A Te cn ologia com o Con t e x t o ou a Or de n a çã o
I n for m a cion a l e Com u n ica cion a l do M u n do
Fe r n a n d o I lh a r co
Cent r o de Est udos de Ciências da Com unicação Faculdade de Ciências Hum anas Univ ersidade Cat ólica Port uguesa Em ail: w w w .ilharco.com
Re su m o
O univ er so ger ado com as t ecnologias de infor m ação e com unicação ( TI C) suger e as nossas acções e decisões no dia a dia, quer em t er m os indiv iduais quer colect ivos, const ant em ent e e em pr ofundidade – é a t ese br evem ent e expost a nest e ar t igo. Defendem os que o que define a nossa época é o fact o de hoj e na pr oj ecção do fut ur o assum ida nas acções dos hom ens, aquilo que no fundo cont a par a nós m esm os, acont ecer no t er r eno da infor m ação e da com unicação t ecnológica.
Est e fact o não se const it ui apenas em um a nov idade m ais, por m ais im por t ant e que possa ser , m as ant es, por si só, por que a dim ensão em que o fenóm eno infor m acional é r elev ant e é o t er r eno da com unicação, da linguagem e de t odo o t ipo de acção- com - os- out r os que define o ser hum ano, ela, a nossa época, é um a t r ansfor m ação da exper iência hum ana; ist o é, é a t r ansfor m ação do m undo, é “ um novo m undo” com o int uit iva e ingenuam ent e ouv im os dizer por t odo o lado. Tr at a- se, por isso, da or denação infor m acional e com unicacional do m undo, da r ealidade, de t udo, por que hoj e t udo nos sur ge no âm bit o dessa t ecnologicização do m undo.
Pa la vr a s- ch a ve :
t ecnologia, com unicação, hiper - r ealidade, ont ologia.
Enquant o um dos m aior es bat alhões de que há m em ór ia se vê
e se desej a par a solucionar o quebr a- cabeças em que se t r ansfor m ou
o r elacionam ent o da est r at égia or ganizacional – sej a de um a
em pr esa, de um a univer sidade, de um a cidade, de um país, de um
planet a - com as novas t ecnologias, est a m esm a t ecnologia não pár a
de penet rar a nossa vidas, individual e colect iva, colocando- nos com o
que a viver num out r o m undo. Alguns núm er os: desde os anos 1960,
no m undo ocident al dever á t er sido dest inado às TI C qualquer coisa
com o 10 t r iliões de Eur os! Cer ca de 2 m ilhões de m ilhões de cont os!
( est im at iva nossa a par t ir de Landauer , T. ( 1995) e Gibbs ( 1997) )
Hoj e o r it m o dos invest im ent os e dos cust os de m anut enção em TI C,
t am bém par a o m undo ocident al, deve r ondar 1 t r ilião de Eur os
anuais – qualquer coisa com o 200 m il m ilhões de cont os. Est a
int uit iv am ent e diz- nos que v iv em os um a im ensa m udança, um
enor m e desafio.
O que par ece est ar a passar - se, nest e caso com o em m uit os
out r os em que algo de genuinam ent e novo se apr oxim a, pode m uit o
bem ser aquela prim eir a im pr essão que com o t em po é a pr im eir a
m em ór ia a ser esquecida e a últ im a das últ im as a ser pensada.
Dia-sim - dia- Dia-sim ut ilizam os a expr essão “ out r o m undo” par a descr ever o
t ipo de act ividades em que est am os envolvidos com e na nova
t ecnologia. Quer er á ist o dizer que vale a pena pensar se a nova
t ecnologia é out r o m undo? Se a nova t ecnologia não t ivesse nada a
ver com out r o m undo ent ão por que é que aquela expr essão ser ia t ão
ut ilizada par a ident ificar o nosso envolvim ent o com m esm a
t ecnologia?
