Un iv e r sida de Fe de r a l do Rio Gr a n de do N or t e
Ce n t r o de Ciê n cia s H u m a n a s Le t r a s e Ar t e s
Pr ogr a m a de Pós- Gr a du a çã o e m Ciê n cia s Socia is
CI ÊN CI A COM O M ON TAGEM ,
M ON TAGEM COM O CI ÊN CI A
Car los Henr ique Lisboa Font es
Ciê n cia com o M on t a ge m ,
M on t a ge m com o Ciê n cia
Disser t ação apr esent ada ao Pr ogr am a de Pós Gr aduação em Ciências Sociais, da Univer sidade Feder al do Rio Gr ande do Nor t e, com o r equisit o par cial à obt enção do t ít ulo de Mest r e em Ciências Sociais, sob a or ient ação da Pr ofessor a Dr a. Mar ia da Conceição de Alm eida.
Un iv e r sida de Fe de r a l do Rio Gr a n de do N or t e
Ce n t r o de Ciê n cia s H u m a n a s Le t r a s e Ar t e s
Pr ogr a m a de Pós- Gr a du a çã o e m Ciê n cia s Socia is
A disser t ação int it ulada “ Ciência com o Mont agem , Mont agem com o ciência” foi subm et ida à banca exam inador a, r ecebendo o conceit o _________.
Banca Exam inador a
Pr ofa. Dr a. Mar ia da Conceição de Alm eida ( UFRN)
Or ient ador a
Pr of. Dr . Alex Galeno ( UFRN)
Exam inador
Pr of. Dr . Edgar d de Assis Car valho ( PUC/ SP)
Exam inador
Pr ofa. Dr a. Josim ey Cost a ( UFRN)
Agr a de cim e n t os
Aos m eus pais pelo apoio incondicional em t odas as m inhas escolhas e devaneios.
A Paula Vanina, m inha am iga e com panheir a de lut a no Gr upo Beir a
A Lenilt on Teixeir a, Luiz Gadelha, Valér ia Oliveir a, Sim ona Talm a e Rogér io Fer r az, por t ant a dedicação e gener osidade ao Tem po da Chuva.
A Ceiça Alm eida que não só or ient a, m as encor aj a, inspir a e faz m ais que cinco pessoas felizes ao seu r edor .
Ao Gr ecom , gr upo de ver dadeir os com panheir os que se dedicam incondicionalm ent e à nobr e t ar efa de m et am or fose social.
A João Mar celino por sua alm a de ar t ist a, seu cor ação e m ãos de m est r e.
Su m á r io
Pa r a a ca ba r com o j u íz o do m é t odo
Quando o j ogo t er m ina; a lem br ança que vir a pr esent e; a necessidade de um m ét odo; quando pegam os um bonde cham ado ciência; e quando o m ét odo é est r at égia e a est r at égia é m ét odo.
A Ciê n cia com o m on t a ge m
De com o Heisenber g e Böhr m ont aram as par t es e o t odo; de com o é necessár io afast ar - se par a ver ; do dilem a da bom ba e da r esponsabilidade do pesquisador ;
A M on t a ge m com o ciê n cia
Do pr eâm bulo; do diár io de bor do; dos im pr ovisos; do pr im eir o t ext o- célula; da decepção; do r ecom eço; das est r at égias de dent r o e de for a; da sit uação de excepcionalidade; do encont r o com out r o saber t eat r al; do encont r o com a m or t e; do t ext o dos pont eir os desencont r ados; da cr iação das cenas; da nova bifur cação ou t om ada de r esponsabilidade; do excesso de pr ogr am a; da super ação do pr ogr am a; do ensaio ger al e do encont r o inevit ável.
Pr opon do e Re com e ça n do
Do r eencont r o com Heisenber g e Mor in; do sent im ent o de per t encim ent o; do r io que não pár a.
I n spir a çõe s
Out r a for m a de dizer as r efer ências bibliogr áficas.
Ex pir a çõe s
Re su m o
A disser t ação nar r a possíveis par alelos ent r e os saber es do t eat r o e da
ciência. A nar r at iva é const r uída a par t ir de um a r eflexão do pr ocesso
de m ont agem do espet áculo t eat r al “ O Tem po da Chuva” do Gr upo
Beir a de Teat r o, em analogia ao pr ocesso de const r ução de um a t eor ia
cient ífica, descr it a por Wer ner Heisenber g em seu livr o “ A Par t e e o
Todo” . Tem com o int er locut or es aut or es/ at or es de vár ias ár eas do
conhecim ent o, com o Edgar Mor in, Wer ner Heisenber g, René Descar t es,
Paul Feyer abend, Paul Car o, Jur em ir Machado da Silva, Mar ia da
Conceição de Alm eida, Renat o Fer r acini, ent r e out r os. Discut e a
hipót ese de que ciência é m ont agem e de que um a m ont agem t eat r al
t am bém pode ser sist em at izada, a exem plo da ciência. A disser t ação
defende, com o suger em as ciências da com plexidade, o m ét odo com o
est r at égia. Cr iado no pr ocesso, esse m ét odo só pode ser ver ificado ao
final, quando os elem ent os de m ont agem das t eor ias da física at ôm ica e
do t eat r o for am int er r elacionados. Quest ionam ent os com o: o lugar do
t eat r o e da ciência na sociedade sobr em oder na e o papel polít ico e ét ico
dos ar t ist as e dos cient ist as est ão na base epist em ológica dest a
nar r at iva que aqui com eçam os, m as que nem de longe est á per t o de
um a conclusão.
Abst r a ct
The t hesis descr ibes par allel possibilit ies bet w een t he know ledge built in
t heat r e and in Science. The nar r at ive is const r uct ed t hr ough a r eflexive
obser vat ion of t he pr ocess of m aking a t hr eat ical play, specifically “ O
Tem po da Chuva” by “ Gr upo Beir a de Teat r o” , in analogy t o t he pr ocess
of m aking a scient ific t heor y, specifically t he one descr ibed by Wer ner
Heisenber g in his book “ Physics and Beyond: encount er s and
conver sat ions” . I t set s a dialog w it h aut hor s/ act or s fr om var ious ar eas
of know ledge, such as Edgar Mor in, Wer ner Heisenber g, René
Descar t es, Paul Feyer abend, Paul Car o, Jur em ir Machado da Silva, Mar ia
da Conceição de Alm eida, Renat o Fer r acini, am ong ot her s. I t discusses
t he hypot hesis t hat Science is t he process of building and t he t heat r ical
pr ocess of building a play can also be syst em at ized, likew ise science.
The t hesis defends, as t he com plexit ies science m ay suggest , a m et hod
as a st r at egy. Developed t hr oughout t he pr ocess, such m et hod could
only be ver ified at t he end, w hen t he elem ent s of t he set t ing of at om ic
physics t heor ies and t heat r e w er e cor r elat ed. Quest ions such as: t he
place of t heat r e and science in our cont em por ar y societ y and t he
polit ical and et hical r ole of art ist s and scient ist s ar e at t he
epist hem ological basis of t his nar r at ive w hich w e have st ar t ed, but it is
not even close t o a conclusion.
Pa r a a ca ba r com o j u íz o do m é t odo
“A ciê n cia é u m a h ist ór ia , n ã o u m pr oble m a lógico.”
Paul K. Feyer abend
“Qu a n do e l j igu e ir o n o pu e de ca n t a r . Qu a n do El h om br e e s pe r e gr in o. Qu a n do de n a da n os sir v e r e z a r . Ca m in a n t e , n o h a y ca m in o, e l ca m in o se h a ce a l a n da r .”
Ant ônio Machado
“O m é t odo é u m a se m e a du r a cu j a colh e it a n u n ca é ce r t a . [ ...] O m é t odo é se m pr e cu lt u r a .”
Quando o j ogo t er m ina
- Henr ique. Est am os indo!
Ouvi a por t a do t eat r o bat er , abafando as vozes dos m eus
ex-com panheir os de palco que saiam às gar galhadas, ex-com em or ando m ais
um a apr esent ação bem - sucedida naquela noit e de dom ingo. Eu,
at ulhado de elem ent os de cena e figur inos, que se m ist ur avam às
m inhas vest es cot idianas, t ent ava, em vão, m e or ganizar par a não ser ,
de novo, o últ im o - aquele que fecha o t eat r o e coloca o alar m e. Tar de
dem ais. A por t a bat ida anunciava o m eu fr acasso. Relaxei. Lar guei
m eus obj et os r eais e fict ícios em cim a de um a cadeir a e sent ei- m e no
t ablado.
Se fum asse, acender ia um cigar r o naquele inst ant e. Mas, com o
at r avessei a fase or al r elat ivam ent e bem , dei cham as ao pensam ent o.
Mir ando a plat éia vazia, com ecei a r eflet ir sobr e aquela noit e de
espet áculo, ouvindo na m em ór ia as r isadas do público e vendo a car a
de sat isfação em cada novo m aneir ism o engendr ado por nós, far sant es.
