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"Quem tem boca vai à África": o debate na produção de conhecimento do Serviço Social sobre a problemática étnico-racial no Brasil

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Academic year: 2021

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CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS CURSO DE SERVIÇO SOCIAL

GLEYCE KARENINA FRANÇA QUEIROZ DE SOUZA

“QUEM TEM BOCA VAI À ÁFRICA”: O DEBATE NA PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL SOBRE A PROBLEMÁTICA

ÉTNICO-RACIAL NO BRASIL

NATAL/RN 2019

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GLEYCE KARENINA FRANÇA QUEIROZ DE SOUZA

“QUEM TEM BOCA VAI À ÁFRICA”: O DEBATE NA PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL SOBRE A PROBLEMÁTICA

ÉTNICO-RACIAL NO BRASIL

Monografia apresentada ao curso de Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial à obtenção do título de Graduada em Serviço Social.

Orientadora: Profa. Ma. Angely Dias da Cunha

NATAL/RN 2019

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro Ciências Sociais Aplicadas - CCSA Souza, Gleyce Karenina França Queiroz de.

"Quem tem boca vai à África": o debate na produção de

conhecimento do Serviço Social sobre a problemática étnico-racial no Brasil / Gleyce Karenina França Queiroz de Souza. - 2019. 77f.: il.

Monografia (Graduação em Serviço Social) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Departamento de Serviço Social. Natal, RN, 2019. Orientadora: Profa. Ma. Angely Dias da Cunha.

1. Questão étnico-racial - Monografia. 2. Serviço Social - Monografia. 3. Produção de conhecimento - Monografia. 4. Projeto ético-político - Monografia. I. Cunha, Angely Dias da. II.

Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título. RN/UF/Biblioteca do CCSA CDU 364:378

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GLEYCE KARENINA FRANÇA QUEIROZ DE SOUZA

“QUEM TEM BOCA VAI À ÁFRICA”: O DEBATE NA PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL SOBRE A PROBLEMÁTICA ÉTNICO-RACIAL NO BRASIL

Monografia apresentada ao curso de Graduação em Serviço Social, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Serviço Social.

Aprovada em: _____/_____/_____

BANCA EXAMINADORA

________________________________________ Profa. Ma. Angely Dias da Cunha

Orientadora

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

________________________________________ Profa. Dra. Ilka de Lima Souza

Membro interno

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

________________________________________ Profa. Dra. Taise Cristina G. C. de Negreiros

Membro interno

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À Irene França de Souza, avó querida, exemplo de força, coragem e perseverança, com muito amor, dedico.

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AGRADECIMENTOS

Oportunamente, agradeço àquele que me sustenta, me alimenta o espírito e me fortalece diariamente, incessante e incansável, Deus todo poderoso, a quem recorro nos meus momentos mais difíceis e me abrigo, confiando sem reservas, com a certeza de sua Graça; de onde tirei forças para continuar essa caminhada, e que, juntamente com a Virgem Maria e o Espírito Santo, me guiou até o fim dessa jornada.

À minha família, presente de Deus, cujo apoio e amor incondicional foram indispensáveis para formar a pessoa que me tornei, em especial à Rossana Karenina, Aguinaldo Antônio, Aguinaldo França e Luana Karenina, que me incentivaram, deram força, esperança e palavras de conforto no meu dia a dia, além dos esforços sem reservas que me proporcionaram estar no lugar em que me situo hoje. Obrigada, nada seria sem vocês!

Aos meus amigos, irmãos de alma e vida, que me ajudaram incontáveis vezes nesse processo de formação, obrigada pela paciência, pelo conforto nos momentos de pressão e injeções de ânimo nos momentos de necessidade, principalmente aos que se fizeram presentes ativamente nesta construção, Leticia Lima, Anny Luize, Lariza Eugênia, Rita de Cássia, Aline Porfírio e Wesley França, me faltam palavras pra agradecer o que fizeram e fazem por mim, Deus os escolheu à dedo para florescerem no meu coração.

Aos docentes que me ajudaram nesse percurso acadêmico, em especial àqueles que não mediram esforços para contribuir e ajudar nos momentos mais difíceis, Ilka de Lima Souza, que foi essencial para o meu processo de estágio, tornando tudo possível, e Angely Dias da Cunha, minha orientadora, que me acolheu no meio do processo de orientação e me ajudou nos momentos de maior tensão. Eternamente grata pelo apoio, compreensão e, principalmente, paciência. Obrigada por acreditarem em mim.

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RESUMO

A presente pesquisa condensa as proposições acerca da questão étnico-racial, sua colocação no desenvolvimento da sociedade e sua perspectiva como marco na questão social negra do Brasil, com o propósito de traçar o percurso teórico que culmina na construção do projeto profissional do Serviço Social a partir da produção de conhecimento nesta temática. A esse proposto, o objetivo geral busca analisar de que forma a categoria profissional tem pensado e trabalhado a questão étnico-racial na produção teórica de conhecimento, tendo como objetivos específicos identificar as principais áreas de atuação do Serviço Social que produzem material teórico sobre a temática racial, analisar as vertentes teóricas que sequenciam as produções acadêmicas, e articular as produções teóricas acerca da questão racial com a direção do projeto profissional a partir do movimento teórico-prático. Para tanto, sua metodologia estruturou-se através de uma pesquisa bibliográfica e análise de conteúdo documental - materializado na revista Serviço Social & Sociedade, de maior conceito e referência para a categoria, e no material produzido pelo CFESS, a partir dos anos 2010 a 2019, tendo como marco a consolidação do projeto ético-político do Serviço Social -, caracterizada no processo qualitativo, tendo em vista suas necessidades particulares para a apreensão do conteúdo pesquisado e alcance dos objetivos. Dito isso, a reflexão acerca desse processo se configura num elementar cunho estrutural na construção econômico-social do Brasil, a qual fomenta uma conjunção de problemáticas sociais racializadas no processo produtivo, difundindo construções racializadas socialmente, culturalmente e economicamente. Assim, o Serviço Social, em seu compromisso com os projetos societários e seu projeto ético-político, atuando precisamente nas expressões da questão social, se estrutura na dinâmica racial em seu exercício profissional, bem como seu campo de pesquisa, demarcado nas demandas profissionais de cunho étnico-racial.

Palavras-chave: Questão étnico-racial. Serviço Social. Produção de conhecimento. Projeto ético-político.

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ABSTRACT

This research abridges the propositions about the ethnic-racial question, its place at the society development and its perspective as a mark on a black social issue in Brazil, with the purpose to tracing the theory path that culminates in the construction of a Social Service professional project starting from knowledge production about that thematic. On that account, it pursuit analyses the ways the professional category has thought and working the ethnic-racial issue on the theoretical production of knowledge, and aim to identify the main areas of Social Service action that generate theoretical material about racial thematic, analyze the theoretical strands that sequenced the academic productions, and articulate the theoretical productions about the racial issue with the direction of the professional project from the theoretical-practical movement. Therefore, it was structured through bibliographic research and analysis of documentary content - materialized in the journal Serviço Social & Sociedade, the one with the greatest concept and reference for the category, and CFESS materials, from 2010 to 2019, have as a watershed the consolidation of the ethical-political project of Social Service Work - characterized in the qualitative and quantitative set, considering their particular needs for the apprehension of the researched content and the achievement of the objectives. That having been said, the reflection about this process is configured in an elementary structural imprint on Brazil’s social-economic construction, which fosters conjunction of racialized social issues in the production process, spreading socially, culturally and economically racialized constructions. Consequently, the Social Service, in its commitment to social projects and its ethical-political project, acting precisely on the expressions of the social question, it is structured in the racial dynamics in its professional practice, as well as its field of research, demarcated in the professional demands of ethnic-racial nature.