Com pr eender o que se quer dizer com a expr essão “ out r o
m undo” é de algum a for m a ent r ar no dom ínio dos t r aços essenciais
da nova t ecnologia. Assim , é necessár io esclarecer o que ent endem os
pelo “ m undo” da expr essão “ out r o m undo” – j á que “ out r o” quer
dizer um qualquer , que não est e. Toda a gent e sabe o que quer dizer
m undo… O pont o é explicit ar isso m esm o que t oda a gent e sabe: o
m undo. Tendem os a pensá- lo com o algo do géner o da t ot alidade das
pessoas, dos ser es vivos, da nat ur eza e das r ealizações do hom em no
planet a Ter r a. Talvez possam os pensar em t udo o que ex ist e,
est abelecendo im plicit am ent e que o que exist e é o que é act ual. Tudo
ist o é quest ionável, em bor a possam os adm it ir que é m ais ou m enos
ist o que acim a r efer im os o que nos ocor r e quando pensam os naquilo
a que se r efer e a palavr a m undo. No ent ant o, na expr essão acim a
r efer ida algo dist int o par ece est ar t am bém im plícit o. Par a falar m os de
out r o m undo, t endo em cont a a int er pr et ação de m undo acim a
r efer ida, dever íam os est ar a indicar out r o planet a, que não est a
Ter r a, ou t alvez m esm o um out r o univer so, par alelo. Mas clar o que
pr ecisam ent e nest a Ter r a que algo nos colocou nout r o m undo. E esse
algo é a nova t ecnologia de infor m ação e com unicação, as TI C, as TI C
que TI Car am t udo, cr iando out r o m undo. Or a que m undo, com o
m undo, é est e novo m undo? A r espost a é est a: é o m undo em que
cada um de nós est á im er so, com o, par afr aseando McLuhan e
Heidegger , o peixe est á na água; ist o é, o m undo é o envolvim ent o
único e singular que cada um de nós t em e é na t ot alidade do que
exist e, ont em , hoj e e am anhã, e que faz de cada um de nós o ser , o
ir sendo, que som os.
No m undo, o m undo é o que par a cada um de nós cont a. É o
envolvim ent o que t em os, são as prát icas e os com por t am ent os que
cor por izam os, os significados que as coisas r evest em , as
possibilidades que a cada m om ent o se levant am e esgot am . A
exist ência do m undo, dest e m undo que j á- e- sem pr e conhecem os, é
t ão esm agador a e óbvia que r ar as vezes a quest ionam os. A excepção
acont ece quando sur ge algo que t ransfor m a est e m undo; algo que
m uda a for m a com o vivem os o dia a dia, que alt er a os
com por t am ent os, que quest iona obj ect ivos, que abr e novas
possibilidades e que esquece a t r adição, as r ot inas e os cost um es,
cr iando novos envolvim ent os e novas pr oj ecções de nós m esm os par a
nós pr ópr ios. I st o é o que é o ‘out r o m undo’ que agor a nos sur ge
pelos cam inhos da nova t ecnologia. Dest a for m a com pr eende- se o
que se quer dizer com o fact o das TI C nos t er em colocado nout r o
m undo.
A Or de n a çã o Pa r t ilh a da
Se par a com pr eender o que são as TI C quest ionar m os o que na
sua essência é a t ecnologia, é a infor m ação, e é a com unicação,
r evelador am ent e chegar em os ao m esm o t ipo de conclusão: t odos
A essência de t oda a t ecnologia é a or denação em pr ole da eficiência,
com o Spengler , Heidegger , Ellul, ent r e out r os, longa e
pr ofundam ent e a pensar am . Dessa for m a, o m undo t r ansfor m a- se –
aliás t r ansfor m ou- se – num / no m anancial de r ecur sos disponíveis
par a aquele m esm o pr ocesso de ordenação. Quant o à infor m ação, a
gener alidade da invest igação t ende a adm it ir que se t r at a da ger ação
de significado, ou de algum t ipo de fenóm eno int im am ent e
r elacionado com o significado: a infor m ação é o significado que se
dir ige à acção, ou com o r efer iu Bat eson, a difer ença que faz a
difer ença. A com unicação, por seu lado, pode ser t om ada em t er m os
basilar es, no âm bit o do significado e da linguagem , com o o em er gir
de um a com unidade de elem ent os fundam ent al e essencialm ent e
aj ust ados e acoplados uns aos out r os – na linguagem , na aut
o-consciência e no cuidado, essa com unidade é hum ana.
Tom ando as noções acim a com o bases, com o ent ender ent ão o
sent ido da j unção das expr essões — t ecnologia, infor m ação e
com unicação? Ent ende- se: or denação par t ilhada do significado. A
t ecnologia de infor m ação e com unicação, na sua essência, é a
or denação par t ilhada de significados. Est a or denação é um a
padr onização, um a globalização, que se dir ige ao ent endim ent o
hum ano, indo assim dir ect a ao m undo em que cada um de nós vive.
Em t er m os essenciais, ist o é, confor m e à for m a com o aquele
fenóm eno t om a par t e no m undo, as TI C visam subst it uição um
m undo por out r o. Or a é precisam ent e isso que t odos os dias nos
dam os cont a quando dizem os “ est e t elefone, est e j ogo, est e
com put ador … é de out r o m undo” . Um m undo, ist o é, não apenas
inst r um ent os, m as t am bém , e por vent ur a, m ais fundam ent alm ent e,
um a r evelação, um hor izont e infinit o de significado. Or a o que ist o
quer dizer , e volt ando ao inicio dest e ar t igo, é que o que em t er m os
fundam ent ais deve de ser alinhado é a est r at égia com a t ecnologia e
super ior alinham ent o da t ecnologia com um a est r at égia concebida
par a out r o m undo que não aquele em que agor a se est á im er so – um
m undo em que a pr ópr ia t ecnologia, as suas possibilidades e
pot encialidades, se const it ui com o cont ex t o, bem no sent ido em que
Baudr illar d t eor ia o sim ulacr o da hiper r ealidade.