Volt ei no t em po, lem br ei- m e das noit es ant er ior es e das peças
ant er ior es. Refiz m eu per cur so ao longo dos 18 anos de car r eir a que eu
ent ão guar dava. Par eciam ser incont áveis os m om ent os que eu
r em em or ava; os pr ocessos de m ont agem vividos e as aflições de
est r éia e de t em por adas com pouco público, e pouco ou nenhum
dinheir o.
Com ecei a m e fixar nas im agens de ensaios, de longas evoluções
de descober t a dos per sonagens: as for m as de andar , de falar , as
m elhor es int enções de fala, as adapt ações de t ext os secular es, as
cr iações de novos t ext os; t odo o t r abalho de hor as dedicadas à
r ecr iação do hum ano, r epet indo à exaust ão palavr as, cenas e sit uações
que ganhavam vida at r avés de um a gest ação com pulsiva. Revivi os dias
novo os ar r ependim ent os de escolhas m al- feit as e com pr om issos
adiados; ouvi out r a vez as cobr anças de fam iliar es, e de out r os am or es,
pela m inha falt a de t em po et er na, pela m inha dedicação obsessiva ao
t eat r o.
- O que é que você ganha com isso, m enino? Dinheir o e pr est ígio
que não é.
Par ecia que eu ouvia m ais um a vez o discur so, t ant as vezes
r epet ido por quem desej ava m inha com panhia e j á cansar a de m e
esper ar par a cum pr ir hor ár ios. A per gunt a par ecia se m ult iplicar no eco
daquele t eat r o vazio: O que os hom ens de t eat r o t êm ganho com isso?
Pr a que ser ve m esm o o t eat r o? Que lugar ele ocupa hoj e nest a
sociedade t ão pr eocupada com consum o- lucr o- consum o? O que o t eat r o
t em m esm o par a cont r ibuir nos dias de hoj e?
O eco das per gunt as na m inha m ent e não pr oduziam r espost as,
por isso com ecei a dizê- las em voz alt a pelo t eat r o... Tudo o que
consegui foi fazer com que um m or cego m udasse de lugar , voando
r asant e sobr e m inha cabeça, for çando- m e a deit ar no palco. Nesse
m ovim ent o, lem br ei- m e das m inhas aulas de pr epar ação de at or e, logo
em seguida, de m eus est udos sobr e a hist ór ia do t eat r o. Fechei os olhos
e, evocando o espír it o dos pr im eir os at or es, m er gulhei na hist ór ia...
Há m uit os anos - par ecia que eu ouvia m inha pr ofessor a de
hist ór ia da ar t e falando - os hom ens ocupam - se de r epr esent ar
sit uações cot idianas ou hist ór ias de deuses par a seus am igos e
fam iliar es1. Sem pr e expr essadas de for m as diver sas, essas
r econst r uções alegór icas da r ealidade fizer am , ao longo dos t em pos,
at r avés do uso da palavr a, do gest o, da m úsica e de cenár ios, um duplo
da r ealidade que m ediat iza o espaço, a hist ór ia e a cult ur a. O t eat r o,
com o out r as for m as de ar t e...
“ ...at r avés de sua car act er íst ica de duplicar a r ealidade, ofer ece um a vir t ude capit al em nossa civilização separ ada da r eligião e da m agia: não deixa apenas ver as belezas da exist ência, não som ent e cr ia belezas, ou sej a, alegr ia, m as aj uda a supor t ar a car ga insupor t ável da r ealidade e a enfr ent ar a cr ueldade do m undo.”2
Em t odo o m undo, difer ent es t r adições m ant êm suas ar t es
t eat r ais, apesar de exist ir em sociedades onde, dizem , não há t eat r o,
pelo m enos não com o o concebem os no Ocident e.
Os livr os de hist ór ia da ar t e consider am o t eat r o gr ego com o um
dos fundador es da concepção ocident al de t eat r o, que at r avessou os
séculos at é hoj e. Ele sur giu em fest ej os popular es, com o os dit ir am bos
e os cult os a Dionísio. Mest r es em cont ar hist ór ias, os gr egos deixar am
um legado dr am at úr gico e cênico que ainda hoj e é r efer ência par a
t r abalhos de gr upos t eat r ais, apesar de que a ar t e do at or gr ego er a
bem lim it ada e, segundo Ênio Car valho, “ consist ir ia de um a m aneir a
t ipicam ent e r eligiosa de r epr esent ar . Ent r e out r as coisas, a m áscar a e a
pesada vest im ent a im pedir iam qualquer elabor ação m ais individualizada
[ ...] , o at or gr ego er a um a voz e um a pr esença” .3
Já os at or es r om anos, dur ant e as At elanas4, apesar de t am bém
ut ilizar em m áscar as, im pr ovisavam diálogos cr iados a par t ir das
pr ópr ias r elações sociais da época. As “ per sonagens” at elanas t inham
padr ões fixos de com por t am ent o e im it avam a população local. Par a
Renat o Fer r acini, sur gia aí “ o ger m e do que se t r ansfor m ar ia, m ais
t ar de, na Com m edia Dell´ Ar t e”5.
O t eat r o r om ano, no final do I m pér io, t inha um at or - capat az com o
líder e os out r os m em br os da com panhia er am escr avos. As
r epr esent ações ganhavam significações gr ot escas, t alvez influenciadas
pela t endência popular a j ogos violent os, cor r idas e com pet ições de
ar ena. Os escr avos, caso fossem vaiados em cena, er am cast igados
2 MORIN, 2003. p.148
3 CARVALHO citado por FERRACINI, 2001. p.52
4 Manifestações teatrais surgidas na cidade de Atelas, Roma antiga
.
cor por alm ent e e, m uit as vezes, “ cort avam - se, em cena, os br aços e as
per nas de escr avos par a se conseguir um ‘r ealism o’ vivo” .6 Essa for m a
decadent e do t eat r o de Rom a m ot ivou a I gr ej a Cr ist ã, na I dade Média,
a excom ungar não som ent e at or es, m as suas m ulher es e filhos. A
per seguição da I gr ej a em pur r ou o t eat r o par a a obscur idade e a
clandest inidade.
Abr i os olhos, assust ado com a lem br ança dessa par t e t ão vil da
hist ór ia do t eat r o. Apesar de hor r or izado com a im agem , fiquei ao
m esm o t em po aliviado j á que, m inhas penas por escolher o t eat r o com o
pr ofissão, no século XXI , não acar r et avam r iscos de m or t e t ão
dir et am ent e, ou acar r et ar iam ? Fechei os olhos novam ent e par a dar
seqüência à hist ór ia...
No Renascim ent o, o t eat r o foi colocado de volt a na sociedade pela
m ão da bur guesia, que o t r ancou em salas de espet áculo, m udando
assim o m odo de r epr esent ação dos at or es. Ao longo da hist ór ia, em
t odas essas sociedades, duas car act er íst icas, Pr ovocação e Cr ise,
par ecem t er vir ado sinônim os do t eat r o e com panheir as de sua hist ór ia,
com o bem define Mar got Ber t hold:
“ O Teat r o com o pr ovocador ? O t eat r o em Cr ise? Nenhum a dessas quest ões ou pr oblem as são especificam ent e m oder nas: t odas sur gir am no passado. O t eat r o pulsa de vida e sem pr e foi vulner ável às enfer m idades da vida.”7
Or a condenado pela igr ej a, ora sob o m ando de poder osos
gover nant es, ou at r avessando a m isér ia das sociedades, o t eat r o
sem pr e sofr eu cr ises, m as nunca se ext inguiu por com plet o. Em alguns
per íodos de r ecessão financeir a, ou m esm o na I dade Média, as
r epr esent ações at é ganhar am m ais for ça, sendo m uit as vezes o único
veículo de com unicação ent r e as com unidades, funcionando com o um a
for m a com pensat ór ia par a a r ot ina da vida.
- E essa com pensação, com pensa?
A voz, vinda do cam ar im , m e t r ouxe de volt a do t r anse hist ór ico.
- Quem est á aí?
Per gunt ei incr édulo, pois t odos t inham ido em bor a há pelo m enos
quar ent a m inut os e, além daquele m or cego e eu, acho que nenhum ser
vivo se ar r iscar ia a ficar num t eat r o vazio àquela hor a. A voz, apesar de
m ais gr ave e bem difer ent e da m inha, poder ia t er vindo dos m eus
pensam ent os.
- Alguém aí?
Com o não houve r espost a, acr edit ei na m inha capacidade
im aginat iva e não m e im por t ei. A per gunt a feit a m e er a út il.
Ainda com pensa cont ar hist ór ias, par t ilhar sent idos ou dizer de
m aneir a m ais leve a t r agédia da vida hoj e? A sociedade ainda t em a
m esm a necessidade de t eat r o? Ele ocupa o m esm o lugar ?
O t eat r o, de fat o, vem sofr endo m et am or foses at r avés da cr ise de
público e de subsídios às m ont agens. O público par ece não t er a m esm a
necessidade que ant es de ir às casas de espet áculos. Ter íam os, ent ão,
r egr edido na nossa apt idão par a duplicar a insupor t ável r ealidade? Ou
sim plesm ent e cr iam os subst it uições?