Keywords: Ethnic-racial question. Social service. Knowledge production. Ethical-political project.

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LISTA DE SIGLAS ABEPSS CAPS CFESS CLT ECA FHC IAPS LBA LOAS MDS NOB/SUAS ONGS PNAS PNPIR SEBRAE SENAC SENAI SENAR SENAT SESC SESCOOP SESI SEST SUAS

Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social Caixas de Aposentadoria e Pensões

Conselho Federal de Serviço Social Consolidação das Leis de Trabalho Estatuto da Criança e do Adolescente Fernando Henrique Cardoso

Instituto de Aposentadoria e Pensões Legião Brasileira de Assistência Lei Orgânica de Assistência Social Ministério do Desenvolvimento Social

Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social Organizações Não Governamentais

Política Nacional de Assistência Social

Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial

Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial

Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial Serviço Nacional de Aprendizagem Rural

Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte Serviço Social do Comércio

Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo Serviço Social da Indústria

Serviço Social do Transporte

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 9

2 A QUESTÃO ÉTNICO-RACIAL COMO PROTOFORMA DA

PRECARIZAÇÃO DA VIDA SOCIAL... 16 2.1 O papel da escravidão na formação social capitalista brasileira... 19 2.2 Herança racial nos desdobramentos políticos-econômicos-sociais... 25

3 QUESTÃO ÉTNICO-RACIAL E SERVIÇO SOCIAL: AS

FERRAMENTAS PROFISSIONAIS PARA A GARANTIA DE DIREITOS DOS CIDADÃOS POR MEIO DA POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL... 33 3.1 Surgimento e renovação do Serviço Social no Brasil... 42 3.2 Neoliberalismo e conservadorismo: a direção do projeto profissional e seus

rebatimentos à apreensão da questão social... 52 3.3 Consolidação do projeto ético-político da profissão... 56 3.4 A formação profissional e o compromisso com os projetos societários 58

4 “QUEM TEM BOCA VAI À ÁFRICA”: O DEBATE NA PRODUÇÃO DE

CONHECIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL SOBRE A PROBLEMÁTICA ÉTNICO-RACIAL NO BRASIL... 62 4.1 A questão étnico-racial à luz do materialismo

histórico-dialético... 63 4.2 As áreas do conhecimento do Serviço Social e as tendências

teórico-metodológicas da questão étnico-racial no segmento profissional... 67 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 71 REFERÊNCIAS... 74

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1 INTRODUÇÃO

A questão racial como forma e formulação de um conjunto de determinações históricas consideradas particulares a um povo, detêm em seu arcabouço teórico e prático muito além de uma simples estruturação social ou definições ínfimas que desvendam certos aspectos de uma ou outra cultura. Faz-se neste, uma perspectiva ampla e difundida a respeito dos debates em torno desta temática e suas relações pelo Serviço Social.

A este respeito, colocam-se em discussão os aspectos econômico, social e político que estruturaram o Brasil desde seu descobrimento no tocante a questão racial, e não somente, quando se tem como seu elemento central alicerçado no país por meio da invasão portuguesa, a qual importou e explorou mão de obra negra com o intuito do aumento da lucratividade.

Acerca disso, voltando um pouco ao elemento pré-escravidão brasileira, o que se trata na história pela formação econômica escassa, e ditatória pelos detentores de poder local, do regimento africano, aloca base à estruturação e disseminação do trabalho escravo entre nativos do continente. Torna-se imprescindível resgatar as determinações dessa estrutura e fomento do trabalho escravo, baseado na miséria de um povo abarcado pela guerra e desestruturação da gestão dos recursos naturais.

Neste ponto, importa destacar que no entreguerras1 da história africana pelo poder das riquezas naturais encontradas em suas terras, e que dizimou sua estrutura política e social, causando impactos determinantes em sua estrutura geográfica. Ora, quando se tem um único continente em que determinada região explora seus residentes, e outra em que é capaz de plantar no deserto para satisfazer um estilo de vida ascendente, algo em sua formação advém do lucro à miséria.

Avaliando estas determinações a que estruturaram o intercurso africano que culminou no processo de escravização que perdurou por três séculos dentro da lei, é possível inferir - considerando o caráter exploratório a que se deu a formação social negra em todo o mundo -, uma extensão das formulações que minaram o constructo de desenvolvimento étnico-racial ao que hoje é conhecido.

Distanciando-se das formulações que difundem a prática racista a partir de uma herança racionalizada pelo formato escravista conjuntural dos primeiros passos da construção do Brasil, faz-se aqui uma estruturação a partir da reprodução social estruturante de uma sociedade pelo escravismo como modelo econômico fundante das relações sociais e

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econômicas. Ou seja, não uma herança, mas uma construção histórica, política e econômica da formação social reflete a questão racial hoje.

Ademais, não se busca aqui, tratar o racismo somente como uma construção ideopolítica que se estruturou no contexto social, ou seja, uma ideologia que meramente reflete um contexto minoritário, desestruturado ou pouco difundido nas formulações sociais, trata-se aqui o racismo como uma construção estruturada nas bases de formação do capitalismo, que emerge de suas determinações e se difunde em sua estrutura pelas proposições de seu modelo econômico.

A questão social2no Brasil evidencia-se, dentro do modo de produção capitalista, no contexto precisamente pós-abolição, quando de uma estrutura marcada pelo pauperismo e agravamento das desigualdades sociais (SANTOS, 2012). Apesar de não serem inéditas (desigualdade social) - marcado de uma história em que já se propunha na sociedade a diferenciação de servos e senhores -, a questão social só se estrutura a partir da luta de classe, isto é, da colocação de classes sociais distintas e difundidas numa construção de base no trabalho livre, apropriação dos bens sociais e agravamento da pobreza (NETTO, 1999).

Assim, segundo Prado Júnior (2004), desde a extinção da escravidão, a pobreza advinda da desvalorização do trabalho, a marginalização da população sem ocupação fixa que advém da mão de obra recém liberta, busca estruturar-se nas novas relações de trabalho, mas sem muito sucesso.

Tal qual funciona a questão social, a questão racial em sua formalização concreta abarca historicidade de diferentes povos por gerações, sendo assim, seu movimento se funde às contextualizações sociais, políticas, econômicas, culturais e intelectuais a que se determinam diferentemente as especificidades do tempo que se coloca. Ou seja, a questão racial assim como a questão social se desenvolve, articula assume novas roupagens de acordo com o desenvolvimento do capitalismo.

Nesse sentido, importa dizer que, como expressão da questão social, a questão racial determina, caracteriza e desenvolve formulações na vida em sociedade; e assim, prima o seu direcionamento como matéria do Serviço Social e um ponto objetivo na dinâmica do trabalho direto nas políticas, principalmente no Brasil, cuja formação está caracterizada no cerne das relações étnico-raciais e sua dinâmica constitui influência nas determinações sociais.

2 [...] a questão social expressa às desigualdades econômicas, politicas e culturais das classes sociais, mediatizadas por disparidades nas relações de gênero, características étnicos-raciais e formações regionais, colocando em amplos segmentos da sociedade civil no acesso aos bens da civilização. É em meio a essas contradições que trabalha os assistentes sociais, com as múltiplas dimensões da questão social tal como se expressam na vida dos indivíduos sociais, a partir das políticas sociais e das formas de organização da sociedade civil na luta por direitos (IAMAMOTO, 2001, p. 158-160).