O car áct er vir t ual da nova r ealidade, a cham ada r ealidade
vir t ual, é no ent ant o um a subt ileza. A r ealidade sem pr e foi vir t ual,
escr eve Cast ells ( 2000, p. 403; t r adução nossa) : “ a r ealidade,
exper im ent ada, foi sem pr e vir t ual por que sem pr e foi per cepcionada
at r avés de sím bolos, enquadr ando a pr át ica em det er m inados
significados, que escapam a um a est r it a definição sem ânt ica.” O r eal
é o seu significado. O que as coisas são é o que elas significam e o
que elas significam é o que cont a na v ida em que cada um de nós
est á im er so. Vir t ual ou real t udo est á suspenso na im ensa e
sur pr eendent e r ede de significados. A per cepção do r eal depende,
com o defendeu McLuhan ( 1994, 1995) , da est r ut ur a da infor m ação,
ist o é, do m odo com o os sent idos hum anos são ut ilizados e
equilibr ados na ut ilização dos diver sos m edia ao longo da hist ór ia. “ O
que é t udo senão o que pensam os de t udo?” , quest ionava Pessoa
( 1980: 55) . O que a m aior ia das aplicações das novas t ecnologias
est á a fazer é a alt er ar a t r adição de agir e ent ender o dia a dia.
A Su bst it u içã o de M u n dos
A t ecnologia indust r ial e a da infor m ação são um a em anação da
visão cient ífica do m undo e t êm as suas or igens no pr oj ect o
I lum inist a, iniciado no século XVI I por Descar t es, Rousseau, Kant ,
Mill, Dar w in, Spencer ent r e out r os. O I lum inism o m anifest ava- se
cont r a a super st ição, o dogm at ism o e a aceit ação ingénua da
t r adição. A obj ect ividade que apr egoava, que her dám os at é ao nosso
nada podendo aceit ar - se que a r azão não pudesse ver ificar pela
exper im ent ação. Dest a for m a, a r azão do hom em t or na- se o t r ibunal
final. Toda a ver dade encont r a a sua validação nas oper ações de
r eflexão da m ent e hum ana. O hom em pode ser senhor do seu
dest ino: est á face a face com a v er dade. O conhecim ent o do m undo –
conhecer com o as coisas acont ecem – habilit a- o a ser livr e e feliz.
Assim , as coisas são ent endidas em função das suas causas e não em
r azão do seu por quê; possivelm ent e, é por isso m esm o que essa
visão t r iunfou – hoj e, par a com pr eender o m undo pr im eir o
cient ificam o- lo, r eduzim o- lo a inst âncias passíveis de ser em capt adas
pelo m ét odo cient ífico. Se a linguagem é o que faz hom em o hom em ,
a ciência e a t ecnologia, com a devida caut elas e m odést ia, t em vindo
a fazer o hom em m oder no aquilo é.
O pr oj ect o t ecnológico de ent endim ent o do m undo – ou o
im pér io de fazer sent ido do m undo pela/ at r av és/ com a t ecnologia –
est á hoj e m ais for t e que nunca. A linha da fr ent e é a invest igação em
novas ciências, os desenvolvim ent os nas t ecnologias de infor m ação e
de com unicação, nas t elecom unicações, a globalização com o
backgr ound de ent endim ent o da r ealidade e, obviam ent e, os Est ados
Unidos da Am ér ica e t odas as ent idade de alcance global – j ur ídicas,
económ icas, cult ur ais, legais ou ilegais. A sua essência é a or denação
e o cont r olo; a eficiência do m undo com o pr ocesso or denável, por
isso, obser vável e escr ut inizável em per m anência pela infor m ação e
pela com unicação, r espect ivam ent e. Est a or denação é r ecebida,
apr eendida e im plem ent ada pela t ecnologia; pela t ecnologia indust r ial
e agor a pela t ecnologia de infor m ação e de com unicação. O obj ect ivo
da t ecnologia, com o aplicação da ciência, é, r efer e Heidegger ( 1977) ,
a or denação cada vez m ais flexível, ext ensiva e eficient e de t odo o
t ipo de m odos de exist ir , ident ificados com o r ecur sos desse m esm o
pr ocesso de or denação. O conceit o de r ecur so im plica em si m esm o a
pr oj ect o t ecnológico cuj os sucessos e desenvolvim ent os aut
o-legit im am a essência da pr ópr ia t ecnologia: um m undo int eir am ent e
or denado, cont r olado, pr evisível e ger ível; m ais, com o r efer im os
nout r o t ext o, um m undo subst it uído ( I lhar co 2002) . Dest a for m a,
t ant o as coisas com o as pessoas, são m edidas peça a peça, são
fr agm ent adas, avaliadas face a obj ect ivos inst r um ent ais, alt er adas,
decom post as, copiadas, m elhor adas e t r ansfor m adas.