Ser á que a popular ização do cinem a e a cr iação da
t eledr am at ur gia t ir ar am o público das gr andes salas de espet áculos? A
diver sidade de opções de ent r et enim ent o vir t ual e r eal haver ia
dissipado o público, sem pr e ávido por novidade?
Um t r aço de r espost a m e per t urbou a consciência e r eflet i: o
t eat r o per deu algum as de suas ant igas funções, ent r e elas a de ser
fundam ent alm ent e o lugar do encont r o social, da diver são em com um e
de r ecr iar o r eal com o fiel espelho de fenôm enos do convívio social.8
O papel de vanguar da do t eat r o par ece t am bém est ar ,
gr adat ivam ent e, per dendo sua for ça. Obr as que t r aziam t r agédias
hum anas cont em por âneas, vest idas de um a linguagem que se
pr opusesse a “ chocar ” os espect ador es e levá- los às lágr im as, não
conseguem pr oduzir m ais os m esm os efeit os e nas m esm as pr opor ções
que o cinem a, por exem plo, pr oduz.
Ent ão, qual ser ia a função do t eat r o que ainda se m ant ém ? O que
pensar do t eat r o que faço? Eu e m eus com panheir os de gr upo
conseguim os ofer ecer o que de m elhor pr oduzim os em m eses, às vezes
anos de pr ocesso, par a o público que consegue chegar na sala de
espet áculos?
Lem br ei- m e de um a aula do pr ofessor Mar cos Bulhões Mar t ins na
UFRN na qual, r efer indo- se a Pet er Br ook e a Ant onin Ar t aud, ele falava
que o t eat r o que o int er essava er a aquele que pr ocur ava ocupar o vazio
do espaço com o r um or inquiet ant e da vida. O pr ofessor acr edit ava em
um t eat r o que par t ia da poét ica do espaço, com o quer ia Bachelar d, e
encar ava o público de fr ent e. Com m uit a em polgação, Bulhões cont ou
sua exper iência com um gr upo de alunos na USP em 2004, const r uindo
t odo o t ext o a par t ir do encont r o com os espaços e a poesia que dest es
exalava.
A lem br ança dessa inspir ador a exper iência m e deu um cer t o alívio
per ant e m inhas quest ões e à angúst ia de lem br ar de vár ios espet áculos
de t eat r o que vi, ainda buscando dar for m a, at r avés de um a est ét ica do
belo, a um a car icat ur a de r ealidade segr egador a. Tais apr esent ações
er am “ int er pr et ação”9, no pior sent ido da palavr a que, ao invés de
colabor ar par a um a r econciliação de pensam ent o dos hom ens e
m ulher es, os deixam isolados em suas cadeir as dist ant es de si e dos
out r os.
A lem br ança que vir a pr esent e
Ainda de olhos fechados, com ecei a sent ir o calor de um a luz
sobr e m im , que pr ovavelm ent e advinha dos m eus pensam ent os que
quer iam t r azer r espost as par a as m inhas incer t ezas e, por isso, m e
esquent avam a face, com o que de ver gonha ou r aiva. Que t eat r o fazer ?
Per di o cont r ole e falei em voz alt a:
- Se hoj e eu fosse com eçar um a nova m ont agem , par t ir ia de um a
sala vazia par a com eçar a ger ar um t eat r o que sej a...
- “ ...um m ovim ent o do espír it o que vai do vazio par a as for m as, e
das for m as volt a a ent r ar no vazio”10.
Ar r egalei os olhos e per cebi que havia m esm o um a luz sobr e m im .
Com o ela foi ligada, eu não sei. Pela coxia esquer da, um vult o bem
m aior do que um m or cego cor r eu e se escondeu. Quis sent ir m edo, m as
pensei:
- Quem quer que est ej a aqui, e consegue com plet ar m eus
pensam ent os em voz alt a, ou não é desse m undo, ou decidiu
com par t ilhar com igo a cena.
Desej ei m ais luz e t odos os r eflet or es se acender am . Da cabine de
ilum inação, alguém acenou pr a m im , indicando que eu cont inuasse. Er a
um a espécie de dir et or das som br as, pr ot egido pelo ofuscam ent o das
luzes, que agor a m e evidenciavam . Fiquei ner voso e t it ubiei. Sent i que
aquela não er a ainda a pr im eir a cena do espet áculo, m as sim o pr ólogo.
Respir ei fundo e pr oj et ei:
- Desej o um t eat r o que favor eça um a aut o- ét ica e um a
sócio-ét ica. Esse ser á o alicer ce da pr óxim a peça que const r uir ei. Par t indo de
um vazio cr iador , invest igar ei cam inhos do cor po e de m inhas
per t ur bações diant e das incom pr eensões e desum anidades do m undo
par a com unicá- las, par t ilhá- las com t odos os envolvidos na m ont agem
dest a peça. O r esult ado não ser á apenas o pr odut o apr esent ado, m as
pr incipalm ent e a m ont agem . Quer o r evelar o que, nesse pr ocesso de
sist em at ização do conhecim ent o, é r ealm ent e t r ansfor m ador ; os
elem ent os que podem cont r ibuir par a um a nova for m a de enxer gar o
t eat r o.
- Assim com o a ciência!
A voz, agor a r ouca e fem inina, sur giu do fundo do palco. Olhei
par a o dir et or das som br as e ele cont inuava im óvel na cabine de luz.
Vir ei- m e lent am ent e e ali est ava um a elegant e m ulher de cabelos e
lábios cor de fogo, de salt os alt os e um a com pr ida cigar r ilha na m ão.
- Conceição Alm eida.
Apr esent ou- se despr et ensiosam ent e, est endendo a m ão e pedindo
par a que eu não m e espant asse, pois, apesar de est ar m os num out r o
plano, num m undo noológico11, ela er a assim com o eu, de car ne, osso e
devaneios. Disse- m e que a angúst ia que eu sent ia em r elação ao t eat r o
não er a pr ivilégio só m eu com o at or , m as de m uit os cient ist as em
r elação à ciência que hoj e é feit a em t odo o m undo.
As at it udes ant i- ét icas; as subm issões aos conceit os, à aut
o-enganação e aos r esult ados fáceis est avam ger ando conseqüências
devast ador as na sociedade. O m om ent o er a, sem dúvida, degener ador .
- Ent ão é isso? Só nos r est a lam ent ar ? – per gunt ei.
Ela sor r iu e aper t ou o que par ecia ser um isqueir o em sua m ão,
pr oj et ando no palco um a im agem hologr am át ica de um velhinho com
car a de bom suj eit o e com um olhar doce e ao m esm o t em po for t e. Ele
falava um fr ancês m acio que, gr aças à legenda, consegui ent ender .
Dizia:
- “ Quant o m ais nos apr oxim am os de um a cat ást r ofe, m ais a m et am or fose é possível. Ent ão a esper ança pode vir do desesper o. Hölder lin dizia: “ Onde cr esce o per igo, cr esce t am bém o que salva” .12
Deixei que as palavr as r essoassem um pouco e m e at r evi a um a
segunda fala, t inha m esm o que concluir o pr ólogo, pois o conflit o pedia
par a ser desvelado. Um foco de luz aver m elhada m e cobr iu e, com m ais
fir m eza, anunciei:
- Mesm o sabendo que a m aior ia das apr esent ações t eat r ais em
Nat al e no Br asil ainda se r endem às degener ações do r iso fácil, do
dinheir o e da aceit ação, gar ant idos at r avés de um a espet acular idade
const r uída sem qualquer at enção à m ont agem , apost o nest e m om ent o,
que o t eat r o, assim com o a ciência, par ece encont r ar - se no pont o ideal
par a a degener ação t ot al ou par a a r egener ação. Par a que t al
m et am or fose acont eça, os at or es ( e t am bém os cient ist as) devem
apr ofundar - se num a r eflexão ét ica ger ador a de um a ação hum anist a,
que não t enha com o obj et ivo apenas o pr odut o em si, m as,
fundam ent alm ent e, o pr ocesso, as t r ansfor m ações do cam inho e a
r esponsabilidade com a sociedade que ir á par t ilhar desse pr odut o/
r esult ado. ( aplausos vindo das som br as e de Ceiça - j á est ávam os
ínt im os.)
- Bom , m uit o bom . Acho que t em os um com eço, m as par a que a
hist ór ia sej a escr it a há que t er um m ét odo. Aliás, com o t udo na vida.
Pense um pouco m ais ant es de escr ever a peça. Eis aqui alguns livr os
que podem aj udar .
Dizendo isso, a pequena e not ável r uiva desapar eceu at r ás da
r ot unda, m e deixando um a pilha de livr os. Da cabine de luz, o dir et or
das som br as m e lançou um a canet a e papéis. Com o ir ia fazer isso?
Com o t r açar par alelos ent r e o t eat r o e a ciência? Por onde cam inhar ?
Talvez alguns daqueles aut or es pudessem m e indicar cam inhos.
- Wer ner Heisenber g, Niels Böhr , Edgar Mor in, Car los New t on
Lim a Jr , Descar t es, Paul Car o...
Todos m e par eciam ao m esm o t em po desconhecidos e fam iliar es.