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Outro ponto de destaque na conjuntura social que marca profundamente as relações raciais nas determinações que se difundem até os dias atuais, está materializado nos avanços neoliberais que acabam por caracterizar uma escravidão contemporânea, difundida no processo de transformação do trabalho e o sucateamento dos setores produtivos; além de minarem as formas de contratação, desestabilizarem o mercado profissional, ainda constroem novas formulações no terceiro setor a fim de diminuir os gastos do setor de Proteção social vinculados ao trabalho.

Dessa forma, coloca-se o Serviço Social e seu trabalho junto aos projetos societários vigentes, dissemina uma estruturação precisa na promoção e garantia dos direitos, bem como sua organização política e visibilidade social. Logo, pensando no significado político do projeto profissional do Serviço Social que se verifica a relevância dessa temática na sua construção, pensando sua matéria na colocação das relações entre as classes e o Estado em contextos específicos do momento sócio-histórico e no enfrentamento à questão social, e, por conseguinte, a questão racial.

Indubitavelmente, a atual passagem acadêmica na graduação de Serviço Social funde-se a um processo de aceleração na formação profissional, principalmente pela lógica mercadológica que segue as conformações dos avanços neoliberais na sociedade regida pelo modo de produção capitalista. Este fator, de influências gerais, sequencia no âmbito da formação teórica profissional um “atropelamento” em questões que se desenvolvem nos espectros “invisíveis” da sociedade – desta forma colocada pelos esforços da classe dominante de apagar as problemáticas raciais da realidade social.

Assim, caracteriza-se neste quadro a temática proposta pela pesquisa, tendo em vista o caminho percorrido pelo Serviço Social na realidade racial e tudo o que, todavia, precisa ser proposto e atualizado, tudo que já foi feito e que ainda será, além de todas as determinações legais já construídas e o “por vir” dessa progressão conjunta entre projeto profissional e projeto societário.

Dessa construção, o presente trabalho teve como motivação, principalmente, a deficiência deste debate étnico-racial na academia, percebido pela pesquisadora, bem como a dificuldade em encontrar produções na temática. Além disso, notou-se no processo de estágio a carência dessa discussão nos espaços sócio-ocupacionais, e quando o fazem, caracterizam-se ainda numa perspectiva baseada no senso comum e na construção do mito da democracia racial brasileiro, não possui uma construção ou direcionamento político.

A partir dessas proposições, justifica-se neste, a construção metodológica pertinente ao Serviço Social - marcado pelo processo de construção de sua estrutura de formação e

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construção profissional - no movimento crítico-dialético que baliza sua concepção ideológica no Movimento de Reconceituação em detrimento ao constructo positivista e conservador que marca o período histórico do Serviço Social até o período do Regime Militar brasileiro.

Dessa relação, mais evidentemente, contrai-se a Reforma Universitária de 1968, que vai modificar categoricamente, tanto a estrutura curricular do Serviço Social quanto dar uma nova caracterização à Pós-Graduação, cuja referência terá no aprofundamento da necessidade de prioridade na produção de conhecimento deste - marcando um processo de reestruturação de suas bases teóricas.

Assim, através das reflexões acerca da produção de conhecimento sobre a temática que se materializa esta pesquisa. Dá-se pelo questionamento de sua visibilidade na perspectiva científica da profissão: Como a categoria profissional tem pensado a questão racial?

O conceito de questionamento é, em primeiro lugar, desconstrutivo. Questionar significa não deixar as coisas como estão, colocar defeito, ver problemas, pôr em dúvida. [...] A dinâmica da ciência, assim, provém da dúvida sistemática, não das certezas [...] o questionamento precisa zelar por sua própria coerência [...] o questionamento desconstrutivo foi o caminho tomado, para primeiro, distanciarmo-nos do senso comum e de outros saberes particularmente ingênuos, e, segundo, para permitir processos mais controlados de fazer ciência.”(DEMO, 2009, pp. 75-77). Desse modo, aproximando-se do objeto proposto à questão racial, esta pesquisa tem por objetivo, analisar de que forma a categoria profissional tem pensado e trabalhado essa questão racial a partir da produção teórica de conhecimento.

O objeto das ciências sociais é histórico. Isto significa que cada sociedade humana existe e se constrói num determinado espaço e se organiza de forma particular e diferente de outras. Por sua vez, todas as que vivenciam a mesma época histórica, têm alguns traços comuns, dado o fato de que vivemos num mundo marcado pelo influxo das comunicações. Igualmente, as sociedades vivem o presente marcado por seu passado e é com tais determinações que constroem seu futuro, numa dialética constante entre o que é dado e o que será fruto de seu protagonismo. Portanto, a provisoriedade, o dinamismo e a especificidade são características de qualquer questão social (MINAYO, 2013, p.12).

Tendo isso em vista o exposto, propõe-se a partir dele: identificar as principais áreas de formação do Serviço Social que produzem material teórico sobre a temática étnico-racial; analisar as vertentes teóricas que sequenciam as produções acadêmicas; e articular as produções teóricas acerca da questão racial com a direção do projeto profissional a partir do movimento teórico-prático.

A questão racial como forma proeminente da análise histórica de uma vertente social cujas determinações influenciam, ainda nos dias atuais, desde a formação de uma nação,

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numa corrente sistemática e contínua de depreciação de um povo, contornados por desigualdades, injustiças e criminalização.

Trazendo essa questão à centralidade do Serviço Social, tem-se uma lacuna estrutural em seu processo de formulação, principalmente no desenvolvimento teórico no que concerne a proposição da formação dos profissionais. O conhecimento científico que abarca o conjunto teórico disseminado, tanto na academia quanto no exercício profissional, dinamiza a questão racial como um debate recém-inserido no Serviço Social.

A partir disso, se constitui a necessidade de utilização do método crítico dialético no trato da questão que rege o cerne desta pesquisa. Haja vista a o percurso de estruturação dialético, objetivo e articulador das problemáticas sociais advindas da questão social que se contraem matéria definida e definitiva do Serviço Social. O percurso dialético desta pesquisa caracteriza-se pela direção marxista na abordagem das contextualizações do objeto de estudo, indispensável, “pois junta a proposta de analisar os contextos históricos as determinações socioeconômicas dos fenômenos, as relações sociais de produção e de dominação com a compreensão das representações sociais” (MINAYO, 2013, p.24).

A fim de sanar as dúvidas a partir do questionamento destacado, o presente trabalho baseia-se na coleta de dados através de uma análise de conteúdo, em que Michel (2009) destaca como uma técnica de levantamento de dados preexistentes em formato de textos ou falas, adequado para avaliar e analisar textos escritos.

Pela sua natureza científica, a análise de conteúdo deve ser eficaz, rigorosa e precisa. Trata-se de compreender melhor um discurso, de aprofundar suas características (gramaticais, fonológicas, cognitivas, ideológicas etc.) e extrair os momentos mais importantes. Portanto, deve basear-se em teorias relevantes que sirvam de marco de explicação para as descobertas do pesquisador (RICHARDSON, 2008, p. 224). Segundo Richardson (2008) é principalmente utilizada para estudar material qualitativo, organizar as ideias principais e analisar as regras e elementos que determinam suas projeções fundantes. Sendo assim, “a análise de conteúdo é a utilização de métodos científicos a uma evidência documentária”(p. 14).