A r ecent e r ev olução da t ecnologia – os com put ador es e as
t elecom unicações - assent a j á na aplicação de out r o t ipo de ciência
que não a m at em át ica: a física quânt ica, que r om pe com cânones da
ciência t r adicional. Assim , o que une a ciência new t oniana à ciência
quânt ica é a um t er ceir o dom ínio: o do ent endim ent o t ecnológico da
exist ência. Desse pacot e, com o se pode ver pelas not ícias que vão
sur gindo na im pr ensa m undial, faz t am bém par t e a im or t alidade. O
obj ect ivo final do pr oj ect o t ecnológico é – ou ant es liga- se a – nem
m ais nem m enos do que a subst it uição da r ealidade r eal por um a
out r a r ealidade, t am bém ela r eal m as dest a vez cr iada pelo hom em .
Nest e pont o t ocam os o “ out r o m undo” acim a r efer ido. A globalização
pode ser pr ecisam ent e a pr im eir a consequência de peso de algo
nascent e no dom ínio da nova t ecnologia. Algur es, na evolução da
t ecnologia indust r ial e das TI C, poder á ex ist ir um a m et am or fose na
essência t ecnológica; algo que se r evela, por que escondido, ou algo
que pur a e sim plesm ent e nasce de novo. Se a essência da t ecnologia
indust r ial er a a or dem , o cont r olo e a pr evisão, a essência da nova
t ecnologia poder á est ar j á algo além . A nova t ecnologia poder á ser j á
ent endida em plenit ude não no conceit o de ordem m as no de
dom ínio, não do conceit o de cont r olo m as no de subst it uição. A
evolução da essência t ecnológica visa t or nar o m undo disponível par a
a m odelação dos hom ens. Assim , som os confr ont ados com um
per cur so t ecnológico linear , do I lum inism o à globalização, o que nos
por vent ur a do pr ópr io I lum inism o, não t er á sido sem pr e a de
subst it uir a r ealidade ( I lhar co 2002) . Tr ocar um m undo em que o
hom em é o segundo, segundo a chegar e segundo a det er m inar as
condições, por um m undo em que esse m esm o m undo vem depois,
por que é o hom em que o cr ia. A globalização isola esse m esm o
m undo: definindo- o, delim it ando- o, colocando o m undo no espaço,
par a ser analisado, m odelado, obser vado pelo hom em , ist o é, pela
dist ância da r azão hum ana. Nest e enquadr am ent o, o hom em
coloca-se fora do m undo, com o que om nipr ecoloca-sent e no espaço e no t em po,
for a da hist ór ia – onde Baudr illar d ( 1998) apont a r esidir a essência
do pr oj ect o am er icano, ou onde Fukuyam a ( 1992) indica assent ar o
pr esent e/ fut ur o. O m undo é o globo que o hom em vê a par t ir de
nenhum pont o pr efer encial. Assim , a globalização é olhar o m undo a
par t ir do espaço e não da nossa r ua. Nos m ercados, na polít ica, na
t ecnologia, essa é a for m a de hoj e fazer sent ido do m undo. Bast a
olhar m os a im pr ensa nacional e int er nacional e const at ar que a
fot ogr afia t ípica da época é o globo no espaço. Mas t ir ando m eia
dúzia de ast r onaut as nunca ninguém viu nat ur alm ent e,
at ecnologicam ent e, essa im agem . Tr at a- se de um a im agem
essencialm ent e t ecnológica, t ípica e fundadora da nossa época.
Tr at a- se da im agem da for m a de hoj e fazer sent ido da exist ência. A
globalização, por isso, não é um fenóm eno dos m er cados, da
econom ia, da polít ica ou m esm o da cult ur a, ant es é o aspect o, a
per spect iva, a r evelação que m ar ca a pr esent e época. Um a época em
que o hom em se lançou decisivam ent e à conquist a das condições de
vida no m undo. Com o pr oj ect o t ecnológico, essencialm ent e, o
hom em quer t r ocar um m undo em que im per a o acaso por um m undo
em que im per a a or dem , bem na linha do que Har dt e Negr i ( 2000)
r efer em .