Sent i, naquele m om ent o, com o se houvesse t r anspost o um a linha t ênue
de invest igar . Gar im par a t er r a dos saber es na busca de sinais de
r espost as às m inhas indagações. Abr i o pr im eir o livr o e, de dent r o, um
pedaço de papel escor r egou com um a fr ase im pr essa nele:
“ A ver dade habit a as pr ofundezas” – Schiller .
Vir ei- o e, no ver so, haviam escr it o à m ão um ver so de Paulo
Lem inski, poet a que adm ir o:
“ Viver é super – difícil. O m ais fundo est á sem pr e na super fície” .13
Aquelas fr ases, apar ent em ent e ant agônicas, par eciam t r aduzir o
que eu pensava sobr e o t eat r o. A peça apr esent ada não r evelava a
dim ensão do t odo que é o t eat r o. Aquilo que o público assist ia er a
apenas um fr ut o suculent o de um a ár vor e que t inha r aízes bem m ais
pr ofundas. Apesar de quê, a r epr esent ação assist ida pelo público t inha
o poder de m exer em pr ofundezas com um a sim ples fr ase dit a.
Da m esm a m aneir a, hipot et isei: quando nos depar am os com as
t eor ias cient íficas, só conseguim os ver o fr ut o, as leis de explicação dos
fenôm enos, um ar gum ent o de int er pr et ação, um a t eor ia par adigm át ica.
A ciência é, assim com o o t eat r o, enxer gada at r avés de um pequeno
fr agm ent o sint et izado que m exe pr ofundezas. Muit os int er pr et am esse
fr agm ent o com o ver dade única ou com o aquilo que aqueles int elect uais
desej avam com unicar ao m undo com o int uit o de m elhor á- lo.
Ent r et ant o, essa for m a de ver é lim it ador a e int er dit a m uit as
vezes a com unicação ent r e esses int elect uais e a sociedade em ger al.
Em sum a, da m esm a m aneir a com o o espect ador que vê a peça não
pode t er a r eal dim ensão do fazer t eat r al, os cient ist as ou int elect uais,
que apenas conhecem o r esult ado t eór ico da ciência, não conseguem
per ceber o que habit a o pr ocesso cient ífico e t odos seus benefícios e
m alefícios.
- Há que haver um m ét odo! - A voz r ouca ecoou novam ent e pela
sala. Debr ucei- m e sobr e os livr os e papéis. Pr ecisava de um m ét odo.
A necessidade de um m ét odo
“ O m ét odo é o leit o de Pr ocust o, e a t ese é sua pr esa.”14
“ Esse negócio de m ét odo, ao que par ece, coisa indispensável, é bem m elhor t ê- lo sem palet ó nem gr avat a, e sim um pouco à solt a, desacom panhado de qualquer eloqüência t esa e engom ada, sem chapéu de m assa a esquent ar m ais ainda o j uízo da gent e” .15
“ Though t his be m adness, yet t her e is m et hod in´ t ” *16
Folheei o dicionár io e a palavr a m ét odo encont r ava- se explicada
da seguint e for m a: “ um pr ogr am a que r egula pr eviam ent e um a sér ie de
oper ações que se devem r ealizar , apont ando er r os evit áveis, em vist a
de um r esult ado det er m inado” .17
Com ecei a im aginar agr icult or es, ast r onaut as, pr ofessor es
exer cendo suas pr ofissões das for m as m ais var iadas. Vislum br ei os
m ét odos em pr egados par a o desenvolvim ent o m at er ial e im at er ial das
m ais diver sas ár eas. As for m as sist em át icas cr iadas pelos
pesquisador es par a o m elhor apr oveit am ent o de espaço, r endim ent o de
t r abalho e sobr evivência às int em pér ies.
A lut a const ant e desses pesquisador es t em o int uit o de evit ar o
er r o. O m ét odo, par a m uit os, funcionar ia com o um a ar m adur a que nos
pr ot ege quando nossas per cepções e sensibilidades quer em nos
enganar .
Com ecei a m e lem br ar de Descar t es e dos que o haviam
int er pr et ado. Par a Descar t es:
“ O er r o é pr ovenient e de j uízos feit os a par t ir de dados da exper iência sensível e a posse da ver dade só é possível m ediant e o uso dos at os da int eligência, a saber a int uição e dedução”18
14 LIMA JÚNIOR, 2001. p.32 15 ASSIS, 1997. p.83
16 *“Mesmo que isso seja loucura, há método nisso.” SHAKESPEARE, 1998. p. 347 17 HOLANDA FERREIA, 1988. p. 431.
Est ava clar o que, par a ele, o m ét odo ser ia a cour aça cont r a a
subj et ividade, cont r a o suj eit o, cont r a a singular idade. Não im por t ando,
a m aior par t e das vezes, que peculiar idades er am expr essas pelos
suj eit os- obj et os, um a vez que não houvesse t endência par a r esult ados
er r ôneos.
Par ecia que, da m esm a for m a com o par a Polonius, obser vando a
loucur a de Ham let , m esm o que as ações fossem desat inadas elas não
per der iam valor se nelas houvesse m ét odo.
As ciências m oder nas r efor çar am esse valor e dem ar car am o
m ét odo t alvez com o a gr ande dist inção ent r e as pesquisas cient íficas e
out r as for m as de sist em at ização do conhecim ent o. O m ét odo é hoj e a
pr er r ogat iva fundam ent al das ciências.
Ent r et ant o, não é apenas a ciência que ut iliza m ét odos. “ Há
m ét odo par a t udo na vida.” A fr ase de Ceiça Alm eida com eçava a fazer
sent ido par a m im , quando com ecei a im aginar t odas as ações que eu
r ealizava no dia- a- dia. Se eu t om ava banho, ut ilizava dos m ét odos e
ut ensílios m ais eficazes par a não desper diçar água, nem t em po.
Cozinhando t am bém . Par a com er , seguia um r it ual que m e foi ensinado
m et odicam ent e com t alher es e pr at os. At é nam or ando eu com ecei a
enxer gar m ét odo; com o fazer ; os m om ent os que devem ser
r espeit ados; as et apas envolvidas.
Ent r et ant o, par a cada m om ent o da m inha vida os m ét odos iam
sendo m udados. Quando hoj e const r uo a vida de per sonagens a ser em
r epr esent ados num a peça, uso m ét odos que fui desenvolvendo e que
são bem difer ent es de quando com ecei a at uar . Talvez devesse ser
assim t am bém na ciência, os m ét odos dever iam var iar confor m e o
avanço das ciências.
Após essa r ápida r eflexão, confir m ei que a palavr a m ét odo, dessa
for m a com o im aginei, est á definit ivam ent e ligada à m inha vida. Não
consigo m e ver desem penhando qualquer at ividade sem , m inim am ent e
passos a ser em dados. Mas ser ia isso m esm o um m ét odo com o se
ut ilizam os cient ist as?
Com o confir m ar a exist ência desse or ganism o vivo enquant o
m ét odo?
- Pense!
A voz com sot aque fr ancês, sussur r ando no m eu ouvido, m e fez
pular e m e vir ar em posição de com bat e, pr ont o par a r eceber o pr im eir o
golpe daquele senhor cabeludo, com bigode fininho e ar de boa gent e
que do nada apar eceu at r ás de m im .
- Calm a. Você m esm o m e convidou par a a cena e agor a se ar m a
par a m e com bat er . – disse, sor r indo.
Olhei- o cuidadosam ent e e o r econheci na capa do livr o que
acabar a de abr ir .
- René Descar t es. Em m at ér ia, m esm o que só cont em plat iva. –
apr esent ou- se.
Sabia de sua fam a e de t oda a celeum a que sua t eor ia havia
cr iado m undo afor a. A dist inção ent r e cor po e alm a, o pr im ado da r azão
e o despr ezo ao sensível, a busca da ver dade m at em át ica acim a de
qualquer coisa.
- Pode par ar . – m anifest ou- se – Sei que m uit o do que você est á
pensando é apar ent em ent e confir m ado nos m eus livr os, nas m inhas
car t as e palest r as, m as sem pr e deixei clar o que
“ não t ive o pr opósit o de ensinar o m ét odo que cada um deve seguir par a bem conduzir sua r azão, m as som ent e m ost r ar de que m odo pr ocur ei conduzir a m inha. Aqueles que se m et em a dar pr eceit os devem achar - se m ais hábeis do que aqueles a quem os dão; e, se falham na m enor coisa, são por isso censur áveis”19.
Mesm o assim , pensei, seu t r abalho foi e ainda é m uit o censur ado,
pelos que obser vam a t eor ia pela t eor ia apenas. Ele cont inuou:
- “ Eu t inha sem pr e um im enso desej o de apr ender a dist inguir o ver dadeir o do falso, par a ver clar o em m inhas ações, e cam inhar com segur ança nest a vida ( ...) a diver sidade de nossas opiniões não decor r e de uns ser em m ais r azoáveis que os out r os, m as som ent e de que conduzim os nossos pensam ent os por diver sas vias, e não consider am os as m esm as coisas. Pois não bast a t er o espír it o bom , m as o pr incipal é aplicá- lo bem .”20
Seguiu falando de suas indagações à pr ópr ia obr a e de suas
viagens pelo m undo dos hom ens e dos livr os. Em seguida, calou- se.