Dá-se a partir da análise documental, que deve “recolher os documentos susceptíveis de oferecer as informações necessárias” nos periódicos de referência no Serviço Social, amplamente difundidos na profissão encontrados na revista Serviço Social & Sociedade e nos materiais produzidos pelo CFESS, entre os anos 2010-2016, tendo em vista a consolidação do projeto ético-político da profissão e seus embates à produção teórica do conhecimento no espectro temático proposto (RICHARDSON, 2008, p. 231).

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Em conjunto, utilizou-se a pesquisa bibliográfica (ou estudo exploratório3) pretende, nos termos concisos de sua proposição, abarcar as formulações precedentes à pesquisa, basilando a perspectiva de análise formulando uma construção estruturada e bem determinada, problematizando e definindo o referencial teórico do trabalho (MICHEL, 2009).

Caracterizado por Michel (2009, p. 40) como “uma fase da pesquisa, cujo objetivo é auxiliar na definição de objetivos e levantar informações sobre o assunto objeto de estudo”, tratando como um “meio de formação teórica, embasamento, criação de conhecimento necessário e básico para a realização de estudos monográficos”.

Dessa forma, a fim de sanar o questionamento principal que rege esta pesquisa, a partir dos objetivos que direcionam seu percurso, analisar as vertentes teóricas acerca da produção de conhecimento a partir da temática racial, abarcar suas áreas de formação na produção de conhecimento, o que se propõe a caracterizar, conceituar e analisar a organização e a relevância.

A este propósito, traz Michel (2009, p.37):

Na pesquisa qualitativa, a verdade não se comprova numérica ou estatisticamente, mas convence na forma da experimentação empírica, a partir da análise feita de forma detalhada, abrangente, consistente e coerente, assim como na argumentação lógica das idéias, pois os fatos em ciências sociais são significados sociais, e sua interpretação não pode ficar reduzida a quantificações frias e descontextualizadas da realidade.

Estas possibilidades permite-nos uma aproximação mais precisa da determinação de incidência dos trabalhos e sua classificação em áreas, bem como sua quantificação anual, admitindo as tendências da temática e organizando-a efetivamente nos laços teóricos da profissão.

Com esta introdução, a presente pesquisa está organizada em quatro seções, dando margem para a construção da questão racial na sociedade, sua caracterização, seus determinantes, bem como sua colocação nas minúcias capitalistas; para a correlação e colocação desta na centralidade do Serviço Social; e o tratamento desta nos dias atuais, seu debate, sua importância e a forma como é conduzido na categoria.

Diante disso, o presente trabalho de conclusão de curso em um segundo momento versou sobre a questão racial como protoforma para precarização, a partir de autores que permitiram o desenvolvimento da temática numa perspectiva de classe, construindo sua estrutura a partir da categoria trabalho, dessa forma, contextualizada por Karl Marx, Friedrich

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Engels, György Lukács, Marilda Iamamoto e Raul de Carvalho, centralizando a questão étnico-racial, principalmente, por Gilberto Freyre, Octávio Ianni.

Em seguida a relação da questão racial com o Serviço Social, tendo como referência autores consagrados frente a categoria profissional como José Paulo Netto, Marilda Iamamoto e Ana Maria de Vasconcelos definindo centralidade à construção da categoria e formação profissional, para delinear a importância do debate na construção metodológica da formação profissional.

Por fim, centralizar a produção de conhecimento do serviço social referente à questão racial, trazendo como marcos teóricos além de autores já citados, Mirian Cardoso, onde discute-se a colocação a problemática racial hoje, sua visibilidade, sua construção, como é trabalhado, suas formulações nos processos de trabalho e toda a contextualização atual a que se trata no processo de construção teórica do conhecimento, bem como na prática profissional.

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2 A QUESTÃO ÉTNICO-RACIAL COMO PROTOFORMA DA PRECARIZAÇÃO DA VIDA SOCIAL

Incialmente para desvendar as minúcias da questão social e contextualizar o processo de formação social desse constructo vigente desde a primeira sociabilidade brasileira, do seu “descobrimento” até os dias atuais, obtém-se que:

para expor em termos ontológicos as categorias específicas do ser social, seu desenvolvimento a partir das formas de ser precedentes, sua articulação com estas, sua fundamentação nelas, sua distinção em relação a elas, é preciso começar essa tentativa com a análise do trabalho (LUKÁCS, 2013, p. 41).

A necessidade humana como protoforma da vinculação do trabalho ao ser social é o que fomenta a identidade do primeiro através do segundo como condição de sobrevivência; e o oposto como sua própria formulação de sociabilidade e condição para a vida, pois que é a partir do trabalho que o homem se difere aos animais pela sua própria relação com o meio e os condicionantes que produz esse processo.

E mesmo um olhar muito superficial ao ser social mostra a inextricável imbricação em que se encontram suas categorias decisivas, como o trabalho, a linguagem, a cooperação e a divisão do trabalho, e mostra que aí surgem novas relações da consciência com a realidade e, por isso, consigo mesma etc. Nenhuma dessas categorias pode ser adequadamente compreendida se for considerada isoladamente (LUKÁCS, 2013, p. 41).

Assim, a categoria trabalho é o ponto central das relações sociais que se opõem através de seus desenvolvimentos. Pois que, Segundo Marx, é a partir deste que, satisfazendo as suas necessidades, o homem é capaz de pensar, sentir, analisar e efetivamente transformar a natureza, e por este processo reconhece-se ser social e sua sociabilidade, colocando assim que o sujeito se conforma e se realiza pelo trabalho; é capaz de se enxergar parte do todo e como todo do próprio ser, pela forma de se conhecer a natureza e se reconhecer parte e oposto a ela, visto que “é pelo trabalho que o homem se diferencia e se distancia da natureza, ao submetê-la a sua vontade no ato de transformá-la em produtos necessários à sua vida. Tais produtos são valores de uso, que podem satisfazer diferentes necessidades humanas” (MARX, 1988).

Considerando que nos ocupamos do complexo concreto da socialidade como forma de ser, poder-se-ia legitimamente perguntar por que, ao tratar desse complexo, colocamos o acento exatamente no trabalho e lhe atribuímos um lugar tão privilegiado no processo e no salto da gênese do ser social. A resposta, em termos ontológicos, é mais simples do que possa parecer à primeira vista: todas as outras categorias dessa forma de ser têm já, em essência, um caráter puramente social; suas propriedades e seus modos de operar somente se desdobram no ser social já constituído; quaisquer manifestações delas, ainda que sejam muito primitivas, pressupõem o salto como já acontecido. Somente o trabalho tem, como sua essência ontológica, um claro caráter de transição: ele é, essencialmente, uma interrelação

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entre homem (sociedade) e natureza, tanto inorgânica (ferramenta, matéria-prima, objeto de trabalho etc.) como orgânica, interrelação que pode figurar em pontos determinados da cadeia a que nos referimos, mas antes de tudo assinala a transição, no homem que trabalha, do ser meramente biológico ao ser social (LUKÁCS, 2013, p. 43-44).

Logo, assumindo o trabalho como um processo de múltiplas determinações – que forma o sujeito e o localiza na sociedade – agregamos a este o relativo dispêndio de força física e mental exigidos nesse contexto. Transformando o caráter regulador das relações pelo efetivo emprego dos saberes nesse processo, ainda que, para categorização deste, os condicionantes de transformação da localidade negra no processo de formação social pelo trabalho seja, para este, apenas mais um fator que determina o caráter de exploração.

