u re s p e i t o p od e e m te rm os g e ra is se a p lica r a os Ya m in a w a p e ru a n os (Tow n sle y 1988), com a lg u m a s e xce çõe s q u e se rã o foca liza d a s e m se u m om e n to.
6 In clu ir n a a n á lise con tr ib u içõe s com o a s re f e re n t e s a os M a ru b o e xig iria
u m ou tro a rtig o , com u m ob je to d ife re n te e m a is a m p lo. O m ito d e sh om a w e tsa (M e la tt i 198 5; 1989) in ve rte os te rm os e o p on t o d e vista d a m itolog ia “ in ca ica ” q u e a q u i n os ocu p a : os in ca s n a sce m , com o ou t ros p ovos, d a im p losã o d e u m m on stro ca n ib a l; sã o p re d ica d os a n d in os d e u m su je ito a m a zôn ico.