Est a nova r ealidade visa no lim it e subst it uir a r ealidade que é
que a subst it uição do m undo, com o m undo que é hoj e – ou m ais
r igor osam ent e que foi, ont em – por um m undo em que o hom em
const r ói e r econst r ói a sua pr ópr ia hum anidade. Ao m udar a for m a
com o int uit iv a, nat ur al e int im am ent e ent endem os o m undo, é a
própria nat ureza do hom em que est á em causa. Se assim for, se as
TI C são um desafio ont ológico, ent ão nada há de m ais essencial na
nat ur eza hum ana do que o que t em est ado e est á em causa no
avanço das novas t ecnologias. Est e desafio, essência da essência da
t ecnologia, é apont ado por Heidegger ( 1977) com o “ o per igo” – o
per igo – subm et em os nós – de nos t or nar m os, nós hom ens, naquilo
que essencialm ent e não som os.
É est a subst it uição de cont ext o, de m undos, que par ece est ar a
cor r er . Hoj e o convencional é ser ant i- convencional. Todos t em os
algum a coisa a dizer cont r a a t r adição, os cost um es e os pesos
pesados da hist ória. Habit uám o- nos a um novo m undo onde a
hist ór ia do passado r ecent e, nom eadam ent e no que r espeit a a dois
dos seus m ais r elevant es pilar es, a guer r a- fr ia e a polar ização
esquer da- dir eit a, sur ge ult r apassada e est r anham ent e dist ant e. O
que ver t iginosam ent e se er gue é um a t ecnologia que passou a fazer
par t e do que est á sem pr e- e- j á pr esent e, a t om ar o papel que a
nat ur eza sem pr e t em desem penhado no m undo. A t ecnologia com o
ent endim ent o, com o r espost a, é assim t am bém par t e do pr oblem a.
Par t e da solução e par t e do pr oblem a: é a t ecnologia. Por isso a
t ecnologia, em t er m os essenciais, não t em nada de neut r al ou
inst r um ent al. Com o est abelece a pr im eir a lei da t ecnologia segundo
Melvin Kr anzber g, a t ecnologia não é boa nem m á; e t am bém não é
neut r a ( Kr anzber g e Pur sell 1985 e 1993; Kr anzber g 1975) .
A t ecnologia t r anspor t a em si m esm a um a visão do hom em ,
m udando subst ant ivam ent e o m undo e m odelando o significado de
ser hum ano. Nest e quadr o, a t ecnologia cont em por ânea t r az algo de
hoj e est am os a r evela com o um pr oj ect o ont ológico, em que por isso
t udo o que há de m ais essencial no hom em est á em causa. Em 2002
em Lisboa, Sidney Br enner , Nobel da Medicina, disse o seguint e: “ nas
fr ont eir as da ciência e da t ecnologia, nos labor at ór ios da Califór nia, a
vanguar da das vanguar das est á à procur a, clar o, ... da im or t alidade”
( Br enner 2002) . Sur pr eendent em ent e, a condição m or t al dos m or t ais
est á lent a m as quem sabe se decisivam ent e a ser er guida com o
obj ect o da ciência. Já não da m agia ou do cinem a, m as da pr ópr ia
ciência que ent r e nós se assum e e é assum ida com o o m ais sér io do
que há de m ais sério. “ Não est á cient ificam ent e pr ovado que um a
pessoa t enha que m or r er ” , r efer iu o cient ist a por t uguês, r adicado na
Suécia, Ant ónio Lim a- de- Far ia ( Expr esso, “ Única” 2003: 68) no Ver ão
de 2003. A ext ensão da vida, a sobr evivência da consciência, a
pr eser vação do cor po, a et er na j uvent ude, a im or t alidade, t udo faz
par t e do pacot e da m ais que pr ovável pr óxim a gr ande r evolução, o
cr uzam ent o das act uais nanot ecnologia e genét ica com um a nova
ger ação de har dw ar e e de soft w ar e.