A exteriorização é esse momento do trabalho através do qual a subjetividade, com seus conhecimentos e habilidades (teleologia e objetivação), é confrontada com a objetividade a ela externa, à causalidade. Por meio deste confronto, pode não apenas verificar a validade do que conhece e de suas habilidades, como também pode desenvolver novos conhecimentos e habilidades (desenvolver sua teleologia influenciando na objetivação) que não possuía anteriormente. (LESSA, 2015, p. 24) O materialismo histórico envolvido no “progresso” histórico-econômico brasileiro coloca em destaque alguns condicionantes do processo de formação social e o “lugar do negro” definido pelo trabalho. Pois que “as mudanças nas formas de trabalho constituem os indicadores básicos da mudança das relações de produção e das formas sociais em geral do intercurso humano” (MARX, 1988, p. 48).

(...) as relações sociais, de acordo com as quais os indivíduos produzem, as relações sociais de produção alteram-se, transformam-se com a modificação e o desenvolvimento dos meios materiais de produção, das forças produtivas. Em sua totalidade as relações de produção formam o que se chama relações sociais: a sociedade e, particularmente, uma sociedade num determinado estágio de desenvolvimento histórico, uma sociedade com um caráter distintivo particular (...) O Capital também é uma relação social de produção. É uma relação burguesa de produção, relação de produção da sociedade burguesa (MARX, 1975, p. 69)

Assim, caracterizar a formação social de um povo, vinculando igual modo tanto seu signo histórico quanto material, faz referência aos marcos potencial de formulação das relações que se referem, tendo como ponto de partida, especificamente a este, a conjuntura pré-existente e a criada a partir das relações postas e impostas no marco situacional.

A particularidade brasileira, destacada na centralidade dessa discussão, caracteriza-se pelo potencial de exploração desde sua formação histórico-social – configurado em Marx cujo foco se dá na exploração do trabalho – tendo em vista sua égide no processo de produção com base na força de trabalho escravo, este, que diferentemente dos dias atuais, atuava sob coação do indivíduo num ideal de objetivação do sujeito, o que significa dizer que não era a venda da

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força de trabalho, mas a apropriação do próprio sujeito como objeto que caracteriza o trabalho escravo. Reafirmado em se tratando dos condicionantes da realidade local no período de colonização.

A escassez de capital-homem, supriram-na os portugueses com extremos de mobilidade e miscibilidade: dominando espaços enormes e onde quer que pousassem, na África ou na América, emprenhando as mulheres e fazendo filhos, numa atividade genésica que tanto tinha de violentamente instintiva da parte dos indivíduos quanto de política, de calculada, de estimulada por evidentes razões econômicas e políticas da parte do Estado. (FREYRE, 2000, p. 83)

Pelo que presenciou o português em terras tupis, em primeiro momento, o potencial de exploração das riquezas naturais, e a partir do que se demandava grande quantidade de terras e necessária mão de obra efetiva, os problemas advindos da exploração do trabalho indígena, que se demonstravam resistentes ao processo, culminou no ingresso de possibilidade de uma nova fonte de exploração do trabalho, a partir disso “transportam-se da África para o trabalho agrícola no Brasil nações quase inteiras de negros.” (FREYRE, 2000, p. 83).

O processo de apropriação (descobrimento) das terras brasileiras pelos portugueses findou na reestruturação de seu sistema econômico (mercantilismo), caracterizado por Freyre (2000) como uma mudança estratégica para se moldar às especificidades do novo país, deixando de lado a “pura extração de riqueza mineral, vegetal ou animal”, transformando-se em seguida em “Colônia de plantação” caracterizada pela base agrícola que demandava as riquezas do país, deixando de produzir valor para então explorá-lo; sem deixar de frisar, no entanto, que o processo de extração das riquezas se dava à custa do trabalho escravo. Tendo que “no Brasil a colonização particular, muito mais que a ação oficial, promoveu a mistura de raças, a agricultura latifundiária e a escravidão, tornando possível, sobre tais alicerces, a fundação e o desenvolvimento de grande e estável colônia agrícola nos trópicos.” (FREYRE, 2000, p. 92)

Neste aspecto vale salientar que o Brasil não segue vias regulares de desenvolvimento econômico, ou seja, exatamente todo o processo de desenvolvimento econômico brasileiro esteve sob bases escravistas, delimitando ao seu sistema um regime escravista estruturalmente construído nos moldes dos sistemas europeus vigentes (predecessores ao capitalismo) transformando-os diretamente num sistema próprio, em fontes de seu regime predominante, caracterizando-os num único sistema até seu aprofundamento no capitalismo, o escravismo. Destaca-se acerca disto, que a geração de capital (e sua acumulação), as formulações mercadológicas influentes desse período e todos os processos de mudança em seu intercurso, e mesmo todo o processo de construção econômico, não foram, em absoluto, renegadas nesse

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processo, porém, sua estruturação difere dos sistemas europeus, assumindo feições próprias na formação social, histórica e escravocrata brasileira.

Sabe-se que, mesmo em seu processo de formação colonial, período conturbado da história econômica brasileira – pela percepção da exploração, e essa expressão (conturbada) pela forma como se desconsideravam totalmente os direitos sociais daqueles que, pelo trabalho, como máquinas, não eram enxergados pelos colonos como homens, seres humanos passíveis de respeito ou direitos – sob forma escravista, os traços econômicos já minavam a prática por veias capitalistas. Mediante esse debate que o tópico posterior versará sobre a escravidão na formação social capitalista brasileira.

2.1 O papel da escravidão na formação social capitalista brasileira

Em meio o auge do desenvolvimento econômico português, as grandes cruzadas e descobertas no desbravamento de novas localidades do globo, o encontro proposital com as Américas traz para Portugal benefícios na corrida pela acumulação da riqueza e avanço do capitalismo. O desvio na rota das índias para terras ainda não invadidas configura uma nova ramificação de mercado para a economia portuguesa, voltada para a agricultura e expansão mercantil.

O processo de transformação da economia de tecidos e minério, não demorou a perder sua valoração frente ao que as terras brasileiras poderiam oferecer. Logo, como trata Freyre (2000), o potencial de adaptação que possuíam os portugueses, bem como a aproximação do novo ambiente com as características de seu país nativo, foram estratégias imprescindíveis para o sucesso do novo mundo.

Nos limites brasileiros no período de colocação da colônia no país, todo o processo de produção agrícola é pensado e fomentado pela mão de obra escrava predominante do modo de operacionalização português nas descobertas de novas terras. Primariamente pelos nativos (população indígena), e logo mais, na colocação dos negros na história brasileira.

Apesar dos conflitos iniciais entre índios e invasores, logo a conquista desse mundo totalmente novo gerou influência e possibilidades, a atração dos indígenas pelos objetos dos portugueses permitiu uma sociabilidade que se transformou logo em adestração e exploração do povo.

O que traria mais adiante a rebelião dos indígenas pela exploração, que culminou na necessidade de aumento da mão de obra escravizada, tanto por este motivo quanto pelo aumento da produção para exportação e fluxo intenso de uma colônia que estava a expandir-se - e nesexpandir-se processo, mais força de trabalho para sua estruturação - iniciam as

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comercializações de negros africanos para as terras tupís pelas rotas marítimas através dos trópicos.

É pela escravização dos sujeitos que se formam as definições sociais brasileiras em primeiro momento. Tendo em vista o potencial econômico que a escravidão fomentou na estruturação da colônia e a manutenção em grande escala de toda uma formulação econômica baseada em uma mão de obra totalmente gratuita, e, além disso, a transformação de seres humanos em propriedade privada que fundamenta toda uma sociedade.