Olhou- m e por um segundo e r et ir ou do bolso um papel com as 4 et apas
do m ét odo que ut ilizou par a seus t r ês ensaios int it ulados: Diópt r ica,
Met eor os e Geom et r ia.21 Esse m ét odo se im or t alizou com o o “ m ét odo
car t esiano.” Gent ilm ent e, ele m e cum pr im ent ou e, em silêncio,
desapar eceu pela coxia.
Li o papel, ent endi as et apas bem sim ples e obj et ivas, m as o que
m ais m e im pact ou foi o fat o de que, apesar de Descar t es t er r essalt ado
em sua obr a que aquele m ét odo er a apenas o m ét odo que ele havia
desenvolvido naquela época, com t odos os lim it es do seu t em po e
lugar , com o obj et ivo de avançar em suas invest igações filosóficas,
m esm o assim , t alvez pela fam a que ele j á havia desenvolvido e pela
incapacidade de out r os pensador es poder em t er acom panhado seu
pr ocesso de m ont agem t eór ica, m uit os j ulgar am - no com o um m ut ilador
do pensam ent o sensível. Just o ele, um hom em apar ent em ent e com
t ant a sensibilidade e um ent endim ent o de convívio social pacífico com o
poucos de seu t em po.
Com ecei a ver os out r os aut or es que m e faziam com panhia
at r avés de suas obr as e m e sent i angust iado por r ealm ent e não
conhecê- los, de não poder t er convivido com eles dur ant e a elabor ação
de suas t eor ias. O sent im ent o de im pot ência, ger ado pela cer t eza de
que nunca conseguir ia r ealm ent e m e apr opr iar da ciência desenvolvida
por aqueles gr andes pensador es, m e ent r ist eceu.
Tudo ao que eu podia t er acesso er am os escr it os, os com ent ár ios
e os r esum os biogr áficos. Todos eles, diga- se de passagem , par ciais,
incom plet os ou t r uncados. Mesm o assim , m uit os acadêm icos, “ em
nom e da ciência” , se aut o- denom inam seguidor es legít im os dos que
vier am anos ant es deles.
Enquant o pensava alt o, fui m e deslocando par a o cent r o do palco,
seguido por um a luz vinda de um canhão seguidor acim a. Olhei par a o
dir et or das som br as e ele est ava em pé; par ecia em polgado com o
pensam ent o que, lent am ent e, ia se for m ando em m inha m ent e. A luz
foi aum ent ando e m e veio a necessidade de escr ever . Havia lido m uit o
pouco, m as algum as r eflexões j á quer iam ganhar for m a de t int a e
papel. Nesse fluxo, t alvez t ivesse eu m e cont agiado pela pr opost a de
David Bohn par a quem as idéias, os pensam ent os e as r eflexões devem
vir à t ona quando est ão em per íodo ainda de “ incubação” . Par a Bohn,22
som ent e enquant o as idéias est ão em fase de incubação é que pode
haver o ver dadeir o diálogo. Não r esist i, encar ei a folha em br anco e
com ecei.
Quando pegam os Um Bonde cham ado Ciência
A ciência é aquilo que os cient ist as fazem . A afir m ação, de
apar ent e t aut ologia e ir r elevância, esconde os pr eceit os de um a ciência
que, ao longo dos anos, vem se ancor ando no por t o da ver ificação
evidencial e par adigm át ica.
Est a ciência, que se define pela pr axis de um gr ande núm er o de
sist em at izador es da ver dade, e que r ecor r e ao m ét odo car t esiano de
nunca aceit ar inicialm ent e a ver dade enxer gada; dividir o obj et o em
pequenas et apas a ser em analisadas; seguir a pesquisa passo a passo e
descr ever , par a cada caso, a ver ificação da ver dade est udada, de for m a
segur a e pr ecisa ( as 4 et apas do m ét odo) ; est a ciência, t alvez pela m á
int er pr et ação que fazem de Descar t es, est á condenada à fr agm ent ação,
à especialização e à subm er são conceit ual que não per m it e em er gir à
super fície par a se enxer gar o t odo do qual faz par t e.
“ A ciência não exist e, só há ciências” 23. A afir m ação cont undent e
de Paul Car o quer nos r eafir m ar que cada cient ist a est á apenas
m anipulando um pequeno fr agm ent o da ciência ao desenvolver suas
pesquisas. Muit os nem sequer dão- se ao t r abalho de olhar de lado par a
ver possíveis at os com plem ent ar es de out r os colegas cient ist as, de
ár eas diver sas.
Avança- se m uit o dessa for m a. I st o é o que se faz cr er par a
j ust ificar t ant os desast r es ecológicos e sociais, fr ut os de
desenvolvim ent os t ecno- cient íficos sem qualquer r esponsabilidade ét ica
ou social. De fat o, os últ im os 50 anos for am m ar cados por avanços
t ecnológicos significat ivos, que im pr essionam at é os m ais cét icos. No
ent ant o, se os pesquisador es não olham par a si e um pouquinho par a o
out r o, o quant o desses avanços nos ser ão út eis no fut ur o? “ Não bast a
t er o espír it o bom , m as o pr incipal é aplicá- lo bem ”24. A fala de
Descar t es ser ve com o aler t a. Mas, por onde cam inhar nas ciências?
Segundo o físico Wer ner Heisenber g, na “ ciência é im possível
abr ir novos cam pos se não se est iver dispost o a deixar o ancor adour o
segur o da dout r ina aceit a e enfr ent ar o per igo de um ar r iscado salt o à
fr ent e em dir eção ao vazio” .25 Ou sej a, não se descobr e t er r as fér t eis do
conhecim ent o sem se ar r iscar por lugar es que não se t enha ido ant es. É
pr eciso um pouco de descont r ole, de desconhecim ent o, de r isco, na
t r ilha dessa exper iência de si m esm o, par a poder elabor ar um novo
conceit o.
Com pr eendam os aqui o t er m o “ conceit o” com o quis Gilles
Deleuze, em seu livr o “ O que é a Filosofia” . É fat o que os conceit os são
oper ador es cognit ivos de gr ande im por t ância, m as
“ não são dados pr ont os, eles não pr eexist em : é pr eciso invent ar , cr iar os conceit os, e nisso há t ant a cr iação e invenção quant o na ar t e ou na ciência [ ...] Um conceit o é cheio de um a for ça cr ít ica, polít ica e de liber dade” 26.
Par ei a canet a nesse pont o. O cor ação j á pulsava m ais for t e.
Medo, m uit o m edo, foi o que sent i. Com eçava, apoiado pelos aut or es
que lia, a dizer coisas nas quais acr edit ava e que, com cer t eza, não
er am a única ver dade possível. Com pr eendi ainda m ais Descar t es. À
m edida que o pensam ent o vir a escr it a, ele j á est á suj eit o à
incom pr eensão e à clausur a.
Vir ei- m e de cost as par a a plat éia e m ir ei cada cant o do palco.
Todas as saídas ver dadeir as e falsas; a por t a que dava par a o cam ar im ;
a r ot unda; as var as de m anobr a; enfim , t oda a m ecânica cênica
daquela caixa m ágica que unia t ecnologia e fant asia, r azão e
sensibilidade, cor po e alm a.
Que pont os uniam esses dois lados do conhecim ent o hum ano?
Que avent ur a desconhecida eu t er ia que viver par a encont r ar laços
ent r e o t eat r o e a ciência? Com o dizer da ar t e enquant o um a for m a de
sist em at ização do conhecim ent o, t ão im por t ant e e fér t il quant o a
ciência? Com o, por out r o lado, desfr agm ent ar , desenr aizar , am olecer a
ciência dur a a pont o de ser enxer gada com o um pr ocesso que é
const r uído, desconst r uído e r econst r uído incansavelm ent e?
A per gunt a j á com por t ava m inha r espost a. O pont o de int er cessão
est ava no pr ocesso. A m ont agem era o cam inho a seguir . Assim com o
no t eat r o, apost o que o essencial na ciência não é apenas aquilo que se
apr esent a com o pr odut o, conceit o, r esult ado ver ificável ou r efut ável. O
cient ífico não deve ser só isso. Pr ovavelm ent e, se nos fixar m os apenas
nos r esult ados sim plificados que esses pr odut os da ciência nos
apr esent am , t ender em os a idolat r ar ou odiar os cient ist as que os
cr iar am , com o fazem os com os at or es. Mas se fizer m os o per cur so de
suas m ont agens, poder em os t er um a per cepção m ais pr óxim a do r eal
est udo e das cont r ibuições desses hom ens e m ulher es da ciência.
- Há que haver m ét odo. – A voz da elegant e r uiva r essoou no
t eat r o novam ent e.
Sim . Que haj a um m ét odo. Não necessar iam ent e dividido em
et apas pr é- est abelecidas onde os dados ser ão apenas “ colet ados” par a
ser vir de evidência às hipót eses. Sigo nessa expedição sem um
pr ogr am a det er m inado e, evit ando a exclusividade em pír ica, defendo
um m ét odo com o est r at égia.