A I n t e n cion a lida de Tot a l
Ent ão, quest ionem os m et afor icam ent e: se a nova t ecnologia
fosse um ser vivo, o que ser ia ela? Um m onst r o? Um gigant esco
dr agão? Bailando e t udo t ocando pelo m undo? Não com um a m as
com cinco cabeças? E qual ser ia a sua cabeça m ais visível? A
inst r um ent alidade, obviam ent e. Mas est a inst r um ent alidade é apenas
a expedição inicial de um fenóm eno m ais vast o, o qual que à m edida
que inst ala o seu m undo se vai r evelando nas suas m últ iplas e
sur pr eendent es facet as. Mas se as t ecnologias de infor m ação e
com unicação não são, ou não são apenas, um inst r um ent o – ou sej a
biliões de inst r um ent os – ent ão, quest ionar em os, elas são o quê? Se
nova t ecnologia não é apenas um inst r um ent o, ent ão o que m ais
pode ela ser ? Nest e ar t igo pr opom os m ais quat r o possibilidades além
da inst r um ent alidade: um a infr a- est r ut ur a ( ver , por exem plo, Cibor r a
1998: 305- 327 e Cibor r a 2000; Coom bs 1997) ; um novo sect or da
econom ia ( ver , por exem plo, Chakr avar t hy 1997; Kalakot a e
Robinson 2001) ; um cont ext o; um backgr ound ont ológico de
ent endim ent o hum ano ( sobr e est as duas últ im as noções v er , por
exem plo, Heidegger 1977; Bor gm ann 1984 e 1999; Giddens 1999;
I lhar co 2002) .
Além da inst r um ent alidade, as t r ês pr im eir as dim ensões – um
sect or , um a infr a- est r ut ur a e um cont ext o – podem ser capt adas e
det alhadas no âm bit o de epist em ologias m ais cor r ent es, pr essupondo
ont ologias em inent em ent e car t esianas ou ar ist ot élicas. A quint a
dim ensão, a t ecnologia com o backgr ound, ou sej a com o r et aguar da
de ent endim ent o, de pr essupost os sobr e o ser , só pode ser acedida
no dom ínio da pr ópr ia ont ologia. I st o por que a r et aguar da, com o
r et aguar da, não se colocando por isso com o obj ect o da nossa análise,
é sem pr e e j á um a base, um a fundar da pr ópr ia fundação, que t udo
sem pr e- e- j á condiciona; ela, a r et aguar da, é a apr oxim ação e a
r evelação do que exist e, o que óbvia e int uit iv am ent e t em t udo a v er
com a t ecnologia de infor m ação e com unicação.
A nova t ecnologia com o infr a- est r ut ur a é um conj unt o de
har dw ar e, soft w ar e, r edes, pr át icas, conceit os e t écnicas, j á for m ado
m as t am bém em const ant e desenvolvim ent o e alt er ação. Novos e
velhos sist em as coexist em . Novos com por t am ent os em er gem . Cer t as
pr át icas são im post as e out r as são sim plesm ent e assum idas
t r anspar ent em ent e. As infr a- est r ut ur as não são int eir am ent e
cont r oláveis – m udam e deslizam ( Cibor r a 2000) . São no ent ant o
um a base det er m inant e par a o que se faz ou pode vir a fazer de um a
Com o cont ext o a t ecnologia é fundam ent alm ent e o conj unt o de
padr ões de act ividade de m ilhões e m ilhões de ent idades. Ela
possibilit a, suger e e m odela t endências pesadas. Telegr aficam ent e,
as TI C est ão int im am ent e r elacionadas – de for m as pesadas e
pr ofundas, cuj o espaço dest e t ext o não nos per m it e obviam ent e
desenvolver –, or a com o causa or a com o efeit o, com a globalização,
com as concent r ações em pr esar iais, com as alianças e as r edes, com
a m obilidade, com a em er gência de um novo sect or da econom ia,
com a baixa cont inuada dos pr eços dos pr odut os e dos ser viços, com
o inglês com o língua planet ár ia, com o aum ent o da esper ança de
v ida, com nov os m odelos de t rabalho e de em pr ego, com a
efem inização do t r abalho/ sociedade, et c.
Com o backgr ound a t ecnologia é sobr et udo um a fundação, um
fundar , um desencobr ir , um sur gir , que nos r ev ela o m undo. As
possibilidades da t ecnologia, em t er m os de com unicação no t em po e
no espaço bem com o em t er m os de agr egação da act ividade hum ana
sobr e as suas pot encialidades e dir ecções, não int er fer em apenas na
nat ur eza específica de cada m om ent o, act ividade ou sit uação,
por que, m ais im por t ant e, se const it uír am , elas m esm as, nos
fundam ent os e cr it érios face aos quais as sit uações, os pr oblem as, as
soluções e as acções em er gem enquant o elas m esm as. Por exem plo,
a cor r ida à gest ão do conhecim ent o r esult a do fact o de ( i) a
t ecnologia t er cr iado, alavancado e apoiado o sur gir de um a
sociedade global em que nos m er cados a ofer t a é est r ut ur alm ent e
super ior à pr ocur a; e de ( ii) a t ecnologia se t er colocado onde hoj e
est á e aliás sem pr e est eve: na cr iação de m ais e m ais conhecim ent o.