A divisão social do trabalho, fundada na propriedade privada, tornou viável a apropriação do trabalho e da vida do outro - o escravo - tratado como um objeto, como coisa. Aristóteles, expressando a consciência de sua época histórica, entendia que cada ser ocupava um lugar e uma função na ordem do universo, e que a realização das virtudes obedecia a essa ordem. Sendo assim, embora o escravo e o cidadão fossem igualmente dotados de virtudes, elas eram diferenciadas: a virtude do senhor residia na capacidade de mando; a do escravo na obediência; só através dela o escravo poderia realizar sua natureza. Embora não elimine o produto histórico a que deu origem - produto histórico valoroso e representativo de conquistas humanas no campo do conhecimento e do desenvolvimento da cultura -, essa situação evidencia, contraditoriamente, a presença da alienação, através da exploração do trabalho, demonstrando que a afirmação do gênero humano coexiste com sua negação (BARROCO, 2010, p. 101-102).

O escravismo acompanha o desenvolvimento econômico do Brasil permanentemente dentre todas as estruturas que difundiram ao longo do tempo. O interesse especial pela escravidão levou o Brasil a ser o último país a abolir “completamente” - ao menos legalmente - a escravidão.

Tal resistência evidencia-se pelo fomento dos modelos econômicos europeus que, quando analisados mais especificamente, nada acompanharam as estratégias europeias. Tendo Portugal como marco centralizador econômico, consequentemente passa o Brasil pelos mesmos processos econômicos, seguindo o mesmo fluxo de mercado, totalmente dependente da economia portuguesa.

Logo, as estruturações dos seus sistemas econômicos se difundiram também no Brasil por meio do modelo escravocrata, difundindo a mercantilização mediante formas de trabalho arcaicas e feudais, logo, construindo uma econômica dependência a qual impossibilitou o trabalho assalariado, mas se estruturou por meio da exploração e do trabalho não pago.

Sabe-se que os desenvolvimentos dos sistemas econômicos na formação história deram suporte à inserção do sistema capitalista, vigente até os dias atuais, quando de todo o processo de novos modelos e arquitetura econômica serviu de base para acumulação primitiva, organização de mercado, controle de capital, além de difundir o controle e desenvolvimento das organizações de classes, a que deram seu atual signo na formação social.

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Assim como em modelos precedentes, com o capitalismo seguiu-se a mesma tendência. A fraca participação a que de fato se tornavam os primeiros passos capitalistas, nos sistemas anteriores, não preparou o Brasil para a introdução repentina e sem aviso de um novo sistema econômico, causando - na sociedade que ainda dava seus primeiros passos para uma formação completa - uma colisão econômico-social sem precedentes que viria a ser a principal problemática de toda uma sociedade.

Ainda cerceando a característica principal dos portugueses: adaptação prescinde de um movimento comportamental repetitivo na construção histórica, principalmente dos homens, portugueses. Assim como reestruturaram o modelo mercadológico para moldar-se às especificidades do novo mundo, ainda estruturaram outros aspectos, como a construção de uma característica cultural totalmente nova com a catequização dos novos habitantes das terras brasileiras; e, além disso, trataram de perpetuar seus genes por toda a população que se formava.

Tendo como ponto de partida a estruturação da colônia e colocando como principal “objeto” promotor dessa operação: o escravo (principalmente o negro africano), que fomentou o interesse especial pelo tráfico negreiro, gerando maior efetividade e trazendo o maior número de negros escravizados, comparados com outros países.

Por ocasião, não se vislumbrou a superpopulação negra que se formava no Brasil colônia e logo o que servia ao propósito unicamente carnal, passou a ter um significado político. Antes o que era apenas desejo pela consciência sexual dos corpos negros, passou a perceber o branqueamento dos frutos desses abusos.

Assim, se a realidade das mestiçagens faz parte de muitos países latino-americanos – e pode ser facilmente recontada por Cuba, México, Venezuela e Colômbia, só para ficarmos com exemplos óbvios –, foi no Brasil que ela ganhou uma proporção multiplicada. Mais do que por índole, antes por necessidade, o pequeno Portugal precisava contar com novos braços para a colonização. Além do mais, a mestiçagem se fez do caldeamento (que nunca significou falta de violência ou de hierarquia) entre indígenas da terra, brancos colonizadores e negros africanos, e resultou numa sociabilidade que, como mostra Gilberto Freyre, se consolidou no “equilíbrio de diferenças”. Equilíbrio não quer dizer fusão ou sincretismo, mas denuncia como houve mescla na e com a diferença. (SCHWARCZ, 2012, p. 16)

Além disso, passam a estimular a vinda de imigrantes europeus, o que confraternizou para a colocação de uma população mais branca, que, nesta conjuntura, passou a ser o principal interesse.

[...] identificado como uma exigência nacional, na medida em que somente um país branco seria capaz de realizar os ideais do liberalismo e do progresso. [...] forma de conciliar a crença na superioridade branca com a busca do progressivo desaparecimento do negro, cuja presença era interpretada como um mal para o país.

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[...] contribuindo efetivamente para o aprofundamento das desigualdades no país, sobretudo, ao restringirem as possibilidades de integração da população de ascendência africana. (JACCOUD, et. al., 2008, p. 48-49)

Acerca do ideal de branqueamento, é possível compreender sua proposição quando das pessoas de pele branca, sempre ocupando posições importantes na formação social do país, firmaram sua “soberania” em detrimento a uma população subestimada e marginalizada socialmente.

Com as mudanças econômicas e políticas delimitando um novo modo de vida e de sociabilidade, o potencial discriminatório passa a ditar as novas regras sociais, mais fortemente, principalmente, a partir da abolição. Importa destacar que são a partir das relações capitalistas que se intensificam as desigualdades sociais e a segregação das diferentes camadas da sociedade.

Diante disso, o processo político-social que levou à construção social como é hoje conhecida e que explodiu as desgraças sociais no pós-abolição começou bem antes de seu ápice, deflagrado no processo de formalização abolicionista, mas já se construía sua caminhada histórico-política desde as primeiras mobilizações e indícios de resistência negra nas senzalas, o que culminou na estruturação dos quilombos e, em certo ponto, no protagonismo negro à época, materializado nas movimentações político-sociais e atores importantes na corrida abolicionista. Decerto não se destacam pequenas conquistas históricas da população negra, como as leis do sexagenário, ventre livre, dentre outras inúmeras que precederam a abolição.

Há que se caracterizarem tais conquistas como vias de duplo significado, ou mesmo de interesses ocultos, tendo que todo esse processo construiu a muralha que mais a frente separaria toda uma sociedade, e nestas determinações, incluem-se, mais significamente, pelo processo de formalização específico a estes, a população negra.

O quadro geral que se pode definir este período é a corroboração para a prática exploratória e discriminatória endossada pelo Estado, tendo que primariamente com as Leis do Ventre Livre (1871) que libertava todos os filhos de escravos nascidos a partir de sua vigência; e Lei do Sexagenário (1885) a qual libertava os escravos com 60 anos ou mais, cabendo indenização pelos recém-libertos, o que os obrigava a trabalharem mais três anos ou até completarem 65 anos, que se aproximam às novas condições de aposentadoria aprovadas pelo atual governo Bolsonaro.

Nesse processo, que se fez necessário para a promoção da aceleração do processo abolicionista, dois pontos de análise devem ser racionalizados: primeiramente, nas novas leis

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que concediam alforria, estava previsto que tanto os donos receberiam ressarcimento do Estado pelos escravos recém-libertos, quanto os libertos continuavam no processo de escravidão, seja preso às condições de seus pais, esposas/os, filhos, ou mesmo não tinham condições de sobrevivência fora dos cuidados do senhorio por serem muito velhos, seja pela prerrogativa de leis como do sexagenário que mesmo após a liberdade ainda permanecia o trabalho para custeá-la.