O dir et or das som br as piscou as luzes, com o se m e aplaudisse
nessa hor a. Lut ei cont r a a vaidade, at é por que não est ava cr iando nada
novo, m as cr escia em m im a vont ade de int er ligar Teat r o e Ciência,
esses dois saber es que, j unt os, er am m inha nova obsessão.
Olhei par a o chão do t ablado e um livr o se dest acava da pilha que
aum ent ava m ist er iosam ent e a cada hor a, er a ele:
“ A Par t e e O t odo – Encont r os e conver sas sobr e física, filosofia,
r eligião e polít ica” , de Wer ner Heisenber g.
Ao lê- lo, per cebi que er a um a fiel r epr esent ação do ar gum ent o de
m ont agem . Deixar ei que o aut or apar eça e conver se com igo. At r avés de
suas palavr as t ent ar ei r eligar o t odo, elencando e sist em at izando
possíveis oper ador es cognit ivos.
De r epent e, a pilha de livr os desm or onou. Na base, seis livr os se
m ant iver am for m ando um bloco sólido. Coloquei- os lado- a- lado e
par ecia que a pr im eir a chave par a abr ir o cam inho da pesquisa havia se
r evelado. Os livr os er am os seis m ét odos de Edgar Mor in, o sim pát ico
velhinho fr ancês que Ceiça Alm eida havia m e apr esent ado
hologr am at icam ent e. Sent ei- m e com os livr os no colo e ali com eçava a
Quando o m ét odo é est r at égia e a est r at égia é m ét odo
“ O nosso m ét odo dedica- se a envolver o fenôm eno ( obser vação) , a r econhecer as suas ener gias ( pr axis) , a pr ovocá- lo nos pont os est r at égicos ( int er venção) , a penet r á- lo pela int im idade individual ( ent r evist a) , a int er r ogar o at o, a palavr a, as coisas.” Edgar Morin, em 1966
“ As m et odologias são guias a pr ior i que pr ogr am am as pesquisas, enquant o que o m ét odo der ivado do nosso per cur so ser á um a aj uda à est r at égia ( a qual com pr eender á ut ilm ent e, segm ent os pr ogr am ados, ist o é, ‘m et odologias’, m as com por t ar á necessar iam ent e descober t a e inovação) ” . Edgar Morin, em 1986
Vint e anos separ am as duas afir m ações de Edgar Mor in acer ca do
que vir ia a ser o m ét odo com plexo. A pr im eir a, feit a em r efer ência aos
t r abalhos de pesquisa com a com una de Plozévet , em 1965, r evelava a
busca de um m ét odo que favor ecesse a em er gência dos dados
concr et os e das diver sas dim ensões das r ealidades hum anas, assim
com o t am bém r econhecesse os t r aços or iginais da dupla nat ur eza,
singular e m icr ocósm ica, do fenôm eno est udado.27
A m ont agem de sua pesquisa, à época, se pr opunha a sair do
pr ogr am a pr é- est abelecido e dar m ais ouvidos e voz às singular idades
dos fenôm enos est udados. Mor in sabia que o pr ogr am a er a insuficient e
e ele pr ecisava, par a desesper o dos j ovens pesquisador es que o
acom panhavam , cr iar seu pr ópr io m ét odo, suj eit o às im per feições do
desenr olar da pesquisa e às bifur cações que os suj eit os- obj et os
envolvidos no pr ocesso det er m inassem .
Essa disposição par a int r oduzir o suj eit o na desconst r ução –
r econst r ução da pesquisa, essa sede pela cr iação, pelo inusit ado,
fir m ou as bases par a a elabor ação do m ét odo com plexo.
A segunda declar ação, de 1986, encont r ada no seu livr o Mét odo
3 – O Conhecim ent o do Conhecim ent o, sint et izando os ar gum ent os do
Mét odo 2, t r az a r eflexão dessa t r aj et ór ia. I nt r oduzindo a est r at égia
com o font e de inovação e de cr ença nos/ dos suj eit os- obj et os
pesquisados e no que o pr ocesso de pesquisa r evela à m edida que vai
sendo m ont ado.
A est r at égia aqui sur ge com o um a pr opost a ar r iscada de guia
par a a pesquisa. Ela nasce am par ada pelo pr incípio da
com plem ent ar idade de Niels Böhr e se cont r apondo ao pr ogr am a pr
é-est abelecido, m as sem negá- lo. Per cebendo, assim , que t ant o o
pr ogr am a quant o a est r at égia se com plem ent am , m esm o que
m ant endo as suas peculiar idades:
“ A est r at égia com por t a, com o o pr ogr am a, o desencadeam ent o de sequências de oper ações coor denadas. Mas, difer ent em ent e do pr ogr am a, baseia-se não só em decisões iniciais de debaseia-sencadeam ent o, m as t am bém em decisões sucessivas, t om adas em função da evolução da sit uação, o que pode pr ovocar m odificações na cadeia, e at é na nat ur eza das oper ações pr evist as. Em out r as palavr as, a est r at égia const r ói- se, descont r ói- se, r econst r ói- se em função dos acont ecim ent os, dos r iscos, dos cont r a- efeit os que per t ur bam a ação iniciada.”28
O m ét odo com o est r at égia é um dos elem ent os- chave par a a
m ont agem de um a obr a cient ífica ou ar t íst ica. Mont agem essa que não
é a m er a j unção de par t es pr é- fabr icadas ou colet adas par a se
assem elhar a um a im agem pr eviam ent e for necida, com o em um j ogo
de quebr a- cabeças. A m ont agem que acr edit o ser ciência é com o um
j ogo de par t es vivas e únicas que, à m edida que se com binam ,
m odificam o t odo que m odifica as par t es. Guiada pela est r at égia, a
ciência encont r a os r esult ados na sua pr ópr ia const r ução.
Clar o que a est r at égia, por não ser fechada e det er m inist a, cor r e
r iscos. Um dos pr incipais é o de se t or nar super ficial, insubst ancial.
Par a o pesquisador , é im por t ant e lem br ar de com o alguns passos do
m ét odo enquant o pr ogr am a devem ser út eis e com plem ent ar es. Não
buscam os r esult ados 100% esper ados quando apost am os num
m ét odo- est r at égia, m as par t im os de oper ações coor denadas e
sist em at izadas, e deixam os livr es as oper ações, à m edida que a
pesquisa avança e os suj eit os- obj et os definem suas ações, r evelando
os cam inhos que levam ao obj et ivo.
Se vam os m ont ar um espet áculo de t eat r o, por exem plo, esse é
o nosso obj et ivo. Ele t em dat a de est r éia pr ogr am ada, pr azos a ser em
cum pr idos e et apas a ser em obedecidas ( escr it a do t ext o, ensaios com
at or es, cr iação de cenár ios e figur inos) , m as a m aneir a com o
elabor ar em os esse espet áculo, que elem ent os do passado, pr esent e e
fut ur o br icolar em os, que dificuldades e facilidades encont r ar em os, isso
só a m ont agem poder á nos m ost r ar . Mesm o que queir am os ant ecipar
r esult ados, não podem os, pois nossos suj eit os- obj et os cr iam e m udam
t odos os dias. As novas dem andas e bar r eir as encont r adas no pr ocesso
são alim ent adas por um a est r at égia dinâm ica, par a que a finalidade de
apr esent ação da peça sej a at ingida.
O m ét odo com o est r at égia com por t a subj et ividades e desvios,
que são absor vidos no cam inhar par a r econst r uir o cam inho. “ Par a se
cr iar o novo só o desvio t or na- se t endência e depois par adigm a”29.
Per cebo que esse m ét odo que bom beia a vida pelas veias da
m ont agem encont r a alguns elem ent os m uit o for t es par a a sua
est r ut ur ação: a necessidade de um a com pr eensão de t odas as par t es
envolvidas; um espír it o de com panher ism o dos m ont ador es e um a
at it ude gener osa fr ent e às m udanças, ser iam t alvez os pr incipais.
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Os físicos Wer ner Heisenber g e Niels Böhr esboçam as
car act er íst icas desses elem ent os nos r elat os do livr o “ A Par t e e O
Todo” . O pr ocesso de vint e anos dedicados às t eor ias que
r evolucionar am a física clássica r evela a r eal dim ensão da ciência
desses cient ist as. A m ont agem descr it a na obr a ofer ece, par a as m ais
diver sas ár eas das ciências, aspect os im por t ant íssim os, com o a
evolução do pensam ent o, o progr esso hum ano e t ecnológico,
desdobr am ent os e r esponsabilidade sociais, ou sej a, aquilo que a
ciência enxer ga com o o que dever ia ser a função que lhe cabe.
Obser var a m ont agem de Heisenber g e Böhr , assim com o de t ant os
out r os cient ist as ét icos ser ia, t alvez, m uit o m ais “ cient ífico” do que
aplicar a fór m ula r esult ant e de suas m ont agens.