À pr im eir a vist a, pr ocur a conhecer - se, det alhar e ant ecipar o client e
act ual e pot encial: m ais conhecim ent o sobr e o client e – CRM, dat a
m ining, business int elligence, et c. – por que não há client es que
cheguem par a t odos... No fundo per segue- se um a fór m ula sim ples:
m esm o e a com unicação t am bém ; vej a- se, por exem plo, o m odelo de
t r ansm issão de infor m ação e/ ou da com unicação de dados de
Shannon e Weaver ( 1949) , as t eor ias da com unicação da r edução da
incer t eza ( Ber ger 1987) , a apr oxim ação à or ganização com o sist em a
de infor m ação ( Weick 1979) , a t eoria do agendam ent o ( McCom bs e
Reynolds 2002) . Assim , pode dizer - se, que a t ecnologia t em por
sinónim o o desenvolvim ent o e o progr esso. E o que é o pr ogr esso?
Niet zsche, por int er post o t em a, r espondeu: “ o pr ogr esso é um dia, na
Eur opa, poder m os não m ais t er m edo de nada” Niet zsche ( 1973: 124
nº 201) – e é est e o m undo final, am bicionado, da t ecnologia.
Concluindo, a infor m ação sem pr e foi o am bient e hum ano.
Sendo a sociedade da infor m ação car act er izada pela infor m ação, ela
é o t ipo de sociedade em que aquilo que a m ar ca m ais é
pr ecisam ent e a alt er ação desse am bient e infor m acional, ou sej a, do
r eal, do m undo. Hoj e, a cham ada sociedade da infor m ação, com o
ont em a er a indust r ial ou a agr ícola, est á a pr ior i e decisivam ent e
unida por um a int encionalidade t ot al e fundador a, pr ot agonizada
pelas acções dos hom ens no m undo, no âm bit o da qual sur ge
infor m acionalm ent e com o sur ge t udo que sur ge. Relem br am os
Mer leau- Pont y ( 1962: xviii- xix) :
“[I t is] t hat w hich pr oduces t he nat ur al and ant epredicat ive
unit y of t he w or ld and of our life, being appar ent in our desir es, our
evaluat ions, and in t he landscape w e see ( …) . Whet her w e ar e
concer ned w it h a t hing per ceiv ed, a hist or ical event , or a doct r ine, t o
‘under st and’ is t o t ake in t he t ot al int ent ion - not only w hat t hese
t hings ar e for r epr esent at ion ( t he ‘proper t ies’ of t he t hing per ceived,
t he m ass of ‘hist or ical fact s’, t he ‘ideas’ int r oduced by t he doct r ine) —
but t he unique m ode of ex ist ing expr essed in t he pr oper t ies of t he
pebble, t he glass or t he piece of w ax , in all t he ev ent s of a r ev olut ion,
in all t he t hought s of a philosopher . I t is a m at t er , in t he case of each
law of t he physico- m at hem at ical t ype, discover able by obj ect ive
t hought , but t hat for m ula w hich sum s up som e unique m anner of
behaviour t ow ar ds ot her s, t ow ar ds Nat ur e, t im e and deat h: a cer t ain
w ay of pat t er ning t he w or ld ( …) [ C] hance happenings offset each
ot her , and fact s in t heir m ult iplicit y coalesce and show up a cer t ain
w ay of t aking a st and in r elat ion t o t he hum an sit uat ion, r eveal in fact
an event w hich has it s definit ive out line and about w hich w e can t alk .
( …) We m ust seek an under st anding fr om all t hese angles [ideology,
polit ics, r eligion, econom ics] sim ult aneously, ever yt hing has m eaning,
and w e shall find t his sam e st r uct ur e of being under ly ing all
r elat ionships.”
O que define a nossa época é o fact o de hoj e na pr oj ecção do
fut ur o que as acções dos hom ens assum em , aquilo que cont a, a
difer ença, a inovação, o génio e a acção r evolucionár ia e violent a que
escr eve o cur so da hist ór ia, acont ecer no t er r eno da infor m ação. Est e
fact o não se const it ui apenas em um a novidade m ais, por m ais
im por t ant e que possa ser , m as ant es, por si só, por que a dim ensão
em que o fenóm eno infor m acional é r elevant e é o t er r eno da
com unicação, da linguagem e de t odo o t ipo de acção- com - os- out r os
que define o ser hum ano, ela, a sociedade da infor m ação, é a
t r ansfor m ação da exper iência hum ana no/ do m undo; ist o é, é a
t r ansfor m ação do m undo, “ um novo m undo” , com o int uit iva e
ingenuam ent e ouvim os dizer por t odo o lado. Tr at a- se por isso, com o
hoj e podem os int uir face aos m ilhões e m ilhões de com put ador es, de
t elevisões, de t elefones, aos desenvolvim ent os da globalização, aos
avanços da genét ica, da biot ecnologia e de um cr escent e núm er o das
cham adas novas ciências, de um a or denação infor m acional e
com unicacional do m undo, da r ealidade, de t udo, por que t udo nos
sur ge no âm bit o da t ecnologicização do m undo.