De um lado, os interesses da elite agrária na estruturação de uma sociedade totalmente dividida, hierarquizada e controlada unicamente por seu poder político-econômico, de outro, toda essa colocação de interesses, está para a população negra como bonificação em matéria de ressarcimento histórico-social, definido amplamente no processo de formação da sociedade pelos moldes do direito à cidadania, condições de sociabilidade e, principalmente, liberdade, pois que, antes disso, “devido à rígida estratificação e à hierarquia social, só os cidadãos, ou seja, os homens livres podiam decidir os destinos da pólis e ter acesso ao conhecimento, à cultura e ao poder. Da cidadania estavam excluídos os escravos, as mulheres e os estrangeiros.” (BARROCO, 2010, p. 101)

A articulação das medidas que culminam sua estruturação precisamente com a Lei de Terras (1850), formalizando o período pré-abolição, caracteriza o conjunto de normatizações que determinam as condições dos libertos na Primeira República, tendo que as leis que compõem o processo abolicionista tratam mesmo da organização dos sujeitos e preparam de fato a sociedade para uma nova distribuição de poder.

A Lei de Terras de 1850, através de seu Regulamento, determinou que todas as terras obtidas em sesmarias ou através de posse — isto é, as terras que estavam sob domínio privado, deveriam ser medidas e demarcadas. Assim, as sesmarias poderiam ser rivalidadas e as posses legitimadas, garantindo-se o título de propriedade definitivo aos seus possuidores. As terras públicas nacionais, chamadas de terras devolutas, não poderiam mais ser obtidas pela pura e simples ocupação, mas apenas mediante compra ao Governo (MONTEIRO, 2002, p. 55).

É possível adentrar as minúcias desse processo refletindo dois aspectos indispensáveis a este, o primeiro delimita o signo que os novos libertos terão na sociedade, tendo em vista o controverso caminho de prisão condicionada pelas condições de dependência sofridas pelos escravos e pobres da época, como os já alforriados passavam na dependência de outros escravos ou situações que permeavam a distribuição do trabalho ainda baseado na exploração de trabalho e vida dos sujeitos-objetos.

Determina as instâncias privadas da sociedade, garante que os libertos não terão acesso a propriedade privada, logo, não deterão qualquer condição de um novo modelo de vida, sendo obrigados a vender a sua força de trabalho. Tal instância, não avalia em longo prazo a

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decadência social a que se reflete na formação identitária da sociedade e a reestruturação urbana que se seguia.

Além disso, as determinações contidas na Lei de terras abrem brecha para a formação de uma elite agrária brasileira estruturada, formada pelos grandes proprietários rurais, os membros distintos da elite política e os importantes senhores de engenho, que, agora com o aprofundamento das bases capitalistas, estão como os donos do modo de produção das forças produtivas e detentores do capital, ditadores das novas relações sociais a partir do modo de produção capitalista, compõem os postos mais altos de uma “nova” hierarquia de uma divisão de classes mais aprofundada, contraindo-se na burguesia capitalista (MONTEIRO, 2002). Definindo-se à medida que:

passou a dominar, destruiu as relações feudais, patriarcais, e idílicas. Dilacerou sem piedade os laços feudais, tão diferenciados, que mantinham as pessoas amarradas a seus “superiores naturais”, sem pôr no lugar qualquer outra relação entre os indivíduos que não o interesse nu e cru do pagamento impessoal e insensível “em dinheiro”. Afogou na água fria do cálculo egoísta todo fervor próprio do fanatismo religioso, do entusiasmo cavalheiresco e do sentimentalismo pequeno-burguês. Dissolveu a dignidade pessoal no valor de troca e substituiu as muitas liberdades, conquistadas e decretadas, por uma determinada liberdade, a do comércio. Em uma palavra, no lugar da exploração encoberta por ilusões religiosas e políticas ela colocou uma exploração aberta, desavergonhada direta e seca. (MARX; ENGELS, 1998, p. 10)

Com isso, afere-se que

O modo de produção capitalista se funda, portanto, não nas relações de trabalho feudais e servis, mas na compra e na venda da força de trabalho, expressando o controle sobre o trabalhador pelo capitalista ou do processo de trabalho pelo capital. Por isso que, em sentido inverso daquele que possui como recurso para sobrevivência apenas sua força de trabalho, o capitalista é compreendido como a pessoa que controla e explora a força de trabalho de outras pessoas. (WELLEN; WELLEN, 2010, p. 21)

O capitalismo define as relações sociais a partir do processo de produção, o qual se formaliza pela mercadoria, pelo mercado, e findam, garantindo seu significado, no Capital. “Assim, a produção social não trata de produção de objetos materiais, mas de relação social entre pessoas, entre classes sociais que personificam determinadas categorias econômicas”. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2001)

Capital não é uma coisa material, mas uma determinada relação social de produção, correspondente a uma determinada formação histórica da sociedade, que toma corpo em uma coisa material e lhe infunde um caráter social específico. O capital é a soma dos meios materiais de produção produzidos. É o conjunto dos meios de produção

convertidos em capital, que, em si, tem tão pouco de capital como o ouro e a prata, como tais, de dinheiro. É o conjunto dos meios de produção monopolizados por uma determinada parte da sociedade, os produtos e as condições de exercício da força

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de trabalho substantivados frente à força de trabalho viva e a que este antagonismo personifica como capital (MARX, 1988, p. 754).

O viés capitalista que passou a estruturar os novos modelos econômicos, e, por conseguinte, sociais, tem sua base na reestruturação produtiva, definida pelas novas relações de produção advindas, mais significativamente, nesse processo, pelo acelerado processo de industrialização.

É nas relações desse modo de produção, que, marcado por um forte processo de urbanização e desenvolvimento industrial - pautados no ideal de branqueamento que elegia a supremacia da raça branca sobre a negra - para uma aceleração do desenvolvimento econômico, que vem contribuir para o baixo desenvolvimento da população étnico-racial nesse processo, bem como o afastamento dessa camada social para áreas mais afastadas dos centros econômicos.

A formação de guetos, favelas nos limites e até mesmo dentro das cidades, o crescimento da população de rua e a chamada “vadiagem” assumiram o controle de toda a estrutura social, e com a recente lei da abolição, Lei Áurea (1888), vigente e as condições a que se deu, a parcela de maior número nas ruas e em situações de precarização adversas estava caracterizada pela população negra.

Tão logo se estruturava as novas condições de sociedade, este caos social colocado no número de crimes e violência que recentemente crescera, crianças e mulheres mendigando todo o tempo pela cidade faz com que o Estado tome para si a decisão de eliminar a recente “ameaça” à construção desenvolvimentista da nova sociedade que se estruturava.

Dentre as medidas adotadas pelo Estado, está à prática higienista que se inicia com algumas medidas que dariam apenas um novo significado a precarização da vida, dando abertura a outros problemas futuros, materializados na retirada das pessoas em situação de rua para abrigos que se transformariam em manicômios; o estatuto do menor, que criminalizariam a mendicância infantil, tornando-os infratores por suas medidas de sobrevivência; além de caracterizarem a mendicância em “vadiagem” e tornarem isso um crime à sociedade, aumentando a população prisional e caracterizando o perfil desta, negro, pobre, marginalizado e sem perspectivas de condições melhores de vida. Esses elementos que materializam a herança racial no Brasil, assunto que será aprofundado no próximo item desse trabalho.