De r epent e, dos alt o- falant es do t eat r o, eu ouvi um a gr avação
com a voz da r ouca r uiva:
- “ A const r ução de um m ét odo de pensar que pr ivilegia a
est r at égia em det r im ent o do pr ogr am a per m it e obser var os pat am ar es
difer enciados de cr iação da ciência.”30
Ent endi que esses pat am ar es difer enciados podiam ser ent endidos
com o as diver sas colabor ações às quais a ciência busca ( ou dever ia
buscar ) at ingir . O cár at er m ult idisciplinar e t r a n spa r e n t e que não só
deixa per ceber o sent ido ocult o, m as que t am bém é t r a n s – m ais do
que, além - ; pa r e n t e – da m esm a fam ília. Ou sej a, não se fecha
som ent e par a os que são da m esm a fam ília, os “ iniciados” na ciência.
Assim , ousadam ent e, conclui que um a ciência que se acr edit a ser
m ont agem só pode t er com o for m a de pesquisa o m ét odo com o
est r at égia por que, de out r a m aneir a, as r est r ições do pr ogr am a não
dar iam espaço par a as singular idades do pr ocesso e o cient ist
a-m ont ador , coa-m o ávido desej o de chegar aos núa-m er os, aos r esult ados
da pesquisa, est ar ia desper diçando o pr ópr io obj et o. O que se est ar ia
fazendo, m uit o pr ovavelm ent e, ser ia pr é- pesquisa, com o obser vou
Mor in em 1966, na com unidade de Plozévet :
“ O Cor po das hipót eses não pode ser est abelecido de um a vez par a sem pr e no t er m o de um a pr é- pesquisa, m as deve desenvolver - se e m odificar - se com o desenvolvim ent o da pesquisa, e por sua vez deve poder m odificar o cur so da pesquisa, e at é das t écnicas de invest igação. Tr at a- se de encont r ar o r igor , não na r igidez, m as num a est r at égia de adapt ação per m anent e”31.
A Ciê n cia com o M on t a ge m
“A ciê n cia n ã o é u m bloco liso, u n ido, m on u m e n t a l. Se pa r a o pr ofa n o, pa r e ce t e r u m a fa ch a da de slu m br a n t e de m á r m or e cin t ila n t e , qu e im põe e qu e pr e n de , qu e com a n da o r e spe it o ou qu e se gr e ga a in j ú r ia , e la é , pa r a os qu e a pr a t ica m , u m a e st r u t u r a fissu r a da fe it a de u m e m pilh a m e n t o de t r on cos de á r v or e s cu j a s ca sca s e spe ssa s im pe de m qu e a se iv a de u m a
pa sse pa r a o ou t r o, por qu e a ciê n cia é u m a cole çã o de e spe cia lida de s in t im a m e n t e liga da s.”
De r epent e, escut ei o céu desabar sobr e o t elhado do t eat r o. A
chuva m e desper t ou do t r anse. Quant o t em po haver ia passado? Por
m inha fom e, no m ínim o um a sem ana. Subi at é o ur dim ent o da caixa
cênica e, pela clar abóia, vi a br eve chuva or valhar desenhando o dia.
Quant as noit es haver iam se passado? Jam ais saber ia, m as olhando o
nascim ent o do sol eu m e sent ia m udado. Pr ecisava exper im ent ar t oda
aquela t eor ia na pr át ica. Desci as escadas cor r endo e, dessa vez
ilum inado pela luz nat ur al que t om ava t odo o t eat r o, com ecei a
im aginar a pr óxim a peça que ali eu r epr esent ar ia. Não par t ir ia de um
t ext o pr é- escolhido, e t am bém não t er ia m uit o cont r ole sobr e o
r esult ado do pr ocesso. As incer t ezas da m ont agem , que nem haviam
com eçado, j á m e ar r epiavam a alm a. Eu acr edit ava nesse cam inho,
m as ser á que conseguir ia chegar em algum lugar ? De r epent e, por
ent r e as cadeir as da plat éia, escondido at r ás de um a fum aça e um
cachim bo, um senhor se pr onunciou:
- “ ...É im possível abr ir novos cam pos se não se est iver dispost o a
deixar o ancor adour o segur o da dout r ina aceit a e enfr ent ar o per igo de
um ar r iscado salt o à fr ent e em dir eção ao vazio”32.
Eu m e lem br ava da fr ase. Er a m esm o Wer ner Heisenber g.
Dem or ei a r econhecê- lo por que a im agem que eu t inha er a de um
j ovem e ousado cient ist a alem ão, e ali se apr esent ava um hom em de
idade. Ent r et ant o, olhando de per t o, seus olhos r evelavam o m esm o
vigor de quem , j unt o de seu pr ofessor e am igo Niels Böhr , fundou um a
nova for m a de enxer gar a física quânt ica e a ciência de um m odo ger al.
Ele aper t ou m inha m ão e per cebeu o livr o “ A Par t e e o Todo”
aber t o no palco. Deu um pequeno sor r iso, r eencaixou o cachim bo ent r e
os dent es e per gunt ou:
- Achou algo de int er essant e nesse diár io?
Ofer eci lhe um a cadeir a e pensei que a sua chegada er a bem
vinda às m inhas inquiet ações. Far ia o que achei ser o m ais ar r iscado:
r econt ar a hist ór ia do seu livr o, sob a per spect iva que se r evelava par a
m im m ais clar a, a da m ont agem . Claro que eu est ava m ais int er essado
em r eavivar par a m im m esm o os ar gum ent os, do que convencer o
pr ópr io aut or da im por t ância de sua obr a. Saquei um sobr et udo feit o de
r et alhos de dent r o da m inha bolsa de figur inos. Aquela ser ia a capa do
per sonagem - nar r ador , a m inha ver são do br incant e- br icoleur . A
sit uação er a sur r eal, m e sent i com o que explicando a vida de Alice e
suas avent ur as at r avés do espelho ao pr ópr io Lew is Car r ol, r espir ei
fundo e com ecei:
Nos idos da década de 1920, dois inquiet os invest igador es
alem ães, Niels Böhr e você, Wer ner Heisenber g, at r avés de um diálogo
const ant e, hipot et isar am que a t eor ia da r elat ividade de Einst ein, a
pr ior i, e a t eor ia das ondas quânt icas de Er w in Schr ödinger , a post er ior i,
não er am as únicas ver dades pr ofundas par a se definir o
com por t am ent o dos át om os, m oléculas e da m at ér ia com o um t odo.
Não apenas pela falt a de afinidade ent r e exper im ent o e t eor ia,
obser vada na t eor ia de Einst ein, m as t am bém pelo r educionism o
m at em át ico pr eciso do m ovim ent o dos elét r ons, suger ido por
Schr ödinger .
O ousado Heisenber g acr edit ava no er r o, na indet er m inação. Um a
apost a ar r iscada, fundam ent ada at r avés de um a t eor ia const r uída em
pr ocesso, usando o m ét odo com o est r at égia e não t endo m edo dos
cont r a- ar gum ent os, nem dos quest ionam ent os da com unidade cient ífica
em Copenhagen, Leipzig ou Cam br idge daquela época.
O velho Heisenber g deu um a bafor ada em seu cachim bo e r iu um
pouco m ais à vont ade. Cont inuei:
A cr ença nessa t eor ia, que m ais t ar de se t r ansfor m ar ia no
“ Pr incípio da I ncer t eza” , er a fundam ent ada, pr incipalm ent e, na
obser vação do m ovim ent o do elét r on que or a se deslocava em for m a de
pr ecisão a posição ou o m om ent um do elét r on dent r o da câm ar a de
nuv em .33
Fiz um a pausa de silêncio pr oposit al e olhei par a o sábio senhor .
Ele m ant inha um a car a sim pát ica, m as par ecia est ar m er gulhado em
suas m em ór ias.
- Est ou m ent indo? Algo não agr ada? – per gunt ei. Ele m ant eve a
expr essão e fez um sinal par a que eu cont inuasse.
As conver sas de Heisenber g e Niels Böhr er am incansáveis. Os
gr andes encont r os que desenvolver am os novos par âm et r os da fisíca
quânt ica acont ecer am nas fér ias desses invet er ados cient ist as, per íodo
em que dever iam descansar de um ano let ivo at r ibulado. Ent r et ant o, a
paixão pela física quânt ica, e o desej o de encont r ar vest ígios concr et os
que sat isfizessem os colegas da m esm a ár ea ( Einst ein, Schr ödinger ,
et c...) , lhes t om avam t odos os sent idos. As fér ias vir avam ver dadeir as
viagens explor at ór ias pelas t eor ias at ôm icas. Não ser ia m esm o as fér ias
o m om ent o ideal par a se fazer um a nova ciência? Com a cabeça
desocupada de bur ocr acias inst it ucionais e dem andas de or ient andos,
os cient ist as podem , nas fér ias, fazer uso da ociosidade com o est ím ulo
aos pensam ent os m ais livr es.
Ger alm ent e, encont r ando- se em cabanas dist ant es da cidade,
onde a nat ur eza, gr ande paixão desses físicos, os acolhia e os inspir ava
ao diálogo, Heisenber g e Böhr “ t rouxer am à luz” suas t eor ias da
Mecânica Quânt ica em um longo pr ocesso de m ont agem ( desconst r ução
– r econst r ução) .