Obviam ent e, est a or denação infor m acional e com unicacional do
hist ór ia e do fut uro. Mas é pr ecisam ent e est e t ipo de alt er ação de
ent endim ent os que t em t erm inado velhas e or iginado novas er as. A
er a da infor m ação colocou no cent r o do seu dest ino o fenóm eno
infor m acional; em cer t a m edida, a nossa er a descobr iu a pr ópr ia
infor m ação. Par afr aseando Ar ist ót eles, no t r at ado Met afísica, a
infor m ação, fenóm eno t ão ant igo com o o ser , m anifest a- se de m uit as
e var iadas for m as. Est r anho é que esse fenóm eno, básico e
det er m inant e, t enha est ado esquecido at é hoj e. Não é exager o
afir m ar - se que em boa m edida a infor m ação est eve esquecida at é
1948, quando Shannon, invest igador nor t e- am er icano nos
labor at ór ios Bell, pr opôs um a m odelo t eór ico sobr e a t r ansm issão de
dados nas linhas t elefónicas, o qual ficou conhecido com o a t eor ia da
infor m ação. Est a t eor ia, ainda hoj e de gr ande influência nas ciências
da infor m ação e da com unicação, em boa par t e um a consequência do
dom ínio que at é ent ão t inham os m odelos m at em át icos das ciências
exact as sobr e as ciências sociais e hum anas, ao isolar o fenóm eno da
infor m ação veio im plicit am ent e suger ir o ent endim ent o da
com unicação com o a t r ansm issão da infor m ação, o que
evident em ent e anula o papel fáct ico, de aj ust am ent o e de fundação
que a com unicação t em na exper iência hum ana – se a infor m ação se
equivale, ou apont a par a o fenóm eno do ser , ent ão pode dizer - se que
a com unicação apont a, ou se equivale ao fenóm eno da vida. Ao
subent ender a com unicação ent r e difer ent es com o a t r ansm issão de
infor m ação, obj ect iva e r elevant e, o ent endim ent o infor m acional
shannoniano est á na base de m uit as das clivagens e conflit os no
m undo cont em por âneo. E est e é t am bém um desafio par a a
sociedade que sendo da infor m ação não é necessar iam ent e um a
sociedade m ais infor m ada.
A sociedade da infor m ação, a nossa, t em com o essência a
t ecnologia, um a t ecnologia que, ao cont r ár io de t oda a t ecnologia que
hom em . Assim , a quest ão de fundo da sociedade da infor m ação é um
desafio ét ico e m or al pr ofundo, por que, em r igor , num a per spect iva
t ant o hist ór ica com o ahist ór ica, o pr oj ect o r enascent ist a, ilum inist a,
shannoniano e m icr osoft iano de colocar o dest ino do Hom em nas
suas pr ópr ias m ãos nunca foi t ão longe com o nos dias de hoj e – e o
m undo em que hoj e nos encont r am os é a pr ova pr ovada de que
Re fe r ê n cia s:
Baudr illar d, Jean ( 1998) Am er ica, Ver so, Londr es e New Yor k
Ber ger , Char les ( 1987) “ Com m unicat ion under Uncer t aint y” , in Rolloff
e Miller , eds. I nt er nat ional Pr ocesses: New Dir ect ions in
Com m unicat ion Resear ch, Sage, New sbur y Par k , Canada, pp.
39- 62
Bor gm ann, Albert ( 1984) Technology and t he Char act er of
Cont em por ar y Life: a Philosophical I nquir y, The Univer sit y of
Chicago Pr ess, Chicago e Londr es
Bor gm ann, Alber t ( 1999) Holding On t o Realit y: The Nat ure of
I nfor m at ion at t he Tur n of t he Millenium , The Univer sit y of
Chicago Pr ess, Chicago e Londr es
Br enner , Sydney ( 2002) confer ência; cit ação t r aduzida pelo aut or a
par t ir da consult a do r egist o sonor o da confer ência, Fundação
Gulbenkian, Lisboa
Cast ells, Manuel ( 2000) The Net w or k Societ y, Blackw el, Londr es
Chakr avar t hy, Bala ( 1997) “ A New St r at egy t o Cope Wit h
Tur bulence” , Sloan Managem ent Review , 1997 Wint er
Cibor r a, Claudio ( 1998) “ Fr om t ool t o Gest ell” , I nfor m at ion
Technology & People, Vol. 11, n.4
Cibor r a, Claudio ( 2000) Fr om Cont rol t o Dr ift , Oxfor d Univer sit y