2.2 Herança racial nos desdobramentos políticos-econômicos-sociais

A partir das práticas higienistas, donde o Estado tratava as problemáticas sociais como caso de polícia, conforma-se um desencadeamento estrutural nas bases sociais totalmente

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novas, as disfunções generalizadas se baseiam num âmbito político completamente despreparado para receber essas determinações sociais; economicamente instável e desestruturado, tendo em vista o “tsunami” do capitalismo que precisou “engoliu” o, até então invencível, escravismo, deixando a burguesia e o Estado com sede de poder; além de instabilizar totalmente a população que, nesse processo, desenvolvem-se a mercê das ações do grande capital.

Nesse processo que se concebe a e se desenvolve a questão racial brasileira, no profundo abatimento dos interesses sociais para a promoção de um recurso capitalista que simplesmente reforce sua prioridade, gerando maior poder a quem o detém e aprisionando a população que acaba por perder a oportunidade de emancipação no parâmetro social que se materializa na formação social do Brasil.

Historicamente a população negra vive e revive episódios de profunda desigualdade e exclusão social, diferentemente e peculiarmente relacionado às fases do contexto societário vigente. Uma fração que vive e se desenvolve a beira da sociedade. Além disso, despreparo do Estado com o trato das problemáticas sociais a partir da primeira república, apenas evidencia a dificuldade da proposição das relações de cor e suas proporções na formação social que se estabelecera.

Tendo em vista o acelerado processo de desenvolvimento industrial do período, cujas influências permeiam âmbitos econômicos, sociais e políticos, e a estrutura frágil do sistema capitalista, os problemas sociais apenas dão seu ponto de partida. Além disso, destaca-se dessa análise a proposição de que o sistema capitalista está exposto a falhas, destas que, previamente destacadas, são de necessidade do capital, principalmente para sua soberania frente outros sistemas.

Logo, o capitalismo se alimenta de crises para desenvolver-se e multar-se de acordo com a conjuntura necessária ao seu desenvolvimento; cria bases para sua dependência, o que significa reestruturar o mercado para reafirmar sua necessidade e promover seu desenvolvimento.

São a partir dessa desestruturação promotora de novas possibilidades que se conforma, também nas bases do capital, o profundo avanço das dificuldades sociais das classes explorada pelo processo de produção, e como se sabe, o princípio de formação da base operária brasileira está na população escravista condenada a estar na base de produção dos meios para desenvolvimento do capital.

A partir disso, a questão racial aparece na relação da população negra com as múltiplas expressões da questão social, como uma expressão desta, donde “seu aparecimento,

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diz respeito diretamente à generalização do trabalho livre numa sociedade em que a escravidão marca profundamente o seu passado recente” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2001, p. 133). Quando de uma fração social vulnerável economicamente, socialmente, culturalmente e politicamente, vitimados por uma determinação genética histórica que se condiciona a partir das relações formuladas ao longo de sua trajetória de inserção na sociedade, têm em suas perspectivas de vida nada além do que já lhe era posto, mas com as máscaras da liberdade.

Questão social [...] se apresenta como um elo básico da problemática nacional, dos impasses dos regimes políticos ou dilemas governamentais. Reflete disparidades econômicas, políticas e culturais, envolvendo classes sociais, grupos raciais e formações regionais. [...] a questão social passou a ser um elemento essencial das formas e movimentos da sociedade nacional. (IANNI, 1989, p. 145)

A questão social como expressão das problemáticas sociais do modo de produção capitalista, permeia a história, se desenvolvendo e se reinventando, na medida em que as determinações sociais se transformam de tempos em tempos, interligando períodos de crise e outras variações.

Nas épocas de crise, a questão social se torna mais evidente, como desafio e urgência. Os mais diversos setores da sociedade passam a interessar-se pelo desenvolvimento social, o descompasso entre as conquistas sociais e as econômicas, as tensões sociais no campo e na cidade, os riscos de explosão do descontentamento popular, as lutas pela conquista de direitos, a construção de uma sociedade mais justa, o pacto social. (IANNI, 1989, p. 145)

Há que se destacar a esse respeito, segundo Pastorini (2004), que a questão social como categoria fomenta sua construção através das transformações econômicas, políticas e sociais ao longo das sociedades capitalistas em seu estágio monopolista, além disso, difunde a ideia de reformulação a cada momento histórico que se agudiza na sociedade, deixando claro que não como uma “questão social” totalmente nova, mas uma construção segmentar de estruturação do contraponto capitalista para a permanência de sua funcionalidade; uma questão social desenvolve outra, atualizada sob nova roupagem, mas não uma totalmente nova e inesperada.

Para Santos (2012) suas particularidades que destacam no contexto brasileiro, versam em duas propostas e que acabam por caracterizar o momento estruturante da relação negra com o trabalho livre, sendo: a superexploração do trabalho e a passivização das lutas sociais, todos os mecanismos de retração e contenção das camadas sociais mais baixas, na construção social classista, para controle total do processo produtivo.

Destaca-se o então desenvolvimento econômico brasileiro nos processos de reprodução do subdesenvolvimento na periferia do capitalismo mundial, articulando-se de

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forma totalmente dependente do mercado internacional e estruturando assim sua posição frente o capital internacional na sua posição que segue durante todo o processo de desenvolvimento político-social brasileiro até a atualidade, materializado nas conformações do capitalismo.

De forma sintética, a situação dependente se caracteriza pelo fato de que uma parte do (mais) valor produzida nessa economia não é apropriada nela, mas nas economias centrais, e passa a integrar, portanto, a dinâmica de acumulação de capital das últimas, e não das primeiras. O processo de transferência de (mais) valor ficou conhecido na discussão dos anos 1960 como troca desigual (CARCANHOLO, 2013, p. 194).

Dessa forma, ainda segundo Carcanholo (2013), a economia dependente se conforma a partir de uma correlação entre economia dominante e dependente, tendo que a economia dominante possui base para sua estruturação, dinamização e desenvolvimento independentemente, abstraindo o poder de expandir-se de forma autossustentada, enquanto a economia dependente apenas expande-se como consequência desse processo previamente desenvolvido.

Assim, evidencia-se a base de sustentação da economia brasileira, atuante dependentemente do capital dominante, galgando determinações sociais que refletem na disseminação do déficit na estruturação social do país, advindo do “aguçamento da condição dependente das condições periféricas, como resultado da implantação intensa e massiva da estratégia neoliberal de desenvolvimento”, e que caracteriza o patamar da questão social brasileira atual (CARCANHOLO, 2013, p. 192).

Na perspectiva da questão racial como forma, entre tantas, de expressão da questão social, temos nas relações sociais atuais o racismo expresso de formas institucionalizadas, nos mais simples e mais variados contextos de desigualdade e exclusão, apresentando-se nas formulações da sociedade.

Ocorre que, o racismo se estrutura nas bases sociais advindas do modo de produção capitalista, desenvolvendo-se e reestruturando-se na adversidade e ao longo de todas as conjecturas formuladas e reformuladas ao longo do tempo. Acentua a partir do capitalismo o racismo estrutural e estruturante das relações dos sujeitos, ou seja, além de se desenvolver nas bases do sistema, também é responsável pela formulação deste mesmo.

Abarcando as discussões acerca da questão social, tem-se, portanto a importância emergencial dos movimentos sociais, com destaque, a esta pesquisa, para o movimento negro, que desde suas primeiras manifestações aparece e se reatualiza na luta pela descriminalização da cor e pelos direitos da pessoa negra.

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