Alguns diálogos, com o os que t iver am com Er w in Schr ödinger a
r espeit o do salt o quânt ico que car act er izava o elét r on, r evelado em um a
das im agens da câm ar a de nuvem , for am infindáveis e inconclusivos.
Schr ödinger que, at r avés da m ecânica ondulat ór ia, explicava
m at em at icam ent e a m ecânica quânt ica, não conseguia adm it ir a
im pr ecisão, a incer t eza.
No ent ant o, a gener osidade e hum ildade de Heisenber g e de Böhr
m ar cavam o pr ocesso de m ont agem de sua t eor ia. Sabiam da
dificuldade de convencim ent o de seus colegas, m as acr edit avam em
suas apost as epist em ológicas.
Saí do t om nar r at ivo e im pr ovisei um a conver sa com Heisenber g.
Não er a exat am ent e um diálogo, por que eu er a o único que falava:
Ser iam a cr ença e a gener osidade elem ent os fundador es dessa
m ont agem ? Ser iam , t alvez, par t e da est r at égia? Par t indo de um a t eor ia
pr é- analisada, e sendo gener osos com os que a confr ont am , aber t os à
aut o- análise e à aut o- cr ít ica,34 os cient ist as par ecem , assim , avançar
em invest igações m ais pr ofundas, não?
Ele per m aneceu m udo, ent r egue aos seus pensam ent os. Não
t it ubeei, segui o m eu r ot eir o.
Ent r et ant o, no pr ocesso de invest igação de Heisenber g e Böhr ,
não apenas os colegas discor davam de suas t eor ias, eles t am bém
diver giam ent r e si nas for m as com o viam a m ecânica quânt ica. Böhr ,
t ent ando adm it ir a exist ência sim ult ânea de par t ículas e ondas, e
Heisenber g par t indo do fat o de que a m ecânica quânt ica j á im punha
um a int er pr et ação física singular de cer t as gr andezas que nela
ocor r iam . Esses desent endim ent os ser iam m ot ivo suficient e, t alvez,
par a um r om pim ent o ideológico- cient ífico de m uit os cient ist as, m as a
gener osidade dos dois físicos os m ant inha j unt os e, um a vez que as
t eor ias er am aplicadas em exper im ent os físicos específicos, eles sem pr e
chegavam às m esm as conclusões.
Com pr ovava- se, assim , o pr incípio de com plem ent ar idade de Niels
Böhr , par a quem “ cer t as visões podem ser em pr incipio diver gent es,
m as, um a vez exper im ent adas, se m ost r am com plem ent ar es”35. A
com pr eensão da com plem ent ar idade er a m ais um elem ent o da
m ont agem . O ent endim ent o de que m uit as vezes dois m odos de ver a
t eor ia são excludent es, m as que ao m esm o t em po com plem ent am um
ao out r o, for t alece o pr ocesso, valor iza cada um dos envolvidos e r evela
com m aior clar eza o fenôm eno.
- “ É som ent e at r avés da j ust aposição que o cont eúdo per cept ivo
de um fenôm eno r evela- se em sua plenit ude”36. – Heisenber g quebr ou
o silêncio, par a m eu sust o e alívio. Em endei:
Essa com plem ent ar idade, const r uída dos at os gener osos dos que
pesquisam , apr ofunda a ver dade pesquisada. Os cient ist as, assim com o
os ar t ist as, devem doar par a m ult iplicar .
Nos olham os e, segur ando o cachim bo com a m ão dir eit a, ele fez
um a pose nobr e. Desat am os a r ir inst ant aneam ent e. Per cebi que
havíam os vir ado cúm plices, ent ão m e em polguei. Puxei um pedaço de
papelão da coxia e fiz a seguint e anot ação:
De com o é necessár io afast ar - se par a ver
Ret om ei a nar r at iva. Aquilo par ecia m esm o um espet áculo.
No pr ocesso de m ont agem e consolidação de suas t eor ias,
Heisenber g e Böhr t iver am a oport unidade de viaj ar pelo m undo
m inist r ando palest r as sobr e a m ecânica quânt ica. A aceit ação de suas
t eor ias por par t e de cer t os acadêm icos nos Est ados Unidos, por
exem plo, im pr essionou Heisenber g. Um deles foi Bar t on, um j ovem
físico exper im ent al de Chicago que o aj udou, at r avés de diálogos ent r e
j ogos de t ênis e passeios de bar co, a for t alecer a apr oxim ação ent r e os
cam pos fechados da física e os que per m aneciam aber t os. A busca par a
t r anspor o pensam ent o par adigm át ico acer ca da física at ôm ica, sem
negar axiom as im por t ant íssim os const ruídos por cient ist as que vier am
ant es deles, m ot ivar am Heisenber g naquelas conver sas.
Heisenber g apost ava na descont inuidade, er guendo e for t alecendo
sua t eor ia sem se pr eocupar excessivam ent e com as int er pr et ações da
época e, sim , com sua est r at égia de se apr oxim ar do obj et o est udado.
- “ Quando se usa a abor dagem pr agm át ica, é fat al que se
consider e o pr ogr esso da ciência com o um pr ocesso cont ínuo e
infindável de adapt ação do pensam ent o aos conhecim ent os
exper im ent ais, sem pr e em expansão. O que im por t a, por t ant o, não é a
int er pr et ação vigent e, m as o m ét odo de adapt ação” .37 – Heisenber g
falou com voz fir m e, com o um ver dadeir o at or que cham a a at enção
pela sua fé cênica. Coloquei- m e em pé, ao lado de sua cadeir a, e fingi
que r epr esent ávam os par a um público im aginár io:
O j ovem Bar t on, que m uit as vezes buscava um a for m a
r educionist a de enxer gar o novo cam po da ciência at ôm ica, aos poucos
foi com pr eendendo a for m a descont inuada de const r ução da t eor ia à
qual se pr opunha Heisenber g. A fam iliar ização com essa for m a
per m it ir ia, lent am ent e, a sua com pr eensão e uso.
Fam iliar izar - se ou adapt ar - se com o m odo de pensar a ciência,
sem r efut ar ou ignor ar , m as sim duvidar par a com pr eender , sur ge com o
m ais um elem ent o da m ont agem . Mesm o que essa com pr eensão
com por t e um a fut ur a ver ificação de er r o, ao nos apr oxim ar m os de um a
t eor ia cient ífica, devem os t ent ar elim inar a cegueir a da r azão que nos
im pele som ent e à nossa ver dade par a, no diálogo com o out r o que
pesquisa, poder m os encont r ar novos cam inhos.
Heisenber g levant ou- se e par ecia, ao m esm o t em po, em polgado e
im pacient e. Lem br ava- m e um colega de gr upo que, ant es de ent r ar em
cena, dava volt as infinit as por t r ás dos bast idor es. Nada falou, par a
evit ar que o r it m o da cena caísse. Cont inuei m inha nar r ação.
Ent r e 1930 e 1932, o cír culo de com panheir os e seguidor es de
Heisenber g e da t eor ia da Mecânica Quânt ica cr escia. Jovens est udiosos
do m undo int eir o for am a Leipzig colabor ar em difer ent es ár eas
exper im ent ais. Um deles, o filósofo Car l Fr iedr ich Von Weizsäcker , com
apenas 18 anos na época, int r oduziu um t oque filosófico aos debat es e
t r ouxe, cer t a vez, par a quest ionar o pr incípio da incer t eza, a discípula
kant iana Gr et e Her m ann.
Her m ann er a defensor a fer vor osa da lei causal de Kant , par a
quem a ciência é obj et iva j ust am ent e por lidar com obj et os at r avés de
exper iências ver ificáveis e que, par a se obj et ivar as obser vações, par t
e-se do pr essupost o de um a r elação unívoca de causa e efeit o.
Esse pr incípio ia de encont r o ao pr incípio da incer t eza de Böhr .
Gr et e Her m ann não o aceit ava, por que acr edit ava que, se os físicos não
conseguiam descobr ir as causas de em issão de um elét r on, er a por que
não haviam pr ocur ado o suficient e. A lei causal da exper iência de Kant
havia se pr ovado univer sal e a física at ôm ica não haver ia de dest r uí- la.
Heisenber g t ent ava explicar que um novo cam po sur gia e que
conceit os, com o obj et o, m om ent o, sim ult aneidade, cr iavam pr oblem as
par a se definir os át om os e seus com ponent es. Tais conceit os não
haver iam de ser negados com o pr essupost o de t oda exper iência, m as
dever iam ser cr it icam ent e avaliados em cada caso.
Per cebendo a insat isfação da filósofa kant iana, o j ovem Car l
Fr iedr ich, num cer t o pont o da ar gum ent ação, afir m ou que, com o
desenvolvim ent o hist ór ico das ciências, cer t as leis per der am a
im por t ância cent r al que t inham or iginalm ent e. A análise kant iana do
ent endim ent o hum ano expr essa um conhecim ent o ver dadeir o, m as esse
“ a pr ior i” kant iano pode se t or nar par t e de um a análise m uit o m ais
am pla do pr ocesso do conhecim ent o.
- Eu m e lem br o – int er r om peu Heisenber g - Car l Fr iedr ich